vultos da literatura
Jerônimo Teixeira Mar 2026 18h51
25 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
“Guimarães Rosa”, responde Donaldo Schüler, de pronto, ao ser perguntado sobre como concebe a figura de Homero, o semilendário criador das epopeias fundadoras da literatura ocidental. Como Rosa, médico e diplomata que se embrenhou nos sertões mineiros para ouvir histórias de vaqueiros, Homero pode ter sido um artista que consolidou contos populares esparsos em uma obra artisticamente coesa. Entre o elusivo poeta grego a quem são atribuídos a Ilíada e a Odisseia e o escritor mineiro de Sagarana e Grande sertão: veredas, estendem-se 28 séculos. Professor cuja formação central se deu em letras clássicas, Schüler gosta de se arriscar nesses saltos vertiginosos, relacionando pensadores, escritores, ideias de épocas e lugares diversos.
Aos 93 anos, Schüler, catarinense cuja carreira acadêmica desenrolou-se sobretudo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), professa sua fé na vitalidade das obras a que vem dedicando sua vida, sem perder o pulso da contemporaneidade. Essa inquietude produziu uma fecunda obra ensaística cujos temas abarcam da democracia grega à poesia popular gaúcha, da filosofia de Heráclito à obra de Carlos Drummond de Andrade. Também escreveu ficção e poesia, quase sempre em diálogo com seus temas de estudo. Para ficar em dois exemplos: Martim Fera (editora Movimento), poema de 1984 inspirado em Martín Fierro, clássico argentino de José Hernández, explora seu interesse pela literatura popular; e Faustino (Mercado Aberto), ficção breve de 1987, é uma versão do mito de Fausto ambientada em Florianópolis.
Seu conhecimento amplo da história da literatura e seu domínio de línguas modernas e antigas foram empregados também na tradução, talvez a área em que Schüler alcançou suas realizações mais prodigiosas. Traduziu apenas oito livros. Cinco deles são tragédias gregas: Édipo rei (ed. Lamparina), Édipo em Colono e Antígona, de Sófocles; Os sete contra Tebas, de Ésquilo; e As fenícias, de Eurípides (todos pela L&PM). Também pela L&PM, verteu para o português O banquete, diálogo de Platão que trata de Eros, e um clássico absoluto – a Odisseia, de Homero, que o tradutor tem como antepassado espiritual de Guimarães Rosa. Todas essas obras foram traduzidas do original grego.
O maior desafio enfrentado por Schüler – uma “pedreira”, diz ele, na qual “em cada linha você encontra pelo menos três problemas” – foi escrito não em grego antigo, mas no inglês moderno, embora incorpore termos e frases de mais de sessenta línguas: Finnegans wake, última e mais radical obra de James Joyce (1882-1941), publicada em 1939. O escritor irlandês trabalhou por dezessete anos nessa obra torrencial, cujo leitor ideal, segundo ele mesmo dizia, deveria sofrer de uma insônia ideal. Há quem diga que é um livro intraduzível.
Schüler acredita que as obras intraduzíveis são aquelas que realmente merecem tradução. E por isso recriou Finnegans wake em língua portuguesa.
Adotou o título Finnicius revém, proposto pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos em Panaroma de Finnegans wake, lançado em 1962 e ampliado na edição de 1981. Os dois poetas traduziram dezesseis fragmentos de uma obra com mais de seiscentas páginas. Schüler fez a primeira versão integral em português.
Carmen Cynira Otero Gonçalves, de 87 anos, esposa de Donaldo Schüler, acompanhou as duas sessões de entrevista que o marido concedeu à piauí. Colocou um caderno sobre a mesa para anotar as frases mais interessantes, prática que segue nos cursos e palestras de Schüler. A conversa teve lugar no apartamento que o polímata catarinense mantém como escritório, no bairro Cristo Redentor, em Porto Alegre. O prédio fica em uma área residencial bem arborizada na Zona Norte. Há um parque próximo, onde Schüler faz suas caminhadas diárias.
Até no exercício cotidiano os mitos gregos se fazem presentes. “O médico manda eu caminhar. Então eu caminho narcisisticamente, para me manter”, pondera Schüler, opondo-se à noção corriqueira do narcisismo como um defeito de caráter. Se não fôssemos narcisistas, argumenta ele, deixaríamos até de escovar os dentes. Schüler é autor de dois livros sobre o mito de Narciso e seu lugar na vida moderna: Narciso errante (Vozes), de 1994, e Narrar Narciso (Duaz Editoras), de 2021, que ele considera uma reelaboração do primeiro.
Schüler e Cynira foram colegas na Faculdade de Letras da UFRGS, nos anos 1950, mas não se envolveram romanticamente então. Depois da formatura, ela foi lecionar francês em Pelotas, sua cidade de origem, e ele seguiu carreira acadêmica na própria UFRGS, como professor de língua e literatura grega – mais tarde, também de literatura brasileira. Reencontraram-se já no século XXI. Ambos viúvos, com filhos adultos – ele tem quatro; ela, três – e netos, casaram-se em 2016. Esse reencontro feliz, diz Cynira, em voz baixa, como quem faz uma oração, é uma dessas “coisas que gente que acredita em Deus sabe”.
Coube a Cynira intermediar os acertos com a piauí, pois seu marido não tem WhatsApp. Nem por isso ele se isola do mundo digital: no ano passado, criou uma conta no Facebook para se exercitar na forma brevíssima que foi cultivada por filósofos pré-socráticos, como Tales de Mileto – cujo pensamento o professor apresenta às crianças no simpático livrinho intitulado Tales é o tal (editora Duaz) – e por autores do Romantismo alemão, como Novalis: o aforismo. Schüler acredita que a brevidade é ideal para a internet, meio em que os leitores “passam os olhos” por milhares de textos sem se demorar em nenhum deles. “No aforismo, você reduz o pensamento ao essencial. Ele tem a virtude de envolver o receptor no mecanismo do pensamento.”
Schüler já não leciona regularmente. Tampouco viaja para conferências e bancas de avaliação, como fazia com frequência sobretudo depois que concluiu seu pós-doutorado na USP, em 1989. “A gente vai reduzindo a atividade em função da idade provecta”, explica ele. (Observo então que ele parece estar muito bem, e a resposta vem com ironia: “Quando as pessoas dizem que você está bem, é porque está mal.”)
Ele ainda ministra cursos em instituições culturais de Porto Alegre. Tem sido um convidado regular do Instituto Ling desde a abertura de seu centro cultural na cidade, em 2014. Maira Ritter, coordenadora pedagógica do instituto, relata que Schüler já conta com “alunos seguidores”. “Quando a gente promove uma atividade com o professor Donaldo, a comunidade já fica atenta, já procura garantir a sua participação, porque é realmente um momento único, muito especial de aprendizado, de convívio, de troca”, diz Ritter, que também foi aluna de Schüler em um curso de pós-graduação da Unisinos, universidade privada em São Leopoldo, município da Região Metropolitana de Porto Alegre.
A aula, segundo Ritter, é basicamente expositiva, mas com momentos reservados para o debate com os alunos. “É admirável todo o repertório cultural e intelectual que ele dispõe e a maneira que vai acionando esse conhecimento adquirido com muita naturalidade”, diz. Schüler, conta ela, mantém os alunos atentos sem maiores recursos audiovisuais – nenhuma projeção de PowerPoint. No ano passado, ele ministrou um curso sobre a melancolia, da Antiguidade à modernidade. A única imagem que apresentou foi a famosa gravura do renascentista Albrecht Dürer que representa alegoricamente a melancolia como uma figura sorumbática, com instrumentos de trabalho depostos a seus pés, sem uso.
Ao longo da entrevista, foi possível observar as qualidades de Schüler como professor. Ele fala de forma pausada, mas jamais monótona, e sabe ser enfático sem levantar a voz. “Muito bem”, costuma dizer de quando em quando, anunciando que as premissas já foram postas sobre a mesa e é chegada a hora de apresentar conclusões. Seus olhos azuis às vezes fixam o interlocutor com intensidade e em seguida se desviam para algum ponto indeterminado no ar, como quem flagra uma ideia platônica em pleno voo. O semblante, em geral sério, compenetrado, descontrai-se quando Schüler fala de como traduziu um trocadilho malicioso de Joyce (em Finnegans wake, horse, cavalo, funde-se com arse, termo chulo para “ânus”, para criar harse, que no Finnicius revém converteu-se em “cuvalo”).
Sua aparência circunspecta pode ser enganosa: ele assume um tom quase inflamado para falar da política contemporânea, especialmente em diatribes contra Donald Trump, “um menino que brinca de presidente da República”. O risco do surgimento de figuras como o atual presidente dos Estados Unidos, diz o professor, já fora previsto por Platão, filósofo que teria sido “antidemocrático a favor da democracia” – acreditava que o sistema só funcionaria se fosse uma “democracia pensante”, comandada por filósofos.
Schüler se entrega a digressões que podem ir do pensamento teológico de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino ao racionalismo de René Descartes e em seguida à psicanálise de Jacques Lacan (que, como todo francês, jamais teria deixado de ser cartesiano), mas nunca deixa a impressão de ter perdido o fio da meada. Ou, para buscar uma imagem dos mitos gregos que lhe são caros, o professor se mantém junto ao fio de Ariadne que conduz de Homero a Guimarães Rosa.
Ninguém sabe quem foi Homero, nem sequer se houve mesmo um poeta com esse nome. Tradições antigas dizem que ele foi um talentoso aedo (cantor de poemas narrativos) que teria composto a Ilíada e a Odisseia, e que era cego – talvez porque os antigos acreditavam que “a memória de um homem era mais extraordinária quando ele se encontrava desprovido de visão”, segundo o historiador francês Pierre Vidal-Naquet em O mundo de Homero.
Em 1972, Schüler lançou, pela Editora da UFRGS, Aspectos estruturais na Ilíada, reeditado em 2004 pela L&PM com o título A construção da Ilíada. Fruto da tese de doutorado e livre-docência defendida pelo autor em 1970 na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (quatro anos depois, obteria os mesmos títulos pela UFRGS, com uma nova tese sobre a Ilíada), a obra defende a unidade do primeiro poema épico de Homero, em oposição a estudiosos que apontavam descontinuidades no andamento da narrativa. “Seja qual for a origem dos poemas, admitimos uma redação final responsável pela unidade”, escreveu Schüler.
Essa posição é reafirmada, com alguns matizes novos, em Literatura grega: irradiações, obra publicada em 2018 pela Ateliê Editorial. “Ninguém põe em dúvida a dívida homérica à tradição oral que recua aos tempos micênicos, com raízes na produção épica de hititas e babilônios”, afirma Schüler, para pouco adiante sugerir que essa tradição épica popular teria sido “competentemente reelaborada” por um autor individual. Nunca se saberá, porém, se foi o mesmo autor que deu forma definitiva aos dois poemas atribuídos a Homero – nem se ele realmente se chamava Homero.
É nesse sentido que Schüler aproxima o misterioso criador da Odisseia, que teria vivido em data indefinida entre os séculos IX e VII a.C., a Guimarães Rosa, autor comprovado de Sagarana e Primeiras estórias, morto em 1967, aos 59 anos. Ambos, de acordo com o tradutor, partiram da tradição popular para criar epopeias. “Eu traduzo também dentro dessa tradição de Guimarães Rosa. Então faço do Guimarães Rosa um cantor como foi Homero.”
Nessa tradição, entram outros autores que buscaram certa brasilidade, como o José de Alencar de Iracema, a virgem indígena que tinha “os cabelos mais negros que a asa da graúna”, e o Mário de Andrade de Macunaíma. Também pertence a essa linhagem o gaúcho Simões Lopes Neto, que em Contos gauchescos recriou a linguagem do gaúcho do campo.
Publicada em 2007 em uma edição bilíngue em três volumes, a Odisseia foi a penúltima tradução de Schüler – três anos depois, viria O banquete. Foi realizada por sugestão do editor Ivan Pinheiro Machado, da L&PM. A relação de Schüler com a editora remonta a 1985, quando a casa lançou um livro infantil seu, O astronauta. Desde então, a L&PM publicou ensaios do escritor, como Heráclito e seu (dis)curso e Origens do discurso democrático, além de suas traduções de tragédias gregas.
Pinheiro Machado pediu uma Odisseia acessível, voltada para o grande público leitor. Schüler abraçou a proposta: “Isso me dá uma certa liberdade diante do texto. Não trato de fazer uma tradução acadêmica.” Quando se faz um trabalho acadêmico, explica, “você se dirige a eruditos- eruditos que vão dar uma opinião sobre a tradução. Esqueço esse tipo de leitor. Então procurei entender a situação e recriá-la dentro do processo da recriação em língua portuguesa”.
Para contraste com sua tradução da Odisseia, Schüler cita o trabalho de Haroldo de Campos (1929-2003), expoente da poesia concreta. “A tradução de Campos da Ilíada é muito boa. Mas, evidentemente, é um outro tipo de tradução. É uma tradução de elite. Ela é exigente, ela exige. Pois é, eu não fujo de exigências, mas dei atenção às criações homéricas. Homero, embora seja um autor popular, tem criações fantásticas.”
Entre essas criações, ele menciona uma qualidade atribuída à deusa Afrodite: ela teria “olhos de cadela”. Está assim no grego original, mas alguns tradutores contornam o termo pejorativo. “Então, em vez de ‘olhos luminosos’ e tal, eu recupero a etimologia grega e traduzo para olhos de cadela. Quer dizer que, se você visse uma deusa com olhos de cadela, devia te dar um choque, não é? Mas a literatura tem esse caráter. Tem um choque, tem que produzir um choque.” Homero também confere atributos caninos à mulher cuja beleza precipitou a Guerra de Troia: em um diálogo com Telêmaco, filho de Odisseu, Helena admite que foram seus “olhos de cadela” que levaram os gregos a entrar em “luta feroz”. No mesmo passo, o português Frederico Lourenço, outro reputado tradutor de Homero, também fez a comparação com a cachorra, mas não falou em olhos: Helena afirma que os aqueus foram à guerra “por causa da cadela que eu sou”.
A referência ao olhar de Afrodite aparece em uma circunstância erótica (mas também patética). Casada com Hefesto, o deus ferreiro – que é coxo –, ela trai o marido com Ares, deus da guerra. Habilidoso, Hefesto monta uma armadilha para o casal: uma pesada malha metálica que os imobiliza na cama, nus.
Para humilhar a mulher e o amante dela, Hefesto convida outros habitantes do Olimpo a visitarem o quarto onde o casal adúltero está aprisionado. Eis suas palavras, na saborosa tradução de Donaldo Schüler:
Vem, Zeus, meu pai! Chama todos [os sempre-
felizes. Entrem, entrem! Quem [convida sou eu.
Querem ver a indecência? É de rir! [Não passo de
aleijado. Afrodite me insulta sempre [que pode. Ama
Ares, sujeito sombrio, malandro de [pernas perfeitas.
Bonitão! E eu? Sou torto desde [criança. Quem são os
culpados? Meus pais. Por que me [puseram no mundo
deste jeito? Que espetáculo! Os dois [abraçadinhos…
Aqui, na minha cama! Fervo de [raiva. Garanto que
essa alegria não vai durar muito. [Eles se querem?
Não esperem que essa vontade de [dormir dure
muito. Escapar dessa armadilha [não me vão! Quero
que o pai dela me devolva o que eu [paguei por essa
sem-vergonha. Reparem nos seus [olhos de cadela!
É moça bonita? Está bem! Mas de [fogo no rabo!
Os coloquialismos brasileiros – “malandro”, “fogo no rabo” – percorrem a tradução. Schüler deseja escapar a uma tradição erudita na tradução de Homero, que teria se distanciado da linguagem de suas epopeias: “Não é uma linguagem erudita, é uma linguagem efetivamente para atrair as multidões.” O aedo, explica o helenista, ocupava um lugar social muito distinto do poeta atual, que faz poesia para letrados. “A Odisseia está muito mais próxima dos cantores nordestinos”, afirma Schüler. “Eu aproveito também recursos dos cantores nordestinos, e os cantores nordestinos estão muito mais próximos da Odisseia do que a erudição.”
Schüler recorda que seus primeiros contatos com Homero se deram pelas traduções do maranhense Manuel Odorico Mendes (1799-1864), nas quais abundam termos como “bracinívea” (de braços brancos). Odorico Mendes tem seus admiradores – Haroldo de Campos entre eles –, mas Schüler não acredita que suas traduções funcionem. O problema não é apenas o pernosticismo: Odorico empregou o decassílabo, verso bem mais curto do que aquele utilizado por Homero, o hexâmetro dactílico, composto de seis pés métricos (cada pé é composto de três ou duas sílabas). Como resultado, se perde informação do original para a tradução. Schüler não empregou um metro fixo na sua Odisseia: procurou estar atento à sonoridade, sem adotar um padrão. “A minha tradução é uma tradução pensada. Pode estar errada, mas, enfim, pensada é”, ele garante.
A tradução passou com honra pelo teste da legibilidade. Integradas à L&PM Pocket, linha de livros de bolso que é o carro-chefe da editora, as três partes da Odisseia – Telemaquia, Regresso e Ítaca – venderam em torno de 200 mil exemplares desde o lançamento. Em 2021, a tradução foi reeditada em um volume único, em formato padrão e sem o texto grego original. As duas edições já se esgotaram, mas a Odisseia traduzida por Schüler ainda pode ser adquirida em livro digital. A editora estuda relançá-la em um volume único de bolso, sem os versos em grego, ainda neste primeiro semestre.
O clássico dos clássicos, quem diria, fez sucesso nos canais de venda alternativos explorados pela L&PM Pocket. Pinheiro Machado considera que vender Homero em uma rodoviária constitui “a glória da coleção de bolso”. “Não é em qualquer rodoviária da Alemanha que tu encontras a Odisseia”, brinca.
Os antepassados do tradutor de Homero, Platão e Joyce chegaram ao Brasil em 1830, com as primeiras levas de imigrantes alemães, incentivadas pela imperatriz Leopoldina, que era austríaca. Donaldo integra a quinta geração de sua família na América do Sul. Os Schüler estabeleceram-se no Rio Grande do Sul (então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul), na região que pouco mais de um século depois abrigaria o município de Dois Irmãos, na Serra Gaúcha.
O futuro escritor veio ao mundo em 1932, a mais de 400 km de Dois Irmãos, na cidade catarinense de Videira, atualmente conhecida como berço do frigorífico Perdigão. “Você encontra hoje alemães em Mato Grosso, no Recife, no Pará, na Amazônia, em toda a parte. É um nomadismo aprendido dos indígenas. É uma aculturação em função disso. Pois bem, eu nasci em Videira por causa disso”, explica Schüler.
Aos 19 anos, logo depois de se casar, Alvim Schüler, seu pai nômade, decidiu tentar a sorte montando uma bodega no meio das matas de araucária de Videira. “Uma bodega era uma espécie de supermercado da época, em que se vendia desde cachaça até tecidos”, define Schüler. Essa casa de comércio atendia sobretudo os caboclos que já viviam na região bem antes da chegada de imigrantes europeus, e isso ocasionou um “choque entre mentalidades que não se entendiam”, segundo o tradutor. “É uma cultura que nós abafamos, destruímos”, lamenta. Schüler acredita que essa população local vivia em um “período pré-capitalista”. “E o imigrante vem e manda ele ser capitalista. Completamente fora da cultura dele. O que significa salário para ele?”, questiona. A bodega que vende cachaça surgia então como uma opção de lazer. Schüler lembra que, nos fins de semana, estouravam brigas no comércio de seu pai. Os fregueses embriagados enfrentavam-se com facões, e às vezes alguém caía morto na calçada. As autoridades policiais, distantes do lugar, demoravam a atender ao chamado.
Irene, a mãe de Schüler, morreu em Videira quando o menino tinha 2 anos. Alvim casou-se pela segunda vez, com 24 anos, e algum tempo depois, a família voltou ao Rio Grande do Sul, estabelecendo-se em Estância Velha, cidade próxima a Dois Irmãos, onde a madrasta do menino tinha parentes. O convívio com os caboclos marcou o garoto que até os 7 anos falava apenas alemão: inspirou seu romance Império caboclo (ed. UFSC/Movimento), de 1994, que tem como tema a Guerra do Contestado, revolta popular de posseiros e pequenos proprietários catarinenses que durou de 1912 a 1916.
O filho literato compara seu pai ao capitão Rodrigo Cambará, indomável personagem de O tempo e o vento, de Erico Verissimo. Por algum tempo, Alvim Schüler trabalhou na padaria dos familiares de sua esposa, mas logo se chateou da rotina e foi fazer uma tropeada. “Em uma tropeada, se comprava os animais aqui e se levava, então, para Santa Catarina. E durante o caminho se faziam negócios”, explica Schüler. No retorno ao Rio Grande do Sul, Alvim contava histórias de tropeiro ao filho, enquanto os dois tomavam chimarrão, de manhã cedo.
Na adolescência, Donaldo Schüler mudou-se para Porto Alegre, para fazer o ensino secundário (atual ensino médio). “Mas, quando eu ia de férias, a minha convivência com o meu pai era essa, de ouvir histórias, de uma literatura oral”, lembra. É claro que ele relaciona essa experiência às fontes orais que desembocaram em Homero. Foi com o pai que tomou contato com o lirismo popular que mais tarde estudaria em A poesia no Rio Grande do Sul (Mercado Aberto) e converteria no tema de sua própria obra ficcional em O tatu (Movimento). Na entrevista, Schüler até recitou uma quadra que aprendeu com o pai:
O tatu subiu a serra
com ganas de beber vinho;
apertaram-lhe a garganta,
vomitou pelo focinho.
Antes de estudar letras, Donaldo Schüler foi seminarista da Igreja Evangélica Luterana do Brasil. No Seminário Concórdia, então localizado em Porto Alegre (hoje, funciona em São Leopoldo), os alunos acordavam às seis da manhã para estudar das 7 horas ao meio-dia. “Nosso currículo de seminário foi quase inteiramente linguístico. A gente estudava grego, hebraico, alemão, inglês, francês, português. Simultaneamente. Eram sete línguas”, recorda. Depois do seminário, chegou a oficiar cultos como pastor e lecionou teologia no Concórdia, em paralelo a suas atividades na UFRGS. Durante a entrevista, ele fez uma única citação aproximada da Bíblia: “Veja o Gênesis: ‘No princípio, criou Deus o céu e a terra. E a terra era sem forma e vazia. O espírito pairava sobre o abismo. Disse Deus: ‘Haja luz’. E houve luz.’ É de uma força poética fantástica. Agora, você substitui isso por uma explosão hipotética que já não existe mais. Explodiu, e veio tudo isso! Prefiro o Gênesis.”
Quando entrou no curso de letras clássicas da UFRGS, em 1955, Schüler já trazia uma excelente formação. Ele recorda que o corpo docente, embora formado meio ao acaso, era muito qualificado. Quem ensinava literatura brasileira era Guilhermino Cesar (1908-93), mineiro que se estabeleceu no Rio Grande do Sul, depois de participar da revista Verde, importante veículo modernista editado em Cataguases entre 1927 e 1929. “Foi o único movimento modernista fora de capitais”, observa Schüler. O professor de grego era Jorge Paleikat, letão radicado no Brasil que chegou a traduzir Homero e Platão para a Editora Globo. Schüler estava se formando quando Paleikat faleceu – e assim o aluno foi convidado a se tornar professor de grego. Em 1962, fez concurso para instrutor de ensino na UFRGS, e vinte anos depois se tornou professor titular. Aposentou-se aos 70 anos, como então era compulsório para funcionários federais.
Schüler lembra a época em que começou a lecionar como um momento de mudanças sísmicas no meio acadêmico. No campo específico das letras, a filologia clássica começava a ser sacudida por novas correntes teóricas, como o estruturalismo. Movimentos literários estavam em ascensão – o Concretismo no Brasil, o Nouveau Roman na França. E a universidade em geral fazia um esforço para expandir suas atividades além do meio acadêmico. “Houve um movimento, por exemplo, de ensinar português nas periferias da cidade, para fazer a universidade útil”, recorda Schüler. “Muito bem, então a tendência foi de inserir a universidade dentro da sociedade. A minha preocupação como professor de literatura grega e de língua grega era: qual é a minha utilidade na sociedade?” Esse impulso de sair dos muros acadêmicos o levou a estudar psicanálise – e, anos depois, a traduzir Finnegans wake.
Porto Alegre tem uma vigorosa cultura psicanalítica, com grupos e instituições de tendências diversas promovendo conferências e atividades culturais. Como o mito grego – a começar por Édipo – é central no pensamento freudiano, Schüler era requisitado para esses eventos: “Os psicanalistas são pessoas muito inquietas, porque, enfim, a demanda do analisante ou analisando vem de áreas culturais muito diferentes. Então eles se interessam por cultura, literatura, cinema. Eu digo que as sociedades psicanalíticas passam a ser centros de estudos humanos.”
Nos anos 1990, Schüler foi convidado a dar cursos em uma associação psicanalítica que levava o nome de Casa de Cultura Guimarães Rosa. Resolveu trabalhar com o seminário 23 de Jacques Lacan, que versava sobre Finnegans wake, de James Joyce, mas esbarrou em uma dificuldade: não havia tradução do romance em português (e mesmo alunos com bom domínio do inglês teriam dificuldades para entendê-lo). O único recurso disponível era Panaroma do Finnegans wake, dos Campos, que oferece um aperitivo da obra original.
Donaldo Schüler encontrou uma solução para o problema: ele mesmo faria a primeira tradução.
Com a disciplina do seminário, muniu-se da vasta literatura crítica sobre Joyce e Finnegans wake e fixou a meta de traduzir uma página por dia – a sua edição em inglês tinha 680 páginas. Trabalhava de manhã, a partir das 5 ou 6 horas. “Eu sou madrugador”, diz. “Então, para mim, as melhores horas são de manhã, as horas de invenção.” A Ateliê Editorial, de São Paulo, foi publicando a tradução à medida que ela ia sendo realizada. Foram cinco volumes bilíngues, entre 1999 e 2003. Depois, foi lançada uma edição em volume único, sem o texto em inglês. Finnicius revém recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte em 2003 e o Prêmio Jabuti de Tradução em 2004.
Plínio Martins Filho, editor da Ateliê, lembra que acertou a publicação de Finnicius revém bebendo cerveja com o tradutor, “naquele calorão do Rio Grande do Sul”. João Alexandre Barbosa, professor de literatura da USP que morreria em 2006, participou desse encontro joyciano. Martins fez tratativas para que Stephen Joyce (1932-2020) comparecesse ao lançamento em Porto Alegre. Desistiu porque o neto de James Joyce fez “exigências absurdas” – no lugar de hotel, por exemplo, desejava ocupar uma casa em Porto Alegre com a esposa e ainda solicitou que ela pudesse fumar na viagem de avião.
Depois da tradução pioneira de Schüler, a obra impossível de Joyce ganhou outra versão brasileira, Finnegans rivolta (Iluminuras), realizada por um coletivo de onze tradutores sob coordenação de Dirce Waltrick do Amarante, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Caetano W. Galindo, que já traduziu Ulisses para a Companhia das Letras, está trabalhando em seu próprio Finnegans wake. A Ateliê deve publicar neste ano um novo livro de Schüler, Peste e festa, ensaio escrito durante a pandemia. Também vai lançar uma tradução coletiva de Ulisses, na qual Schüler foi responsável pelo capítulo 15 (Circe).
Em Ulisses, publicado em 1922, James Joyce transpôs a Odisseia para a Dublin do início do século XX. O leitor pode se perder nas invenções linguísticas joycianas – cada um dos dezoito capítulos tem um estilo diferente –, mas a fama de impenetrabilidade do livro é exagerada. O enredo se desenrola ao longo de um único dia, 16 de junho de 1904, e os personagens são bem delineados. Em Finnegans wake, tudo parece incerto. Schüler explica que o último livro de Joyce é um romance noturno, que aproxima o leitor da vivência do sono. “E, na noite, a experiência é onírica. Aí é a despersonalização total. O sonho mistura tudo com tudo, não é?”
Joyce encontrou o título Finnegans wake em uma canção irlandesa do século XIX sobre um pedreiro, Tim Finnegan, que morre em uma queda, mas que revive depois de derramarem uísque sobre seu corpo durante o velório (wake, em inglês). O episódio figura no primeiro capítulo do livro, mas o operário ressurrecto logo desaparece de cena, substituído pelo taverneiro Humphrey Chimpen Earwicker, que é o verdadeiro protagonista. Ou talvez não: na verdade, o personagem central acaba sendo a linguagem, que o escritor irlandês desmonta e reinventa a cada frase. Mesmo para os leitores mais aguerridos, é um desafio seguir o enredo e individualizar os personagens sob as extravagâncias da música verbal composta por Joyce.
Dificuldades à parte, é contagioso o clima festivo do velório de Finnegan, como se vê neste trecho da tradução de Schüler:
Chopes aos choupos no do Finnado veludo velório, estrelas de tod anação, a prostração na consternação e a duodizimamente profusiva plethora de ululação. Havia à porfia pedreiros, casados, delgados, violeiros, marinheiros, cinemen, de tudo. E todos giravam na mais alto-falante showialidade. Agogue e magogue rodeavam o grogue. Para a continuação da celebração até à de Gengiscão exterminação! Alguns no tam-tam do tamborim, e mais, kankan no pranto. Pra cima no batuque pra baixo no muque. Tá duro, mas soberbo, o Priapo d’Olin da! Se houve cabra alegre no tablado, era o Finnado.
O batuque com tamborim na celebração fúnebre sugere uma inusitada roda de samba irlandesa. Também se fala aqui de uma cidade histórica e carnavalesca de Pernambuco. Algumas páginas adiante, aparece o Corcovado. Topônimos brasileiros atravessam o livro. No capítulo 8, no qual desponta Anna Livia Plurabelle, a principal personagem feminina, duas fofoqueiras lavam roupa no Liffey, rio irlandês – mas um rio brasileiro entra em um trocadilho: “Toc-an-tins, Toc-em-mins.” Finnicius revém incorpora até um elemento local não de Dublin, mas da cidade onde mora o tradutor: só os porto-alegrenses entenderão que “Voluntárias da Pútria” é uma referência à Rua Voluntários da Pátria, ponto de prostituição da capital gaúcha.
Em uma opção ousada, Schüler enredou Brasil e Irlanda em Finnicius revém. “A Irlanda eu só conheço superficialmente, não teria condições de recriá-la”, justifica. “Agora, o que significa a Irlanda para nós? Ela tem sua vida própria.” O tradutor então passou a se orientar por uma pergunta: “O que Joyce faria se tivesse escrito em português?”
A frase inicial do romance condensa bem esse enrosco do maior escritor da Irlanda com o maior país da América do Sul: “rolarriuana e passa por Nossassenhora d’Ohmens, roçando a praia, beirando ABahia, reconduz-nos por commódios recorrentes ao vico de Howth Castle Earredores.”
A palavra “rolarriuana” (riverrun, no original) conjuga a ideia de rio corrente ao nome de Anna Livia – e ainda incorpora uma referência ao órgão sexual masculino que, embora ausente nesse trecho de Finnegans wake, casa bem com a verve obscena de Joyce. O original fala em Adão e Eva. A tradução remete aos elementos feminino e masculino com uma alusão ao catolicismo brasileiro, Nossa Senhora do Ó, fundida a “homens”. E ABahia é ao mesmo tempo o acidente geográfico e o estado brasileiro.
Nora Joyce, mulher do escritor irlandês, afirmou que seu marido dava gargalhadas enquanto trabalhava em seu livro derradeiro. Schüler buscou transpor esse humor para o português. Ele conta que, em leituras públicas da tradução, o público gargalhava em várias passagens. O riso, afinal, não é intraduzível.
Além das distinções colhidas no Brasil, Finnicius revém valeu a Schüler o Prêmio John Jameson – Bloomsday de 2000, por sua contribuição à difusão da cultura irlandesa. O prêmio veio acompanhado de uma garrafa de uísque Jameson. O tradutor só conheceria a Irlanda doze anos depois. Esteve em Dublin no Bloomsday – 16 de junho, dia em que Leopold Bloom, o herói sem glória de Ulisses, percorre a cidade. “Dublin vive em torno de Joyce”, relata Schüler, que ficou impressionado com o sucesso das leituras públicas de Ulisses que eram realizadas em praças e ruas – tudo isso, como é comum na Irlanda, em um dia de chuva e frio. “São centenas de pessoas. Incrível!” Até senhoras com carrinho de bebê acompanhavam os eventos, a despeito da umidade e da temperatura de 12ºC.
Membro de um grupo de leitura coordenado por Schüler, César Azevedo, de 58 anos, foi convidado para acompanhá-lo na viagem a Dublin, na qual Schüler também levou uma neta. Visitaram uma casa – hoje centro cultural – onde Joyce morou e foram filmadas cenas de Os vivos e os mortos, filme de John Huston baseado em um conto do irlandês. Na passagem por Londres, foram a uma montagem de Hamlet no Globe, reconstituição do teatro no qual a companhia de Shakespeare encenava suas peças. Azevedo lembra que, ao fim da tragédia, Schüler, entusiasmado, pulou de seu assento, gritando Who’s there? (Quem vem lá?), primeira frase da peça, pronunciada por Bernardo, sentinela noturna do castelo real da Dinamarca.
Azevedo não vem da área de humanidades: formado em computação, ele hoje trabalha com planejamento estratégico no Grupo Panvel, rede de farmácias gaúcha. Mas tem um interesse apaixonado por literatura e filosofia, temas explorados no grupo – do qual sua mulher, Ivani Nunes, que é contadora, faz parte (também ela esteve em Dublin). Acompanhados de vinho, como no banquete de Platão, os encontros começaram em 2007, com regularidade semanal. De início dedicado à filosofia, o grupo com o tempo se expandiu para a psicanálise e a literatura. Ulisses foi lido e discutido ao longo de dezoito encontros, um para cada capítulo.
Em 2020, a pandemia impossibilitou encontros presenciais. Afastada a peste, o grupo voltou a se reorganizar – atualmente, está trabalhando com Fausto, de Goethe, mas sem a mesma assiduidade.
Azevedo admira a disposição democrática de Schüler, que ouve todas as perguntas e sugestões com generosidade. A tutoria de um grupo de estudos frequentado por pessoas que não se especializaram em literatura e filosofia cabe bem na antiga preocupação do professor: estender o conhecimento para além dos muros universitários.
Também se enquadra no modo como ele concebe o legado da Grécia antiga. “Na verdade, nós todos somos gregos. Temos uma forma de pensar que tradicionalmente se diferencia muito da oriental”, diz Schüler. Como ilustração, ele compara a meditação budista, que busca o silêncio, a uma sessão de psicanálise, na qual a cura está na fala. Na tradição ocidental, uma fala contesta a outra: “As falas criativas se sustentam apesar de todas as contradições contra elas, e se alimentam daquela contradição. Somos uma civilização da contradição, não é?”