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NO CAMINHO DOS MÍSSEIS

As agruras de uma enfermeira palestina em Jericó
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CISJORDÂNIA

A cena ocorreu no começo de março, por volta das oito da noite. A enfermeira Hanan Kharabsha estava na sua casa, em um campo de refugiados na cidade de Jericó, quando ouviu o primeiro estrondo. Alguns mísseis – possivelmente iranianos, interceptados por mísseis israelenses – se chocavam no ar, iluminando o céu da Cisjordânia. Outros caíam direto nas montanhas. “O barulho era terrível, as paredes e as janelas tremiam”, ela conta. Dois sobrinhos seus que moram do outro lado da rua vieram correndo para sua casa, aos prantos. “Eles têm menos de 10 anos de idade e já estavam com medo de morrer.” Desde então, as explosões passaram a ocorrer quase todo dia. Tornaram-se parte da rotina.

Kharabsha mora na Cisjordânia, território palestino que, como a Faixa de Gaza, vive sob ocupação israelense, ainda que não sofra consequências tão letais: desde 2023, cerca de 1 mil habitantes da Cisjordânia foram mortos pelo governo de Benjamin Netanyahu. Nos ataques israelenses a Gaza morreram mais de 70 mil pessoas. Na Cisjordânia, as pessoas têm acesso a comida, água e energia elétrica. Os edifícios seguem de pé, as universidades e os hospitais ainda funcionam. A semelhança maior com Gaza talvez esteja no confinamento. “A minha cidade tem quatro portões controlados por Israel. Quando eles se fecham, ninguém entra e ninguém sai”, explica Kharabsha. “É uma prisão.”

Tida como a cidade mais antiga do mundo, Jericó é a capital da província de mesmo nome na Cisjordânia. Tem quase 60 mil habitantes – cerca de 24 mil vivem na área metropolitana e o restante na zona rural. Apesar de pequena, a cidade ocupa uma posição estratégica: é a única porta de saída da Palestina para a vizinha Jordânia, país a partir do qual os palestinos se conectam ao resto do mundo. Exemplo prático: como Ramallah, um centro político e econômico da Cisjordânia, não tem aeroporto, a enfermeira precisa cruzar a fronteira jordaniana quando viaja para outros países. E mesmo isso tem sido difícil: no ano passado, ela não pôde comparecer a um congresso de medicina na Grécia, pois teve o visto negado pelas autoridades israelenses.

Aos 39 anos, Hanan Kharabsha é a mais velha de uma família de dez irmãos. Mora com os pais e quatro dos irmãos em uma casa de alvenaria localizada dentro de um campo de refugiados. Formou-se na Universidade Birzeit, na cidade do mesmo nome, próxima a Ramallah, e fez especialização em saúde pública nos Estados Unidos. “Era o governo Obama. Naquela época, era possível conseguir visto.”

Hoje, ela chefia o setor de enfermagem do Hospital Governamental de Jericó, onde trabalha de domingo a quinta-feira. Está há dois meses sem receber salário. “E nos meses anteriores só conseguiram me pagar metade”, conta. Há dois motivos: a crise enfrentada pela Palestina desde o início do massacre em Gaza e o fechamento recente, por Donald Trump, da agência americana de ajuda internacional Usaid.

Kharabsha observa que a crise econômica repercute também nas patologias que chegam à enfermaria: “Tenho visto mais casos de doenças emocionais, como transtorno de estresse pós-traumático, e mais abuso de substâncias, como álcool e drogas sintéticas.” Ela diz que o quadro é especialmente duro para os homens jovens palestinos, que antes trabalhavam em Israel e agora estão desempregados. “Para as mulheres há menos pressão, porque elas moram com os pais até se casarem.”

Antes de outubro de 2023, quando o Hamas matou 1,2 mil pessoas em Israel, estopim da reação militar desproporcional que perdura até agora, Kharabsha costumava visitar o país vizinho. “Tenho um visto com validade de um dia, que eu usava para ir à praia em Tel Aviv ou à mesquita em Jerusalém.” Desde então, Israel fechou não só a fronteira, como várias estradas dentro da própria Cisjordânia. “Não é possível nem visitar as montanhas”, reclama. “Está tudo sendo tomado por colonos israelenses, que não são do Exército, mas também andam armados.”

De acordo com um censo recente, a Cisjordânia abriga pouco mais de 3 milhões de palestinos e em torno de 500 mil israelenses. Kharabsha conta que um primo, Fares, foi obrigado a deixar sua casa, junto com seus bodes, no município de Al-Auja, na zona rural da província de Jericó. “Nós não estamos vivendo um genocídio, como em Gaza, mas também não estamos bem”, relata. “Eles assediam, matam os animais, fazem as pessoas se sentirem inseguras, até elas irem embora. O sofrimento aqui é lento e silencioso.”

Hanan Kharabsha nunca esteve em Gaza. De sete amigos que tinha lá – todos também ex-bolsistas de universidades americanas –, seis conseguiram deixar a região. Ela chegou a buscar o Ministério da Saúde da Palestina para se oferecer como voluntária na ajuda médica às vítimas do massacre. Sua inscrição, que precisava passar pelo crivo do governo israelense, foi recusada. “Eles não aceitam ninguém da Cisjordânia”, diz. Kharabsha lamenta que a relação entre dois povos vizinhos – ambos semitas, ela frisa – tenha chegado a tal grau de hostilidade. “O que está acontecendo não tem nada a ver com religião. Tem a ver com ideologia. Não temos um problema com os judeus. Nosso problema é com o sionismo.”

Se não bastassem as dificuldades que já enfrentava no cotidiano, Kharabsha tem lidado com novos percalços desde o fim de fevereiro, quando Israel e os Estados Unidos entraram em guerra com o Irã. As escolas onde seus irmãos mais novos e sobrinhos estudam estão fechadas por precaução. As ruas de Jericó se esvaziaram. “Não visito mais os amigos. Minha vida se resume a ir de casa para o trabalho e do trabalho para casa, um pouco como era na pandemia”, ela diz. Também estão fechadas – neste caso, por ordem de Israel – as estradas entre as cidades palestinas. Como os médicos que moram fora de Jericó não têm mais meios de chegar ao hospital, foi necessário concentrar o atendimento em algumas alas apenas.

Em fins de março, o problema maior eram ainda os mísseis. A Cisjordânia está na linha de tiro entre o Irã e as três maiores cidades de Israel: Jerusalém, Tel Aviv e Haifa. “De noite você vê as luzes no céu, o que é assustador, mas de dia você apenas ouve as explosões, sem saber de onde vêm”, conta Kharabsha. “Nós não somos o Irã  nem Israel, mas estamos aprisionados no meio desse jogo de países grandes.”


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É jornalista e redator do Piauí Herald. É autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras