esquina

LOIRA CABEÇA

A atriz Danielle Winits vive dias de glória no teatro
CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2026
CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2026

5 min de leitura

Ouvir essa matéria

0:00 0:00

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

No ano passado, depois de prestigiar e admirar a atuação de Débora Falabella na peça Prima facie, Danielle Winits ficou de prosa com Luciano Borges, o produtor da montagem. Ele estava empolgado com seu próximo projeto. Havia conseguido o direito de adaptar e encenar no Brasil The search for signs of intelligent life in the universe, peça da dramaturga americana Jane Wagner que estreou na Broadway em 1985 e rendeu o Tony de Melhor Atriz a Lily Tomlin.

Winits estava trabalhando em outra peça, mas não resistiu à proposta de Borges e do também produtor Edson Fieschi para ser a protagonista e a coprodutora da montagem da peça de Jane Wagner. O convite calhou bem com uma antiga ambição da atriz de 52 anos. “Eu estava em busca de fazer o primeiro monólogo da minha vida”, conta.

O trio produtor rapidamente chegou a um consenso sobre o nome certo para dirigir a montagem: Gerald Thomas. Seria uma junção inusitada do diretor e dramaturgo de carreira internacional, conhecido por encenações de vanguarda, com a atriz que conquistou a fama na tevê brasileira interpretando a estereotípica loira burrinha. “Eu queria bugar a cabeça das pessoas”, brinca Borges.

Thomas costuma ser avesso a projetos de encomenda. Mas topou o convite na hora, mesmo sem saber nada sobre a atriz. Com 71 anos e radicado há décadas nos Estados Unidos, nunca viu uma novela, filme ou peça que tivesse Winits no elenco. Os dois fizeram os primeiros contatos pelo Zoom e só se encontraram ao vivo no primeiro dia de ensaio, no segundo semestre de 2025.

Thomas dispensou a leitura de texto com Winits. Preferiu que a atriz já começasse os ensaios, todos eles filmados, e que construísse a personagem em cima do palco. Traduzida no Brasil para Choque! Procurando sinais de vida inteligente, a peça conta a história de Trudy, uma publicitária desempregada que perde a paciência com a imbecilidade humana e decide buscar contato com alienígenas. O texto foi levemente adaptado para incorporar questões atuais, como as redes sociais e a inteligência artificial. A loira escultural entra em cena descalça e descabelada, movendo-se entre os dejetos de um lixão.

O espetáculo estreou em outubro passado no Rio. Teve um mês de casa lotada no teatro do Copacabana Palace. Fernanda Montenegro compareceu e aplaudiu de pé. De janeiro a março deste ano, Choque! foi apresentado no Teatro Faap, em São Paulo, de novo com casa lotada. As pessoas saíam dos cerca de 80 minutos da peça se perguntando: “Mas essa é mesmo a Danielle Winits?” A peça então retornou ao Rio, agora no Teatro Prio, onde permanece em cartaz até o fim de maio. Depois, deve rodar outras cidades do Brasil.

A carioca Danielle Winits fez sua estreia na Rede Globo no tempo em que a emissora, campeã de audiência, era responsável pelo principal produto cultural do país – a novela – e ainda estava longe de disputar público e publicidade com redes sociais e plataformas de streaming. Em 1993, por volta dos 20 anos, ela chamou a atenção em duas produções: a novela Olho no olho e a série Sex appeal, ambas do autor Antônio Calmon. A silhueta curvilínea e o cabelo platinado foram essenciais para elaborar personagens populares como a atrevida Diana de Cara & coroa, a estabanada Alicinha de Corpo dourado e a extravagante Tatiana de Uga uga.

Enquanto emprestava o corpão para essas mulheres sensuais, Winits tinha a vida exposta por revistas de celebridades que, pelo menos até a primeira década deste século, ainda vendiam centenas de milhares de exemplares. Em maio de 2008, foi capa de Contigo!, com a seguinte manchete: “Danielle Winits – A atriz revela os segredos para manter o corpo em forma, fala da aventura da primeira maternidade e do amor pelo marido, Cássio Reis.”

Em outubro de 2010, Caras estampava, também na capa, a novidade na vida amorosa da loira: “Grávidos – Danielle Winits e Jonatas Faro anunciam sua felicidade em Nova York.” A repercussão, porém, foi negativa: “Eu virei a vilã da história”, recorda ela. “Foi criada uma narrativa da mulher que traiu o marido tendo um filho pequeno para ficar com um ator muito mais jovem.” De acordo com o Instituto Verificador de Comunicação (IVC), Caras ostentava uma tiragem de 357 mil exemplares semanais (hoje não é mais auditada nem divulga a circulação) e a Contigo! circulava com 200 mil exemplares (a revista deixou de existir no papel em 2018).

Winits se orgulha de ter processado dois jornalistas de fofoca por danos morais: Leão Lobo, por afirmar que ela tinha um romance com um diretor de tevê casado, e Leo Dias, por dizer que ela fingiu estar grávida para entrar na fila preferencial de embarque em um aeroporto. “Sofri violência psicológica e patrimonial de diversas ordens, que poderiam ter decepado a minha vocação de atuar e a minha saúde mental. Não sucumbi nem me vitimizei”, diz a atriz, que saiu vitoriosa dos processos.

Descontadas as baixarias, Winits sabe jogar com a imprensa de celebridades. Abre a sua casa para ensaios fotográficos, sozinha ou com o namorado André Gonçalves, e dá entrevistas falando de temas como maternidade, rotina de treinos, truques de beleza e trabalho. Também está em paz com os papéis de gostosa que a consagraram. “Nunca briguei com o meu estereótipo, ele me serviu e foi bastante útil”, afirma.

Nos anos de prestígio da Playboy, Winits foi duas vezes capa da revista. Em agosto de 1998, foi fotografada em Las Vegas, e em outubro de 2003 posou em uma praia do Guarujá. “Meu querido, ela tinha um corpo es-cul-tu-ral”, lembra o cabeleireiro Marco Antonio de Biaggi, que trabalhou nas duas ocasiões. A revista de 1998 vendeu 561 257 exemplares. Winits ganhou 1 real por exemplar vendido, mais um cachê fixo estimado em 500 mil reais.

Grata por exercer uma profissão em que as pessoas podem trabalhar até o fim da vida, a atriz já teve o receio de ser descartada por volta dos 40 anos. “As pessoas podem ser cruéis com as mulheres”, lamenta. Coincidência ou não, o fato é que foi nessa faixa etária que Winits se afastou do hábitat natural – a televisão. A última novela em que esteve no elenco efetivo, do primeiro ao último capítulo, foi Amor à vida, de 2013. Desde então, fez só pequenas participações. Que importa? No lixão montado sobre o palco de Choque!, a sempre loiríssima Danielle Winits mostra a atriz que realmente é.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


Repórter da piauí, publicou A Beleza da Vida: A Biografia de Marco Antonio de Biaggi (Abril)