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Allan de Abreu Abr 2026 23h41
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O Phenom 300 é o maior sucesso comercial da Embraer. A empresa aérea brasileira já produziu novecentas unidades desse avião bimotor desde seu lançamento, em 2010. Durante treze anos, foi o jato leve mais vendido no mundo, com algumas vantagens em relação aos concorrentes: autonomia de voo superior a 3,5 mil km (suficiente para uma viagem de São Paulo a Lima sem escalas), velocidade de até 859 km/h e teto operacional de 45 mil pés, o que permite voar acima de condições meteorológicas adversas. Além disso, com dez assentos, o Phenom 300 propicia conforto aos passageiros: a fuselagem ovalada libera mais espaço para a cabeça e os ombros. Em comparação aos modelos da rival americana Cessna, suas janelas são mais amplas, o que aumenta a iluminação natural.
O Phenom 300 com matrícula PT-PVH foi um dos primeiros fabricados pela Embraer, ainda em 2010. Desde 2020, a aeronave já voou 536 mil km, a maior parte dentro do Brasil, mas também pelos céus da Argentina, Paraguai, Colômbia e Estados Unidos, conforme levantamento feito pela equipe de dados da Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), a pedido da piauí.
Consta nos registros da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) que a aeronave é hoje operada pela Prime You – uma empresa de compartilhamento de aviões que até setembro passado pertenceu a Daniel Vorcaro. Preso desde março, o enrolado banqueiro do Master é investigado pela Polícia Federal por fraudes financeiras bilionárias, corrupção e lavagem de dinheiro. Seu avião repousou pouco no hangar ao longo desta década e até autoridades graúdas em Brasília usufruíram das viagens no bimotor.
O primeiro a desfrutar do conforto do Phenom 300 foi o deputado federal Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais. Durante uma semana inteira, em outubro de 2022, o deputado e um pastor da Igreja Batista da Lagoinha percorreram os nove estados do Nordeste a bordo do PT-PVH, pedindo votos para a reeleição de Jair Bolsonaro (além de Vorcaro ceder o jatinho ao parlamentar, o cunhado dele, Fabiano Zettel, doou 3 milhões de reais à campanha de Bolsonaro). Quando os voos de Nikolas vieram à tona, em março passado, o deputado disse que não sabia quem era o proprietário do avião na época da turnê nordestina. Por que uma autoridade pública faria uma pergunta tão indiscreta?
Cerca de dois anos mais tarde, em 1º de janeiro de 2025, foi a vez de Gilmar Mendes, o decano do STF, ocupar uma das dez poltronas do Phenom 300 para retornar a Brasília. Ele viajou na aeronave depois de prestigiar a solenidade de posse de seu irmão Chico Mendes (União Brasil) no cargo de prefeito de Diamantino, em Mato Grosso, de acordo com o jornal O Estado de S. Paulo. Assim como o discreto Nikolas, o ministro alegou desconhecer a relação de Vorcaro com o Phenom 300. Disse que a carona foi oferecida pelo empresário Marcos Molina, do setor de frigoríficos.
Por último, em agosto do ano passado, outro ministro do STF, Alexandre de Moraes, embarcou com a esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, no PT-PVH em Brasília, com destino ao Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Em nota à Folha de S.Paulo, o ministro negou ter utilizado aviões de Vorcaro. Sua mulher, contratada a peso de ouro por Vorcaro, afirmou que o banqueiro nunca esteve presente em nenhuma das viagens que ela fez nos aviões dele. Não há notícia de que alguém tivesse dito o contrário.
Antes de rasgar os céus com passageiros ilustres, o PT-PVH quase foi empregado em um empreendimento de risco: o transporte de cocaína pela América do Sul. Em agosto de 2019, a aeronave, que na época pertencia à Icon Táxi Aéreo, de São Paulo, foi vendida para uma obscura empresa de Paranaguá, no Paraná, a Casa Belle Importadora e Comércio, por 19,3 milhões de reais – sendo 6,5 milhões pagos à vista e o restante, parcelado.
Logo depois de pagar a entrada, Yasser Mohamad Zahra, o dono da Casa Belle, encomendou uma vistoria no avião, que encontrou rachaduras em um dos motores. Zahra devolveu a aeronave e quis recuperar seus 6,5 milhões. A Icon negou-se a devolver o valor e insistiu na venda (a avaria no motor nunca foi comprovada).
Zahra ajuizou uma ação contra a Icon na 1ª Vara Cível de Paranaguá. Em resposta, a empresa de táxi aéreo revelou um personagem até então desconhecido: o comprador do Phenom 300 era Marcos José de Oliveira, sócio oculto de Zahra na Casa Belle.
Seguiu-se uma investigação da Polícia Federal ao longo de 2020, que descobriu que os 6,5 milhões de reais pagos por Oliveira à Icon Táxi Aéreo tinham origem no tráfico de cocaína. Mais: o verdadeiro comprador do bimotor nem era Marcos José de Oliveira, mas Karine de Oliveira Campos, considerada a maior narcotraficante brasileira da história, foragida desde agosto de 2019 (mais tarde, a PF descobriu que Karine Campos enviou fotos do PT-PVH para outros membros de sua quadrilha no aplicativo Sky ECC).
Na prática, ela usou dois testas de ferro, Zahra e Oliveira, para ocultar a aquisição do Phenom 300. Não fosse o problema no motor, o avião estaria agora transportando toneladas de cocaína da Colômbia, Peru, Bolívia e Paraguai para o interior do Brasil.
Marcos José de Oliveira foi preso em novembro de 2020, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Narcobroker. No mês seguinte, o delegado Alexandre de Almeida Lucena pediu à 23ª Vara Federal de Curitiba, onde tramitava o inquérito, a apreensão do Phenom 300.
A aeronave ainda pertencia à Icon, empresa da qual Vorcaro se tornara sócio (alguns meses depois, a Prime You passou a operar com o PT-PVH). “Atualmente, a Icon está locando a aeronave para terceiros”, escreveu o delegado na requisição à Justiça. Ele observou que a empresa de táxi aéreo estava se valendo de uma justificativa malandra para não devolver a entrada de 6,5 milhões paga pelo avião: como o dinheiro seria “proveniente de ilícitos”, não haveria a obrigação de devolvê-lo. “Ou seja, está se aproveitando da situação para enriquecer ilicitamente, tentando fazer com que o processo seja postergado para manter um valor [o avião] que sabe ser proveniente de crime”, acusou o delegado Lucena.
A vara de Curitiba acatou o pedido do delegado, e o PT-PVH foi apreendido em janeiro de 2021. A Icon entrou em um acordo com a PF e o Ministério Público Federal. Em troca da liberação da aeronave, depositou os 6,5 milhões de reais em uma conta judicial, até que seja finalizada a tramitação da ação penal contra Marcos José de Oliveira por tráfico internacional de drogas, associação criminosa e lavagem de dinheiro.
Com o depósito, o avião foi levado de volta ao hangar da Icon (e mais tarde transferido para o da Prime You). E assim o PT-PVH pôde cumprir um destino mais elevado: dar caronas a altas autoridades da República.