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O filme cult da Xuxa lançado em 1988 é restaurado
CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2026
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Diego Alexandre não viveu o auge da popularidade da apresentadora gaúcha Xuxa Meneghel. Era um bebê quando o Xou da Xuxa chegou ao fim, em 1992, depois de ocupar por seis anos as manhãs da Rede Globo, de segunda a sábado. Mas Xuxa ainda reinava em reprises da Sessão da Tarde. Em 1997, quando tinha 5 anos, Alexandre viu na tevê de 20 polegadas da casa de sua família em Conselheiro Lafaiete, no interior de Minas Gerais, o filme Super Xuxa contra Baixo Astral – e teve um choque transformador.

O longa-metragem havia sido lançado em 1988 e levou mais de 2,8 milhões de espectadores ao cinema. Nele, Super Xuxa enfrenta Baixo Astral (interpretado pelo ator Guilherme Karan), um demônio punk que habita os esgotos. Do seu submundo, Baixo Astral quer espalhar negatividade e depressão no planeta, mas a loira otimista atrapalha esses planos com suas cores (merchandising das tintas Suvinil), suas bicicletas (Caloi) e suas canções (Vou pintar um arco-íris de energia/pra deixar o mundo cheio de alegria).

A fim de derrotar a inimiga loira, Baixo Astral manda seus capangas sequestrarem Xuxo, o cachorro dela. Para o pequeno Alexandre, o momento mais marcante dessa fantasia meio psicodélica foi quando Baixo Astral disse a Xuxa que o cãozinho dela morreu (era mentira). Deprimida, a luminosa heroína se transmuta visualmente em uma figura sombria. “Essa cena me impressionou muito. Minha cinefilia começou ali, no sofá de casa. É a primeira lembrança que tenho de assistir a um filme”, recorda Alexandre, hoje com 34 anos. Foi também ali que nasceu seu desejo de trabalhar com cinema – ambição que o levaria de volta a Super Xuxa contra Baixo Astral.

Quando estudava jornalismo na Universidade Federal de São João del-Rei, Diego Alexandre não perdia a Mostra de Cinema de Tiradentes, dedicada sobretudo a filmes independentes. Nas oficinas promovidas pelo evento, conheceu o diretor Luiz Carlos Lacerda, que o convidou para ser estagiário de direção na filmagem de Introdução à música do sangue, em Cataguases. Em 2019, Alexandre mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou na produção de Rua do sobe e desce, número que desaparece, série também dirigida por Lacerda. Apaixonou-se pelos cinemas de rua em Botafogo, bairro onde se estabeleceu.

Durante a pandemia, o mineiro se viu forçado a retornar a Conselheiro Lafaiete, mas manteve o apartamento alugado no Rio. Trabalhou então com a produtora Patricia Chamon, que, para sua sorte, estava realizando a série infantojuvenil Família Craft no interior de Minas. Superada a crise da Covid, surgiu uma oportunidade muito especial para Alexandre: ele foi convidado a ser assistente da diretora Vivianne Jundi em Uma fada veio me visitar. Lançado em 2023, o filme conta a história de uma criatura mágica que, congelada desde os anos 1980, desperta com a missão de transformar duas garotas que se odeiam em amigas. E quem interpreta a fada? Xuxa.

Designado para fazer a ponte entre a equipe da estrela do filme e a produção, o fã segurou a onda. Manteve a postura profissional até o último dia de filmagem. Quando se despediu de Xuxa, porém, Alexandre não resistiu: emocionado, contou que era por causa dela que trabalhava em cinema. Os dois se abraçaram.

No ano passado, o Canal Brasil anunciou o projeto de remasterização de alguns filmes estrelados por Xuxa nos anos 1980 e 1990, entre eles, Super Xuxa contra Baixo Astral. Entretanto, a Dream Vision, produtora que detém os direitos do filme, constatou que um dos quatro rolos originais em celuloide depositados no Arquivo Nacional estava desaparecido. Faltavam os 20 minutos iniciais.

Engajado no projeto, Alexandre assumiu a responsabilidade pela restauração. Na busca do rolo original, ele recorreu a colecionadores de película espalhados pelo país. Descobriu que um deles conservava os negativos completos no Rio Grande do Norte. Com o material em mãos, pediu ajuda a Luiz Carlos da Silva, projecionista do Estação NET Botafogo, único cinema carioca que ainda tem um projetor de filme 35 mm. Pela primeira vez, Alexandre pôde assistir a Super Xuxa contra Baixo Astral em um cinema.

A experiência não foi a que esperava: o filme tinha uma coloração avermelhada, e estava comprometido por arranhões e manchas de fungos. Emendas improvisadas provocavam saltos na imagem. A restauração daria trabalho.

Uma segunda cópia do primeiro rolo foi encontrada. Estava ainda mais deteriorada, mas continha os fragmentos que faltavam na anterior. A combinação das duas fitas foi feita com supervisão artística de Alexandre e supervisão técnica de Aarão Marins. A correção de cor ficou a cargo de Paulo Caru, e a remasterização de áudio foi realizada por dois profissionais que são fãs da Xuxa. O Canal Brasil financiou a restauração minuciosa, quadro a quadro.

No dia 27 de março, aniversário de 63 anos de Xuxa, o Canal Brasil exibiu a cópia restaurada e remasterizada de Super Xuxa contra Baixo Astral. Duas semanas antes, houve uma sessão especial na maior sala do Estação NET Botafogo, com os 250 lugares lotados. A nostalgia também tomou o público das sessões em São Paulo, Salvador e Porto Alegre.

Diego Alexandre acredita que a restauração serve não apenas para apresentar o filme às novas gerações, mas para valorizar todo um gênero cinematográfico. “Xuxa, Os Trapalhões, Oscarito, Mazzaropi e Paulo Gustavo levaram muita gente ao cinema e sofrem preconceito por serem artistas populares”, diz.

Dirigido por Anna Penido, Super Xuxa contra Baixo Astral ganhou certa aura cult. Considerado o filme mais ousado da carreira de Xuxa, tem uma estética singular, com a cara dos anos 1980 – marca do produtor e cineasta Lael Rodrigues, diretor de Bete Balanço. Num clima de cinema “terrir” (mistura de terror com comédia), contém referências a filmes da época, como Labirinto e Poltergeist. No Letterboxd, site em que os diletantes da crítica cinematográfica dão seus palpites, há até quem encontre ecos de David Lynch e Ingmar Bergman na aventura de Xuxa.

Multicolorido e com figurinos icônicos, como o body branco com arco-íris vestido pela heroína, Super Xuxa contra Baixo Astral também é visto como um filme queer. Majoritariamente LGBTQIAPN+, a plateia da reestreia no Estação NET Botafogo veio abaixo quando Xuxa cantou a música-tema: Se tá feio ou dividido, vai ficar tão colorido./­­O que vale nessa vida é ser feliz.


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Repórter da piauí e roteirista de cinema