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EM MODO DETOX DIGITAL

Por que as iniciativas para desconectar estão ganhando tração
CRÉDITO: TOM GAULD_2018
CRÉDITO: TOM GAULD_2018

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As pessoas que entram no Ca­fé De Whit, em Amsterdã, numa noite gelada de fevereiro, deixam o telefone logo na entrada, numa caixa metálica apelidada de “hotel para celulares”. Em seguida, recebem uma senha como quem deixa o casaco na chapelaria antes do espetáculo. Alguns se reconhecem de outros encontros. “Você voltou!”, diz um rapaz a uma jovem. Um participante traz o cachorro. Há quem chegue acompanhado. Mas a maioria vem sozinha, e pela primeira vez, como eu.

Depois de pedir uma bebida no bar, ocupam um lugar às mesas, que aos poucos se enchem de desconhecidos. Quase todos trazem um livro. A vizinha da mesa ao lado desabafa: “Tenho vergonha, isso deveria ser o normal.” Uma jovem se afasta em direção ao canto mais distante, do outro lado do salão. Perto de mim, ouço falarem em holandês, inglês, italiano. O ambiente é descontraído. O “hotel para celulares” vai ficando lotado. Já somos mais de trinta. A mulher que se senta ao meu lado tira da bolsa um livro da poeta americana Sylvia Plath. Mas o título que se repete três vezes em outras mesas é 1Q84, do escritor japonês Haruki Murakami. Há algo ao mesmo tempo estranho e familiar nesta sala onde ninguém toca no celular, como se por algumas horas estivéssemos experimentando um outro tempo, uma versão mais lenta e mais humana do mundo.

Um dos fundadores do Offline Club, Jordy van Bennekom, de 30 anos, explica a programação da noite: durante a primeira hora, cada um lerá o seu livro, em silêncio. Em seguida, haverá uma hora e meia dedicada a conversas entre os participantes que pagaram pouco mais de 14 euros (cerca de 80 reais), para estarem aqui, nesta noite. Nada é obrigatório. Antes de começar a ler, observo a jovem do outro lado da sala, que escreve enquanto come uma fatia de pizza.

Em 2021, Van Bennekom partiu sozinho para o campo, sem celular, decidido a se desconectar por quatro dias. Sentiu-se tão bem que contou ao amigo Ilya Kneppelhout. Os dois trabalhavam em uma startup que produzia e vendia produtos de papelaria recicláveis, como blocos e cadernos. Kneppelhout experimentou a desconexão e também gostou. Chamaram o chef Valentijn Klok para um fim de semana sem celular, e ali surgiu a ideia: criar retiros na natureza para quem quer se desconectar por alguns dias. Em 2024, os três resolveram trazer o detox digital para o cotidiano da capital holandesa e alcançar mais pessoas. Em dois anos, o Offline Club já ganhou 600 mil seguidores no Instagram e se expandiu para outras dezesseis cidades europeias: Paris, Londres, Bristol, Dublin, Berlim, Hamburgo, Colônia, Madri, Barcelona, Valência, Estocolmo, Zurique, Viena, Copenhagen, Milão e Lisboa. Além dessas, Istambul, na Turquia, também aderiu. E a próxima será Bali, na Indonésia.

“É irônico que o sucesso inicial tenha sido provocado por dois vídeos que postamos no Instagram”, diz Kneppel­hout, de 29 anos. Ele serve o chá sem pressa e se senta no sofá da nova sede do grupo, no Centro de Amsterdã. O cachorro de que está cuidando para um amigo se aproxima, querendo colo. Kneppelhout acaricia o animal enquanto relembra como tudo começou.

No primeiro encontro que organizaram num café da cidade em 2024, dos 60 inscritos apareceram apenas 18, a maioria formada por amigos e colegas. Apesar da baixa frequência, um vídeo gravado e editado por Ilya Kneppelhout conseguiu 22 milhões de visualizações nas redes sociais, e o outro, 42 milhões, sem qualquer impulsionamento pago. “Isso prova como essas redes podem nos enganar”, observa Kneppelhout. “Em um mês nós já tínhamos 100 mil seguidores. Em um ano, meio milhão.” Eles começaram a receber pedidos de entrevistas de jornalistas e centenas de mensagens de pessoas de várias cidades do mundo. “E nós nos perguntamos: o que está acontecendo? Ficamos surpresos, atordoados e entusiasmados ao mesmo tempo. Eu tinha outro emprego, mas de repente estava trabalhando muito mais para o nosso projeto paralelo. Era o nosso sonho criar algo que tivesse impacto na vida das pessoas, queríamos formar uma comunidade, mas a gente não achava que ia acontecer assim.” Os sócios acabaram largando os empregos para se dedicarem exclusivamente ao Offline Club.

Nenhum dos três amigos era viciado em redes sociais. Valentijn Klok raramente ia ao Facebook, Van Bennekom abandonou o Instagram há dez anos e Kneppelhout apagou o Snapchat há oito. “Eu não tinha TikTok nem Instagram no meu telefone porque sabia que ia trazer coisas negativas para a minha vida e tirar o meu tempo”, diz. “Mas o meu problema era passar horas falando com meus amigos pelo WhatsApp em vez de vê-los pessoalmente. Acredite: eu era o mais conectado dos três”, conta.

É comum perguntarem a Kneppelhout por que alguém paga para ler – ou tricotar ou desenhar – com outras pessoas no Offline Club. “As pessoas não pagam para ficar sem o celular”, explica ele. “O objetivo é se sentir melhor, é conhecer novas pessoas, é ter um espaço onde a sua atenção é total, voltada para você mesmo e para o outro. Você paga para ter uma experiência que não viverá em outro lugar. Você pode assistir a um filme com os seus amigos em casa, mas não é o mesmo que ir ao cinema. Pode dançar sozinha, mas não é igual a dançar em uma boate acompanhada. Você está lendo um livro num ambiente com pessoas que compartilham os mesmos valores e interesses, e isso faz a diferença: é conexão humana.”

As atividades do Offline Club não se limitam aos cafés e restaurantes de Amsterdã. Os sócios já organizaram festas de leitura em parques, colagem e pintura em catedrais, piqueniques, retiros de três dias em meio à natureza. Em novembro, cinquenta participantes fizeram uma “rebelião gentil” em um vagão do metrô da cidade. Em vez de ficarem com o rosto grudado nos seus celulares navegando nas redes sociais, leram livros, desenharam e jogaram cartas com outros passageiros numa viagem sem telefones.

Com a proximidade do verão, o Off­line Club promove programas num charmoso terraço da cidade com sauna e piscina. “Nós não somos contra a tecnologia ou contra as redes sociais. Somos contra o excesso”, diz Kneppelhout. “Estamos vivendo um momento em que as redes sociais consomem toda a nossa atenção e o nosso tempo, em vez de sermos nós a utilizá-las como ferramenta. Os aplicativos são feitos para viciar. O alvo são as crianças, e depois é muito difícil se livrar deste vício.”

“Nós estamos apenas no início de campanhas de conscientização e de pesquisas que mostram os efeitos do uso excessivo das redes sociais”, continua Kneppelhout, antes de sair para uma aula de salsa. “Acredito que no futuro haverá leis para banir as redes sociais e limitar o uso do celular em áreas específicas, iguais às que existem agora para os fumantes. Queremos contribuir com este movimento para restringir o uso dos celulares nos espaços públicos.” Em Los Angeles, nos Estados Unidos, duas big techs – a Meta e o Google – já foram condenadas por levarem uma jovem ao vício. Talvez seja o começo das “leis para banir as redes sociais” de que fala Kneppelhout.

O Offline Club não é o único movimento contra o vício em celulares e redes sociais na Holanda. Pelo país inteiro, mobilizações estão ocorrendo em vários níveis para conter os desastres anunciados por médicos, psicólogos, educadores e outros especialistas. Uma das iniciativas mais ambiciosas é a campanha Mei Social Vrij (Maio sem redes sociais), que convoca as pessoas a passar um mês longe das redes, como acontece no Dry January (Janeiro seco), em que se evita o consumo de álcool no início do ano. “O que eu mais desejo é que, em todo mês de maio, Mark Zuckerberg e Elon Musk olhem para os dados das redes sociais na Holanda e se perguntem, perplexos: ‘Que diabos está acontecendo nos Países Baixos?’”, diz Jan Bruin, de 40 anos, cofundador da campanha.

Bruin foi um dos primeiros especialistas em marketing de redes sociais da Holanda. Era apaixonado pelas redes e não via qualquer perigo nelas. Ao contrário, achava que eram criativas e conectavam as pessoas. “É curioso, mas tudo começou a mudar justamente quando tentei a carreira diplomática e fui morar em Brasília”, diz ele, que viveu dois anos no Brasil. “Eu tinha 30 anos, não tinha amigos, vi que o mundo diplomático não era para mim e passava o tempo todo online. Em dado momento, percebi que estava com depressão e precisava de ajuda. Fiz terapia, saía sem celular, tentei de tudo. Na época, achei que aquilo estava acontecendo comigo apenas porque estava longe de casa, e o celular era um refúgio.”

Quando retornou à Holanda, Bruin voltou a trabalhar com marketing de redes sociais, mas em pouco tempo começou a perceber que havia algo ainda mais errado. “Os meus clientes faziam postagens meio loucas, que não tinham nada a ver com a personalidade deles ou das empresas, só para ter mais alcance e seguidores.” Entre 2018 e 2019, ele sugeriu aos clientes que saíssem ou diminuíssem a exposição nas redes sociais. “Eles olharam para mim como se eu estivesse louco. Mas eu disse: ‘Vamos voltar ao marketing do mundo real, menos intrusivo e sem tanta manipulação.’ Poucos quiseram tentar.”

Convidado a fazer consultoria para a revista online De Correspondent, muito respeitada na Holanda, ele notou que também ali as postagens eram cada vez mais extremadas, visando angariar leitores e pouco tinham a ver com a linha editorial da publicação. “Pior ainda, as postagens estavam interferindo no jornalismo que faziam.” Ao seu redor, percebeu que os colegas de trabalho – jovens em torno dos 25 anos – apresentavam os mesmos sintomas que os dele quando morou no Brasil. “Muitos tiveram a síndrome de burnout, então entendi que era algo bem maior, caí na real.”

Salvem-nos dos celulares, por favor foi o título do primeiro artigo de opinião que Bruin escreveu, em 2024, para um jornal holandês sobre as leis do país que diziam respeito ao uso dos aparelhos. “Sou contra proibições, mas gostaria que, na minha época de escola, tivesse havido regras, pois isso teria nos ajudado”, diz Bruin, que cresceu quando avançavam a internet, os celulares e as redes sociais. Quando ele ainda comemorava a publicação do artigo, um amigo lançou a ideia de criar o “Maio sem redes sociais”. “Eu disse: ‘Meu Deus, vamos fazer isso!’”, conta Bruin. Um detox digital coletivo seria o melhor remédio para quem luta por menos dependência do celular. “Quando você faz o detox, dá um passo atrás e reflete sobre a vida que está levando. É tudo positivo, não é dogmático, não tem esquerda nem direita. Além disso, maio é primavera na Holanda, as pessoas vão para as ruas.”

Os dois amigos falaram com outros seis colegas, que concordaram em participar. Com seus próprios recursos, eles criaram um site, enviaram e-mails e espalharam adesivos por todo o país. Em 2025, chamaram artistas, ilustradores, jornalistas, formadores de opinião para serem embaixadores da campanha. Fizeram parcerias com cinemas, jornais, academias de ginástica. Bruin começou a ser procurado por rádios, tevês e jornais para falar sobre o detox digital coletivo. O grupo conseguiu alcançar milhares de pessoas e produziu um pequeno livro com dicas práticas.

Em um dos eventos que organizaram em maio, os participantes apagaram as contas do Facebook e receberam um álbum onde podiam colar e desenhar o antigo perfil digital. De uma amostra de trezentas pessoas que participaram da campanha, 60% disseram ter conseguido ficar sem redes sociais por um mês. Bruin conta que pesquisas de opinião feitas pelas duas principais redes de tevê da Holanda mostraram que metade das mais de 20 mil pessoas entrevistadas queria parar ou reduzir o consumo de redes sociais. “Entre os jovens, a porcentagem chegava a 70%. Mas, do total daqueles que queriam deixar as redes sociais, apenas 30% tentavam fazer algo a respeito. Para mim, isso é um alerta: precisamos agir.”

O detox exige preparação. As dicas incluem: nunca levar o telefone para o banheiro, não usar o celular no transporte público, não dormir com o aparelho no quarto, usar algum aplicativo que limite o tempo de uso das redes sociais ou um dispositivo que trave o acesso às redes, criando um bloqueio físico. Os primeiros dias são os mais difíceis, por isso o livro de bolso da campanha relaciona, de maneira divertida, várias atividades em diferentes cidades, parceiros que oferecem programas sociais e culturais e dicas de sobrevivência offline. “Alertamos que, assim que a pessoa sai dessas plataformas, ela vai imediatamente em busca de dopamina em outros lugares, como se o cérebro fosse um caça-níquel.”

Neste ano, a KPN, a maior empresa de telecomunicações da Holanda, se uniu ao “Maio sem redes sociais” e vai enviar um e-mail para 3,5 milhões de clientes com a mensagem dos organizadores: “Troque a sua próxima curtida por uma ligação telefônica.” A campanha também vai aparecer nos 4 mil painéis fotográficos que serão espalhados pelas ruas das cidades holandesas e estações de trem. “Vai ser praticamente impossível não ouvir falar do ‘Maio sem redes sociais’, o nosso alcance será muito maior do que nos outros anos”, garante Bruin, entusiasmado.

Ele não acha coincidência que, no mesmo ano de 2024, vários movimentos e campanhas contra as redes sociais tenham começado na Holanda e em outras partes do mundo. Aquele foi o ano em que o psicólogo social Jonathan Haidt, professor da Universidade de Nova York, publicou o livro A geração ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais (Companhia das Letras). Apesar de ter críticas ao livro, Bruin atribui a Haidt a importância de ter trazido o tema para o debate público. “As pessoas agora estão se unindo, e juntos formamos um lobby fortíssimo”, afirma. “Em uma pesquisa feita com crianças, 90% disseram que preferem um mundo sem redes sociais. E há ainda os estudos que apontam que os casos de mal de Alzheimer vão quintuplicar por causa do consumo de redes sociais. O que eu gostaria mesmo é que as pessoas saíssem de vez das redes, para sempre, porque elas fazem muito mal.”

"A infância é muito curta para ser passada num celular” é o slogan de um movimento criado na Holanda há menos de dois anos para incentivar os pais a firmarem um pacto e proibirem celulares nas mãos de menores de 14 anos. O movimento Smartphonevrij Opgroeien (Crescer sem celular) já conseguiu a adesão de 65 mil pais de todas as partes do país. “Nós lutamos contra um modelo de negócio que trata os nossos filhos como um produto. A atenção de nossas crianças é muito valiosa para ser negociada como mercadoria”, diz a jornalista Danielle Batist, de 42 anos, uma das mães fundadoras do movimento.

Em 2024, sua filha de 7 anos começou a pedir um celular de presente porque seus colegas da escola, em Utrecht, já tinham o aparelho. A jornalista resolveu agir. Descobriu que mães britânicas haviam criado um movimento para adiar o uso de celulares por crianças. Inspirada na ideia e com a ajuda de outros seis pais que até então não se conheciam, ela lançou um site com os manuais das mães britânicas, traduzidos para o holandês, e uma mensagem simples: compartilhe com os pais da sua escola a sua preocupação e forme um grupo para discutir o tema.

Uma das atrizes mais famosas do país, Thekla Reuten, fazia parte desse grupo inicial, o que levou a imprensa a se interessar pela iniciativa. O efeito foi enorme. “Ficamos perplexos. Recebemos mais de trezentos e-mails: pais que diziam não saber lidar com a situação; pais que já haviam desistido de controlar os filhos de 16 anos, mas não queriam que o mesmo acontecesse com os mais novos; médicos que relatavam atender diariamente pacientes com problemas decorrentes do uso das redes sociais; além de professores, assistentes sociais, policiais”, recorda Batist.

Logo havia grupos formados em cem escolas. “O que os pais queriam eram conselhos práticos de como evitar que as crianças começassem a usar um celular”, diz a jornalista. Enquanto isso, o lobby das empresas de tecnologia, alguns setores do governo e órgãos de comunicação questionavam se os celulares eram realmente um grande problema para a saúde mental das crianças ou se toda aquela reação não passava de exagero de mães histéricas. “Não privei a minha filha de 10 anos da internet. Temos computador e tablet em casa. Mas passamos a conversar mais sobre o tema”, conta Batist. “Eu explico a ela que os aplicativos são viciantes, que as relações ali podem se tornar compulsivas e que o cérebro dela ainda não está preparado para controlar impulsos como um adulto. Quando conto que os inventores desses aparelhos e aplicativos não deixam os próprios filhos usarem, ela entende e fica indignada.”

Uma criança holandesa em idade escolar passa, em média, seis horas e meia por dia no celular, vendo principalmente vídeos no TikTok e trocando mensagens no Snapchat. Um dos objetivos do “Crescer sem celular” é evitar que celulares sejam dados a alunos do ensino básico (que na Holanda vai dos 4 aos 12 anos) e adiar para depois dos 14 anos o uso do aparelho e dos 16 anos a entrada nas redes sociais. Em 2024, o governo recomendou que as escolas proibissem o uso dos celulares nas salas de aula. Algumas foram mais longe e proibiram também no recreio e nos intervalos. Em setembro, quando começa o novo ano letivo, a recomendação – que na Holanda vale tanto quanto uma lei e quase todo mundo segue à risca – se tornará mais rígida, proibindo o celular em todas as dependências das escolas. A recomendação é parecida com a lei que foi sancionada em janeiro de 2025 no Brasil – onde as crianças em idade escolar passam, em média, 3 horas e 53 minutos por dia nas redes sociais, segundo pesquisa da Panorama Mobile Time/Opinion Box, duas horas e meia a menos que as crianças holandesas.

“Não tentamos convencer ninguém, o importante é abrir espaço para o debate”, diz Batist. “O que fazemos é incentivar os pais de cada turma a conversarem entre si. Se houver cinco ou seis que concordem em não dar um celular para os filhos, isso já reduz a pressão sobre as crianças, impede que a professora crie um aplicativo para a turma e evita que o seu filho se sinta isolado por não ser o único sem celular. Muitas escolas criam aplicativos para se comunicar com os alunos, o que não ajuda.” Segundo a jornalista, até dois anos atrás praticamente todos os estudantes holandeses entravam no ensino médio com um celular no bolso. “Agora, criamos o primeiro grupo de alunos que vai com um telefone simples, daqueles que usávamos antigamente, que apenas fazem chamadas e mandam mensagens.”

O movimento liderado por um colegiado de pais já chegou a 70% das 6,5 mil escolas de ensino básico holandesas. Em novembro, o grupo lançou um livro com o mesmo nome da iniciativa (Smartphonevrij opgroeien, pela POM.press), organizado pelo psicólogo Thijs Launspach, com material informativo e artigos. Os membros do  “Crescer sem celular” decidiram renunciar aos lucros com a venda da obra e oferecer um exemplar gratuito a cada um vendido. Batist lembra que no lançamento do livro uma jovem contou que aos 16 anos perdeu o celular que possuía desde os 12 e decidiu não comprar outro. Quando fez 17 anos, em vez das trezentas e tantas mensagens de parabéns que costumavam ser enviadas para ela pelas redes sociais, recebeu apenas três ligações telefônicas, mas que valeram mais do que as outras, porque não foram estimuladas pelo algoritmo, e sim pela memória e amizade verdadeira. Às vésperas do Natal passado, o livro do movimento chegou à lista dos mais vendidos e foi exposto nas lojas ao lado de best-sellers de Dan Brown e do chef Jamie Oliver. Até abril, já haviam sido vendidos 25 mil exemplares – e outros 25 mil foram doados.

Batist e os pais do “Crescer sem celular” defendem que estão devolvendo às crianças algo que as empresas de tecnologia roubam delas: o tempo da infância, ou mais de quarenta horas por semana que podem ser gastas em diferentes atividades. “Mais da metade dos adolescentes holandeses têm medo de fazer uma simples chamada telefônica tradicional. Alguns não conseguem sequer chamar um táxi sem um aplicativo”, diz Batist. “Pediatras, psicólogos, médicos repetem o mesmo: as crianças precisam de conversas olho no olho, precisam aprender a interpretar expressões faciais, a reagir quando um amigo diz algo com que não concordam. Habilidades sociais não se desenvolvem por meio de emojis, mas sim na convivência direta durante a infância. O celular e as redes sociais impedem as experiências reais, as interações humanas.”

Dois anos depois de fundarem o “Crescer sem celular”, Danielle Batist e outros cinco pais agora trabalham em tempo integral no movimento, que conta com centenas de voluntários em todos os 342 municípios do país. A jornalista defende que a Holanda adote a proibição das redes sociais, como ocorreu na Austrália. “No ano passado, quase ninguém apoiava a proibição para menores de 16 anos. Mas hoje todas as pesquisas mostram que 80% dos pais holandeses aprovam. Até os adolescentes e a chamada geração Z, a primeira que nasceu na era digital, querem o limite de idade. Eles são os primeiros a dizer que não dariam um celular aos filhos”, diz ela. “Se a minha filha não pode ter cartão de crédito, não pode comprar uma passagem aérea nem jogar num cassino online porque é menor, as empresas de tecnologia têm que ser obrigadas a fazer uma verificação de idade para as redes sociais.”

A Austrália foi o primeiro país do mundo a proibir o acesso de menores de 16 anos às redes sociais. A lei, promulgada em dezembro, já enfrenta desafios: no fim de março, o órgão regulador da internet no país divulgou que 1 em cada 5 adolescentes ainda usava as redes sociais e abriu investigação contra Facebook, TikTok, Instagram, YouTube e Snapchat. Se comprovada a irregularidade, cada uma das empresas deverá pagar multa de 49,5 milhões de dólares australianos (cerca de 177 milhões de reais).

Os países europeus vão na mesma direção que a Austrália. Em fevereiro, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, anunciou que o governo pretende proteger as crianças do que chamou de “faroeste digital”, proibindo o acesso de menores de 16 anos às redes sociais e obrigando as empresas de tecnologia a implementar sistemas de verificação de idade. Na França, a discussão já está mais adiantada, tendo o Senado e a Assembleia Nacional aprovado versões diferentes de uma lei que proíbe o acesso das redes sociais a menores de 15 anos. O presidente Emmanuel Macron é forte defensor da proposta e declarou que “as emoções das crianças e adolescentes não deveriam estar à venda nem ser manipuladas por plataformas americanas e algoritmos chineses”. A União Europeia também defende regras mais rígidas: o Parlamento europeu recomendou a proibição para menores de 13 anos, e o acesso dos 13 até os 16 anos apenas com o consentimento dos pais.

No Brasil, além da lei promulgada em janeiro de 2025 proibindo os celulares nas escolas de ensino básico, o país implementou novas medidas de proteção a menores na internet em março, com a instituição do chamado Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital). Agora, adolescentes de até 16 anos deverão ter suas contas nas redes sociais vinculadas a um responsável, e as plataformas terão que exigir uma verificação de idade confiável para impedir que menores de 18 anos acessem conteúdo inadequado.

Batist diz que o lobby das empresas de tecnologia está cada vez mais preocupado com as iniciativas de controle das redes sociais. “Nos primeiros seis meses, eles não nos levaram a sério, mas agora deixamos de ser vistas como mães paranoicas, e os políticos e a Meta nos chamam para conversar”, conta ela. “Quando fomos recebidos pelo governo no ano passado, levamos uma carta com a assinatura de 3 mil médicos e cientistas, defendendo 14 anos como idade mínima para celulares e 16 para redes sociais.” No início, apenas o Ministério da Educação se envolveu com a questão, motivado pela queda no desempenho escolar. Depois, a situação também chamou a atenção do Ministério da Saúde, por causa dos impactos na saúde mental e do aumento da obesidade infantil e da miopia. Agora, até o Ministério da Economia entrou no debate, preocupado com o tipo de força de trabalho que a Holanda terá no futuro, com uma geração cuja atenção está tão fragmentada. “Não podemos repetir o erro que cometemos em relação à indústria do tabaco e esperar mais vinte anos, enquanto vemos as crianças sofrerem as consequências”, diz Batist. “Que infância queremos para os nossos filhos? A resposta não é individual. Tem que ser coletiva, como país.”

A relação dos jovens com os celulares preocupa os holandeses tanto quanto a das crianças. Uma pesquisa da Universidade de Amsterdã apontou que 60% dos jovens sentem que as redes sociais afetam negativamente sua saúde mental, sobretudo as adolescentes entre 13 e 18 anos, que são as que mais sofrem com bullying digital. Metade dos holandeses entre 12 e 25 anos afirmou já ter sofrido algum tipo de abuso ou assédio sexual online.

Foi por esse motivo e para entender melhor o comportamento dos jovens online e ajudá-los a desenvolver uma relação mais saudável com a tecnologia que a Prefeitura de Amsterdã criou o programa Young Netizens (Jovens internautas). Como parte da iniciativa, promoveu, entre setembro de 2025 e março deste ano, a exposição ATTACHED (agarrado ou preso) para retratar a relação da juventude da cidade com os celulares e as redes sociais. Em um depoimento que faz parte da mostra, a jovem Kiara, de 19 anos, diz: “Eu não uso as redes sociais porque elas nunca me fazem feliz. Eu me pergunto por que todo mundo não para de usá-las. Parece que todo mundo odeia o próprio telefone e se sente inseguro em relação às redes.” Em outro depoimento, Darryl, de 18 anos, confessa: “Acho que estou usando muito meu telefone.” Ele passa de dez a doze horas por dia no celular, e seu objetivo profissional é criar conteúdo para as redes sociais, como o TikTok, onde gasta a maior parte do tempo.

De acordo com Leonore Snoek, coordenadora do Connect, o laboratório de design da prefeitura, o objetivo é estimular a reflexão. “Conheci uma jovem que fica dezoito horas por dia no celular. A conexão dela com o telefone passa a ser o relacionamento mais importante da sua vida. Queremos que os jovens tenham consciência do tempo que ficam conectados, reflitam sobre essa relação e se questionem se estão ou não no controle.” A própria designer, que tem 33 anos, reconhece as dificuldades para estabelecer limites: dorme com o celular no quarto e costuma começar o dia verificando as notícias no telefone. “Sinto como se meu cérebro tivesse sido sequestrado.”

Snoek diz que compreender o ambiente digital em que os jovens vivem é fundamental para a gestão urbana. “O que acontece online transborda para a vida da cidade – na violência entre crianças, nos conflitos escolares, na delinquência. É preciso políticas públicas para proteger e oferecer às nossas crianças ferramentas que as façam navegar com mais segurança neste mundo digital.”

A preocupação com o uso excessivo do celular também mobilizou os designers Marcel Schouwenaar, de 42 anos, e Puck Siemerink, de 40. Os dois são de Roterdã, segunda maior cidade da Holanda, e se conheceram quando estudavam desenho industrial na universidade. Anos depois, se reencontraram. Enquanto aguardavam os filhos no pátio da escola, começaram a discutir o que poderiam criar juntos para ajudar crianças e jovens a desenvolverem hábitos mais saudáveis e uma relação mais equilibrada com o mundo digital.

Em 2024, Schouwenaar e Siemerink fundaram o coletivo Scroll Scroll Scroll (Role, role, role) e desenvolveram o jogo Blijf Jij de Baazzz? (Você ainda manda?), que incentiva pais e filhos a reduzirem o uso de celular, especialmente à noite, substituindo-o por um despertador no quarto. “As crianças dormem com o telefone no quarto, acordam durante a noite, mexem no aparelho, tentam voltar a dormir, não conseguem, voltam a mexer no celular, caem em um ciclo vicioso. Às duas da manhã ainda estão acordadas. E, ao acordar, a primeira coisa que fazem é pegar no telefone”, descreve Schouwenaar.

Nas entrevistas que os designers conduziram antes de criar o jogo ficou claro para eles que o problema não era só das crianças e jovens. Os pais também não conseguiam controlar o uso que fazem do celular e não sabem como falar sobre isso com os filhos. “Então, tive a ideia do jogo, que consiste em nove desafios para serem enfrentados em família, durante uma semana”, conta Siemerink, mãe de três crianças entre 4 e 9 anos. Os desafios incluem ficar um dia sem redes sociais, desligar todas as notificações, permanecer em ambientes ao ar livre, longe do celular, e usar o mínimo possível o aparelho.

Durante o jogo, pais e filhos verificam todas as noites quanto tempo passaram no celular e conversam sobre isso. Quanto menos usam o aparelho, mais pontos ganham. No fim de sete dias, vence quem passou menos tempo conectado. O maior valor da brincadeira é estimular o diálogo. “Esta é a magia. O jogo cria um espaço de conversa entre pais e filhos que não tem o tom de sermão”, afirma Schouwenaar. O primeiro protótipo foi testado com oito famílias.

O segundo passo do coletivo Scroll Scroll Scroll foi desenvolver uma nova versão do jogo em colaboração com pesquisadores da Universidade Livre de Amsterdã especializados em distúrbios do sono, um problema que afeta mais da metade dos adolescentes na Holanda. Na nova versão, há bônus para quem cumpre desafios relacionados ao sono: não dormir com o telefone no quarto, evitar telas entre 21 e 7h, e parar de usar dispositivos pelo menos uma hora antes de dormir. O jogo vem sempre acompanhado de um despertador.

Os dois filhos de Schouwenaar já têm celulares. Os três filhos de Siemerink, ainda não – e ela foi uma das mães que aderiram ao pacto do movimento “Crescer sem celular” de adiar os celulares até os 14 anos. “Concordamos em discordar”, brinca Schouwenaar a respeito de sua amiga. Ele vê com preocupação proibições e leis como a que a Austrália adotou. “Não adianta os pais proibirem os filhos de usar o celular se eles próprios passam o tempo todo no aparelho. Se nós, adultos, não mudarmos, nada vai mudar. Se os pais não são capazes de se desconectar, os filhos vão querer participar também. É preciso ser o exemplo do comportamento que queremos ver.”

Desde outubro, a nova versão do jogo Você ainda manda? foi incluída no programa Charge Your Brainzzz (Recarregue o seu cérebro), da Universidade Livre de Amsterdã, um dos primeiros no mundo a trabalhar com escolas, adolescentes e base científica para pesquisar as condições do sono entre os mais jovens. “Já trabalhávamos com manuais para as crianças e tínhamos sessões de orientação para os pais, mas eles precisavam de mais ferramentas”, diz a pesquisadora Maartje van Stralen, que desde 2018 coordena o “Recarregue o seu cérebro”. O jogo está sendo testado com alunos do primeiro ano do ensino médio de três escolas das cidades de Amsterdã, Lelystad e Medemblik. Cem estudantes vão participar do projeto, que, até o final do ano, vai abranger cidades de todo o país. “É chocante e desconfortável para muitos pais perceberem, quando jogam, que estão tão agarrados quanto os filhos ao celular, e podem ser a razão por que as crianças estão tão conectadas”, afirma a pesquisadora Brigitte Schaap, que trabalha com os pais e filhos que participam do projeto-piloto.

Duke van Leeuwen, de 12 anos, estuda na primeira escola onde as pesquisadoras testaram a nova versão do jogo, em Medemblik. Ele tem dois irmãos, um de 9 anos e outro de 14. Sua mãe, Dorien, conta que a principal mudança ocorrida depois que jogaram foi que ninguém leva mais o telefone para o quarto. “Estou dormindo melhor, e acho que o jogo é muito bom para quem passa muito tempo no celular”, diz Duke, que usava o aparelho de 7 a 8 horas por dia. “Agora, acho que passo umas seis horas. Antes eu passava mais tempo no meu celular do que brincando lá fora.” Sua mãe conta que é difícil evitar que as crianças recorram ao celular durante o inverno, quando está frio fora de casa. Mas reconhece que o jogo mudou o comportamento do filho e a deixou mais consciente de quanto tempo ela mesma passa ao telefone. “Duke falava mais palavrões antes de participar do projeto e agora está mais calmo. Aliás, senti que meus três filhos ficaram mais calmos. O jogo era muito divertido, porque é uma competição. Todo dia de manhã acordávamos para ver quem tinha mais pontos.” A família inteira participou, e Duke foi o que ficou menos tempo no celular, derrotando os dois irmãos e os pais.

O celular afeta o sono de várias maneiras, explica Van Stralen, especialista no assunto. “Os vídeos do TikTok são muito rápidos e estimulam bastante o cérebro. As notificações durante a noite e a madrugada são outro problema.” Segundo uma pesquisa realizada nos Estados Unidos, mais da metade dos jovens recebe em média 237 notificações por dia, e 60% deles continuam a usar o celular entre meia-noite e cinco da manhã. “A rolagem infinita, as notificações, os vídeos que começam automaticamente, tudo isso é dopamina para o cérebro e estimula um comportamento compulsivo. É muito viciante. Nós realmente precisamos que os jovens tirem o celular do quarto para que possam dormir, daí a importância do despertador. Mesmo uma redução de apenas 15 minutos de exposição ao celular já é benéfica para o cérebro”, diz Van Stralen. “Nossa missão é trabalhar para termos uma geração que consiga descansar.”

No Offline Club, em uma das mesas do Café De Whit, um alemão, uma russa, uma holandesa e uma estoniana conversam animadamente. O silêncio da primeira hora de leitura foi substituído por um burburinho generalizado. O cofundador do clube, Jordy van Bennekom, pergunta se alguém tem dicas de como se desconectar. A jovem que tinha escolhido se sentar afastada de nós sai do seu canto para dizer que apagou o Instagram do celular e, como no computador a visualização da rede social é ruim, ela quase não acessa mais. Outro participante conta que, para se concentrar, comprou por 100 euros (cerca de 600 reais) uma assinatura vitalícia de um aplicativo que bloqueia sites e plataformas por certo período. A noite de leitura vai terminando e, aos poucos, o “hotel de celulares” esvazia. Será que, ao cruzar a porta, tudo volta a ser como antes?

Três semanas depois, quase 1,5 mil pessoas lotaram o Museu Van Gogh, em Amsterdã, para uma noite sem celulares em parceria com o Offline Club. Foi a primeira vez que uma instituição tão conceituada reservou todo o seu espaço para uma experiência de detox digital. Os designers Marcel Schouwenaar e Puck Siemerink, do Scroll Scroll Scroll, se juntaram à iniciativa e decidiram testar uma ideia: criaram um “placebo de celular”, como eles dizem, feito de uma placa fina de acrílico fluorescente. A placa tem o formato de um celular e é acompanhada de uma caneta tipo marcador.

No início, ninguém sabia o que fazer com aquelas placas de neon. Aos poucos, a hesitação deu lugar à invenção: alguns começaram a escrever e desenhar nelas, reproduziram pinturas de Van Gogh, jogaram forca, e houve até quem trocasse números de telefone. Embora não saibam exatamente como interpretar o experimento, os designers ficaram impressionados com a criatividade de quem participou. Eles talvez não consigam explicá-lo ainda, mas já chegaram a uma conclusão: quanto mais nos desconectamos, mais espaço e tempo surgem para criar.


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Jornalista, chefiou o escritório da Globo em Nova York e foi diretora executiva do jornal português Público. É autora do livro O vento mudou de direção: o Onze de Setembro que o mundo não viu (Fósforo). Dirigiu o documentário Sérgio Vieira de Mello: a caminho de Bagdá