esquina
Pedro Tavares Abr 2026 23h41
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Os trabalhos na Câmara dos Deputados no dia 15 de abril, quarta-feira, se estenderam até perto das 22 horas. Lá pelas oito da noite, porém, quase não se viam deputados do PL na Casa, onde o partido tem a maior bancada. No plenário, apenas Carlos Jordy, do Rio de Janeiro, e Capitão Augusto, de São Paulo, representavam a sigla na discussão das pautas.
Dezenas de parlamentares do PL haviam trocado o final da sessão na Câmara por uma sessão de cinema no shopping Iguatemi Brasília: a pré-estreia para convidados do documentário A colisão dos destinos, sobre a vida de Jair Bolsonaro. O título grandiloquente atraiu pelo menos 50 dos 98 deputados federais da bancada. Também foram à sessão cinco senadores do partido: Magno Malta (ES), Carlos Portinho (RJ), Jorge Seif (SC), Jaime Bagattoli (SC) e Izalci Lucas (DF).
O filme é o primeiro longa-metragem do diretor Doriel Francisco, de 47 anos, formado em artes cênicas pela Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, em Brasília. Ele nasceu no povoado baiano de Baixãozinho, que faz parte do município de Campo Alegre de Lourdes, onde o presidente Lula teve 85% dos votos no segundo turno de 2022, contra 15% de Bolsonaro. Na pré-estreia, sete irmãos do diretor entraram em um cinema pela primeira vez. “Eu não trato o filme como um filme político. Eu trato como um filme cultural”, disse Francisco.
Ele estava animado com a exibição. “Tenho uma boa aproximação com a família. E aí eles me deram essa missão, e essa missão está bem cumprida”, disse Francisco à piauí. Mas não se via na sala de cinema nenhum dos familiares de Jair Bolsonaro, até que apareceu um agregado: o cunhado Carlos Eduardo Torres, irmão de Michelle Bolsonaro, pré-candidato a deputado pelo PL no Distrito Federal (ele também se ofereceu alguns dias atrás como cuidador de Bolsonaro na prisão domiciliar, oferta que o STF rejeitou, argumentando que Torres não tinha capacitação técnica para a tarefa). O ex-deputado Eduardo Bolsonaro e o hoje deputado Mario Frias (PL-SP) aparecem nos créditos como autores do argumento do filme, mas nenhum dos dois compareceu à exibição. Eduardo porque está encastelado nos Estados Unidos, com medo de voltar ao Brasil e ser preso. Frias encontrava-se internado em um hospital em São Paulo para tratar de uma obstrução de vasos sanguíneos no abdômen.
Na escada de acesso à sala de cinema, o deputado Helio Lopes (PL-RJ) – conhecido como Helio Negão – saudou os presentes. “Boa noite a todos. Estou cumprimentando agora porque depois que apagarem as luzes ninguém vai me enxergar”, disse, arrancando risadas dos colegas. Militante, o deputado e delegado Éder Mauro (PL-PA) disse, antes da sessão: “O filme com certeza vai mostrar uma história de alguém que veio através da internet e se tornou presidente da República enfrentando o sistema.”
Antes que as luzes da sala fossem apagadas, um mestre de cerimônias convidou os presentes a rezar um Pai-Nosso pelo ex-presidente em prisão domiciliar desde 27 de março. Na sala lotada, com 222 lugares, todos se levantaram para a oração. Mal tinham dito “Amém”, dispararam: “Viva o Brasil! Viva Bolsonaro!”
A exibição começou, e o deputado mineiro Lafayette de Andrada, ex-Republicanos e recém-filiado ao PL, cochichou à piauí: “Está vendo? O filme não tem nada dessas coisas da Lei Rouanet.” De fato, não tem, mas em 2024, quando as gravações estavam sendo finalizadas, o deputado federal Túlio Gadêlha (ex-Rede-PE, agora no PSD) denunciou à Procuradoria-Geral da República que o gabinete de Mario Frias, então ministro da Cultura, fez repasses de verba parlamentar para a Dori Filmes, a produtora do documentário, o que constitui improbidade administrativa.
Notas fiscais a que a piauí teve acesso documentam seis remessas para a produtora, somando cerca de 22 mil reais. A apuração da denúncia pela Polícia Federal ainda está em curso. Francisco não quis informar sobre o custo total do filme, mas diz que vendeu um carro por 54 mil para ajudar na produção.
A colisão dos destinos começa pela infância de Jair Bolsonaro, narrada sobretudo por seus irmãos. Imagens de álbuns de família pipocam na tela, acompanhadas de uma trilha sonora típica de vídeos motivacionais. Depois de um suspense de cerca de 10 minutos, o ex-presidente dá seu depoimento pela primeira vez, o que despertou reações efusivas do público. “Que saudade!!”, falou um espectador. “Uhuuu! Lindo!”, bradou alguém.
Às 21h30, meia hora depois do início do filme, outro grito: “Votação nominal!” Em seguida, uma pessoa deu a orientação: “PL vota sim!” Era o aviso de que, no plenário da Câmara, estava aberta a votação de um projeto de lei complementar que prevê a isenção de imposto para a Copa do Mundo Feminina da Fifa de 2027, a ser realizada no Brasil. No escurinho do cinema, os deputados sacaram seus celulares para votar por meio de um aplicativo da Câmara, o Infoleg.
As sequências finais do filme, exagerando no melodrama, contam o episódio da fatídica facada em Juiz de Fora, com cenas inéditas de Bolsonaro no hospital onde foi internado em Minas Gerais. Uma delas mostra o então candidato à Presidência dentro de uma ambulância, sendo transferido para São Paulo, enquanto ele diz: “Obrigado, Deus, por ter botado os médicos na hora certa, na véspera de um Sete de Setembro. Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.” Em seguida, irmãs do ex-presidente falam sobre o falecimento da mãe, que morreu em 2022, aos 94 anos, sem ter tomado conhecimento da facada no filho. Finalmente, o longa chega ao desfecho, com imagens de Bolsonaro liderando motociatas e participando de manifestações antes da eleição de 2022. Apesar de saber que essa história não teve um final tão feliz assim, a plateia aplaudiu de pé.
A colisão dos destinos estreia no país em 14 de maio e nenhuma autoridade na sala disfarçou que se trata de uma peça de propaganda eleitoral. “Eu farei pré-campanha com esse documentário nos municípios do meu estado”, disse o deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), líder do PL na Câmara, na saída da sessão. Não será a única publicidade bolsonarista para este ano nos cinemas: em alguns meses, estreia Dark horse (expressão inglesa usada quando uma corrida acaba em “zebra”). É uma cinebiografia de Bolsonaro, representado pelo ator americano Jim Caviezel. “Com essas duas produções, a gente está provando que, diferente do que sempre acusaram a direita, nós valorizamos a cultura”, acrescentou Cavalcante.
Para a exibição especial, o corredor que dá acesso às salas de cinema do Iguatemi Brasília foi dividido em dois. No lado esquerdo, ficou a turma que iria assistir ao filme de cerca de 70 minutos sobre Bolsonaro, em uma longa fila contornando a banca que oferecia gratuitamente sacos de pipoca e refrigerante aos convidados. No lado direito, circulavam os espectadores que foram assistir à ficção científica Devoradores de estrelas ou ao relançamento do primeiro filme da saga Crepúsculo.
A divisão parecia providencial, mas não impediu uma verdadeira colisão de destinos na entrada da sala. Por volta das 20h40, antes que a exibição do documentário bolsonarista começasse, um casal de jovens passou na frente da sala de cinema fazendo gestos ofensivos e gritando: “Fascistas! Fascistas!” Uma jovem mais afoita proclamou: “Vocês acabaram com o Brasil.”
Em resposta, dois rapazes partiram em defesa de Bolsonaro: “Vai estudar! Vai lavar louça!” Rapidamente, a algazarra tomou conta do saguão do cinema. O thriller político durou cerca de 40 segundos.