A influenciadora Virginia Fonseca, do paraíso das redes às investigações da PF - CRÉDITO: REPRODUÇÃO DO INSTAGRAM
A influenciadora Virginia Fonseca, do paraíso das redes às investigações da PF - CRÉDITO: REPRODUÇÃO DO INSTAGRAM

anais da internet

A TIGRESA DOS ALGORITMOS

A influenciadora Virginia Fonseca, do paraíso das redes às investigações da PF

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A chegada da influenciadora Virginia Fonseca ao Senado Federal foi tumultuada. De braços dados com o então marido Zé Felipe, filho do cantor Leonardo, e acompanhada do advogado criminalista Michel Saliba, ela precisou driblar a multidão de jornalistas e fãs que se acotovelavam nos espaços próximos à sala de audiência da CPI das Bets. Como se tivesse saí­do para um passeio no parque, Virginia estava de cabelos soltos e óculos, sem maquiagem, e vestia um moletom preto com a foto da filha Maria Flor estampada na blusa, junto com a frase em linguagem infantil “Floflo biuta”.

Tudo dava uma aura de informalidade à sua presença no Congresso Nacional, depois de convocada pela senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) para que explicasse o seu papel na divulgação de apostas online. Apesar do estilo casual da influenciadora na CPI, ela e sua família sabiam que o assunto era sério. Era maio do ano passado. O sogro Leonardo havia telefonado para o senador Jorge Kajuru pedindo que pegassem leve com a nora. Mas não só ele. “Chegou aos meus ouvidos que Leonardo poderia querer falar comigo”, conta Thronicke, que foi relatora da CPI. “Disse para ele não perder tempo, porque eu não ia atender.” Virginia chegou munida de um habeas corpus concedido pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, que lhe dava o direito de não responder perguntas que pudessem incriminá-la.

Sua convocação para comparecer à CPI ocorreu pouco antes da revelação publicada pela piauí de que o contrato da influenciadora com a Esportes da Sorte previa o chamado “cachê da desgraça alheia” – ela recebia 30% do montante que os apostadores perdiam no jogo. Em razão disso, o “cachê da desgraça alheia” tornou-se um dos assuntos da CPI. Ao depor, Virginia disse não saber da epidemia de dependência e endividamento provocada pelas bets no Brasil e negou lucrar com a má sorte dos seguidores-apostadores. “Nunca recebi 1 real a mais do que o contrato de publicidade que fiz por dezoito meses”, declarou. “Era um valor fixo. Se eu dobrasse o lucro, eu receberia 30% a mais da empresa, mas isso não chegou a acontecer.” Como as casas de apostas sempre lucram com a perda dos apostadores, a explicação de Virginia parecia apenas um jogo de palavras.

Na CPI, tão à vontade quanto em suas lives da Wepink, a marca de cosméticos da qual é sócia, Virginia cativou os congressistas. “[Ela é] um fenômeno da internet. Conheço na medula, na essência”, disse o senador Jorge Kajuru (PSB-GO) durante a audiência, que ainda acontecia quando o senador Cleitinho (Republicanos-MG) pediu para gravar um vídeo com a influenciadora para enviar à sua família.

A carreira de Virginia nas bets tem sido exitosa. O primeiro vídeo que postou no Instagram promovendo a Esportes da Sorte, da qual era contratada, atraiu 120 mil apostadores em janeiro de 2023. No ano seguinte, ela mudou de casa de apostas. Foi contratada pela Blaze. Depois de comparecer à CPI, Virginia resolveu adotar uma medida: deixou de promover links de tigrinhos e afins. Mas a providência talvez tenha sido mais cosmética do que efetiva. Afinal, ela continua divulgando “apostas esportivas” de bets, que contam com centenas de joguinhos de cassino.

Envolvida por grande expectativa quando foi criada em novembro de 2024, a CPI das Bets terminou em 12 de junho de 2025 com um resultado frustrante. Pela primeira vez na última década, o relatório final de uma CPI foi rejeitado no Senado, depois da ofensiva do lobby das bets. Com 541 páginas, o parecer da relatora pedia o indiciamento de dezesseis pessoas, entre elas, Virginia Fonseca. Havia, de fato, muito a apurar.

Durante os sete meses de duração da CPI, os parlamentares examinaram informações sensíveis e esclarecedoras, como os Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs), produzidos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). A piauí também examinou os RIFs, que vinham sendo mantidos em sigilo, e constatou que as movimentações bancárias da influenciadora levantam uma série de questionamentos. Em razão do conteúdo dos RIFs, Virginia, embora tenha se livrado da CPI, passou a ser investigada pela Polícia Federal. A investigação se destina a apurar a legalidade das operações financeiras da influenciadora e suas empresas, bem como a origem dos recursos movimentados, a eventual prática de crimes financeiros, fiscais e de lavagem de dinheiro.

Chama a atenção o RIF 125224, que traz uma comunicação do Banco Santander ao Coaf a respeito de transações suspeitas na conta da Talismã Digital, a empresa de Virginia e Zé Felipe que atuava com mídias digitais. Entre março e setembro de 2024, a Talismã Digital recebeu 22,4 milhões de reais. Desse montante, 21,4 milhões foram provenientes de 44 transações feitas via Pix, e 1 milhão, de 18 transferências via TED. A suspeita gira em torno do principal depositante do dinheiro, a AMP Pay Marketing e Negócios. A empresa transferiu 17,7 milhões de reais por meio de cinco remessas via Pix. O Santander preocupou-se porque, mesmo com essa transferência fenomenal, a AMP Pay está registrada na categoria Simples Nacional, o regime tributário ao qual têm direito apenas os negócios que faturam até 4,8 milhões de reais por ano, ou 400 mil reais por mês, em média. Outro detalhe: além de aparentar não ter “capacidade financeira” para movimentar tal volume, a AMP Pay está localizada em um box comercial no Centro de Itajaí, no interior de Santa Catarina.

Outro RIF traz informações sobre a Wpink Suplementos Nutricionais, que vende whey protein e creatina, empresa da qual Virginia é sócia. Em 18 de março de 2025, o Mercado Pago Instituição de Pagamento comunicou o Coaf sobre operações financeiras realizadas entre 2 de janeiro e 13 de março daquele mesmo ano. Nesse período, os créditos na conta da Wpink somaram 43,6 milhões de reais, os débitos chegaram a 43,5 milhões de reais. O RIF ressalta que, aparentemente, o montante não condiz com o faturamento mensal documentado pela empresa. Por isso, as transações foram enquadradas como “atípicas”.

O Coaf também recebeu do Banco Itaú alertas de movimentações financeiras suspeitas por parte da Savi Cosméticos S.A. (a razão social da Wepink), cujo faturamento anual declarado ao Banco Central é de 75 milhões de reais. No dia 28 de maio de 2024, o Itaú informou sobre um total de 190 transações, realizadas entre 21 de novembro de 2023 a 21 de maio de 2024, somando 502 mil reais, a partir de depósitos feitos em caixas eletrônicos de variadas agências bancárias. O recebimento em espécie é usual no ramo em que a Wepink atua. Mas, para o sistema financeiro, a maneira fragmentada de receber recursos gera suspeita porque pode disfarçar a movimentação e o faturamento da empresa, bem como esconder eventual origem ilícita do dinheiro.

Procurada pela piauí, Virginia escalou seus advogados para explicar as operações. Sobre o alerta emitido pelo Santander a respeito dos pagamentos da AMP Pay para a Talismã Digital, o advogado Felipe dos Santos de Paula disse que as transações que somaram 17,7 milhões de reais se referem ao pagamento de um cachê por  “campanhas publicitárias devidamente contratadas”. Felipe de Paula não deu maiores detalhes sobre o serviço prestado, nem comentou sobre as dúvidas a respeito da “capacidade financeira” de uma empresa localizada num box comercial no interior de Santa Catarina. Disse, porém, que “todas as operações foram regularmente declaradas perante os órgãos fiscais competentes, com emissão das respectivas notas fiscais”.

Com relação ao alerta do Mercado Pago, que levantou a suspeita de que a movimentação financeira da Wpink Suplementos Nutricionais não condiz com o faturamento mensal da empresa, o advogado Dalmo Jacob do Amaral Jr. – que atende à Wpink Suplementos e a Wepink Cosméticos – disse, sem responder exatamente à pergunta: “A empresa utiliza de forma esporádica o mecanismo de antecipação de recebíveis de cartão de crédito, prática lícita e amplamente adotada no mercado.”

Quanto às suspeitas comunicadas pelo Itaú em relação aos pagamentos fracionados em caixas eletrônicos, Amaral Jr. disse que “os depósitos mencionados correspondem à parte das receitas de vendas realizadas diariamente nos quiosques próprios [da empresa], que possuía 11 unidades em 2023 e 13 unidades em 2024”. Por isso, segundo ele, há tantos depósitos fracionados com dinheiro em espécie. Os quiosques de venda dos produtos da Wepink ficam sobretudo em shop­pings, espalhados pelo país, em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.

A Wepink é o principal negócio de Virginia Fonseca. Mas a história da empresa de cosméticos não se inicia com ela – e sua origem é carregada de suspeitas. Começa com o casal paulista Samara Cahanovich Martins e Thiago Stabile, que gosta de repetir para a imprensa sua história de sucesso.

Certo dia, Stabile encontrou sua mulher chorando porque, desempregada e perto de fazer 28 anos, ela estava sem dinheiro para fazer a extensão de cílios com a qual tanto sonhava. Ele sugeriu que Martins fizesse um curso de aperfeiçoamento em design de sobrancelhas, o que, feitas as contas, permitiria a ela faturar cerca de 7 mil reais por mês. Martins gostou da ideia e foi em frente.

Depois de formada, conheceu, enquanto treinava na academia, Aline Mineiro, uma das panicats – como eram chamadas as assistentes de palco do programa Pânico na tv – e Fernanda Lacerda, que interpretava no mesmo programa a Mendigata, uma moradora de rua sexy. Martins se ofereceu para fazer gratuitamente os cílios das duas, que a incentivaram a criar um perfil no Instagram. Foi então que Martins e Stabile deram um nome fantasia para o negócio: Pink Lash. Em 2017, abriram também um salão de estética especializado em design de sobrancelhas e cílios. O salão ficava no bairro do Cambuci, em São Paulo.

O negócio foi um sucesso. Em 2020, entre lojas próprias e franquias, a Pink Lash já contava com 104 unidades. Para promover ainda mais a empresa, foram contratados 52 influenciadores. Virginia não estava entre eles. A aproximação dela com os empresários, entretanto, não demoraria a acontecer. Ela estava entre as estrelas do mundo digital que compareceram à grande festa realizada em outubro do mesmo ano na inauguração de uma nova unidade da Pink Lash na capital paulista.

Essa é a versão oficial da história. Há omissões importantes.

No negócio da Pink Lash, havia outra sócia, além do casal Martins-Stabile: a enfermeira Karen de Moura Tanaka Mori, conhecida como Japa do PCC, como noticiou o site Agência Pública. Ela é a viúva de Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro, que foi executado em 2018 quando respondia pela organização criminosa em Santos. Sua morte foi um acerto de contas dentro do PCC e chamou a atenção da imprensa: uma semana antes, Cabelo Duro tinha assassinado dois colegas da facção. Os episódios sangrentos tornaram Karen Mori conhecida no país.

Mais que sócia, Mori foi a fonte de todo o capital inicial da Pink Lash. Em entrevista à piauí, ela disse ter investido 800 mil reais na abertura da primeira loja da rede, no bairro Cambuci, em 2017. O dinheiro era proveniente da venda de um carro do marido, que ainda estava vivo. Quando indagada se a Pink Lash nasceu com o dinheiro de uma liderança da maior facção criminosa do Brasil, Mori não titubeia: “Sim”, responde. “Eu era uma cliente da Samara [Martins], ela fazia os meus cílios. E, em determinado momento, propus fazermos essa sociedade, sendo 50% para mim e 50% para eles.”

Na divisão de tarefas, coube a Mori cuidar das lojas e desenvolver os produtos, como um removedor de cílios. Martins e Stabile ficaram encarregados do marketing e do contato com as influenciadoras. A parceria comercial do casal Martins-Stabile com Mori evoluiu para uma amizade. “Os dois frequentaram a nossa casa, eram amigos do meu marido e sabiam exatamente o que ele fazia”, diz Mori. Ainda em 2017, para a inauguração de outra loja da Pink Lash, no bairro do Tatuapé, Cabelo Duro emprestou a sua Ferrari para ficar estacionada na porta, como forma de atrair a atenção de clientes.

Como sócia, Mori frequentou eventos oficiais da Pink Lash, inclusive uma feira de beleza em que os garotos-propaganda da empresa foram Belo e Gracyanne Barbosa, em junho de 2019, em São Paulo. Há registros de Virginia Fonseca ao lado de Samara Martins e de Karen Mori em um evento da Pink Lash também em 2019. “Eu acho que encontrei a Virginia algumas vezes.”

A influenciadora conheceu os serviços da Pink Lash pelas redes sociais e foi até lá fazer os cílios em troca de postagens. Martins ficou amiga dela e lhe mandava presentes com frequência. “Em 2020, quando a Virginia se mudou para Goiânia, enviamos uma poltrona rosa de presente. Também pagávamos passagem de avião para a nossa melhor funcionária ir fazer os cílios dela”, recorda Mori.

A relação entre Mori e o casal Martins-Stabile foi se desgastando pouco a pouco, até ela ser escanteada de vez, quando a dupla se associou ao chinês Chaopeng Tan para lançar a Wepink, a marca de cosméticos inaugurada em 2021 cuja linha de perfumes é inspirada em fragrâncias famosas de marcas como Lancôme e Givenchy. “A Samara e o Stabile entraram com o marketing, a Virginia, com a divulgação dos produtos através de suas redes sociais, e o chinês, com o dinheiro”, conta Mori. Cada um tem 33,3% de participação no negócio. Em suas redes sociais, Virginia disse que Chaopeng Tan era dono da rede instagramável de cafés We Coffee, fundada em São Paulo. Mas, de acordo com os dados da Junta Comercial, Tan nunca teve participação nessa rede. “Não quero divulgar nada sobre isso”, disse Tan por telefone, quando contatado pela piauí.

A Pink Lash e a Wepink chegaram a coexistir, até que, no fim de 2021 Martins e Stabile procuraram Mori para uma conversa definitiva. “Eles me falaram assim: ‘Ou você vende a sua parte para a gente ou decretamos falência.’ Eu fui usada de escada, me dispensaram quando os chineses apareceram.” Ficou acertado que Mori receberia 10 milhões de reais. “A Samara e o Stabile estavam usando meu apartamento, então eles  compraram o imóvel por 1 milhão de reais e me pagaram integralmente em espécie”, ela conta. Na matrícula do imóvel, não constam os nomes nem de Mori nem de Martins ou Stabile como proprietários antigos ou atuais. Toda a transação foi feita por empresas que não têm ligação documentada com nenhum dos três.

Mori enviou à piauí fotos que afirma serem de Samara Martins nesse apartamento, onde morou com Cabelo Duro. Ela diz que, no começo de 2024, recebeu 1 milhão de reais em espécie como primeiro pagamento pela venda de sua sociedade na Pink Lash por 10 milhões. “Poucos dias depois, a polícia entrou em casa, e eu fui presa por lavagem de dinheiro e associação ao crime por terem encontrado dinheiro vivo”, diz. Os policiais encontraram 1 milhão de reais e 50 mil dólares em espécie. Hoje, enquanto aguarda julgamento, Mori usa tornozeleira eletrônica. Ela acredita que foi denunciada pelos ex-sócios.

O primeiro produto desenvolvido pela Wepink destinava-se à hidratação do rosto e ao tratamento de espinhas, depois que Virginia apareceu com acne durante sua primeira gravidez. O segundo foi um gloss. O terceiro, um reparador capilar. O investimento inicial na empresa foi de 1 milhão de reais. Desse montante, 40 mil reais foram gastos na festa de lançamento. “Em três horas, vendemos 30 mil unidades”, contou Stabile em um podcast.

O faturamento de 2022 foi espantoso para uma marca recém-criada. “Finalizamos 2022 com 168 milhões faturados na @wepink.br! Só tenho a agradecer, primeiramente a Deus e a vocês! Sem palavras e muita gratidão no coração! 1 ano e 3 meses de empresa, é surreal! E agradecer também aos meus sócios e equipe que se dedicam 24 horas”, escreveu Virginia em uma postagem. “Vocês” são as seguidoras-consumidoras. No ano seguinte, já com mais de cem produtos lançados, de protetor solar a perfume, o faturamento chegou a 325 milhões de reais. Em 2024, cerca de 750 milhões de reais. Em 2025, novo recorde: 1,3 bilhão de reais. (A título de comparação, o Grupo Boticário faturou 38,1 bilhões de reais em 2025, sendo a rede de beleza com mais lojas no mundo: 3.898 pontos de venda, distribuídos por mais de 1,6 mil cidades brasileiras e 16 países.)

A Wepink foi pioneira no país em fazer vendas durante lives nas redes sociais. Virginia entra ao vivo em seu perfil do Instagram oferecendo descontos de 70%. O site da empresa costuma travar de tanto acesso. A empresa já chegou a faturar, em apenas uma hora, 15 milhões de reais em vendas. Stabile explica o sucesso comercial pela capacidade de Virginia de convencer sua audiência a consumir. “Ela está 100% voltada para a Wepink”, disse ele ao site Poder360.

O crescimento da Wepink foi proporcional aos problemas de gestão e de credibilidade, com descumprimento de prazo de entrega, envio de pedidos incompletos e demora excessiva para estorno das devoluções. Em novembro passado, a empresa se comprometeu a pagar 5 milhões de reais por dano moral coletivo, depois de assinar um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público do Estado de Goiás. Foi o resultado de uma ação civil pública que teve como base 120 mil reclamações protocoladas no Procon goiano e no Reclame Aqui. No mês seguinte, mais uma penalidade: depois de receber 5 555 queixas, o Procon de São Paulo aplicou uma multa de 1,5 milhão de reais à Wepink. O Reclame Aqui informou à piauí que o número de reclamações contra a empresa chegou a 90 423 em 2024, caiu para 64 631 em 2025, e soma 12 630 casos entre janeiro e abril deste ano. A Wepink solucionou 98% dos problemas.

A empresa de cosméticos também falha no armazenamento dos produtos. Em abril deste ano, a Vigilância Sanitária de Goiás interditou um galpão logístico da Wepink em Anápolis, de 3,3 mil m². Havia mofo, sujeira e controle de temperatura irregular. Em comunicado à imprensa, a Wepink informou que se tratava de um galpão terceirizado, chamado tp Distribuições de Cosméticos. Porém, não parece tão terceirizado assim: o galpão pertence ao próprio Thiago Stabile e a Peishan Zhen, que tem como um dos de seus endereços o mesmo de Chao­peng Tan, em São Paulo. Zhen também é sócia de Igor Cahanovich Soares, irmão caçula de Samara Martins, em mais dez franquias da Wepink. Em março de 2023, Igor Soares foi preso em Minas Gerais, por porte ilegal de arma. Procurada pela piauí, Zhen não quis se manifestar.

A Wepink informa em seu site ter 298 lojas próprias, sem revelar o número de franqueados. Sabe-se apenas que são muitos, buscando atingir tanto o público mais rico como os menos abastados, razão pela qual instalou quiosques em bairros como Vila Sônia, em São Paulo. Também não existem dados públicos sobre quem são os donos das lojas franqueadas. Mas é possível rastrear alguns. O dono da unidade do Shopping Morumbi, em São Paulo, se chama Alexandre Marcus de Godoy, tem 32 anos e é sócio, entre outras empresas, de duas casas de apostas online (Kings Bet e Aposta Pix, nenhuma das duas regulamentadas para operar no Brasil), de uma operadora de criptomoeda (Platinum Criptomoedas Corretora de Criptoativos) e de uma casa funerária (Benttus Funerária). Numa visita ao quiosque do Shopping Morumbi, a reportagem da piauí foi informada pela gerente que Alexandre Godoy não era mais o dono da franquia – ela se recusou a dizer quem seria o proprietário atual. No site da Junta Comercial de São Paulo, ele segue como proprietário da unidade.

Apesar das numerosas lojas físicas, o principal meio de vendas da Wepink é o e-commerce, no site próprio, com os links postados diversas vezes ao dia por Virginia em sua rede social. Stabile diz que o site representa 98% do faturamento da empresa. De acordo com dados oficiais, são feitas 13 mil compras por dia.

A piauí procurou o casal Martins-­Stabile para esclarecer a gênese da parceria inicial com a “Japa do PCC” e, posteriormente, com o chinês Chao­peng Tan. O casal, no entanto, não quis dar entrevista, nem responder perguntas por escrito. A reportagem também perguntou para Virginia se ela sabia que na origem da empresa que se tornou o embrião da Wepink havia capital de um líder de facção criminosa. Ela respondeu ter conhecido a Japa do PCC quando fez presença vip para um evento da Pink Lash, mas não respondeu claramente se sabia ou não da origem criminosa do dinheiro: “Em relação aos meus sócios, tenho confiança, porque nunca me deram nenhum motivo para eu pensar o contrário, desde quando nos conhecemos. Não associo pessoas a algo apenas por relações comerciais ou por terem conhecido alguém em determinado momento. Nem toda sociedade ou convivência significa conhecimento sobre a vida pessoal ou possíveis envolvimentos de terceiros.”

A mineira Maria Margareth Pimenta, de Governador Valadares, trabalhava como faxineira nos Estados Unidos quando conheceu o luso-­americano Mário Constantino Serrão. Em 6 de abril de 1999, nasceu a filha do casal, Virginia Pimenta da Fonseca Serrão, em Danbury, no estado de Connecticut. Quando a menina estava com 3 anos, a família decidiu vir para o Brasil. O pai abriu um bar em Governador Valadares, e a mãe, uma papelaria. Treze anos depois, todos se mudaram para Portugal.

Por se sentir muito sozinha em casa, a adolescente resolveu criar um canal no YouTube, em abril de 2016, onde contava sobre seu cotidiano. Com longos cabelos castanhos lisos e rosto arredondado, ela tinha carisma e se expressava com desenvoltura diante da câmera. Aos 17 anos, em um dos seus primeiros vídeos, colocou um boné de aba rosa, camiseta estampada de estrelas e apareceu chupando pirulito. O terceiro vídeo que postou, chamado Minha playlist de funk, alcançou um sucesso inesperado, ultrapassando a marca de 100 mil visualizações. Naquela época, o YouTube era a plataforma preferida de jovens. O TikTok ainda não tinha nascido, e o Instagram era focado em fotos. A conta de Virginia tracionou com velocidade. Pouco antes de fazer 18 anos, ela retornou com a família para Governador Valadares. Sua conta no YouTube já contava com 400 mil inscritos.

Dentre as pessoas que apertaram o play para ver Virginia dançar ao som de Mr. Catra, executar treino de pernas e passar delineador estilo gatinho, estava Fábio Gomes Paixão Rosa, conhecido como Fábio Tupete, produtor de eventos e dono da loja de celulares King Cel, em Governador Valadares. Interessado em divulgar seu negócio, ele procurou Virginia no primeiro semestre de 2017 e propôs trocar produtos por publicidade no canal dela no YouTube.

Não foi a única ideia de Tupete. Fazia sucesso na cidade a DJ Tainá Felipe, também jovem e bonita. Ele pensou em replicar o sucesso com Virginia e a convidou para se lançar como DJ, tendo ele como empresário, evidentemente. De início, ela ficou insegura: não sabia manusear uma mesa de som. “Expliquei que isso era o de menos”, conta Tupete, de 41 anos, à piauí. Ele pagou um curso de DJ para Virginia e ela foi em frente. “E eu fui para o mato vender o show dela”, diz o empresário, por telefone.

O primeiro show foi ao ar livre, na cidade de Luisburgo, com 7 mil moradores, a quatro horas de carro de Governador Valadares. O cachê: 8 mil reais. O espaço lotou, e Virginia ainda fez um vídeo de sua estreia como DJ para o YouTube. As apresentações continuaram. “Imaginava fazer de oito a dez agendas por mês”, diz Tupete. Outra pessoa que contatou Virginia, em novembro de 2017, foi o paranaense Pedro Afonso Rezende Posso. Com o codinome de RezendeEvil, ele era uma estrela no YouTube, com 14 milhões de inscritos que acompanhavam seus vídeos sobre games. Também tinha planos de alugar uma casa em Londrina para reunir youtubers e fazer gincanas, com o foco no público infantil e adolescente. “A Virginia recebeu esse convite, passou uma semana lá e voltou”, lembra Tupete. Na virada do ano, ela retornou mais uma vez para gravar com Rezende.

Tupete tinha feito um contrato de trabalho com Virginia que incluía uma multa rescisória de 1 milhão de reais, caso ela não quisesse mais ser empresariada por ele. Quando a influenciadora avisou que se mudaria para Londrina e passaria a ser representada pela ADR, a agência de Rezende, ele abriu mão da multa. “Eu não cobrei, ela me chamava de ‘pai’, tínhamos uma relação familiar. Desde sempre vi que ela tinha uma luz diferente”, diz Tupete. Pouco depois, Virginia engatou um romance com Rezende, que ganhou algum destaque na imprensa local: em 11 de junho de 2019, o jornal Folha de Londrina publicou uma matéria intitulada O amor de Rezende e Virginia, em que ele diz que as principais características dela são “parceria” e “humildade”.

O casal sabia mobilizar a audiência recorrendo a polêmicas e mentirinhas. Em julho de 2019, vestida de regata branca e pouca maquiagem, Virginia publicou no YouTube um vídeo em que dizia ter rompido com Rezende porque ele gravava “com 1 milhão de meninas” e ela não conseguia mais lidar com seu ciúme. Chegou a chorar – antes de revelar que era tudo mentira. “Ele é superfiel, supercompanheiro, jamais tive ciúmes”, retratou-se. O vídeo conta até agora com 1,8 milhão de visualizações. Em dezembro daquele ano, Virginia atingiu 4 milhões de inscritos em seu canal no YouTube.

O verdadeiro rompimento – do casamento e da sociedade –, ocorrido no começo de 2020, acabou não sendo relatado por Virginia. A notícia apareceu primeiro em sites e perfis de fofoca no Instagram, enquanto a Covid se espalhava pelo Brasil e pelo mundo. Um dos efeitos domésticos da pandemia foi ampliar o número de usuários do TikTok, que passou a atrair muita gente disposta a exibir suas dancinhas e coreografias. Virginia, que começou sua vida digital dançando funk, se sentiu em casa na plataforma emergente.

Foi nessa época que um amigo do cantor Zé Felipe mostrou a ele o perfil da jovem agora loira que estava bombando no TikTok. O cantor mandou um “oi” para Virginia via Instagram. Ela contou em uma entrevista que demorou cerca de seis horas para responder. Zé Felipe tinha se lançado na música sertaneja, seguindo a trilha do pai, Leonardo, e já havia feito uma parceria com a cantora Ludmilla. Ele convidou Virginia para participar de uma live que estava organizando. No meio da live, mandou um beijo para a jovem, o que incendiou a curiosidade dos fãs e virou assunto nas redes. Os dois marcaram de se conhecer em Governador Valadares. “Tentamos esconder, mas tinha drones subindo pela casa”, contou Virginia na mesma entrevista. Em 9 de julho de 2020, no Instagram, os dois assumiram publicamente o namoro. “Graças a Deus, o público abraçou. Eu ganhei 2 milhões de seguidores em um dia”, ela disse.

Em menos de um mês, Virginia se mudou para a residência de Leonardo e sua mulher, Poliana, onde Zé Felipe ainda morava, em Goiânia. A influenciadora tinha crescido nas redes compartilhando a sua vida como um reality show. Ela foi autorizada a gravar tudo que quisesse na nova casa, inclusive os moradores. No dia 16 de setembro de 2020, Virginia comemorou a marca de 10 milhões de seguidores no Instagram.

A autorização para filmar se estendeu à fazenda de Leonardo, a Talismã, de 1 mil hectares, na cidade goiana de Jussara. Antes da chegada de Virginia à família, existia ali uma placa alertando: “Proibido fotos e filmagens.” Em sua primeira visita, ela realizou um tour pela propriedade, filmando tudo: as mais de 5 mil cabeças de gado, as quadras poliesportivas, o lago com jet skis, a piscina... E ainda ironizou o aviso na placa. O vídeo Invadi a fazenda do Leonardo!!! foi publicado no YouTube, em 21 de setembro de 2020 (até hoje tem 5,1 milhões de visualizações), tornando-se tema de reportagens em sites de fofoca, música e tevê.

(Em 2024, Leonardo teve seu nome incluído na Lista Suja do trabalho escravo: uma fiscalização do Ministério Público do Trabalho constatou que havia seis empregados rurais, entre eles um de 17 anos, que dormiam em uma casa abandonada, sem água potável, banheiro e camas. O cantor afirmou que era uma área arrendada e não tinha conhecimento de nada, mas pagou uma multa de 500 mil reais. Virginia não postou uma palavra a respeito em suas redes sociais.)

No dia 9 de outubro de 2020, ela anunciou a gravidez da primeira filha com Zé Felipe em seu canal do YouTube, no vídeo Estou Grávida (10,1 milhões de visualizações). Transmitiu para seus seguidores cada fase da gestação: exames, consultas, indisposições, decoração do quarto. O público gostava do que via. Em dezembro, Virginia tinha 15 milhões de seguidores no Instagram e começou a furar a bolha das redes. Em fevereiro de 2021, ela e o marido foram convidados para falar da gestação no programa Encontro, na Rede Globo, então comandado por Fátima Bernardes. Na ocasião, Zé Felipe contou que os dois iriam se casar em uma cerimônia íntima, apenas no civil e dentro de casa. Foi o que fizeram. O casamento teve a presença de alguns familiares, dos padrinhos Samara Martins e Thiago Stabile e da equipe de filmagem. Pouca gente compareceu, mas muita gente assistiu: Enfim, casamos!!!, o vídeo de 25 minutos da cerimônia, foi visto 4 milhões de vezes no YouTube.

O canal de Virginia no YouTube somava 4,6 milhões de inscritos em maio de 2020, no momento que foi anunciada a separação de Rezende. Em setembro, quando já havia assumido o namoro com Zé Felipe, pulou para 5,7 milhões de seguidores. Em dezembro de 2020, quando vivia a gravidez, o canal cresceu para 7,3 milhões de inscritos. Um ano depois, chegou a 10 milhões. Em dezembro de 2022: 11 milhões. Aos poucos, Virginia foi mudando de plataforma, privilegiando o Instagram. No YouTube, ela permanece com 11,8 milhões de seguidores. No Instagram, tem cerca de 56,6 milhões de seguidores. É a segunda mulher no Brasil com maior número de seguidores, atrás apenas da recordista nacional, a cantora Anitta. Virginia e Zé Felipe têm três filhos: Maria Alice, hoje com 5 anos, Maria Flor, 3 anos, e José Leonardo, 1 ano. Todos têm perfis no Instagram. O perfil @mariasbaby mostra a rotina das duas meninas e faz publicidade de roupas infantis, somando 6,4 milhões de seguidores e sem postar desde julho de 2024. O de José Leonardo tem 1,3 milhão de seguidores, mas apenas três fotos e, por enquanto, nenhuma publicidade.

O rompimento de Virginia com Pedro Rezende acabou respingando em Zé Felipe. Em 1° de março de 2021, o ex-namorado, em nome de sua agência, a ADR, havia movido uma ação trabalhista em Londrina contra a influenciadora por quebra de contrato. Pedia 4 milhões de reais de indenização. Em dezembro de 2021, os dois fizeram um acordo judicial. O caso foi cercado de sigilo, mas alguns detalhes insistem em aparecer.

Quando a ADR cuidava dos negócios de Virginia, os valores pagos a ela pelo YouTube iam direto para a conta bancária de Rezende, que depois repassava metade à influenciadora, conforme o contrato firmado entre eles. Depois que Virginia deixou a agência do ex-namorado, os valores do YouTube passaram a ser pagos diretamente a ela, que não repassou a metade que seria do ex-namorado. “Virginia me contou que pagou 2 milhões de multa, mas que ficou elas por elas porque não estava repassando a metade do Rezende do que ela recebia no YouTube. Nessa época, ela tirava entre 500 mil e 1 milhão de reais por mês”, conta Fábio Tupete, que havia sido convidado pela influenciadora para ser o empresário dela novamente. “Demos sete vacas e pagamos a dívida”, resumiu Zé Felipe, sobre o pagamento feito a Rezende, que, procurado pela piauí, não quis falar do caso.

Tupete não durou muito na nova tentativa de empresariar Virginia, segundo ele por ciúmes das pessoas no entorno de Zé Felipe. O empresário mineiro botou a viola debaixo do braço e voltou para Governador Valadares. Virginia e o marido decidiram abrir a Talismã Digital, a empresa que passou a cuidar da carreira dos dois. Antes de partir, Tupete deixou um conselho para Virginia: “Não vai ser panfleteira digital, você precisa ter um negócio seu.”

Virginia Fonseca não chegou a fazer faculdade. Entrou de cabeça na vida de influenciadora – e se tornou a maior de todas. Ela nunca teve roteirista nem diretor de produção. Tudo ou quase tudo que faz nas redes sociais sai de sua cabeça. Ao contrário de muitas influenciadoras que filmam com câmeras profissionais e zelam pela pós-produção dos vídeos, os dela são feitos da maneira mais natural possível, usando o celular. O objetivo é não parecer artificial.

Quem a encontra pessoalmente, tem a impressão de que é mais alta (ela tem 1,67 metro), mais torneada e mais musculosa do que nas fotos. Sua pele é lisa e clara, e o sotaque mineiro soa charmoso. Genuinamente educada, nunca parece arrogante, nem mesmo quando fala de bolsas caríssimas e viagens em jatinhos. Não à toa, tem sido chamada de Xuxa da Geração Z. “Não gosto da comparação porque são pessoas diferentes”, diz Marlene Mattos, ex-empresária de Xuxa. “A Virginia é influenciadora, símbolo dos tempos da internet. Já a Xuxa é uma artista. A semelhança entre elas é o número de 50 milhões: uma em seguidores, outra em discos vendidos sem ser cantora.”

Virginia consegue tornar sua vida pessoal atrativa para milhares de pessoas e os canais de fofoca, sempre chamando a atenção para si mesma. Realizado a pedido da piauí, um estudo feito pela Palver – empresa especializada em monitoramento e análise de redes sociais – examinou 100 mil grupos públicos de WhatsApp e constatou que Virginia ultrapassa alguns líderes da extrema direita que dominam as conversas no mundo digital. Quando ela se separou de Vini Jr., por exemplo, seu nome foi buscado 170% de vezes a mais no Google no Brasil do que o de Flavio Bolsonaro.

O auge de citações de Virginia no WhatsApp foi em 28 de maio de 2025, quando ela se separou de Zé Felipe: 94 menções a cada 100 mil mensagens. “Os números dela são expressivos e se comparam a grandes nomes do futebol e do entretenimento. Para efeito de comparação, Shakira, no dia do show em Copacabana, chegou a 35 menções a cada 100 mil mensagens”, diz Luis Fakhouri, diretor de estratégias da Palver. “Não existe hoje personagem que dê mais audiência do que a Virginia, e depois da separação o interesse cresceu ainda mais. Seu cotidiano como mulher solteira e mãe de três crianças ficou muito interessante para o público. Quando estava casada, a vida estava previsível”, diz Leo Dias, criador de um portal de notícias.

Com seus milhões de seguidores no Instagram, Virginia ocupa hoje o topo de uma profissão que atrai muitos jovens. O Brasil tem mais de 500 mil influenciadores somente no Instagram, de acordo com uma pesquisa realizada pela Nielsen. O dado considera contas superiores a 10 mil seguidores. Uma pesquisa da consultoria Youpix aponta que 3 de cada 4 integrantes da geração Z, as pessoas nascidas entre 1996 e 2010, pensam em se tornar influenciadores. Outro levantamento feito pelas agências Hootsuite e We Are Social mostrou que o Brasil é o segundo país que mais segue influenciadores, num total de 44,3% dos usuários, atrás apenas das Filipinas. Com a fragmentação das mídias, o mercado publicitário migrou em parte das tevês abertas e dos veículos impressos para as redes sociais.

Os influenciadores transmitem aos seguidores uma vida bem-sucedida, próspera e feliz. Podem viajar quando desejam, consumir o que querem e acessar lugares exclusivos. Tudo isso usando o celular como trabalho, sem precisar de um emprego fixo, com horário rígido. O fator central do sucesso deles vem da capacidade que têm de falar diretamente com o público, sem intermediação (como a de uma emissora de tevê), criando intimidade com o seguidor e dando a sensação de ser um amigo ou alguém próximo. Por isso, os fãs celebram o sucesso do influenciador – seja sua conquista financeira, seja uma nova campanha publicitária ou a aquisição de um novo bem de consumo.

As postagens de Virginia, mesmo quando tratam de assuntos banais, raramente têm menos do que 2 milhões de curtidas. Dentre as que mais repercutem, estão aquelas que mostram aspectos de sua vida pessoal e as compras de itens de luxo. Ela virou meme com a expressão “me mimei”, à qual recorre sempre que abre as caixas com bolsas de grife recém-compradas. Em outubro de 2024, ela postou um vídeo mostrando o momento em que abria um presente que deu a si mesma: uma bolsa Birkin, da marca Hermès, avaliada em 500 mil reais. Disse: “Me mimei, estava ansiosa para chegar e finalmente chegou.” Em seu closet há bolsas cujo preço ultrapassa 1 milhão de reais.

Um amigo de Virginia conta que ela e a sócia Samara Martins agitam o mercado de second hand, como são chamados os brechós de luxo. Os gastos maiores das duas acontecem no Mimos no Closet, em São Paulo. “As duas compram bolsas como se compra Kinder Ovo”, diz o amigo, que pediu para não ser identificado. O Mimos no Closet também apareceu nos Relatórios de Inteligência Financeira enviados à CPI das Bets. O ponto de atenção destacado foi a incompatibilidade entre o faturamento declarado pelo brechó, de 1 milhão de reais, e o valor movimentado no período de setembro de 2024 a março de 2025, de 2,5 milhões de reais (nesse intervalo, Virginia gastou 580 mil reais no Mimos no Closet). Procurada pela piauí, Laura Dornellas, sócia da Mimos no Closet, não respondeu.

Apesar de rica e famosa, Virginia ainda não caiu nas graças do mercado de altíssimo luxo – cujo acesso nem sempre se dá pela via do cartão de crédito. “A Hermès vê uma pessoa como ela com certo desdém”, diz uma consultora de luxo, que pediu para não ser identificada, pois não tem autorização para falar em nome da marca. “Ela, então, precisa ficar na fila de espera para adquirir uma nova Birkin, algo que pode levar três anos, mesmo sem ter a garantia de que vai conseguir comprar. Para a cliente da Hermès, essa ostentação de Birkins, como ela faz nas redes, é a coisa mais cafona do mundo.”

Em março deste ano, Virginia foi convidada para se sentar na primeira fila do desfile da Balenciaga, outra marca de luxo francesa, em Paris. “Ela foi por ser uma grande compradora da grife no Brasil, não pelos seus seguidores nem porque estava namorando o Vini Jr.”, diz uma pessoa que a acompanhou na viagem. Na época, Virginia namorava o jogador, que vive na Espanha, uma relação que começou em novembro do ano passado e cujo anúncio nas redes sociais rendeu mais seguidores: ela somava 53,6 milhões em outubro e saltou para 54,1 milhões em dezembro. Virginia viajou para Paris em seu jatinho Cessna Citation Sovereign 680, avaliado em 38 milhões de reais, acompanhada de cinegrafista, maquiador e cabelereiro, e se hospedou, claro, em um hotel cinco estrelas. Toda essa despesa pode chegar a 1 milhão de reais, mas, convertida em postagens nas redes sociais, resulta em mais proventos. Virginia fez posts sobre os jantares dos quais participou, o desfile e uma visita à loja da Balenciaga.

As grifes de luxo costumam convidar para seus desfiles em Paris as compradoras que fazem gastos altíssimos (em geral, mais de 5 milhões de reais por ano em produtos da marca). Uma vez convidada, a pessoa tem acesso às roupas da grife para escolher qual vai usar no dia do desfile. “É o Hunger games das ultrapatricinhas, porque, quem compra mais, dentre as que compram mais, têm preferência de escolha antes”, diz a mesma pessoa que acompanhou a influenciadora a Paris, fazendo alusão ao filme Jogos vorazes. “Tanto que achei que a roupa da Virginia ficou aquém do que ela poderia entregar para a grife [Balenciaga].”

Também o mercado publicitário é cauteloso com Virginia Fonseca, por causa das polêmicas que cria para estar sempre em evidência. “Um anunciante não sabe se, quando uma campanha for ao ar, ela vai estar em alguma polêmica nova”, diz um agente de artistas e influenciadores, que pediu para não ter o seu nome divulgado para não ser afetado em seus negócios. “Por outro lado, o que Virginia faz com a Wepink é o sonho de todo contratante: ela posta link de vendas inúmeras vezes ao dia, todos os dias.”

Outra mancha de reputação junto ao mercado é a sua ligação com o setor de bets e certos recursos de gamificação de seus posts.

Em 2024, emergiu da machosfera digital a figura de Pablo Marçal, coach que ganhou projeção nas redes ensinando aos homens como eles poderiam ficar ricos e escalar montanhas para aprender sobre masculinidade. Marçal disputou a Prefeitura de São Paulo pelo nanico PRTB recorrendo a uma artilharia de fake news e conquistou 1,7 milhão de votos. Antes de sua estreia na arena política, parte da estratégia para crescer nas redes e vender cursos se deu por meio de “concursos de cortes”, inspirado no influenciador Andrew Tate, precursor do movimento Red Pill, uma linha de frente da misoginia. Pelo aplicativo de conversas Discord, Marçal propunha aos seus seguidores que selecionassem trechos de vídeos dele (os tais cortes) e postassem em seus perfis particulares no Instagram ou no TikTok. Era um modelo de gamificação que remunerava os autores dos dez cortes que conquistassem maior número de visualizações e comentários, dando a eles “prêmios” que variavam de 50 reais a 5 mil reais por semana. Marçal inflava os números para estimular o seu exército digital: “Tem gente ganhando 400 mil reais por mês com meus cortes”, disse em um podcast, sem apresentar provas.

Virginia Fonseca recorre a uma estratégia parecida, fazendo com que os seus seguidores produzam conteúdos sobre ela e os espalhem pelas redes. Com a diferença que a recompensa não é dinheiro, mas produtos, status e experiências. Todo início de mês, o perfil Central de Fãs Virginia Fonseca, com 566 mil seguidores no Instagram, posta as coordenadas da vez para que as fãs façam vídeos falando da rotina e das novidades da vida da influenciadora. Quem toma conta da página é Eduarda Almenara, dona de uma empresa que opera redes de artistas e influenciadores. O comando dado no começo do mês de abril às fãs de Virginia foi: “Engaje os posts da Central e faça posts criativos sobre os trabalhos/conteúdos da Virginia.” Todo mês são apontados dois ganhadores cujas postagens conquistaram mais engajamento. “Virginia tem cerca de trezentos fã-clubes”, conta Almenara.

A primeira colocada passa a ter seu perfil de Instagram seguido por Virginia. A segunda receberá apenas alguns likes da influenciadora em seus posts. Outras vencedoras ganham kits com produtos da Wepink, além de serem convidadas para festas e eventos. No Carnaval deste ano, três líderes de fã-clubes da influenciadora ganharam convite (sem direito a acompanhante) para o Camarote Arpoador, da Sapucaí, no dia da apresentação da Grande Rio, escola em que Virginia desfilou. A passagem aérea e hospedagem ficaram por conta das pessoas agraciadas.

Em dezembro de 2024, Virginia fechou um bufê de luxo em São Paulo para comemorar a conquista de 50 milhões de seguidores no Instagram. Pagou passagem e duas diárias em um hotel no bairro da Mooca para cinquenta fãs e seus acompanhantes. “Foi a primeira vez que eu vi a Virginia ao vivo”, contou a líder de um fã-­clube, estudante de direito de 21 anos, que tomou conhecimento da influenciadora em 2019. “Eu passo o dia todo administrando a conta do fã-clube no Instagram, que chega a ter 20 milhões de visualizações mensais.”

Pelo menos uma vez por mês, Jayder Soares, bicheiro e patrono da Grande Rio, sai para jantar com o grupo de amigos formado pelo doleiro Sérgio Mizrahy, sua mulher, Ana Paula, a DJ Rosane Amaral e sua companheira, Ylana Mello de Lima, dona da agência de marketing digital ID Entretenimento. Mizrahy foi preso durante uma operação da Lava Jato no Rio, acusado de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção passiva. Fez delação e descreveu a existência de um esquema de propina na Prefeitura do Rio, o que levou à prisão do prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), em 2020.

Em maio do ano passado, o grupo marcou encontro no restaurante Satyricon, frequentado pela elite carioca. “E agora, quem vai ser?”, perguntou a DJ ao grupo. A dúvida era sobre quem ocuparia o lugar de rainha de bateria da Grande Rio, depois que a atriz Paolla Oliveira anunciou que deixaria o posto. Soares queria uma substituta com carisma igual e que projetasse a escola com a mesma intensidade.

– Por que você não chama a Virginia? – sugeriu Ylana Lima.

– Quem é essa? – perguntou Jayder Soares.

O grupo explicou e mostrou o perfil de Virginia no Instagram. Ylana Lima, a mais jovem da turma, com 27 anos, informou ao bicheiro de 71 anos que hoje as influenciadoras trazem tanta repercussão quanto as atrizes da tevê. “A Virginia é a única capaz de competir de igual para igual com a Paolla quando o assunto é alcance. A Bruna Marquezine seria um ótimo nome, mas ela nunca aceitou. Apesar de ser de Caxias, município da agremiação”, disse Ylana Lima, conforme ela relatou à piauí. Todos na mesa embarcaram na sugestão. Os olhos do patrono brilharam, quando disseram que a Grande Rio tinha de ser a primeira escola de samba a bater 1 milhão de seguidores nas redes sociais.

Com a decisão tomada, o bicheiro pediu ao promoter David Brazil que entrasse em contato com Virginia. Ela aceitou o convite e aproveitou para lançar um perfume da Grande Rio pela Wepink – um mosaico de aromas, como âmbar, baunilha, patchouli e sândalo. Um frasco de 100 ml custava 329 reais. O preço alto não ajudou nas vendas. Segundo fontes da escola de samba, não chegou a arrecadar 1 milhão de reais. Hoje, está sendo vendido a 89 reais.

A influenciadora também comprou um espaço para a Wepink na camisa dos ritmistas da escola, investindo 300 mil de reais como verba de marketing. Bancou ainda parte da festa do Dia das Crianças da escola de samba e fez um churrasco para os membros da bateria, além de distribuir kits da sua marca. Em outubro de 2025, a Grande Rio tinha 793 mil seguidores. Depois do Carnaval, subiu para 1,4 milhão, tornando-se a escola do Rio de Janeiro mais seguida nas redes.

Para o último ensaio aberto antes do desfile, Virginia voou da Espanha – onde foi passar o fim de semana com Vini Jr. – para o Rio de Janeiro. Chegou no fim de tarde de 25 de janeiro passado. Na mesma noite, embarcou para Goiânia em seu jatinho, para reencontrar os filhos.

Nos dias de Carnaval, ela pediu para ir ao Baile da Vogue, no Copacabana Palace, a festa da revista que há anos reúne a elite da moda e famosos em geral. Virginia nunca tinha sido convidada. Quem conseguiu o convite foi Jayder Soares, da Grande Rio, escola que todo ano leva a sua bateria para se apresentar no baile.

Virginia chegou ao Copacabana Palace ao lado de Soares e foi convidada a subir ao palco, onde sambou usando um vestido do estilista Gustavo Silvestre. Na ocasião, a reportagem da piauí se apresentou a ela, informou sobre a realização desta matéria e pediu uma entrevista. “Claro, vamos fazer, sim”, ela despistou. A influenciadora não atendeu aos pedidos de entrevista, mas respondeu por e-mail aos questionamentos feitos pela revista. Naquela noite, todas as postagens da Vogue sobre Virginia no Instagram bateram recordes de engajamento, com mais de 150 mil curtidas, superando as de Sabrina Sato e Grazi Massafera no mesmo baile. O Carnaval também rendeu mais frutos para a influenciadora: um contrato com a cervejaria Itaipava, com cachê de 8 milhões de reais, válido por dois anos.

Em 15 de maio passado, Virginia anunciou o fim de seu namoro de sete meses com Vini Jr. A notícia, coincidência ou não, foi dada por ela às vésperas da convocação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo. O fim do caso dessas duas pessoas famosas – ela com 56 milhões de seguidores no Instagram, ele com 59,7 milhões – funcionou como um tsunami algorítmico, com efeitos em cascata nas redes sociais.

O post no Instagram em que ela contou sobre o namoro com o jogador, em 28 de novembro passado, teve 11 milhões de likes e um total de 44 mil menções nas redes sociais. No mesmo dia, a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro, quando morreram 122 pessoas, teve 43 mil menções, segundo um levantamento realizado por Lilian Carvalho, doutora em marketing e coordenadora do Centro de Estudos em Marketing Digital da Fundação Getulio Vargas.

No mesmo dia em que terminou com Vini Jr. – e ganhou 323 mil seguidores em 24 horas –, Virginia pegou o seu jatinho e, junto com os sócios Samara Martins e Thiago Stabile, viajou para Dubai. Um dos passeios da influenciadora foi em um zoológico, onde ela fez um vídeo beijando um macaco. Na legenda, escreveu: “Que pegada foi essa? (risos).” A imagem chocou muita gente, que a associou a um ato de racismo recreacional. Um dos mais ativos militantes do antirracismo no futebol, Vini Jr. já foi chamado de “macaco” inúmeras vezes nos estádios de futebol. A cantora Anitta curtiu um post em que o ator Yuri Marçal classificava Virginia de “irresponsável”. A atriz Luana Piovani, contumaz crítica da influenciadora, indignou-se: “Meu Deus do céu, o que está acontecendo?”

Virginia foi obrigada a se retratar. Ela disse que “interpretaram totalmente errado” o post (que lhe trouxe 136 mil novos seguidores) e pediu desculpas a quem se sentiu ofendido. Aproveitando a polêmica, passou a postar em seguida links de promoções da Wepink, com um body splash a 28 reais e espumas de banho a 39 reais. No mesmo mês, a Rede Globo anunciou sua contratação. Virginia Fonseca será repórter especial da emissora durante a Copa do Mundo.


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É repórter, com passagens por Veja e O Globo

Repórter da piauí, publicou A Beleza da Vida: A Biografia de Marco Antonio de Biaggi (Abril)