anais do extremismo
Rodrigo Nunes 02 Jun 2026
21 min de leitura
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Ao contrário do que ocorre com figuras como Donald Trump, Javier Milei e o político britânico Nigel Farage, a carreira política de Jair Bolsonaro não esteve ligada desde o início ao que podemos chamar de extrema direita contemporânea. Antes de sua campanha para a Presidência, Bolsonaro não passava de uma relíquia, um representante folclórico de uma nostalgia da ditadura militar que parecia não ter lugar num país redemocratizado. Foi preciso uma turbulência política extraordinária, um declínio econômico repentino e vários anos de crise institucional para transformar esse personagem marginal e um tanto risível em uma liderança política. Também foi necessário o trabalho de um ecossistema crescente de empreendedores políticos e apoiadores de base, incluindo aqueles que conectavam o provinciano Bolsonaro aos temas e preocupações de uma extrema direita internacional emergente.
Como em muitos países, a radicalização dos brasileiros combinava a raiva contra um sistema político tido como incapaz de atender às suas necessidades e impossível de mudar pelos canais usuais com outros sintomas de estagnação e declínio mais amplos: ansiedade com a perda de status, sentimentos de abjeção e humilhação, o medo de perder o lugar no mundo e o temor do futuro. Circulando por circuitos formados por indivíduos que se sentiam excluídos no debate público mainstream, que então emergiam dentro e fora das redes sociais, esses sentimentos e as ideias que a eles respondiam foram produzindo um caldo de cultura do qual a nova extrema direita, com seus bodes expiatórios esquemáticos e soluções simplistas, pôde se apresentar como a tradução política ideal. Finalmente, foi necessária a disposição de setores da elite brasileira para apostar em um candidato que nunca fora testado quando ficou claro que Bolsonaro se tornara o único veículo viável para seus interesses.
Embora seu protagonista fosse inicialmente uma peça algo fora de lugar, o governo Bolsonaro acabaria por demonstrar-se bastante revelador, exibindo em alto contraste algumas características da extrema direita contemporânea que não eram ou ainda não haviam se tornado tão nítidas em outras partes do mundo. Talvez algumas coisas sejam possíveis no Brasil antes de se tornarem possíveis em qualquer outro lugar.
Assim, enquanto o primeiro mandato de Trump foi objeto de uma emulação embaraçosamente devota por parte de Bolsonaro, agora é o segundo mandato do americano que se assemelha ao de seu admirador brasileiro, a começar pelo fato de que o principal critério para a seleção de ministros parece ser a hostilidade dos pretendentes ao cargo em relação a qualquer tipo de política tradicional em sua área e a sua determinação para desmantelar o aparato executivo do próprio ministério que lhes cabe. E, se o caos administrativo e a inação em áreas-chave da primeira administração Trump pareciam consequência da inexperiência e da falta de rumo político, agora, na segunda, aparecem muito mais evidentes como método, tal como no governo Bolsonaro: um método que consiste em manter a base engajada e as manchetes de jornais ocupadas, enquanto o trabalho de demolição institucional continua em segundo plano e cada vez mais áreas são tomadas pela iniciativa privada e por grupos de interesse previamente organizados para o ataque. Em sua arma favorita, as tarifas de comércio internacional, Trump achou uma ferramenta perfeita para esse tipo de serviço: algo que faz parecer que grandes decisões estão sendo tomadas, mesmo quando não há muita lógica ou plano de longo prazo. Não se trata sempre de permitir que as forças do mercado façam seu trabalho desimpedidas, embora com certeza seja também isso, especialmente em setores como saúde e educação. Em outros, como energia e tecnologia, o governo está intervindo ativamente não contra – isto é, de maneira redistributiva –, mas na própria direção em que o vento sopra. “Eles estão escolhendo vencedores e perdedores. Não há dúvida disso”, conforme observou o diretor de um think tank de direita mais comprometido que Trump com o livre mercado.
O que esses sinais sugerem é que encontramos a verdade sobre a extrema direita contemporânea não em seus sonhos empreendedorísticos, fantasias de renovação nacional ou desejos de retorno à moral e aos papéis sexuais tradicionais. Embora seja essencial levar a sério essas ideias que movem a sua base, devemos ter o duplo cuidado de não tomar o discurso desses movimentos ao pé da letra, nem tratá-los como se fossem efetivamente instrumentos projetados com o único propósito de entregar o que prometem. Devemos vê-los, ao contrário, como sistemas que servem a múltiplos interesses – dos líderes e seus aliados (nacionais e internacionais), dos empreendedores políticos e dos ativistas de base, de diferentes agentes econômicos –, tendo sempre em mente a máxima do ciberneticista Anthony Stafford Beer: o propósito de um sistema é o que ele faz, não o que ele diz fazer. Isso exige darmos especial atenção às intenções e interesses que os diversos componentes desse sistema podem ter, bem como ao que Theodor Adorno chamou de “falsidade” (phoniness) de todos os envolvidos, mesmo os mais fiéis. Ou seja: é melhor não nos descuidarmos do fato de que todos possuem motivações que nem sempre são declaradas, e que podem muito bem estar buscando resultados ocultos nos objetivos que ostensivamente perseguem.
Aceleração da desintegração é a expressão a que recorro no intento de nomear o que é comum a esse conjunto díspar e inconsistente de interesses, independente das variações nacionais de origem e composição social. É também o que diferencia a extrema direita contemporânea dos esforços de construção nacional empreendidos pelo fascismo histórico. O que pretendo dizer com essa expressão é que, mesmo aqueles elementos que se apresentam como esforços para conter localmente os efeitos desestabilizadores do capitalismo tardio (seja dentro de fronteiras legais ou de limites imaginários, como a família), podem ser mais bem compreendidos se forem considerados como tentativas não de parar ou reverter o movimento histórico, mas de se apropriar de tendências desagregadoras intensificadas pelo neoliberalismo e, mais ainda, pela crise desse sistema, a fim de direcioná-las segundo seus interesses. Mesmo quando declara ser uma resistência contra a força todo-poderosa de um “globalismo” fantasmático, a extrema direita contemporânea está de fato indo na mesma direção para a qual essas tendências apontam, a saber, a do colapso – o colapso da democracia, do universalismo e da inclusão liberais; da igualdade perante a lei, da soberania indivisível, da capacidade do Estado (exceto por algumas funções muito bem definidas), do meio ambiente, da assim chamada ordem internacional baseada em regras. Embora distintos atores da extrema direita afirmem que não é o que estão fazendo, e alguns até acreditem nisso, essa é a resultante de seus esforços e, ao mesmo tempo, a força que os impulsiona.
Assim, por exemplo, enquanto muitos dos que votaram a favor do Brexit entendiam o slogan “retomar o controle” como um retorno do Reino Unido às glórias imperiais passadas, os mentores do plebiscito viam nele o caminho para fazer do país uma “Cingapura no Tâmisa”, de baixos impostos e altamente desregulada, ainda mais exposta ao capital estrangeiro. (A dupla ironia é que isso não apenas era uma leitura equivocada da história do desenvolvimento de Cingapura, altamente dependente da ação estatal, como a União Europeia continuaria podendo bloquear essa ambição mediante a ameaça de negar ao Reino Unido o acesso privilegiado ao seu mercado.) Da mesma forma, a aliança de Trump com as big techs, embora seja motivada por interesses estratégicos nacionais, também envolve entregar ainda mais dinheiro, liberdades e informações sensíveis a atores cujas plataformas e cujo poder de stack[1] estão cada vez menos sujeitos à jurisdição de qualquer Estado-nação. Um campo como o das criptomoedas, no qual o presidente dos Estados Unidos está hoje (literalmente) investindo, reduz drasticamente o poder estatal de fiscalizar a lavagem de dinheiro, as fraudes financeiras e outros tipos de crime.
Da mesma maneira, quando a direita religiosa brasileira e americana aparelha conselhos locais e trabalha para colocar representantes na Suprema Corte, ela não está simplesmente buscando se opor a uma modernidade que ameaça as coordenadas do seu mundo. Está levando adiante a migração do mercado para a política de uma lógica segundo a qual “o vencedor leva tudo”, cuja consequência é um entendimento da democracia que abandona a ideia de tolerância ou proteção das minorias em favor da afirmação unilateral da vontade da maioria (ou daqueles que sabem jogar o jogo de ocupar as instituições). Essa atitude, combinada à sensação de que alguns foram indevidamente protegidos por muito tempo, transforma a governança democrática numa espécie de vingança coletiva: um republicanismo de revanche.
Igualmente, as demandas que a extrema direita faz hoje ao Estado estão despidas de qualquer senso de universalidade, reivindicando explicitamente o direito de alguns serem favorecidos em detrimento de outros. Após passarem décadas ouvindo que não havia o suficiente para todos e que sacrifícios tinham que ser feitos, não é de estranhar que alguns tenham começado a se organizar para garantir que não serão eles os sacrificados. Uma vez aceita como fato, a ideia de que o Estado não pode e, portanto, não deve oferecer proteção a todos acabou por levar a uma situação que, vista em retrospectiva, parece uma consequência previsível: a fronteira entre biopolítica e necropolítica, entre vida protegida e vida desprotegida tornou-se objeto de competição política direta.
Por fim, quando os autoproclamados guardiões da liberdade de expressão na direita apoiam a decisão do governo dos Estados Unidos de autorizar os agentes de fronteira a recusarem a entrada de alguém no país em razão das opiniões que expressou nas redes sociais, eles não estão simplesmente sendo hipócritas. Estão tirando vantagem do fato de que a hipocrisia deixou de ser necessária e foi substituída por um cinismo mais ou menos desbragado. Se antes havia a obrigação de afirmar o universalismo formal das instituições, mesmo enquanto se lucrava com as desigualdades materiais que o solapavam, anos de desdemocratização e descontentamento com a política fizeram com que o se dizia à meia-voz passasse a soar alto.
Ao transformar a legitimidade reduzida e a falta de responsividade em norma, ao mesmo tempo em que criava um desejo por soluções rápidas que saltassem por sobre o sistema de freios e contrapesos, este acúmulo de décadas tornou bem menos chocante a noção de que o poder pode ser abertamente exercido contra certos grupos ou ideias. A extrema direita é a política de um mundo que deixou de seguir o protocolo e abandonou a etiqueta – isso, melhor que qualquer outra coisa, explica por que o liberalismo estilo Barack Obama se tornou uma moeda tão desvalorizada.
Em meio ao naufrágio iminente, diferentes grupos e facções, como num ato de salvatagem antecipada, correm para demarcar para si qualquer espaço que suas capacidades permitam: a cada um de acordo com o que pode pegar. Ao fazê-lo, estão apressando a própria desintegração da qual tiram vantagem. Naturalmente, aqueles que podem pegar mais são os já muito poderosos: as finanças, as big techs, a indústria petroleira e extrativa em geral. Não por coincidência, a direção na qual eles se lançam de cabeça é a do grande acelerador, a mudança climática: como ela pode acarretar enormes perdas para a humanidade, os poderosos buscam criar maneiras de salvaguardar seus lucros no futuro. É verdade que, ao deslocar enormes massas de pessoas, perturbar as cadeias logísticas globais e botar ainda mais pressão sobre instituições assoberbadas, a catástrofe ambiental em andamento colocará muitos interesses em risco. Tanto mais que pode também desencadear conflitos geopolíticos, empoderar atores soberanos não estatais e multiplicar a quantidade de “Estados falidos”. Se tentamos identificar alguma racionalidade nessa aposta de longo prazo, é a de que os poderosos esperam que, quando a situação degenerar de vez, seus interesses venham a estar suficientemente integrados aos aparatos de segurança estatais e não estatais para torná-los pessoal e economicamente intocáveis.
Essa – nunca é demais enfatizar – já é a direção na qual estamos nos movendo. Os que apostam nisso não estão seguindo o chamado ideológico de um “aceleracionismo de direita” ou perseguindo as fantasias de soberania Patchwork propostas pelo blogueiro favorito do Vale do Silício, Curtis Yarvin – em que várias pequenas entidades políticas, microestados corporativos ou cidades-Estado substituiriam as grandes nações. Pelo contrário: são figuras como Yarvin que estão simplesmente dando uma embalagem especulativa a um processo muito mais violento já em curso. Quando ele escreve, por exemplo, que, “se alguém puder construir algo como o Patchwork, mesmo uma cópia minúscula, crua e de Terceiro Mundo do Patchwork, será o fim para os regimes democráticos”, isso pode muito bem ser verdade; mas ignora, apenas, que tal coisa já existe nas periferias controladas por milícias no Rio de Janeiro ou nas partes do México que estão nas mãos de cartéis do narcotráfico.
É por tudo isso que descrevo o horizonte em que a extrema direita se move como o de um estado de natureza diferencialmente distribuído sob gestão privada, e sugeri que algo como um capitalismo de capataz pode acabar por ser uma de suas formas ideais.[2] Esse último conceito nasceu de uma reflexão específica sobre a figura de Bolsonaro e sua imagem de homem forte, com laços não na tecnocracia da ditadura militar, mas nos “porões” do regime, submundo onde ocorria a tortura e germinou o que viriam a ser as milícias de hoje. A ideia era que a trajetória política de Bolsonaro encapsulava tendências mais amplas na relação entre economia, repressão e Estado e, portanto, se prestava bem mais à generalização do que parecia à primeira vista.
“Capataz” refere-se aqui ao fato de que, em colônias de plantation, como o Brasil e o Sul dos Estados Unidos, o policiamento evoluiu a partir da necessidade de conter uma população negra vista como ameaça – primeiro porque escravizada e revoltosa, depois porque livre e marginalizada. O desenvolvimento de um aparato de segurança distinto do Exército está, assim, intimamente conectado à transformação progressiva de uma função econômica privada (o capataz garantindo o bom funcionamento da força de trabalho do proprietário de terras) em uma função pública e política (o policial financiado pelos contribuintes garantindo a ordem civil). Esse é um processo cuja reversão parcial podemos observar hoje em três sintomas interconectados de desintegração: a ascensão de atores soberanos não estatais, como milícias e cartéis de drogas; a expansão do setor de segurança privada, incluindo vigilância e contratantes militares, como a empresa de tecnologia Palantir e as organizações paramilitares Blackwater (americana) e Grupo Wagner (russa); e a mistura de ambos com o Estado em vários níveis. O que vemos nos três é, basicamente, uma tendência de autonomização da função de garantia da segurança em relação ao Estado e sua transformação numa variável independente, dotada de interesses políticos e econômicos próprios. O que o “capitalismo de capataz” vislumbra, então, é um tipo de formação capitalista tardia na qual setores do capital, em busca de condições ideais para a acumulação predatória em um cenário de instabilidade social e populações excedentes em crescimento, consolidam sua aliança com agentes privados do setor de segurança, sejam eles corporativos, paramilitares ou mesmo partes do aparato de segurança do Estado atuando independentemente.
Nesse arranjo, aqueles que assumem o papel de gerir o poder político o fazem de modo a não interferir no controle econômico e/ou territorial exercido por outros. Assim, por exemplo, o governo Bolsonaro trabalhou para desregulamentar a economia e entregar mais áreas à iniciativa privada, enquanto fazia vista grossa para a expansão de milícias paramilitares, grilagem de terras, extração ilegal de madeira, tráfico de drogas e mineração, especialmente na Amazônia.
Isso não é incompatível com algum tipo de institucionalidade democrática degradada, e é diferente do que em geral entendemos como autoritarismo, na medida em que implica erodir de maneira deliberada a soberania nacional, cedendo disfarçadamente o monopólio legítimo da violência a atores econômicos que lucram com seu uso de forma indireta ou direta (uma vez que a segurança se tornou uma indústria a título próprio). É como se um conjunto de gangues com interesses econômicos conciliáveis se organizassem para uma tomada coordenada do Estado, na qual quem possui as armas e quem ocupa os postos políticos mais altos têm direito a um butim proporcional à sua funcionalidade em permitir a todos os demais prosperarem.[3]
Isso nos ajuda a entender por que tanta coisa na extrema direita contemporânea se assemelha a um esquema de pirâmide, no qual empreendedores políticos investem movidos pela esperança de usar sua audiência para alavancar a carreira, ampliar conexões e subir mais alto. Isso também sugere a necessidade de revisitar o antigo diagnóstico da Escola de Frankfurt sobre o fascismo como sintomático de uma “sociedade de camarilhas”, na qual as pessoas, frustradas com sua incapacidade de obter “compensação por seus esforços individuais [...] do mero funcionamento de agências de mercado impessoais”, chegam à conclusão de que “adquirir e manter” status social depende menos de habilidade e esforço do que de acesso a “grupos que ocupam e defendem posições fortemente entrincheiradas”.[4] (E, poderíamos acrescentar, passam a ver a busca de tal acesso como uma forma de “empreendedorismo”.) A atualização desse diagnóstico poderia levar em conta a tendência do capital hoje para o estabelecimento de monopólios e o controle de “pontos de estrangulamento” (chokepoints) para a extração de renda, a infiltração do Estado por lobbies e pelo crime organizado, e, uma vez mais, a ascensão do autoritarismo de extrema direita como solução para o problema da coordenação de interesses sociais divergentes entre grupos com poderes muito díspares.
Não são apenas aqueles que podem lucrar diretamente que estão por trás da extrema direita contemporânea. Em decorrência da perda cumulativa de status em diferentes áreas (acesso a bens e serviços, gênero, raça, orientação sexual) e da luta cada vez mais acirrada pela sobrevivência na base, muitos pobres e membros da classe média em mobilidade descendente passaram a investir esperanças nesse projeto.
Parte disso tem a ver com os afetos que esse estado de coisas produz, parte com a competente operação retórica que reuniu diversos processos independentes em um único inimigo, o “globalismo”, que gera ainda mais comoção porque, sendo imaginário, pode estar em toda parte. Em segundo plano, há a dessensibilização acumulada ao longo de décadas de condições de vida cada vez mais atomizadas, individualistas, punitivas e baseadas no “cada um por si” – outra coisa que ajuda a explicar por que a destruição da democracia pode ser não apenas tolerada, mas apoiada.
Estado de natureza diferencialmente distribuído também se refere, então, às compensações psicológicas que a extrema direita oferece àqueles que podem não ter muito a ganhar em termos materiais, mas encontram nessa força política a promessa de que também a eles será concedida uma esfera, por menor que seja, onde livremente exercer seu poder. É aqui que encontramos “direitos” tão aberrantes, como o de burlar normas e sonegar impostos, de dirigir carros na velocidade que bem se entende, de proteger o próprio “modo de vida imperial” enquanto o mundo queima, de olhar com desprezo os que se encontram em um degrau mais baixo nas hierarquias de classe, gênero, raça, e assim por diante, de ser indiferente à dor que os outros sofrem e à que se causa a eles, ou mesmo deleitar-se com a espetacularização do sofrimento alheio. É também onde encontramos a ideia da posse e do uso de armas como expressões máximas da liberdade. E, nesse ponto, uma diferença notável mostra como estamos longe do mundo do fascismo histórico e mais próximos de sua desintegração. Se Michel Foucault observou que a penetração do nazismo nas massas esteve ligada ao grande número de pessoas que foram chamadas a assumir “a responsabilidade por uma série de funções estatais de repressão, controle, policiamento”, dando-lhes uma licença oficial para exercer algumas de suas vontades mais sádicas e antissociais, a delegação do poder em oferta hoje tem menos a ver com a participação no aparato estatal do que com desfrutar das liberdades possibilitadas pelo seu desaparecimento.
Embora essas sejam coisas que podem ser ditas sobre a extrema direita contemporânea onde quer que seja encontrada, as principais razões pelas quais ela funciona variam de lugar para lugar. Na Argentina, por exemplo, a questão mais urgente dos anos que antecederam a vitória de Javier Milei era a inflação. E, embora os indicadores sociais tenham caído e resgates oferecidos por Trump e pelo Fundo Monetário Internacional tenham sido necessários, o presidente argentino logrou cortar a inflação de 160% para um nível que dá certo alívio aos argentinos. Em El Salvador, a principal questão era o crime, e a popularidade do presidente Nayib Bukele se deve ao fato de ele ter lotado as cadeias do país, o que o transformou em um modelo cada vez mais influente, apesar (ou por causa) dos abusos cometidos contra os direitos humanos e das acusações de que a segurança só foi obtida mediante acordos com as maiores gangues. Já os Estados Unidos, um poder hegemônico global em declínio, podem usar a força de maneiras que ninguém mais tem condições de fazer, o que sem dúvida traz ocasionais vantagens econômicas e satisfação para aqueles que desejam ver o país se tornar grande novamente.
Ao mesmo tempo, devemos nos perguntar se não há um limite até onde as compensações psicológicas podem reparar a falta de ganhos materiais. Sabemos que sua força tende a ser muito elástica, mas será infinitamente elástica? Ou haverá um ponto além do qual vacilará, caso a extrema direita seja incapaz de melhorar as condições de vida da maioria de sua base? Será que também já estamos vendo isso, com a queda abrupta da popularidade de Trump à medida que as condições econômicas da maioria dos americanos continuam a declinar?
É verdade que já estivemos aqui antes. Muitas pessoas pensaram que a mortalidade fora de controle durante a pandemia seria um momento de fundo do poço para a extrema direita. Mas não foi, ao menos na extensão esperada. Por outro lado, se não foi a insensibilidade de Bolsonaro diante da morte que o derrotou, sua oposição às vacinas teve um custo político claro: a partir do momento em que as pessoas vislumbravam uma alternativa, bloquear essa saída por razões ideológicas foi visto como um gesto que punha a disputa ideológica acima do bem-estar comum. A extrema direita nem sempre terá que lidar com uma situação tão excepcional quanto a da Covid, mas crises políticas podem surgir à frente, quando ela se mostrar incapaz de resolver os problemas materiais da maioria. Se isso acontecer, é importante estar pronto e com um conjunto diferente de propostas em mãos.
Olhar para a extrema direita contemporânea do ponto de vista da periferia, como fazemos desde o Brasil, permite entendê-la como uma força carregada por um impulso preexistente que ela busca acelerar: o da desintegração social produzida pelo capitalismo tardio. Isso tem uma consequência importante para o modo como concebemos o momento atual. Mais do que qualquer outro, o século XX tomou-se como medida de tudo o que veio antes e depois, enxergando em si mesmo a confirmação das promessas da modernidade. De dentro dos Trinta Gloriosos, como foram chamadas as três décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, era possível acreditar que a história só podia marchar em uma certa direção, descontados eventuais intervalos, e que o futuro seria sempre mais próspero que o presente. Hoje somos obrigados a perguntar se essa era de ouro da expansão de direitos e do bem-estar material não era o verdadeiro intervalo: um arranjo político e econômico que o capitalismo nunca será capaz de atingir novamente. O nosso é um tempo de declínio, a extrema direita não cansa de dizer, e as medidas com as quais ela promete deter esse movimento só tendem a acelerar a derrocada. Mas, se esse diagnóstico convence tantas pessoas, é o caso de reconhecer que, mesmo como força de aceleração do declínio, a extrema direita pode aparecer para elas como uma resposta racional a esse estado de coisas: a melhor maneira de obter o negócio mais vantajoso em meio à queda, a teoria dos jogos mais adequada ao fim de jogo.
Para dizê-lo sem rodeios: isso não é um soluço; esta é a direção em que estamos nos movendo. Ver as coisas dessa forma deve nos dar o senso de urgência que a situação exige e pôr fim a qualquer fantasia de que o arco da história, deixado por conta própria, acabará voltando a se curvar na direção da justiça. Em vez de nos apegarmos à ilusão de que um retrocesso permanente é impossível e que o progresso será eventualmente retomado, deve-se levar a sério a possibilidade de que as tendências atuais estejam nos conduzindo a um futuro muito diverso daquele que desejamos – e agir de acordo.
Este texto é um trecho inédito do livro Do transe à vertigem: ensaios sobre bolsonarismo e um mundo em transição, de Rodrigo Nunes, cuja segunda edição, revisada e ampliada, será publicada neste mês pela editora Ubu.
[1] Stack (“pilha”, em tradução literal) se refere a um conjunto de infraestruturas de hardware (datacenters, servidores, terminais como computadores pessoais e smartphones) e software (sistemas operacionais, plataformas, aplicativos) “empilhadas” umas nas outras, tornando as camadas superiores dependentes das inferiores e submetendo seus usuários ao controle das empresas proprietárias desses sistemas. A dependência crescente de governos do mundo todo, inclusive o americano, da stack de gigantes como Amazon, Google e Palantir implica uma limitação da soberania nacional diante de companhias com o poder de incapacitar o funcionamento estatal mediante o corte ou a restrição de acesso a essas infraestruturas. Foi, por exemplo, o que se viu quando a Starlink cortou o acesso das Forças Armadas russas a seus satélites na Ucrânia. Para uma exploração desse conceito, ver o livro The stack: on software and sovereignty, de Benjamin Bratton (MIT Press, 2015).
[2]Por volta da mesma época em que comecei a desenvolver essa hipótese, o cientista social e especialista em segurança pública Gabriel Feltran estava falando de “sistema jagunço” para descrever basicamente a mesma coisa de um ângulo ligeiramente diferente. Onde a ênfase do “capitalismo de capataz” cai sobre a possibilidade de inclusão destes novos capatazes como personagens de primeira linha em um arranjo econômico e político viável que é proveitoso a eles e ao capital, Feltran foca na agência dos “jagunços” – membros dos aparatos público e privado de segurança –, à medida em que estes se tornam atores autônomos.
[3] Isso pode ocorrer mesmo quando a conexão com o aparato de segurança está ausente. Confirmando a tendência de o núcleo capitalista se assemelhar cada vez mais à periferia, o segundo mandato de Trump tem atraído a atenção por um nível de corrupção e tráfico de influência que os americanos costumavam atribuir a uma “república de bananas”. Uma série de benesses sugere o uso do cargo de presidente para obter ganho pessoal em troca de favores: um jato luxuoso presenteado por um país estrangeiro, “pacotes de tevê multimilionários, negócios imobiliários em petroestados árabes, jantares com o presidente custando 5 milhões de dólares por pessoa, ofertas de emprego vantajosas para contribuintes do fundo para a cerimônia de posse de Trump, empreendimentos de criptomoeda atraindo lucro de investidores estrangeiros secretos, incentivos para a perfuração em troca de doações da indústria do petróleo e da energia”, bem como meme coins com a marca Trump, serviços de telefonia móvel e até mesmo um “telefone celular dourado”, como escreveu Ed Pilkington em This is the looting of America: Trump and Co’s extraordinary conflicts of interest in his second term, no jornal The Guardian, em 16 de junho de 2025. Uma estimativa sugere que Trump pode ter mais do que dobrado seu patrimônio líquido desde o início da campanha de reeleição, mas, como diz um especialista, “ninguém nos rincões que votam em Trump vê isso como prejudicial – é o que eles esperam que um mestre dos negócios faça”. Ver This Presidency is a brand-franchise: Trump has taken the commercialisation of politics to a new level, texto de Edward Helmore também no Guardian, em 21 de junho de 2025.
[4] Otto Kirchheimer, In Quest of Sovereignty, The Journal of Politics 6:2 (1944).