almanaque de denúncias
Breno Pires 02 Jun 2026
43 min de leitura
Ouvir essa matéria
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
– Sem falsa modéstia, você sabe que eu me tornei um dos homens mais influentes da política nacional. Eu conheço todos os grandes empresários do nosso país. Todos.
O senador Ciro Nogueira falava com desembaraço, como quem trata de um assunto trivial. Ele estava dando uma entrevista a um telejornal de Teresina, a capital do Piauí, o estado que o elege para deputado ou senador desde 1994. Era dia 13 de março passado, uma sexta-feira. Fazia uma semana que viera a público uma mensagem de WhatsApp na qual o banqueiro Daniel Vorcaro, que acabara de voltar à prisão, se referia ao senador como “um dos meus grandes amigos de vida”.
– Não tem nenhum grande empresário nesse país que não já tenha me procurado em Brasília, ou me convidado para eventos, ou para palestra, ou para jantares – disse o senador.
A mensagem, defendida com naturalidade, era clara: Ciro Nogueira não tinha nenhuma relação especial com Vorcaro porque conhece “todos os grandes empresários do nosso país”. Tampouco obteve qualquer vantagem de Vorcaro, além da sucessão de convites para eventos, palestras e jantares que recebe habitualmente de tanta gente.
– Agora, você nunca vai ver nada de errado nesses diálogos. Ah, “foi convidado para jantar”. Ah, “botou um helicóptero à minha disposição”, que eu não usei. Poxa, mas, pelo amor de Deus. Isso é o fato de nós termos um homem influente que conhece todos os homens influentes do país – concluiu o senador.
Em defesa de sua inocência, Ciro comparava a presença em um jantar com o uso eventual de um helicóptero, colocava tudo na embalagem política, coisa de gente influente, e nada disso comprometia seu comportamento ético e íntegro. Nem achava necessário explicar por que apresentou uma emenda aumentando de 250 mil para 1 milhão de reais o limite de cobertura para investidores em caso de quebra da instituição financeira. A proposta atendia de modo tão flagrante os interesses de Vorcaro que ganhou a jocoso apelido de “Emenda Master”.
Antes, em fevereiro, Ciro já exalava confiança em entrevista ao SBT News: “Não tenho medo de [expor] essa relação porque ela nunca foi uma relação ilícita, nunca tratei de assuntos do Banco Master, nunca fiz gestões para encobrir algo.” Quando seu nome pipocou no WhatsApp de Vorcaro, em março, recorreu a um argumento ao mesmo tempo juvenil e cômico para negar que se tratasse dele: “Segundo o IBGE, existem mais de 11 mil pessoas com o nome Ciro no Brasil.” Em abril, com Vorcaro na cadeia, continuou mostrando-se tranquilo: “Espero que o mais rapidamente possível o Ministério Público e a Polícia Federal passem esse episódio a limpo para que a gente possa discutir o que realmente precisa no país.”
Ciro Nogueira falava com a segurança de quem adquiriu uma posição proeminente na política nacional. Entre 2021 e 2022, esteve no ponto mais alto de sua trajetória política. Foi ministro-chefe da Casa Civil do governo de Jair Bolsonaro. Não é um posto qualquer. Como definiu Bolsonaro na época em que o nomeou, era a “alma do governo”. Ali, fazendo as vezes de um primeiro-ministro, Ciro tornou-se a peça que faltava para que a banda podre do Congresso assumisse um controle até então inédito sobre a máquina do Executivo – e uma posição privilegiada para acomodar seus interesses heterodoxos.
A entrevista que o senador concedeu à TV Antena 10 de Teresina em março terminou depois de 45 minutos. Pela aparência, Ciro saiu satisfeito com o resultado. Tinha razão. Afinal, apesar das suspeitas iniciais, seu nome continuava em alta na cotação para ocupar a vaga de candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro. A chapa Flávio-Ciro vinha ganhando certa tração nas hostes da direita e da extrema direita – mas assim que o mês de maio chegou tanto o candidato a candidato a vice quanto o próprio candidato a candidato a presidente foram atropelados, cada um a seu modo, pelo escândalo do Master.
De acordo com uma reportagem do Intercept Brasil, Flávio Bolsonaro enviou um áudio cobrando os 24 milhões de dólares que o banqueiro havia prometido doar para, alegadamente, financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Flávio chama-o de “irmão” e, em mensagem enviada um dia antes da primeira prisão de Vorcaro em novembro do ano passado, afirma: “Estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente.” E completa: “Só preciso que me dê uma luz.” A luz, no caso, é dinheiro. Na tarde em que o caso veio a público, Flávio Bolsonaro negou que o banqueiro financiara o filme e ainda ironizou o repórter que lhe fez a pergunta. Horas depois, com a divulgação do áudio, foi obrigado a admitir o que negara, e agiu como se fosse uma transação inofensiva – com “zero de dinheiro público”, ainda que o Master tenha se locupletado com dinheiro público de fundos de pensão.
No caso de Ciro, o terremoto do Master chegou alguns dias antes.
No dia 6 de maio, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou uma nova operação da Polícia Federal sobre o caso Master. Ao analisar a relação entre Ciro Nogueira e o banqueiro, a partir dos resultados da investigação da PF, o ministro escreveu que havia um “arranjo funcional e instrumental orientado por benefício mútuo, extrapolando relações de mera amizade”. A piauí teve acesso às mais de sessenta páginas que compõem o relatório da PF, onde constam datas, cenas, viagens, fotos. De sua leitura, emerge um universo feito de mesadas, empresas subavaliadas, dinheiro vivo, apartamentos, cartões de crédito, restaurantes, hotéis, jatinhos, emenda parlamentar e férias na neve.
Um documento do Coaf, o órgão federal que rastreia transações financeiras, mostra que a relação de Ciro com o banqueiro é mais antiga do que se imaginava. Já em 2023, a empresa BRGD, que pertence à família de Vorcaro, começou a fazer depósitos em favor da CNLF Empreendimentos Imobiliários, batizada com as iniciais do nome completo do senador – Ciro Nogueira Lima Filho. Em apenas um ano, de agosto de 2023 a agosto do ano seguinte, a BRGD depositou 902 mil reais na empresa de Ciro, um conjunto de operações que o Coaf considerou atípicas e a Polícia Federal suspeita que sejam pagamentos de propina acobertados por uma suposta relação empresarial.
Nesse meio-tempo, em abril de 2024, o senador e o banqueiro tornaram-se parceiros de negócios, como descreve o ministro André Mendonça em seu relatório. O banqueiro mandou seu primo Felipe Cançado Vorcaro – ora em cana – estruturar a venda de 30% da Green Investimentos para a CNLF de Ciro. Na época da operação, a CNLF tinha um capital social de 500 mil reais, distribuído entre as duas filhas do senador (45% cada), a ex-mulher (5%), o próprio Ciro (4%) e a mãe dele (1%). A empresa de Ciro pagou 1 milhão de reais por uma fatia de 30% da Green que valia 13 milhões de reais. A operação, que chamou a atenção de André Mendonça, ocorreu dentro de uma cronologia curiosíssima – como se verá mais adiante nesta reportagem.
A sociedade CNLF-Green era clandestina. O negócio foi celebrado em 4 de abril de 2024, por meio de um contrato de gaveta assinado pelo primo do banqueiro e pelo irmão do senador, Raimundo Nogueira, que só se tornaria o administrador da CNLF oito meses depois. O objetivo, nas palavras de André Mendonça, era contornar restrições do acordo de acionistas da Trinity Energias Renováveis, empresa da qual a Green participava, e “evitar a supervisão regulatória”. Três meses depois de selar sociedade com a CNLF por 1 milhão de reais, a Green recebeu 2,4 milhões de reais em dividendos da Trinity. A CNLF, dada sua participação, fez jus a cerca de 720 mil reais. Assim, em apenas três meses, Ciro recuperou a parte principal do que havia desembolsado.
Além da sociedade oculta, as mensagens obtidas pela Polícia Federal revelam que o banqueiro pagava uma polpuda mesada ao senador. Em três mensagens de 2024 – nos dias 21 e 24 de junho e 25 de julho –, o primo Felipe pergunta ao banqueiro se deveria continuar pagando “300k” ao “pessoal que investiu” na BRGD – uma referência clara a Ciro Nogueira. Vorcaro respondeu que sim. Em janeiro de 2025, quando Felipe reclamou que o pagamento estava gerando dificuldades de caixa, Vorcaro foi enfático: “Tem que enviar, muito importante.” E disse que ele próprio colocaria dinheiro se fosse preciso. Dias depois, em 30 de junho de 2025, já no meio da crise do Master, Vorcaro se queixou ao primo que os pagamentos ao senador estavam atrasados:
– Cara, eu no meio dessa guerra, atrasou dois meses Ciro? – escreveu Vorcaro.
– Vou ver se dou um jeito aqui – prometeu o primo, que, em seguida, mencionou pela primeira vez que o valor havia sido aumentado e quis saber se deveria mantê-lo. – Vai continuar os 500k, ou pode ser os 300k?
A Polícia Federal ainda investiga a forma como as mesadas foram pagas e em seguida incorporadas pelo senador, mas uma das hipóteses sob investigação é que Ciro usava os serviços de Bernardo Rodrigues de Oliveira Filho para integralizar dinheiro em espécie na conta bancária de outra empresa do senador, a CN Motos, uma revendedora da Honda. A PF chegou a essa suspeita depois de mapear o trabalho de Oliveira Filho e identificar que, no período entre 2016 e 2024, ele fez 165 depósitos em espécie para a CN Motos, totalizando 3,5 milhões de reais. Em outro período, de 2020 a 2024, cerca de 4 milhões de reais foram transferidos também da revendedora da Honda para a conta pessoal de Ciro. Os agentes federais suspeitam que as transações realizadas ao longo de anos configuram uma operação de lavagem de dinheiro.
Além da sociedade oculta e da mesada, havia o capítulo imobiliário – ou, na linguagem dos investigadores, a “fruição de imóvel de propriedade de Daniel Vorcaro como se fosse do próprio parlamentar”. A piauí apurou que, em mensagem do dia 2 de novembro de 2025, o banqueiro e o senador discutiram o assunto. Na época, depois de romper com a namorada Flávia Rosalen, Ciro deixou-a morando em seu apartamento no Hotel Fasano e passou a ocupar um imóvel de Vorcaro. Em mensagem de áudio enviada ao banqueiro, o senador diz que precisaria ficar ainda mais uns 3 ou 4 meses no apartamento de Vorcaro até que a ex-namorada desocupasse o imóvel no Fasano. Vorcaro parece confuso, mas disposto a oferecer mais opções de moradia ao amigo. Eis o diálogo, que mescla áudios e mensagem de texto:
– Para te dar uma explicação – começa o senador. – Eu comprei um apartamento agora para Flávia [...] para [eu] poder voltar e devolver o [seu] apartamento. Só que ainda tem que botar piso, essas coisas, vai demorar uns três meses. Mas, se tu precisar aqui antes, me avisa que eu dou um jeito. Não quero abusar da tua boa vontade, não. Tá bom, meu irmão? – encerra ele, mandando um abraço em seguida.
– Vc tá falando do apto em SP em que já está? – pergunta o banqueiro. – Ou precisa de outro?
– É o que eu tô – esclarece o senador, voltando a explicar o arranjo que fez com a ex-namorada e a necessidade de obras no imóvel. – Acho que demora uns três, quatro meses. Aí estou preocupado de você estar precisando.
– Relaxa com isso – tranquiliza Vorcaro.
– ❤️ – reage Ciro, que em seguida comenta. – Me avisa que eu dou um jeito se tu precisar. Abração, meu irmão. Saudade grande de você.
– Irmãozão, já te falei desse apto. Zero estresse. Vamos conversar depois.

Além da sociedade oculta, da mesada e dos apartamentos, havia o cartão de crédito. Na sua decisão, o ministro André Mendonça registra uma conversa entre o banqueiro e Leo Serrano Giunchetti, operador de logística de Vorcaro nos Estados Unidos. Serrano pergunta se os “meninos” deveriam continuar pagando contas dos restaurantes do “Ciro/Flavia até sábado”. Vorcaro, mais uma vez, confirma: “Sim. Depois leva meu cartão para St. Barths.” A rápida troca de mensagens, durante a qual Ciro e Flávia estavam em outra viagem às custas do banqueiro, traz uma revelação: Vorcaro tinha um cartão para cobrir despesas gastronômicas do amigo. E avisava que, na próxima parada do casal – a Ilha de São Bartolomeu, também chamada de St. Barths, localizada no Caribe –, a boca-livre continuaria.
Além da sociedade oculta, da mesada, dos apartamentos e do cartão de crédito, havia os atos de ofício do senador. De acordo com a investigação, a “Emenda Master”, apresentada em agosto de 2024, foi redigida pela assessoria do próprio Master. Uma cópia impressa foi entregue a Vorcaro, que aprovou o conteúdo, colocou-o em um envelope endereçado a “Ciro” e entregue em mãos na residência do senador no Lago Sul, em Brasília, com a orientação expressa de não deixar visível o nome do banco no envelope. Apresentada a encomenda no Congresso, Vorcaro comemorou no WhatsApp que o texto havia saído “exatamente como mandei”. Interlocutores do banco diziam que a medida “sextuplicaria” o negócio do Master e causaria uma “hecatombe” no mercado.
Em novembro de 2023, nove meses antes da “Emenda Master”, houve um caso parecido. Vorcaro recebeu o rascunho de projetos de lei que tratavam de transição energética e emissões de carbono, temas que também lhe interessavam. Depois de revisar a proposta, o banqueiro devolveu as minutas dos projetos ao senador e fez a mesma recomendação para que “o envelope utilizado não faça referência ao Banco MASTER”. Também alertou que o motorista que fosse fazer o transporte do material não tivesse qualquer vínculo com o parlamentar. O movimento sugere que, no escurinho do Congresso, Ciro tentava incluir nos projetos as propostas do banqueiro.
E, além da sociedade oculta, da mesada, dos apartamentos, do cartão de crédito, dos atos de ofício, havia ainda o lobby em favor de Vorcaro. Ciro apadrinhou a indicação de Paulo Henrique Costa – ora também em cana – para a presidência do Banco de Brasília (brb). Costa, que está negociando uma delação, fez tudo, principalmente o que não devia, para salvar o Master, a começar pela compra de bilhões de reais em créditos podres do banco de Vorcaro. Antes, houve o primeiro caso público de influência política em favor do Master na Caixa Econômica Federal. A Caixa Asset, braço do banco, quis comprar 500 milhões de reais do Master, uma operação que a área técnica vetou – e os três gestores acabaram destituídos dos seus cargos por isso. Quem chefiava o setor que queria oferecer meio bilhão para Vorcaro era Igor Marcelo Laino, que terminou multado pelo TCU em 10 mil reais*
No dia 12 de maio passado, empenhado em mostrar que não era um senador laranja a serviço do Master, Ciro Nogueira reapresentou a Emenda Master. “Agora não existe mais Banco Master, eu quero ver qual é a desculpa que os grandes bancos vão utilizar para negar essa proteção aos correntistas brasileiros”, disse ele, num vídeo. O que o senador não explicou é que o modelo de negócios do Master era baseado na emissão de CDBs com taxas altíssimas – e arriscadíssimas, uma prática que os grandes bancos não adotam. Se o aumento da cobertura de investimentos de 250 mil para 1 milhão fosse aprovado, o Master levaria seu esquema de fraudes ao paroxismo, e, em vez de provocar um rombo de 50 bilhões de reais no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), causaria um prejuízo que, de fato, produziria uma “hecatombe”.
Courchevel é uma luxuosa estação de esqui nos Alpes franceses. Tem oito restaurantes com estrelas Michelin e cinco hotéis com a distinção oficial Palace, a elite da hotelaria francesa que é um nível acima das cinco estrelas. Ali, entre os milionários do pedaço, Ciro Nogueira e Flávia Rosalen passaram treze dias, de 12 a 25 de janeiro de 2025, com as despesas generosamente bancadas por Daniel Vorcaro, que participou da viagem ao lado de Martha Graeff, sua noiva na época. O custo total da viagem foi uma exorbitância: bateu em quase 2 milhões de reais. Em números precisos: 1 849 201 reais, segundo apurou a Polícia Federal.
O casal Ciro e Flávia partiu do Aeroporto de Guarulhos rumo ao aeroporto Charles de Gaulle em Paris, de onde seguiram para Courchevel. O banqueiro e sua noiva se juntaram ao casal dias depois. O senador e a companheira ficaram hospedados em hotel de alto padrão e frequentaram restaurantes estrelados. No La Soucoupe, conhecido por suas carnes, a despesa do casal bateu em 63 mil reais. No Le Tremplin, especializado em frutos do mar, a conta passou de 58 mil reais. Segundo a investigação da PF, tudo, inclusive a conta dos restaurantes, saiu por conta de Vorcaro.
A cena que sintetiza a relação entre o senador e o banqueiro é a de 21 de janeiro. Nesse dia, com trajes próprios para a neve, óculos escuros e sorriso largo, os dois posaram para uma foto abraçados, como dois “grandes amigos de vida”, com as montanhas nevadas de Courchevel ao fundo. Até hoje, o Instagram de Martha Graeff exibe uma foto com uma das filhas de Ciro Nogueira em um mirante em Courchevel, com roupas de esqui e a paisagem montanhosa como cenário. No mesmo local, Graeff postou uma foto com Vorcaro. É a mesma moldura da foto de Ciro e Vorcaro, só que menos afetuosa.
A certa altura, as mensagens do banqueiro à sua noiva mostram que havia “reuniões importantes” em Courchevel. Em um jantar de Vorcaro com o senador também estava presente o bilionário José Seripieri Filho, conhecido como Junior, o atual dono da Amil. A piauí apurou que o jantar aconteceu no challet de outro empresário, Alberto Leite, dono da empresa de tecnologia fs Security, o mesmo que hospedou o senador e o ministro Dias Toffoli, do STF, em seu camarote na final da Liga dos Campeões da Europa. (Um mês depois do jantar em Courchevel, Alberto Leite comprou o fundo que tinha 16% do resort Tayayá, aquele de Dias Toffoli.)
A quantidade de brasileiros ricos na estação de esqui espantou a noiva de Vorcaro. Antes de embarcar, ela acompanhou o movimento pelas redes e constatou, escrevendo o nome do país em inglês: “Tá o Brazil todo aí.” Um brasileiro que esteve na viagem e pediu para ficar anônimo confirmou à piauí: “Pega o PIB do Brasil. Metade estava lá.” Assim que Graeff chegou a Courchevel, as mensagens de Vorcaro passaram a rarear ou tratavam apenas de pequenos acertos de programas.
Courchevel foi um ponto alto, mas não foi o único destino de viagens ao exterior pagas pelo banqueiro. Entre os dias 10 e 17 de maio de 2024, Ciro esteve em Nova York para participar de um encontro promovido pelo Lide, a empresa de eventos do ex-governador de São Paulo, João Doria. O senador viajou para os Estados Unidos com Daniel Vorcaro, no jatinho do banqueiro. Neste caso, houve um agravante, segundo informa o site do Senado: Ciro viajou para Nova York em “missão oficial”. Portanto, mesmo tendo transporte pago pelo banqueiro, recebeu 12,7 mil reais de diárias do Senado.
Mensagens obtidas pela Polícia Federal, às quais a piauí teve acesso, mostram que Vorcaro pediu ao seu faz-tudo, Leo Serrano, que reservasse dois quartos de hotel em Nova York. Quando Serrano perguntou a identidade dos hóspedes, a resposta de Vorcaro foi objetiva: “Ciro Nogueira e Fábio Faria.” Faria, que implantou o canal SBT News, é ex-ministro das Comunicações do governo de Jair Bolsonaro. (Fábio Faria confirmou que a reserva foi feita por Vorcaro, mas disse que pagou o hotel do próprio bolso.)
Quando não viajava no jatinho do banqueiro, Ciro viajava nas asas do dinheiro público. Em maio do ano passado, ele participou de um evento promovido pela revista Veja em Nova York e bancado pelo empresário Ricardo Magro, dono da antiga Refinaria de Manguinhos e apontado como o maior sonegador individual de impostos do Brasil. O evento era no dia 13 de maio, mas o senador, esticando a folga, embarcou no dia 8 e voltou dia 15. Viajou de classe executiva, ao custo de 67 mil reais a passagem. Cobrou três diárias, somando mais de 11 mil reais, numa viagem que, ao todo, custou ao Senado 78 mil reais.
Desde que chegou à Câmara dos Deputados, em 1995, o jovem nascido em Teresina aprendeu que a máquina pública podia servir a parentes e amigos. Em seu primeiro mandato, nomeou a própria mãe, Eliane Nogueira, e seus quatro irmãos – Juliana, Raimundo, Alessandra e Gustavo. Todos eram secretários parlamentares em seu gabinete. Depois, colocou o pai, Ciro Nogueira Lima, como assessor técnico do seu gabinete de quarto-secretário da Mesa Diretora da Câmara. Hoje, três décadas depois de sucessivos mandatos, a família continua orbitando a estrutura política. Sua irmã, Alessandra, por exemplo, segue servidora comissionada na Câmara – atualmente, no gabinete do deputado Julio Arcoverde (PP-PI).
Aparentemente, a família suga recursos públicos mais por vício do que por precisão. Na década de 1970, o patriarca da família, um auditor fiscal, fundou com sua mulher a Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis e ganhou bastante dinheiro comprando terra barata onde a cidade ainda não chegava, esperando a expansão urbana fazer o resto. Os negócios já então caminhavam em paralelo com a política. O pai foi deputado federal por dois mandatos. Em 1994, resolveu lançar o filho, que, com nome igual ao do pai, ganhou votos de quem achava que reconduzia o velho à Câmara. Aos 26 anos, Ciro filho elegeu-se na rabeira da fila – dos dez eleitos, foi o nono mais votado.
(No fim da década de 1990, quando ainda testava as águas da política, Ciro presidiu o River Atlético Clube, um dos times de futebol mais tradicionais do Piauí. Na época, começou a enfrentar aquilo que o acompanharia a vida toda: problemas judiciais. Em sua gestão, foi acusado de não repassar contribuições à Previdência Social. O caso rendeu uma primeira denúncia da Procuradoria-Geral da República, rejeitada pelo Supremo Tribunal Federal, porque o débito foi pago antes do julgamento.)
No curso do mandato, Ciro manteve a tradição familiar de conjugar política e negócios. Em Caxias, cidade do Maranhão, o então deputado criou a CN Motos. Numa época em que se trocava o cavalo por moto, o negócio deu certo, os consórcios se espalharam, o crédito popular avançou e a revenda cresceu. Hoje, com mais de uma dezena de filiais, a CN Motos tem capital social de 20 milhões de reais.
Ao mesmo tempo, Ciro estreitou relações com Julio Arcoverde, o deputado que hoje emprega a irmã do senador. Os dois eram sócios em três empresas – duas agenciadoras de seguros e uma charutaria. Arcoverde, por sua vez, também tinha (e ainda tem) uma locadora de veículos, a Trevo, pela qual – eis a confluência mágica da política com os negócios – Ciro demonstrou notável preferência na hora de alugar carros com dinheiro público. Entre 2011 e 2012, chegou a pagar 193 mil reais de aluguel de veículos para a Trevo Locadora e, depois, pediu reembolso integral ao Congresso. Entre 2011 e 2013, a deputada Iracema Portella, então mulher de Ciro, também gastou 16 mil reais na locadora – e foi reembolsada.
Além do fluxo de dinheiro público para uma empresa privada cujo dono era sócio de Ciro, havia a suspeita de que as locações eram fictícias e as notas de reembolso, frias. O caso chegou ao STF. Na época, a Procuradoria-Geral da República pediu a quebra de sigilo fiscal da Trevo, perícia grafotécnica e a apreensão dos contratos originais. O caso – como tantos outros – acabou arquivado porque o controle de gastos do Congresso era “extremamente falho”, como descreveu a PGR, e não foi possível comprovar se os carros foram efetivamente alugados ou não.
A parceria dos dois se desdobrou em outros campos. Ciro emplacou o sócio como presidente da Agespisa, então estatal de água e esgotos do Piauí. Em seguida, indicou-o para comandar o antigo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), alegando que Arcoverde tinha experiência na área por ter presidido o Detran do Piauí. Nesse meio-tempo, o irmão de Ciro, Raimundo, dono da empresa Shopping do Automóvel, conseguiu uma vantagem de dar inveja aos concorrentes. O Detran instalou dentro do seu shopping um posto exclusivo de atendimento para fazer emplacamentos e transferências, aumentando o fluxo de clientes. Na dança das cadeiras, a presidência da Agespisa estava vaga. Quem ocupou o cargo? Raimundo, o irmão de Ciro e dono do shopping. (Até o fechamento desta reportagem, Raimundo usava tornozeleira eletrônica em razão do seu envolvimento no escândalo do Master. Seu celular, bem como o do senador, foi apreendido pela Polícia Federal. Nenhum dos dois aparelhos foi examinado ainda.)
Com o decorrer dos anos, a parceria de Ciro e Arcoverde ampliou-se para o campo político, mantendo a retaguarda dos negócios em franca atividade. Ciro pavimentou a primeira eleição dele para deputado federal, em 2022. Também o ajudou a ganhar um cargo disputado a tapa no Congresso: a presidência da Comissão Mista de Orçamentos Públicos e Fiscalização, posto-chave para o fluxo do orçamento – tanto de sua parte pública, quanto do seu quinhão secreto. Indagada sobre sua relação política e comercial com o senador, Arcoverde não quis se manifestar.
Ciro Nogueira jamais se destacou pela oratória, jamais fez um discurso memorável, não é um formulador de ideias, nem um líder que arrasta as massas, mas é um político astuto. Desde que chegou a Brasília em 1995, apoiou todos os presidentes – FHC, Lula, Dilma, Temer e, claro, Jair Bolsonaro, com quem anda de braços dados até hoje. No início dos anos 2000, quando trocou o PFL pelo PP e começou a cumprir seu terceiro mandato de deputado, Ciro passou a demonstrar suas habilidades políticas. Em 2005, articulou com sucesso o que parecia uma missão inatingível: eleger para o comando da Câmara o deputado Severino Cavalcanti (PP-PE), um político do baixo clero que oscilava entre o folclórico e o cômico – e que caiu da presidência, sete meses depois, porque achacava o empresário que ganhara a licitação para manter o restaurante da Casa.
A habilidade de Ciro era inata. Na adolescência, quando morava em Brasília, no apartamento funcional do pai deputado, dirigia um Escort xr3 preto, um carrão na época, e transitava entre várias turmas. Até no colégio Leonardo da Vinci, na Asa Sul de Brasília, circulava entre os alunos dedicados da primeira fila e a turma do fundão. Na Câmara, conservou o padrão. Tornou-se popular entre o baixo clero. Conversava com todo mundo, sobretudo os deputados que os líderes desprezavam. Gentil e festeiro, era o rei da resenha. Era o deputado do corredor, do cafezinho, até do futebol com os jornalistas que cobriam o Congresso.
Quando Severino Cavalcanti renunciou ao mandato, Ciro aproveitou o vácuo e lançou-se à presidência da Câmara. Se ajudou um deputado inexpressivo a chegar lá, por que não poderia ele mesmo sentar na cadeira de presidente? Outro deputado, que vivia isolado na galeria dos folclóricos, apoiou sua candidatura. Era Jair Bolsonaro. Ciro perdeu a disputa. Obteve apenas 76 votos, mas saiu maior do que entrou. Enquanto protegia seus parentes em cargos públicos, ampliava sua rede de contatos políticos, sempre atuando nos bastidores e combinando fisiologismo com governismo.
Acomodado no PP, Ciro não demorou a entender que quem dominasse a bancada do partido na Câmara dominaria o próprio partido. A velha guarda do PP ainda tinha nomes tradicionais – Paulo Maluf, Francisco Dornelles, Mário Negromonte –, mas a força real começava a migrar para um grupo nordestino mais jovem, mais articulado e mais faminto, reunindo Arthur Lira, de Alagoas, Aguinaldo Ribeiro, da Paraíba, Eduardo da Fonte, de Pernambuco, e o próprio Ciro, do Piauí.
O marco da mudança de poder veio no governo Dilma Rousseff, quando Negromonte foi defenestrado do Ministério das Cidades, a pedido da própria bancada do PP na Câmara. Em seu lugar, entrou Aguinaldo Ribeiro, deputado de primeiro mandato. A nova geração tinha conquistado o morro. No ano seguinte, Ciro armou um desafio e informou Francisco Dornelles que concorreria à presidência do PP. Ganhou por aclamação. Tomou posse em 2013 e, até hoje, treze anos depois, continua presidindo o partido.
Neste ponto, sua carreira não combinava apenas política e negócios. É possível que nenhum outro parlamentar tenha, como ele, seu nome citado com tanta frequência em acordos de delação premiada selados nos últimos anos. Com base nos autos de processos que Ciro já respondeu, a piauí identificou que o senador aparece como beneficiário, ou interlocutor ou personagem relevante no âmbito de esquemas de propina em nada menos que quinze acordos de delação feitos por doleiros, operadores financeiros, executivos de empreiteiras, dirigentes empresariais e entregadores de dinheiro em espécie.
Em 2014, ano do início do escândalo do petrolão, os dois principais delatores – o doleiro Alberto Youssef e o diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa – revelaram o esquema do PP na estatal de petróleo. A diretoria de Costa destinava 1% dos seus contratos milionários à turma do partido. O percentual é baixo, mas o volume da propina variava entre 250 mil e 500 mil reais por mês. O grosso era distribuído assim: 60% para a cúpula do PP e 30% para o próprio Costa, que, soube-se depois, escondia 79 milhões de reais em contas secretas no exterior.
De início, a cúpula do PP que embolsava a propina era representada por José Janene, um político do Paraná que faleceu em 2010. Em seu lugar, entrou Mário Negromonte, então deputado pela Bahia, que acabou escanteado por Ciro Nogueira. Em 2012, em uma reunião à beira da churrasqueira de uma casa na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, a turma faminta comunicou que, daquele momento em diante, a propina era com eles. Os delatores confirmaram que a reunião contou com a presença de Ciro, Arthur Lira, Eduardo da Fonte e Aguinaldo Ribeiro, além do próprio Paulo Roberto Costa. Youssef fora excluído porque vinha atrasando a propina. Em seu lugar, entrou o anfitrião do encontro, Henry Hoyer de Carvalho. Estava montado o que ficou conhecido como “quadrilhão do PP”. (Neste caso, Ciro e seus comparsas tornaram-se réus no STF, mas o caso acabou arquivado depois que Kassio Nunes Marques, por indicação de Bolsonaro, assumiu a cadeira do ex-ministro Celso de Mello.)
Em 2013, a Petrobras deixou de ser o único alvo de assalto do PP. Ciro bateu na porta das empreiteiras que trabalhavam com a estatal. Em sua delação, o empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC Engenharia, contou que Ciro o procurou pedindo 2 milhões de reais em dinheiro vivo para ajudar com as despesas médicas de um parente que estava internado em São Paulo. Ciro, segundo Pessoa, prometeu retribuir dizendo ao empresário que ele “não iria se arrepender”. A contrapartida poderia vir em obras do Ministério das Cidades ou no Piauí. O empreiteiro resolveu pagar. A primeira parte, 1,4 milhão de reais, foi entregue na residência do senador em Brasília. A outra, 475 mil, saiu por meio de um contrato de fachada com um escritório de advocacia. Com a deflagração da Operação Lava Jato, o restante não chegou a ser pago. Ciro foi denunciado ao STF, mas a corte recusou a denúncia por 3 votos a 1 por falta de provas.
Em 2016, nada menos que 77 executivos da Odebrecht compuseram à época a chamada “delação do fim do mundo” e alguns deles contaram que Ciro recebeu 7,3 milhões da empreiteira, em cujas planilhas era identificado com os três codinomes diferentes – “Cerrado”, “Pequi” ou “Helicóptero”. A certeza de impunidade era tal que um executivo esteve no gabinete do senador para avisar que parte do dinheiro já estava disponível. Ali mesmo, nas dependências do Congresso Nacional, a senha de retirada foi transmitida a um assessor do senador. Os pagamentos da propina – feitos em catorze parcelas – chegaram a envolver, além de um assessor, um doleiro e, pelo menos numa oportunidade, um carro-forte. Neste caso, Ciro também foi denunciado ao Supremo, mas, depois de um cavalo de pau da PGR, que retirou as acusações, a denúncia acabou rejeitada pelo STF. Assim, o senador nem sequer se tornou réu.
Em paralelo ao petrolão, Ciro abriu um novo capítulo como “homem influente” que conhece “todos os grandes empresários deste país”. Bateu na porta dos irmãos Wesley e Joesley Batista, os bilionários donos da J&F. Segundo a delação de Ricardo Saud, lobista da J&F, o grupo dos Batista pagou 42,8 milhões de reais para que o PP apoiasse a reeleição de Dilma Rousseff em 2014. Saud contou que a negociação atendeu a um pedido do então tesoureiro da campanha do PT, Edinho Silva, que alegou ter feito apenas uma solicitação de contribuição eleitoral. O fato é que, de início, Ciro cobrou 20 milhões de reais pelo apoio do PP, mas a fatura final chegou a mais do que o dobro disso. Precisamente 42 879 909,45 reais.
Com tanto dinheiro voando, Ciro resolveu cobrar pela intermediação do negócio e, segundo a Polícia Federal, abocanhou 5 milhões de reais. A grana fazia uma escala no caixa de uma rede de supermercados no Piauí, a Comercial Carvalho. A operação funcionava assim: a JBS, empresa dos irmãos Batista, quitava as faturas de compra de carne bovina do supermercado e, em troca do favor, o dono da rede, Reginaldo Carvalho, autorizava que o supermercado liberasse dinheiro vivo, que era retirado por Gustavo Nogueira, irmão do senador. Era um trabalho manual: Gustavo ia ao mercado, recebia o dinheiro, conferia os maços e guardava tudo dentro de uma mochila. Repetiu a operação ao longo de 29 dias. A última retirada da propina aconteceu no dia 14 de novembro de 2014.
Tudo isso foi fartamente comprovado – por meio de documentos e de delações. Havia anotação nas planilhas da J&F sob a rubrica “PP ciro – 5.000.000,00”. Um contador da J&F registrou os repasses, um a um, em planilhas da empresa. Um delator da J&F confirmou tudo e contou que o dinheiro era repassado ao senador por Reginaldo Carvalho, o dono da rede de supermercados. O próprio Carvalho confirmou que recebeu a ordem para liberar os pagamentos diretamente de Joesley Batista. Mais que isso: o tesoureiro da rede descreveu à polícia como o dinheiro era entregue na mão de Gustavo, o irmão de Ciro. A rede mantinha a sua própria contabilidade dos pagamentos, como consta numa planilha.
Restava uma dúvida: como o dinheiro era incorporado ao patrimônio de Ciro ou de sua família? Aí entrava em cena, de acordo com a investigação policial, o irmão Raimundo. A família precisava saldar os tributos estaduais do processo de inventário do pai, falecido em 2013. Raimundo usou pelo menos uma parte da propina para pagar os tributos em espécie ao governo do Piauí. O pagamento ocorreu no dia 30 de outubro, exatamente no período em que Gustavo vinha fazendo os saques no supermercado. Quando foi convocado pela Receita Federal para se explicar, Raimundo não conseguiu comprovar a origem lícita do dinheiro. Com isso, os investigadores fecharam o circuito.
Em 2022, quando era ministro da Casa Civil de Bolsonaro, Ciro foi indiciado pela Polícia Federal sob acusação de receber propina da J&F. Mas o procurador-geral Augusto Aras, indicado ao posto por Bolsonaro, achou que não bastavam o relato dos delatores, as planilhas, os saques, a mochila, a entrega do dinheiro, o pagamento de imposto e a coincidência de datas – faltava a prova de que os 5 milhões haviam efetivamente chegado às mãos de Ciro. E o senador, então, livrou-se de qualquer acusação. O caso, no entanto, não morreu logo. Como a Receita e a pf comprovaram a logística das entregas do dinheiro, o processo sobre a conduta de Gustavo, irmão de Ciro, foi para a primeira instância. Aí, sim, a Justiça do Piauí trancou a ação. Raimundo nem sequer foi denunciado.
Teve mais. Em março de 2016, quando o PP ameaçava abandonar o governo e mergulhar no impeachment de Dilma, Giles Azevedo, assistente especial da então presidente, pediu a Joesley Batista que falasse com Ciro Nogueira e obtivesse o apoio do PP para manter Dilma na Presidência. Joesley ofereceu 8 milhões para que o senador adiasse a reunião em que o partido romperia com o governo. A reunião foi adiada, e Ciro ainda prometeu que ajudaria a convocar o PR para se alinhar ao PP.
Às vésperas do impeachment, na tentativa de mantê-lo no barco, Dilma convidou Ciro para jantar no Palácio da Alvorada. Um amigo dele, que pediu para não ser identificado, conta o diálogo transcorrido na ocasião:
– Você pode contar comigo, presidente. Eu prefiro ganhar com a senhora, mas eu preciso deixar uma coisa bem clara – disse Ciro.
– O que é? – indagou Dilma.
– Eu prefiro ganhar com a senhora, mas a única coisa que eu não posso fazer é perder.
E não perdeu. Abandonou Dilma e, nem bem o impeachment se consumava, o PP já estava ampliando seu latifúndio no governo de Michel Temer. Abocanhou postos na Saúde, Cidades, Agricultura e Caixa Econômica Federal. Ciro tinha razões para considerar que saíra intacto dos acertos propineiros, mas, no ano seguinte, Joesley Batista visitou-o com um discreto gravador no bolso e avisou o senador que, enfim, aqueles 8 milhões prometidos para adiar a reunião finalmente começariam a ser pagos. Gravou-se o seguinte diálogo:
– Agora vai dar pra começar. Vamos fazer de 500 em 500 – disse Joesley.
– De 500 em 500? – quis certificar-se o senador.
– Pá, pá, pá – disse Joesley, marcando o ritmo dos pagamentos
– Mas não tem sangria, não – tranquilizou o senador.
A promessa, segundo Joesley, foi apenas parcialmente cumprida, já que os executivos da J&F entraram numa negociação para fazer uma delação – na qual, aliás, os delatores tentaram proteger Ciro, conforme mostram áudios obtidos pela Polícia Federal na época. “Se não precisa entregar o Ciro é o melhor”, diz um dos delatores. Em razão desse áudio, a delação da J&F quase caiu por terra, mas acabou de pé.
Tudo somado, os delatores acusam Ciro de receber cerca de 15 milhões de reais em propinas diretas, sem contar os valores destinados à cúpula do PP. Entre 2015 e 2020, a Procuradoria Geral da República apresentou quatro denúncias contra o senador, todas elas rejeitadas pelo Supremo. Em outros dois casos, nem houve denúncia, por falta de provas. Assim, Ciro nunca virou réu, nunca foi condenado, nunca foi preso.
Sua ficha policial ainda está oficialmente limpa, mas sua biografia é outra coisa.
Na campanha eleitoral de 2018, Ciro Nogueira tinha uma posição política inequívoca. Dizia que Jair Bolsonaro, o então candidato do PSL, era “fascista”, “preconceituoso” e incapaz de governar, e elogiava Lula, que havia sido, segundo ele, “o melhor presidente” do país, sobretudo para o Nordeste. Anunciou apoio à candidatura presidencial de Fernando Haddad e do petista Wellington Dias, que concorria ao governo do Piauí. Prometia lealdade a Lula “até o final”.
O final aconteceu em julho de 2021, quando Flávio Bolsonaro, a pedido do pai, sondou Ciro para assumir o comando da Casa Civil. Ciro estava no México. Aceitou na hora. No dia 4 de agosto, numa solenidade no Palácio do Planalto em que usou máscara em razão da pandemia, assinou seu termo de posse e tomou conta da “alma do governo”. Em seu discurso, afirmou: “Eu quero contribuir tal qual um amortecedor, que pode estabilizar, diminuir as tensões, ajudar para que esta viagem seja mais serena, estável e confortável para todos. Meu nome é temperança, meu sobrenome tem de ser equilíbrio.”
Antes disso, Ciro já vinha prestando bons serviços ao governo Bolsonaro. Na CPI da Covid atuara na linha de frente da tropa de choque governista, mas, ao contrário de seus pares, trocava a estridência ao microfone pelas articulações ao pé do ouvido para blindar o presidente das investigações. Entre os colegas, ganhou o apelido de “tesoureiro” da CPI, pois carregava embaixo do braço as propostas governistas. Afinal, era um chefe partidário e tinha votos para entregar. No Planalto, era chamado de “Zero Cinco”.
Neste período, já havia preenchido cargos importantes com seus apaniguados. Na presidência do FNDE, autarquia bilionária da área de educação, instalara seu ex-chefe de gabinete, Marcelo Lopes da Ponte. A poderosa Codevasf, criada para promover o desenvolvimento no Nordeste, tinha sido fatiada entre os partidos de direita, e a superintendência do Piauí, claro, ficara sob influência de Ciro. Na saúde, seu grupo, no qual se incluíam Arthur Lira e Ricardo Barros (PP-PR), já havia ampliado seus tentáculos no setor de contratações. No Cade, órgão que zela pela concorrência no país, mantinha seu apadrinhado Alexandre Cordeiro. Ciro chamava-o de “meu menino” e dizia: “Eu botei ele lá.”
Quando assumiu a Casa Civil, fiel à sua trajetória de príncipe do baixo clero a primeiro-ministro de Bolsonaro, Ciro fez jus à turma faminta. Uma semana depois da posse, já se sentia em casa, fazendo churrasco com Tarcísio de Freitas e Fábio Faria, então ministros, e com o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Avançou sobre as atribuições do Executivo a golpes de picareta. Assumiu a articulação com o Congresso, a distribuição de cargos, a gestão do orçamento e de emendas do orçamento secreto, o controle de agendas decisivas e a interlocução com setores econômicos que dependem de decisões públicas. E abocanhou cargos e cargos e cargos.
Além dos postos que já tinha – no FNDE, na Codevasf, na Saúde, no Cade –, Ciro ampliou sua influência no Dnocs, órgão que cuida de obras contra a seca. Ali, antes de virar ministro, havia instalado Fernando Marcondes de Araújo Leão. Agora, como ministro, estendeu seus domínios. Fez questão de apadrinhar o coordenador do Dnocs no Piauí, escalando Arão Martins do Rego Lobão. Também abocanhou um naco da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, emplacando como diretora Ana Carolina Argolo Nascimento de Castro, ex-mulher de Jônathas Castro.
Na Casa Civil e na Secretaria de Governo, Ciro escalou assessores experientes para organizar uma área sensível e bilionária: o fluxo das emendas parlamentares. Quem liderava o grupo de auxiliares era o mesmo Jônathas Castro – que hoje opera como lobista da Refit, a refinaria do empresário Ricardo Magro. Com sua ascensão, Ciro acabou radicalizando um movimento cujo impacto perdura até hoje: o eixo de gravidade do poder migrou do Palácio do Planalto para dentro do Congresso Nacional.
Assim, a fauna que batia nos gabinetes parlamentares deixou de ser formada apenas pelas grandes empreiteiras da Lava Jato, os perdigueiros de polpudos contratos com estatais, os doleiros com malas de dinheiro vivo. De 2021 em diante, setores econômicos altamente dependentes de decisões políticas – bancos médios, fintechs, empresas de combustíveis, apostas online, fundos de investimento, previdência – também passaram a recorrer ao Congresso, mais do que ao Executivo, para moldar as regras do jogo. Ciro, o “amortecedor”, jogava nas duas pontas. E jogava um bolão.
No auge do seu poder, Ciro Nogueira conquistou o espaço que lhe permitiu fazer aquela afirmação à emissora do Piauí: “Não tem nenhum grande empresário nesse país que não já tenha me procurado.” Na verdade, ele não foi procurado por todos os homens de negócios, mas por homens com um certo tipo de negócios. Daniel Vorcaro, o artífice do que talvez seja a maior fraude bancária da história do país, é um caso exemplar. Ricardo Magro, o maior sonegador do país, é outro. “O caso de Ciro é especial. Ele é um amigo que eu tenho fora da política”, disse Magro, certa vez, em uma entrevista concedida ao jornal Folha de S.Paulo.
Magro é dono da Refit, a antiga Refinaria de Manguinhos, investigada sob a suspeita de ser uma refinaria que não refina nada. Ou melhor: “O que ele refina mesmo é imposto”, como diz um analisa do mercado. Desde o dia 15 de maio passado, Magro é alvo de um mandado de prisão por sonegação e fraude. Como mora há anos nos Estados Unidos, seu nome foi colocado na lista vermelha da Interpol. Em 2024, Ciro apresentou duas emendas ao projeto de lei que dificultava a punição do chamado devedor contumaz – o que beneficiava diretamente Ricardo Magro em razão de sua sistemática prática de sonegação. Era a “Emenda Refit”, tática de retribuição que Ciro repetiria mais tarde com a “Emenda Master”. E a “Emenda Refit”, igualmente, se deu numa cronologia curiosíssima, que também será detalhada adiante.
Ainda no setor de combustíveis, dois empresários explosivos, hoje foragidos da polícia, tentaram aproximar-se de Ciro Nogueira. Eram Roberto Leme, conhecido como Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o Primo. Versados em fraudes com combustíveis e suspeitos até de lavar dinheiro para o PCC, a maior organização criminosa do país, os dois compraram os postos da rede HD, em Teresina. Um intermediário da negociação era Victor Linhares de Paiva, ex-assessor de Ciro. Mensagens de WhatsApp obtidas pela polícia e já reveladas pela piauí indicam o envolvimento do senador. “O Ciro já falou que vai ajudar a gente”, disse um dos vendedores dos postos HD, num áudio. As mensagens sugerem que Ciro acompanhou de perto cada passo da transação, chegando a fazer reuniões com os envolvidos em sua casa e em quartos de hotel onde estava hospedado.
Nessa investigação, o Ministério Público do Piauí apresentou uma denúncia contra os empresários, mas a parte envolvendo Ciro Nogueira não foi investigada, em razão da regra do foro privilegiado. A Polícia Civil piauiense, que suspeita que o senador tenha atuado como sócio oculto da rede HD na negociação com Beto Louco e Primo, pediu que o caso tramite no Supremo, mas até agora não há confirmação se o deslocamento foi feito. Um relatório do Coaf encontrou informações cabeludas. Por exemplo: entre 17 de abril e 2 de maio de 2025, depois das negociações sobre os postos HD, uma empresa criada por Beto Louco e Primo transferiu 63,9 mil reais à Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis, empresa da família do senador. Segundo o Coaf, a operação não tem “aparente justificativa, vínculo ou compatibilidade da atividade econômica”.
Outro exemplo: a própria Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis transferiu 25 mil reais para a HD Petróleo Uruguai Ltda., que pertence aos donos da rede que estava sendo comprada por Beto Louco e Primo. Há ainda outra operação suspeita: um dos sócios da rede HD transferiu 230 mil reais a Victor Linhares, levantando a suposição de que se tratava do pagamento por sua intermediação no negócio para Beto Louco e Primo. O depósito foi feito numa conta no BK Bank, a instituição financeira apontada como peça-chave no esquema de lavagem de dinheiro do PCC. A conta foi aberta oito dias antes do depósito dos 230 mil, que ficaram ali menos de 24 horas. Foram logo sacados, e a conta do BK Bank ficou inativa desde então.
Há uma plêiade de empresários enrolados na galeria do senador. Fernando Oliveira Lima, o Fernandin OIG, é outro que ocupa um lugar de destaque. Dono de sites de apostas esportivas e representante do jogo do Tigrinho, Fernandin teve uma ascensão fabulosa atuando num setor que, enquanto Ciro foi chefe da Casa Civil, correu sem qualquer regulamentação, o que contribuiu para promover a farra das bets. Só no governo Lula as apostas online foram reguladas e taxadas, e, mesmo assim, a iniciativa enfrentou uma resistência pesada do PP, com Ciro e Arthur Lira à frente. Na CPI das Bets, Ciro fez o que pôde para impedir que Fernandin OIG fosse convocado para depor – sem sucesso. Quando ele apareceu, o senador compareceu à sessão para defendê-lo e tratou-o como “grande empresário do meu estado”.
O mesmo Coaf também já esquadrinhou a relação financeira entre os dois e encontrou algumas estranhezas. Em 2022, Fernandin OIG comprou três apartamentos por cerca de 1,5 milhão de reais da incorporadora Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis. Na época, Ciro afirmou à piauí que, embora fosse sócio da empresa, seu irmão Gustavo era quem cuidava da administração – o mesmo das mochilas de propina. “Nunca ouvi falar dessa compra. Não tenho nada a ver com isso”, disse.
Entre dezembro de 2023 e setembro de 2024, houve outras transações suspeitas. Fernandin OIG transferiu 625 mil reais para Victor Linhares, o ex-assessor de Ciro. No mesmo período, Linhares repassou mais de 30 mil reais para a conta pessoal do senador. Na época, ouvido pela piauí, Ciro falou sobre o assunto. Por que seu ex-assessor recebeu tanto dinheiro de Fernandin OIG? Porque havia vendido um relógio Richard Mille para o empresário. E por que o senador recebeu 35 mil do assessor? Era só o reembolso do cancelamento de uma reserva de hotel em Capri, na Itália, disse ele.
Até onde se sabe, o senador e o empresário das bets nunca foram fotografados juntos em Courchevel, mas a dupla girou o globo à vontade. Em plena CPI das Bets, conforme a piauí revelou, o senador não se acanhou de viajar com o empresário suspeito de cometer irregularidades no universo das bets. A bordo do Gulfstream G650 de Fernandin, os dois foram para Mônaco. Depois, conforme descobriu a piauí ao verificar postagens feitas nas redes sociais por terceiros, viajaram para Dubai e Raja Ampat, na Indonésia, onde foram flagrados a bordo de um iate de alto padrão. O senador jamais prestou contas sobre essas viagens – nem da viagem em que ele, o amigo e três deputados, voltaram de São Martinho, paraíso fiscal no Caribe, com cinco malas que não foram submetidas ao raio X, burlando a fiscalização.
Ciro Nogueira é um homem abastado, mas sua matemática é pobre. De acordo com o Coaf, o senador declara uma renda líquida de 29,7 mil reais mensais, como pessoa física. Mas, apenas no primeiro semestre de 2024, somando dividendos e remunerações societárias, sua conta pessoal recebeu 1,3 milhão de reais e registrou 1 milhão em débitos. Levando em conta esses valores, o Coaf calculou que Ciro recebeu 215 mil reais mensais, em média. Entre os créditos do senador, pelo menos um é considerado “inusitado” pelo Coaf. São duas transferências feitas pela CN Motos, empresa do próprio Ciro, para sua conta pessoal, no valor total de 600 mil reais.
Seu patrimônio financeiro, no entanto, é muito superior a isso. Dados das Juntas Comerciais do Piauí e do Maranhão, obtidos pela piauí, mostram que Ciro tem direito a receber 50 milhões de reais de três empresas nos próximos três anos. A CN Motos, cujo capital social é de 20 milhões de reais, vai distribuir 32 milhões de reais aos seus donos – quase tudo, 30 milhões, para Ciro. A tradicional empresa da família, a Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis, cujo capital social é de 3 milhões, vai distribuir 7 milhões para cada um dos quatro irmãos, incluindo Ciro, mais 11 milhões para a mãe, Eliane Nogueira.
Na movimentação mais intrigante, segundo os documentos das Juntas Comerciais, Ciro tem a receber 17 milhões de reais da Fazendas Reunidas Nogueira Lima, mas há uma curiosidade: a Fazendas Reunidas nunca estivera no nome do senador. Sempre pertencera à sua mãe, Eliane, e tinha como administrador seu irmão Raimundo, aquele que está com tornozeleira eletrônica. A empresa só passou a ser propriedade de Ciro em setembro passado – e, com tão pouco tempo como dono no papel, ele já faz jus a uma fortuna. O desenho da operação reforça as suspeitas dos investigadores de que a família funciona como uma rede de laranjas para blindar o patrimônio do senador.
Com tanto dinheiro no banco, Ciro comprou uma cobertura tríplex de 514 m2 numa das ruas mais chiques de São Paulo, a Oscar Freire. Pagou 22 milhões de reais. A aquisição, revelada pelo site Metrópoles, ocorreu em julho de 2024 por meio da CNLF – e aqui entram aquelas cronologias curiosíssimas mencionadas antes nesta reportagem. Rememorando o primeiro caso: a CNLF é aquela empresa que, três meses antes, em abril de 2024, havia se associado à Green Investimentos por ordem de Vorcaro. Rememorando outro detalhe: a CNLF pagou 1 milhão por uma fatia da Green que valia 13 milhões de reais. E um último detalhe: em agosto de 2024, um mês depois da compra da cobertura paulistana, Ciro apresentou a “Emenda Master”, aquela que Vorcaro comemorou que “saiu exatamente como eu mandei”.
Se a cronologia sugere que o senador pode ter sido pago para apresentar a “Emenda Master”, outra cronologia carrega a mesma suspeita. A Polícia Federal descobriu que, menos de dois meses depois de apresentar a “Emenda Refit”, que aliviava a barra de um devedor contumaz como Ricardo Magro, Ciro aparecia na contabilidade de uma empresa de Magro com um crédito de 14,2 milhões de reais a receber. Trocando em miúdos: a Athena Real Estate, que integra o labirinto empresarial de Magro, previa o pagamento em favor da Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis, que pertence à família do senador.
No papel, o pagamento se devia à compra de uma gleba de 40 hectares na zona rural de Teresina onde Magro supostamente pretende instalar uma distribuidora de combustíveis. (Dos 14,2 milhões, a maior parte, 10,8 milhões, já foram pagos.) Numa evidência da rede de blindagem patrimonial montada pela família do senador, o dono da tal gleba não é o senador, mas seu irmão Raimundo, o da tornozeleira. Um cruzamento realizado pela piauí mostra que Raimundo está associado a quatro imóveis rurais em Teresina, nas proximidades da BR-316, inclusive a terra adquirida por Magro. A PF investiga se era um negócio imobiliário regular ou uma propina destinada ao irmão, mas paga em troca de serviços parlamentares do senador. A suspeita, além da mecânica da operação, baseia-se no fato de que o terreno à venda tem vegetação nativa, fica muito longe do centro de Teresina, localização imprópria para a construção de uma distribuidora. Procurado para explicar o negócio, Magro não quis dar entrevista.
A “Emenda Master”, assim como a “Emenda Refit”, não foi aprovada. As duas tratavam de bilhões e bilhões de reais. A emenda que beneficiava o Master permitiria ampliar muito mais o rombo que o FGC sofreu com a pirâmide financeira montada pelo banco de Vorcaro. Já a emenda Refit tratava de favorecer um empresário que deve, como pessoa física e pessoa jurídica, 52 bilhões de reais. Os números mostram o universo estratosférico – mais de 100 bilhões, na soma dos dois exemplos – em que o senador Ciro Nogueira vinha atuando.
E, apesar dos milhões para cá e milhões para lá, o senador tem um hábito de terceirizar suas despesas – e, de vez em quando, até ganha dinheiro sem razão aparente. Documentos do Coaf mostram que em junho de 2024 – um mês antes de arrematar a cobertura na Rua Oscar Freire –, Ciro não precisou pagar dois boletos do seu cartão de crédito. Dois deputados federais do PP do Piauí lhe fizeram a gentileza. Um deles pagou 3,5 mil reais. Outro, o velho amigo Julio Arcoverde, desembolsou 13,7 mil reais. No cenário de escândalos que giram em rotação milionária, a quantia parece apenas um troco, mas, segundo o Coaf, “pode configurar artifício para burla da identificação da origem-destino e responsável-beneficiário final dos recursos”.
No mesmo ano de 2024, ainda segundo o documento do Coaf, a conta pessoal de Ciro simplesmente ganhou um dinheiro. Recebeu 25,8 mil reais enviados por uma tal de Acqualina Management LLC, dos Estados Unidos. A operação foi registrada como “doação ou transferência sem contrapartida”. Como ninguém sai distribuindo dinheiro à toa, a operação chamou a atenção do Coaf pela ausência de justificativa. O relatório identifica a Acqualina como uma empresa ligada a um resort de luxo em Miami Beach, no qual, por coincidência, Vorcaro era dono de uma cobertura. O caso foi revelado pelo portal g1, mas Ciro não apresentou nenhuma explicação para a transação.
A piauí pediu entrevista com o senador para que explicasse seus negócios, mas Ciro não quis se manifestar. A revista então mandou uma lista de sessenta perguntas, caso o senador se dispusesse a mandar respostas por escrito. As perguntas descreviam cada um dos assuntos abordados nesta reportagem e pedia esclarecimentos. O senador não respondeu nenhuma delas.
Depois que a operação policial apreendeu seu celular e colocou uma tornozeleira na canela de seu irmão, Ciro Nogueira, pela primeira vez, parece ter sentido o golpe. No mesmo dia, seus advogados lançaram uma nota repudiando as “ilações de ilicitude”. No dia seguinte à operação, o próprio senador divulgou uma nota em suas redes sociais dizendo que estava sendo vítima de uma “perseguição” que acontece em “todo ano político”. Cinco dias depois da operação, gravou um vídeo de mais de 6 minutos, também distribuído nas redes sociais. Nega que tenha feito a “Emenda Master” por encomenda de Vorcaro, defende o aumento da cobertura do FGC, volta a se dizer perseguido – e embola tudo.
Afirma que está sendo perseguido agora, exatamente como foi às vésperas da eleição de 2018, porque é líder da oposição. Mas não diz que, em 2018, a tal perseguição aconteceu durante o governo de Michel Temer, que o senador apoiou desde a primeira hora. Afirma que a investigação na época acabou não dando em nada, tanto que a Procuradoria-Geral da República disse que não encontrara “indícios mínimos” de crime – o que é verdade. Mas não diz que a PGR era então comandada por dois amigos do bolsonarismo, o procurador Augusto Aras e a vice-procuradora Lindôra Araújo, que, aliás, assinou o parecer que isentou Ciro.
Na parte que mais chama a atenção do vídeo, Ciro tentou atribuir o escândalo do Master à falta de fiscalização do Banco Central e ao presidente da República, que indica seus diretores. Não deixa de ter razão, mas escondeu a cronologia. O caso Master nasceu e cresceu exatamente durante o governo em que ele atuava como poderoso ministro da Casa Civil. Enquanto a presidência do BC esteve sob o comando de Ilan Goldfajn, indicado por Temer, o Master jamais recebeu aval para atuar. Só conseguiu fazê-lo no período de Roberto Campos Neto, indicado por Bolsonaro.
Em março, depois da entrevista que concedeu à emissora TV Antena 10 do Piauí, Ciro estava duelando com as primeiras denúncias que mostravam suas ligações com Vorcaro. Naquele mesmo mês, até fez uma promessa: “Se surgir algum dia na vida alguma denúncia que seja comprovada, eu, enquanto senador Ciro, renuncio ao meu mandato.” No dia 7 de maio, deu-se o terremoto. Apareceram a mesada de 300 a 500 mil reais, a sociedade oculta com Vorcaro, os favores imobiliários, as viagens, as farras gastronômicas, a encomenda da “Emenda Master”. Até o fechamento desta edição, Ciro Nogueira continuava senador.
*O trecho foi alterado para refletir uma correção. Na vesão original, informava-se equivocadamente que os três diretores foram destituídos por Tarso Tassis, ex-assessor de Daniel Vorcaro que havia chegado ao cargo por influência do senador Ciro Nogueira. O cargo, na verdade, era ocupado por Igor Marcelo Laino.