despedida

O (QUASE) ENGENHEIRO QUE FAZIA JORNAIS

Lembranças de Raimundo Rodrigues Pereira
Raimundo Pereira na redação do Movimento, em São Paulo: com o semanário, ele realizou o sonho de fazer um jornal sem patrão - CRÉDITO: ACERVO PESSOAL DE RAIMUNDO PEREIRA
Raimundo Pereira na redação do Movimento, em São Paulo: com o semanário, ele realizou o sonho de fazer um jornal sem patrão - CRÉDITO: ACERVO PESSOAL DE RAIMUNDO PEREIRA

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Logo após a morte de Raimundo Pereira, recebi uma carta dele vinda do além. Pelo menos, assim me pareceu. Não sou religioso, e o Raimundo também não era. Talvez eu tenha apenas revisto, numa fantasia nostálgica, os catorze anos em que trabalhei lado a lado com aquele pernambucano meio sério, meio brincalhão, reconhecido como o principal editor de jornais oposicionistas durante a ditadura militar.

Caro Tonico, escrevo agora porque não tivemos tempo de conversar antes de eu partir. Queria que você dissesse aos nossos amigos e amigas que passo bem e que continuo um criador de jornais. Ainda preciso me ambientar deste lado, mas já estou pensando em algum periódico que possa lançar. Tenho, antes, que planejar a arrecadação dos recursos financeiros, como fizemos ao conceber o semanário Movimento em 1975. Foi a realização de um velho sonho, lembra? Vou atrás de bons jornalistas que já deram as caras por aqui – Mino Carta, Sérgio de Souza, Paulo Patarra, Matías Molina, Elifas Andreato, os de sempre. Acho que você gostará de saber que, nestas bandas, tudo é perdoado. Por isso, circulo desarrumado sem causar espanto e, assim, sigo cultivando um aspecto importante do meu marketing pessoal.[1]

Nascido em Exu, no sertão de Pernambuco, Raimundo Rodrigues Pereira morreu no último dia 2 de maio, aos 85 anos. Ainda me recordo vivamente de nosso primeiro encontro, em 1967. Eu cursava o segundo ano de arquitetura na Universidade de São Paulo. “O cara é um gênio”, me adiantaram pouco antes de eu conhecê-lo. Ele havia passado duas vezes seguidas no vestibular do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), o mais difícil do país na época. Era considerado ótimo redator e se preparava para virar editor-chefe do Amanhã, primeiro semanário que dirigiu. Eu imaginei que encontraria um jornalista austero, bem-vestido, com óculos de armação grossa e talvez gravata, um Clark Kent, mas encontrei um sujeito de pernas tortas e roupas muito simples.

Sua biografia exibia mais lances interessantes. Em 1964, pouco depois do golpe, o Raimundo foi preso e expulso do ITA quando já fazia o último ano de engenharia aeronáutica. A acusação dos militares era falsa: ele integraria um grupo subversivo de estudantes que planejava dinamitar uma ponte na Via Dutra. O plano seria impedir que tropas de São Paulo chegassem ao Rio de Janeiro, onde o golpe estava em andamento. Uma maluquice total. No ITA, o Raimundo se comportava mais como um anarquista, nunca como um “terrorista”. Escrevia artigos bem-humorados para uma publicação estudantil (seu batismo no jornalismo), sem se importar que estava numa rígida escola militar.

A prisão e a expulsão do instituto liquidaram impiedosamente o sonho de Lindanora e Joaquim, pais do Raimundo. O casal não via a hora de o rapaz tirar o diploma de engenheiro, depois de a família ter se esforçado tanto, desde que fugiu da seca em 1942, quando o filho mal completara 2 anos. Raimundo, porém, deu a volta por cima. Entrou na USP, onde se formaria em física, lecionou matemática e trabalhou em revistas especializadas da Editora Abril, como Máquinas & Metais. Em 1967, ainda universitário e atraído pela crescente agitação dos estudantes, aceitou o convite para comandar o Amanhã, um dos primeiros jornais da chamada imprensa alternativa ou nanica, que reunia publicações de resistência à ditadura. O semanário estudantil seria vendido em banca.

Tonico, estou em dúvida sobre qual será o posicionamento político do jornal que pretendo lançar aqui. Isso é sempre um problema. O Amanhã, que você me ajudou a fazer, teve apenas seis edições e fechou pelos mesmos motivos que destruíram outros veículos alternativos de esquerda: perseguição do governo, dificuldades financeiras e rachas por questões ideológicas às vezes incompreensíveis para quem não era do meio.

O grêmio da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP criou e bancou o Amanhã. Ex-colega do Raimundo no ITA, também expulso em 1964, José Roberto Arantes de Almeida liderava o grêmio e, em 1968, assumiu a vice-presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE). Com o acirramento da ditadura, aderiu à luta armada e acabou assassinado nos porões do regime militar.

Raimundo engatou uma carreira de sucesso na grande imprensa assim que o Amanhã fechou. Em 1971, na revista Realidade, dirigiu a equipe que assinou a premiada edição especial sobre a Amazônia. Pouco antes, em 1969, coordenou uma corajosa reportagem na revista Veja que furou o bloqueio da censura e denunciou o uso sistemático de tortura pelo governo na repressão aos opositores.

O jornalista estava no auge profissional quando decidiu mudar de rumo para combater a ditadura de maneira ainda mais contundente. Em 1972, trocou um emprego com bom salário em São Paulo por outro não tão bem remunerado no Rio. Iria lançar e chefiar o Opinião, segundo semanário que fizemos juntos. Ele escolheu morar num apartamento muito próximo da favela Santa Marta, em Botafogo, com a mulher – a ativa socióloga Sizue Imanishi, que morreu em 2020 – e as quatro filhas. Depois, a família se mudou para uma casinha no Rio Comprido, bairro da região central. O sertanejo Raimundo, que se criou em pequenas cidades do interior paulista, sempre preferiu lugares menos sofisticados. Em São Paulo, morou na Freguesia do Ó.

O empresário nacionalista e democrata Fernando Gasparian, futuro proprietário da editora Paz & Terra, patrocinava o Opinião. À época, o Raimundo já nutria a ideia de fazer um jornal de jornalistas, sem patrão. Mesmo assim, apostou que o projeto de Gasparian daria certo – e realmente deu, mas por algum tempo.

Depois que a ditadura se tornou mais truculenta, quase todas as grandes empresas jornalísticas tinham se acomodado a uma situação de censura progressiva que vinha asfixiando a imprensa brasileira. Eu achava que havia espaço para um semanário de oposição com uma equipe disposta à luta. Muitos profissionais experientes se mostravam insatisfeitos com o conformismo da mídia tradicional e desejavam atuar num jornal como o Opinião, ainda que trabalhassem mais e ganhassem menos.

A oposição democrática estava aguardando iniciativas do tipo para sair da apatia. Iniciava-se, naquele período, a mobilização da sociedade civil que levaria mais adiante à anistia, à eleição (mesmo que indireta) de um presidente não militar e à Constituinte.

Eu acho, Tonico, que uma das maiores contribuições do Opinião foi mostrar que era possível enfrentar a ditadura sem apelar para a luta armada. Em 1972, graças às torturas e aos assassinatos, a repressão já tinha derrotado praticamente todos os adversários que pegaram em armas. Tamanha violência do governo, no entanto, não parecia apropriada para combater uma oposição que pretendia atuar dentro da legalidade.

Gasparian fincou a bandeira do Opinião na Rua Abade Ramos, 78, no Jardim Botânico. Nada era clandestino. Ele almejava uma publicação moderada de esquerda, à maneira da revista britânica The New Statesman, que oferecesse análises políticas e culturais. Já o Raimundo queria uma redação composta essencialmente por jornalistas. O que saiu foi uma boa junção das duas ideias. Vieram para o semanário repórteres, editores e críticos como Aguinaldo Silva (hoje telenovelista), Bernardo Kucinski, Dirceu Brisola, Flavio Pinheiro, Aloysio Biondi, Tárik de Souza, Sérgio Augusto e Ana Maria Bahiana. Um time de intelectuais respeitados também escrevia no jornal: Paul Singer, Nelson Werneck Sodré, Celso Furtado, Boris Fausto, Francisco Weffort, Chico de Oliveira... Lembro bem quando aterrissou na redação um jovem economista ainda desconhecido, vindo da Universidade Estadual de Michigan, um tal de Eduardo Matarazzo Suplicy.

Em A ditadura escancarada, livro de Elio Gaspari, o autor diz que, no Opinião, “havia espaço para as mulheres, os negros e os homossexuais como tais, sem que fizessem parte de uma marcha da humanidade em direção ao socialismo. Ao cosmopolitismo e à boa qualidade de seus articulistas [...], [o jornal somava] uma seção cultural que vocalizava a hostilidade ao dogma do nacional-popular, base do prestígio dos intelectuais da esquerda tradicional”.

O sucesso veio logo nos primeiros números. O semanário chegou a vender 38 mil exemplares por semana. Pegos de surpresa, os militares contra-atacaram com a censura prévia. A tesoura do governo começou a agir na edição 9 e não parou mais. Em algumas ocasiões, metade dos textos enviados aos censores – que ficavam longe da redação, em Brasília – era total ou parcialmente cortada. Raimundo nunca desanimou.

Você sabe que gosto de futebol. Eu jogaria bola em qualquer lugar e por qualquer motivo, mas as partidas semanais com o pessoal da redação também tinham a função de fortalecer o espírito coletivo naquele momento difícil.

Ele jogava bem. Atuava no meio- campo e organizava o time. Sua aliança com Gasparian durou 121 edições e cerca de dois anos. Foi rompida por “divergências políticas”, segundo o jornalista, ou “problemas de gestão interna”, segundo o empresário. A redação toda se demitiu quando o editor-chefe saiu, mas o Opinião circulou até abril de 1977.

Raimundo, eu e muitos outros da equipe voltamos a São Paulo e, em 1975, fundamos um novo semanário, o Movimento. Nosso intuito era finalmente botar de pé o jornal sem patrão. Como nos faltava dinheiro para lançá-lo, organizamos uma campanha de arrecadação entre colegas e profissionais de diversas áreas. O capital necessário apareceu rapidamente. Naquela altura, a sociedade civil que rejeitava os militares estava bem mais organizada.

O Movimento ajudou a agregar os vários setores da oposição e, nos primeiros anos, contou com o apoio de todas as camadas da esquerda. Basta ver alguns dos nomes que compunham o Conselho Editorial: o cantor Chico Buarque, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso e o indigenista Orlando Villas-Bôas.

Com sede no bairro paulistano de Pinheiros, o jornal tinha sucursais nas principais capitais do Brasil. Vendas em bancas e assinaturas anuais garantiam parte substancial do faturamento, mas também havia vendedores avulsos espalhados por todo o país, que comercializavam o semanário de mão em mão. Uma parcela deles iria se destacar mais tarde na política, como o acreano Chico Mendes, o alagoano Aldo Rebelo e o mato-grossense Dante de Oliveira.

Os desafios para produzir o Movimento eram enormes. Precisávamos alcançar o equilíbrio financeiro, manter unida uma equipe de diferentes tendências ideológicas e encarar os censores. Dessa vez, a ditadura estava mais esperta e implantou a censura prévia já no primeiro número. Por outro lado, a redação também estava mais atenta e foi descobrindo caminhos para driblar a tesoura.

Raimundo gostava de relembrar nossa longa jornada no semanário, que durou inacreditáveis seis anos. Eu não tenho o mesmo prazer. Foi uma fase de debates intermináveis, divisões no grupo, muito trabalho e pouca grana (deixei de fumar porque não conseguia nem comprar cigarro). Raimundo sofria críticas frequentes, acusado de ser um chefe rígido, centralizador e teimoso, o que de fato era. Para mim, no entanto, a memória que deve prevalecer é a da importância do Movimento na luta contra a ditadura e pelos direitos civis.

Quando a publicação acabou, em 1981, segui o meu caminho no telejornalismo (embora formado em arquitetura, nunca exerci a profissão). Fragmentada em inúmeros veículos de linhas políticas distintas, a imprensa nanica perdeu força e praticamente desapareceu. Eu me senti derrotado, mas o Raimundo continuou na batalha dos alternativos. Criou, por exemplo, a importante coleção de fascículos Retratos do Brasil. Também escreveu livros e artigos para vários jornais e revistas, inclusive a piauí.

Ele não conseguiu, porém, realizar o objetivo que perseguiu desde o fim do Movimento: lançar um jornal diário e popular que narrasse os acontecimentos “sob o ponto de vista do trabalhador”. Lutou incansavelmente, mas o Brasil tinha mudado e não havia condições políticas nem jornalísticas para sustentar um veículo de esquerda com um ideário tão radical quanto o que o Raimundo pregava. Se por isso ele se sentiu derrotado, não deu a entender. Como os missionários, fechou os olhos convicto de que trilhou o caminho certo.

Tonico, sempre que tiver oportunidade de falar com jovens jornalistas, cite a lição dos chineses que está no Livro de Hã: “Busque a verdade nos fatos.” Esse foi o meu norte no jornalismo.

Depois, se despediu:

Estou feliz ao lado da minha querida Sizue. Vamos acompanhar as nossas filhas Ana, Lia, Rute e Raquel a distância, com muito amor e sem interferir na vida delas, como sempre fizemos. Até.


[1] As declarações pós-morte foram escritas com base em algumas reportagens, em reminiscências de Tonico Ferreira e na biografia Contracorrente: a história de Raimundo Rodrigues Pereira, assinada por Júlia Rabahie e Rafael Faustino.


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Um dos fundadores do jornal Movimento, foi repórter e correspondente internacional da TV Globo.