Nigel Farage, líder do Reform UK: em maio, nas eleições para conselheiros (similar a vereador), seu partido teve 26% dos votos, avançando sobre o terreno dos partidos tradicionais - CRÉDITO: RALPH STEADMAN_2013 © RALPH STEADMAN ARCHIVE_BRIDGEMAN IMAGES
Nigel Farage, líder do Reform UK: em maio, nas eleições para conselheiros (similar a vereador), seu partido teve 26% dos votos, avançando sobre o terreno dos partidos tradicionais - CRÉDITO: RALPH STEADMAN_2013 © RALPH STEADMAN ARCHIVE_BRIDGEMAN IMAGES

carta de blackpool

REFORM UK

A ascensão da ultradireita no Reino Unido

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Numa tarde de domingo com chuva, vento forte e aquele clima dark do inverno inglês, saio de um Uber e corro para o interior aconchegante de um pub. Estou em Blackpool, cidade litorânea de 140 mil habitantes, na costa noroeste da Inglaterra. Fica a 215 km da Irlanda por mar e a 80 km de Manchester, a terceira maior cidade do Reino Unido.

Dentro do pub, chamado The Talbot, peço uma caneca de Black Sheep, uma cerveja da região, por 2,70 libras (cerca de 19 reais) – menos da metade do que me custaria em Londres. Também peço o clássico almoço britânico de domingo: carne com molho, batatas assadas, repolho e um acompanhamento tradicional feito de farinha, leite e ovos chamado yorkshire pudding. Uma porção grande me custa 6 libras (cerca de 42 reais) – também muito barato para os padrões ingleses. Atrás de mim, dois rapazes que aparentam ser do Nepal estão tomando suco, em torno de uma das duas mesas de bilhar que dominam esta parte do pub – aliás, um pub muito grande. Alguns velhotes ingleses estão espalhados pelo local, sentados em bancos embaixo de uma grande bandeira do Reino Unido. Conversas em voz baixa, pontuadas pelos estalos das bolas de bilhar, se misturam com os comentários de duas grandes telas de tevê – uma mostrando futebol, e a outra, a corrida final da Fórmula 1 de 2025, transmitida de Abu Dhabi.

Sento-me a uma mesa onde um rapaz e uma moça tomam seus drinques. O rapaz, de barba por fazer, tem traços ligeiramente chineses. Usa óculos e um casaco cinza sobre uma camiseta azul-clara de algum time de futebol. Quando se levanta para jogar numa máquina caça-níqueis, sua companheira foca a atenção na tela acima de nós e fica absorta nos carros de corrida. O piloto britânico Lando Norris está prestes a vencer o campeonato. Quando alguém no bar aciona um controle remoto e muda o canal para o futebol, a moça, decepcionada, deixa cair os ombros.

“Mas a corrida está quase acabando!”, ela exclama. “E parece que o Lando vai ser campeão!” Absorvido no jogo, seu namorado dá de ombros, apertando os botões da máquina que piscam e mudam de cor.

Ela lança um olhar para o bar, onde uma senhora de meia-idade com uma expressão feroz manuseia o controle remoto. Percebo que a fã de corridas, obviamente uma inabitual cliente do pub, é reservada demais para lhe pedir que volte para a Fórmula 1.

Eu me ofereço: “Quer que eu veja se ela volta para a corrida?”

Ela sorri: “Sim, por favor.”

Peço à dona do pub que volte para a Fórmula 1, pois a corrida está quase no fim. Ela me atende. Volto para o meu lugar. Agora que quebramos o gelo, converso com a moça enquanto ficamos de olho na tela. Ela explica que veio de carro com o namorado de Bournemouth, cidade costeira do Sul da Inglaterra, para passar o fim de semana aqui. Apesar do clima horrível, eles se divertiram.

Lando Norris chega em terceiro, conquistando o campeonato. Conseguiu se sair bem melhor que o namorado dela, que volta para a mesa depois de perder 30 libras (mais de 200 reais) jogando no caça-níqueis. Para puxar assunto, aponto para sua camiseta de futebol. É torcedor do Manchester City? Ele ri e abre mais o casaco. Agora entendo a graça. A camiseta, mais turquesa do que azul, traz a palavra “Reform” e uma flecha branca dentro de um círculo, apontando para a direita.

“De jeito nenhum – sou Manchester United! Mas gosto de usar essa camiseta, mesmo sendo da cor errada.”

O novo partido populista de direita do Reino Unido, Reform UK, conhecido apenas como Reform, nunca escolheria o vermelho vivo do Manchester United para sua camisa oficial. Afinal, este não é apenas um pub qualquer. O Talbot é o primeiro pub oficial do Reform em todo o Reino Unido. O casal veio a Blackpool com este destino específico em mente.

Ash (abreviação de Ashley), o rapaz de 33 anos, explica que dirigiram 450 km até Blackpool na manhã de sexta-feira, assim que ele saiu do seu trabalho noturno de segurança em um santuário de macacos. Eu nunca tinha ouvido falar do Monkey World, um centro de resgate de primatas. Depois fico surpreso ao saber, segundo o site da entidade, que abriga o maior grupo de chimpanzés fora da África. Ele também me conta que pediu Sarah em casamento na véspera. Ela me mostra um anel de noivado e explica que estão comemorando com drinques naquele almoço.

Ash costumava apoiar o Partido Conservador, os Tories, uma das legendas mais antigas e tradicionais, mas diz que se sentiu traído pelo Brexit. Como muitas pessoas que votaram pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE), ele crê que a ex-primeira-ministra conservadora Theresa May (2016-19) e seu sucessor Boris Johnson (2019-22) não conseguiram fazer o melhor acordo possível.

Pergunto o que o atrai no Reform. Ele é bem claro: “O Reform é como um farol de luz. É como uma cunha que entra no meio do sistema de dois partidos – tanto o Partido Trabalhista, o Labour, quanto os conservadores estão ameaçados pelo Reform.”

Para Ash, a principal questão é “a imigração irrestrita e os migrantes ilegais”, que, segundo ele, levaram a “um aumento da ameaça terrorista. Essas pessoas não têm documentação, não têm dbs [refere-se ao registro histórico legal e criminal da pessoa no Reino Unido]. Eles jogam os passaportes no mar ou em qualquer lugar, e não sabemos quem são. Parece um risco para o público, e eu me sinto ameaçado. Isso pode acontecer com qualquer um, eles podem acabar bombardeando a cidade ou algo assim, não sabemos.”

Ash faz questão de enfatizar que não está preocupado com a questão racial. Ele próprio é descendente de estrangeiros – a avó é natural de Cingapura – e diz que sofreu bullying na escola. “As pessoas me chamavam de china, de olho puxado, coisas assim. Isso, sim, é racismo.”

Ashley tira uma selfie tomando uma caneca de Remainer Tears (Lágrimas dos que quiseram permanecer), uma cerveja produzida localmente para o Talbot em comemoração ao Brexit (a escolha oferecida ao público britânico foi “permanecer” na União Europeia, ou “sair”). Envia então a foto ao cunhado, que votou em “permanecer”, para provocá-lo.

O legado do Brexit é polarizador, mas não é nada claro. Em teoria, ao assumir o controle das suas fronteiras e tomar suas próprias decisões comerciais, sair da União Europeia deveria reduzir a imigração e tornar o Reino Unido mais rico. No entanto, quase dez anos depois do voto em favor do Brexit há poucos sinais de melhora real na vida da maioria dos britânicos. A imigração caiu nos últimos anos, mas, até 2023, teve um crescimento dramático. Naquele ano, entre as entradas e saídas, ficou um saldo migratório recorde de 906 mil, um influxo de novos residentes equivalente a cerca de 1,3% da população britânica, de 68 milhões de habitantes. E enquanto a imigração vinda da ue diminuiu, chegaram ao país 3,6 milhões de migrantes de fora da ue entre 2021 e 2024. Os benefícios econômicos prometidos ainda não se materializaram. Em outubro de 2025, um relatório da Organização Mundial do Comércio (omc) afirmou que o comércio exterior britânico vem apresentando desempenho abaixo do esperado desde 2018, citando o Brexit como uma das principais causas dessa queda.

Falta habitação acessível, especialmente nas grandes cidades, e o sistema público de saúde está mais sobrecarregado do que nunca. A insatisfação com a situação política e com os dois partidos que dominam o sistema britânico – os conservadores e os trabalhistas – está altíssima. Ambos estão perdendo apoiadores em massa. Assim como ocorre no mundo para além desse país outrora poderoso, com uma dinâmica de poder sempre em transformação, a política britânica está se fragmentando: vai se polarizando para a esquerda e a direita, e se esvaziando no centro. Os trabalhistas, atualmente no poder sob o comando do primeiro-ministro Keir Starmer, estão perdendo eleitores para o Partido Verde, sobretudo moradores das grandes cidades, jovens, progressistas e universitários, e tem um novo líder muito popular, Zack Polanski. Já o Reform está atraindo o apoio da classe operária e dos mais velhos, em todo o país.

Em abril de 2026, uma pesquisa nacional apontou a intenção de voto no Reform em 24%, à frente dos conservadores (19%), do Partido Verde (18%) e dos trabalhistas (17%). Apesar do legado questionável do Brexit, o líder do Reform, Nigel Farage, cabeça da campanha para deixar a UE, é festejado pela direita global e amigo pessoal de Donald Trump.

O Brexit aprofundou fissuras que já vinham de longa data na política conservadora britânica. E hoje, o que a direita britânica representa está em rápida mudança. Historicamente, a maioria dos conservadores favorecia uma direita econômica, simbolizada pelo monetarismo de Margaret Thatcher e por um Estado pequeno. Hoje, uma direita cada vez mais nativista está surgindo em torno de questões de identidade nacional e imigração. Nigel Farage e o Reform estão aproveitando essa tendência e conseguindo votos, atraindo parlamentares e membros do Partido Conservador. Enquanto essa legenda tradicional luta para permanecer relevante, o Reform é a novidade que vem surgindo com força.

O Reform, antes chamado “Partido do Brexit”, nasceu oficialmente em 2021, apresentando-se como o partido do “relógio despertador”, ou seja, dos que acordam cedo e trabalham duro. O Reform promove uma narrativa de decadência, sempre afirmando que o país está broken, no sentido de que enguiçou e parou de funcionar como antes. O slogan Broken Britain, usado pela primeira vez pelo líder conservador David Cameron em sua campanha eleitoral de 2010, articula uma ansiedade generalizada sobre o declínio social, tal como visto pela população. A expressão, em geral enraizada em sentimentos e percepções, não em dados, remete a uma época mítica em que, supostamente, tudo funcionava, e atualmente não funciona mais. Hoje, apenas o Reform é capaz de consertar o país, promete Farage. Em novembro de 2025, chegou a escrever um manifesto intitulado “Carta de Nigel Farage à Broken Britain”.

Terminado meu almoço de domingo, me despeço do casal de noivos. Saindo do Talbot noto um cartaz anunciando uma festa de Natal do diretório do Reform em Blackpool para aquela noite. Tomo nota e planejo voltar.

Durante a maior parte do século xx, a cidade de Blackpool, com seus 11 km de “areia dourada”, passeios de burrico, elefantes e muitas outras atrações, era o destino de férias preferido dos operários britânicos. Porém, não mais: com o advento dos voos baratos e pacotes turísticos, os britânicos agora tiram longas férias em outros lugares. Black­pool, assim como muitas das grandes cidades costeiras do país que antes eram prósperas, está em pleno declínio. Essa deterioração encapsula a insatisfação social britânica e também reflete a diminuição do status mundial do país, outrora um pilar de progresso e inovação.

A vida de Blackpool como resort à beira-mar começou na segunda metade do século XVIII, com a crescente popularidade dos banhos de mar. Os primeiros hotéis de Blackpool datam de 1780. Em 1846, construiu-se uma ferrovia ligando a cidade a outros pontos do país. Em 1879, tornou-se um dos primeiros lugares do mundo a instalar iluminação elétrica nas ruas. Os visitantes corriam para ver as novas luzes, o chamado “Sol artificial”. A exibição Blackpool Illuminations, que comemora o advento da iluminação elétrica, acontece anualmente e ainda atrai milhões de visitantes. O sistema de bondes de Blackpool, inaugurado em 1885 e ainda operante, também foi um dos primeiros do mundo. Em 1934, o autor inglês J. B. Priestley descreveu Black­pool como “uma grandiosa fera, rugindo e cintilando”. Sempre foi conhecida por seu colorido brilhante e pela grande escala de suas atrações.

Operários da região Norte do país, tradicionalmente industrial, constituíam a maioria dos visitantes. Quando as fábricas fechavam para as férias anuais de verão, famílias inteiras – e até mesmo cidadezinhas inteiras – invadiam Blackpool. O resort permaneceu muito popular para esses visitantes até a segunda metade do século xx, quando os pacotes turísticos baratos para a Espanha e outros países mudaram para sempre a sorte de Blackpool. Embora os visitantes ainda acorram em grandes números – mais de 20 milhões por ano – ficam apenas um dia ou, no máximo, um fim de semana, não mais por uma ou duas semanas. E enquanto os turistas chegam e partem depressa, os moradores da cidade vão ficando para trás. É muito difícil encontrar um emprego que dure o ano todo.

Para além dos brinquedos do parque de diversões e das fachadas cintilantes, Blackpool é uma cidade densamente povoada, com problemas crônicos. Segundo o Índice de Privação Múltipla, a métrica britânica que calcula o volume de recursos socioeconômicos “necessários para a vida”, sete áreas de Blackpool estão entre as dez mais carentes do país. A inatividade econômica, que abrange indivíduos incapazes ou não dispostos a trabalhar, está em 30,8%, o que significa quase 10 pontos acima da média nacional. A expectativa de vida média para homens, de 73,7 anos, é a mais baixa da Inglaterra (a média nacional é de 79,5 anos). Blackpool tem uma das maiores proporções nacionais de crianças sob tutela do Estado e, com 32,4 por 100 mil, exibe a maior taxa de mortes relacionadas a drogas na Inglaterra – fato que lhe rendeu o apelido de Crackpool, Cidade do Crack. De cada 1 mil adultos residentes, 185 recebem benefícios do governo por doença e invalidez.

Em 2017, uma investigação aprofundada do Financial Times sobre a vida na cidade observou que Black­pool estava exportando trabalhadores qualificados saudáveis e importando os “não qualificados, desempregados e doentes”. As taxas de prescrição de antidepressivos eram as mais altas da Inglaterra. Alguns médicos disseram aos repórteres que, conversando em particular, costumam diagnosticar pacientes com o que chamam de “síndrome de vida de merda”, causada por uma mistura complexa de dificuldades sociais, econômicas e emocionais. Esse conjunto de problemas reflete os fatores que contribuem, segundo se acredita, para as chamadas “mortes por desespero” – suicídio, álcool e opioides – uma categoria identificada por economistas nos Estados Unidos, na população branca da classe operária. E, assim como o Rust Belt, o Cinturão da Ferrugem [vasta região dos Estados Unidos de industrialização em colapso], Blackpool é um terreno fértil para o populismo.

Vejo que a chuva diminuiu quando saio do pub para dar uma caminhada ao longo da orla. Emoções e prazeres estão por toda parte: uma roda-gigante que toca música ensurdecedora, fazendo os passageiros gritarem em seus assentos, que giram lá no alto, acima do mar, para depois puxá-los de volta para terra. Doces e fast-food por toda parte. Atrações para crianças – há um museu inteiro dedicado a um dos personagens favoritos das crianças inglesas, o Gruffalo. E para os adultos, pubs, cassinos e caça-níqueis – há entretenimento para todas as idades.

Em frente ao parque de diversões ergue-se a Blackpool Tower, inspirada na Torre Eiffel de Paris. Na inauguração, em 1894, foi anunciada como o edifício mais alto do Império Britânico. No piso térreo há um salão de baile com decoração elaborada, ainda usado uma vez por ano para gravar um episódio de Strictly Come Dancing, um dos programas de televisão com maior audiência no país.

Longe do barulho e das luzes, a ponta Norte da orla, muito mais tranquila, abriga o Memorial de Guerra de Blackpool, obelisco de granito erguido em 1923 em homenagem aos soldados mortos na Primeira Guerra Mundial. Vizinho ao obelisco ergue-­se um imponente edifício vitoriano de tijolos vermelhos com quatro andares e torreões nos cantos: é o hotel Metropole, que domina essa extremidade da orla desde o século XVIII.

Hoje, porém, o Metropole, antes representativo da grandeza de Black­pool, está fechado ao público.[1] Desde 2021, tem sido usado para abrigar migrantes que solicitam asilo, chegando a alojar centenas ao mesmo tempo. Para muitos britânicos, o uso de hotéis populares como acomodação emergencial para requerentes de asilo não é apenas um símbolo de degeneração, mas também de um sistema de imigração caótico, que já não serve mais aos seus fins. Os “hotéis de asilo” foram introduzidos como medida temporária, mas continuam operacionais devido ao acúmulo de pedidos – mais de 80 mil casos pendentes em setembro de 2025. Hoje esses hotéis são comuns em toda a Inglaterra.

Como as numerosas gaivotas planando em volta dos seus torreões, a controvérsia gira em torno do Metropole. Em julho de 2025, Samantha Arden, de 46 anos, disse ao site de notícias The Blackpool Lead que deixara seu emprego no hotel para denunciar as condições deploráveis do local, como canos vazando água e entulho caindo do telhado. Afirmou que os residentes incluíam famílias inteiras, assim como idosos, pessoas com deficiência e “bebês criados num quarto superlotado”. Declarou ainda que alguns residentes do hotel (com capacidade para 515 hóspedes) “estão morando ali há mais de três anos, numa espera interminável de resposta ao seu pedido de asilo. A vida deles está em suspenso, e essa situação está destruindo essas pessoas”.

Arden trabalhava para a Serco, uma das três empresas que receberam contratos de dez anos em 2019, no valor de mais de 4,5 bilhões de libras, que corresponde a 24,5 bilhões de reais, para abrigar requerentes de asilo. Estimativas recentes apontam para custos fora de controle – em 2023 chegou-se a gastar 8 milhões de libras por dia, ou 49 milhões de reais – e preveem que as três firmas irão receber mais de 15 bilhões de libras até 2029 (ou 104 bilhões de reais), ano em que expiram seus contratos com o governo. As despesas crescentes se devem sobretudo ao atraso no processamento dos pedidos, juntamente com o aumento das chegadas – ou seja, mais imigrantes precisam ser alojados em mais hotéis, por mais tempo. O atual governo trabalhista do Reino Unido, que estava na oposição quando o esquema foi concebido sob o ex-primeiro-ministro conservador Boris Johnson, não hesita em culpar o partido rival por esse sistema, que considera “quebrado”.

Além dos custos crescentes, localizar um hotel de asilo em um lugar como Blackpool, onde os serviços públicos já são insuficientes para atender os moradores locais, é visto como uma ameaça à coesão comunitária. Ao acomodar um grande número de pessoas em um único local, o hotel exerce uma pressão sem precedentes sobre os serviços de saúde, assistência social e educação.

Nesta tarde de inverno, em frente ao Metropole, vejo homens e mulheres, jovens e de meia-idade, em geral aparentando vir da África e do Oriente Médio, formando grupinhos de dois e três, tomando bebidas quentes em canecas brancas. Alguns fumam. Usam bonés e moletons com capuz contra o frio e a chuva. Na parte traseira do edifício, numa janela com vista para o Mar da Irlanda, uma mulher com a cabeça coberta por um hijab alimenta uma barulhenta multidão de gaivotas. Enquanto no passado os turistas com vista para o mar talvez apreciassem a cena como forma de escapismo, os atuais residentes do Metropole, sobretudo os que chegaram ao país de barco, talvez se lembrem apenas das dificuldades. Fico pensando se alguns se arrependem de ter feito uma viagem tão árdua e perigosa.

Em 2025, durante o verão, o Metropole e outros hotéis usados para abrigar migrantes se tornaram pontos de tensão para manifestações anti-imigração em todo o Reino Unido. Os protestos começaram em frente a um hotel em Essex, no nordeste de Londres, depois que um etíope de 41 anos, Hadush Kebatu, foi detido e condenado por agressão sexual, incluindo a uma menina de 14 anos. Kebatu chegara ao país havia apenas alguns dias quando os crimes ocorreram. Desordens públicas marcaram muitos protestos, com manifestantes anti-imigração confrontando a polícia e grupos de contramanifestantes. Apesar dos violentos enfrentamentos, Nigel Farage, fundador e líder do Reform UK, incentivou a população a continuar protestando.

Em seu best-seller The science of storytelling (A ciência da narrativa), o escritor britânico Will Storr observa que supostos crimes sexuais cometidos por uma pessoa de fora podem ser explorados para provocar repulsa, assim agravando temores primais da tribo, vinculando a depravação sexual à origem racial. “Nós pensamos em termos de histórias tribais. É nosso pecado original”, escreve ele. “Sempre que sentimos que o status da nossa tribo está ameaçado por outra tribo, essas redes cerebrais sórdidas se ativam [...]. O cérebro contador de histórias entra em estado de guerra [...]. Ele usa as transgressões dos piores membros do grupo rival [...] para diminuir todos eles. Pega indivíduos e apaga sua profundidade e sua diversidade”, ao mesmo tempo em que nos faz “sentir que somos grandes, que somos o herói moral de uma história emocionante”. Na Grã-Bretanha contemporânea esses temores primordiais, em geral enterrados profundamente na psique do público, estão borbulhando logo abaixo da superfície, devido ao fracasso, ao longo de décadas, em lidar com o chamado escândalo das “gangues de aliciamento”.

As gangues de aliciamento começaram a chamar a atenção de jornalistas e autoridades na Inglaterra no início dos anos 2000. Grupos de homens procuravam meninas vulneráveis, muitas com apenas 13 anos, frequentemente alojadas em instituições de assistência social. Normalmente um membro do grupo identificava e mirava uma determinada vítima, oferecendo-lhe presentes, álcool e drogas em troca de sexo. Neste processo, ia separando a adolescente de seus amigos e familiares e se tornando seu “namorado”. Uma vez socialmente isolada, a vítima era então passada para outros membros do grupo para fins sexuais. Esse método difere da maioria dos casos de abuso sexual no país, em que a vítima inicialmente já conhece o agressor, que pode ser um membro da família ou amigo próximo.

O método também difere em um aspecto crucial, socialmente incendiário. A maioria dos supostos agressores seriam homens de origem paquistanesa, cometendo crimes contra meninas brancas. No início dos anos 2000, quando a prática começou a ser denunciada na cidade de Rotherham, no centro-norte do país, as autoridades locais silenciaram as denunciantes e não tomaram medidas adequadas, por medo de inflamar as tensões raciais. Assim, inúmeras vítimas, de todas as idades, tiveram suas denúncias descartadas, sob a alegação de que eram promíscuas e que elas mesmas provocaram o abuso. Um relatório de 2014 estimou que entre 1997 e 2013, até 1,4 mil crianças foram exploradas sexualmente em Rotherham.

Sucessivos governos nacionais fracassaram nas tentativas de enfrentar o problema. A falta de ações decisivas permitiu que grupos de extrema direita se apropriassem do escândalo para promover sua própria agenda. Stephen Yaxley-­Lennon, ativista anti-Islã conhecido como Tommy Robinson, usou campanhas em torno do tema para aumentar sua visibilidade, com apoiadores poderosos nos Estados Unidos, como o multibilionário Elon Musk e o ativista conservador e apresentador de tevê Tucker Carlson. Musk, por sua vez, aproveitou o assunto em ataques regulares online contra o primeiro-ministro Keir Starmer, ex-procurador-geral de Justiça. “Starmer foi cúmplice do ESTUPRO DA GRÃ-BRETANHA quando esteve à frente da Procuradoria, durante seis anos. Starmer deve sair, e deve enfrentar acusações por sua cumplicidade no pior crime em massa da história do país”, escreveu Musk no X em janeiro de 2025. Com tuítes incessantes em sua plataforma e ataques ao governo sobre o assunto, Musk dominou as manchetes por várias semanas, período em que parecia ditar a agenda política britânica.

Nesse contexto volátil, a agressão sexual cometida por Hadush Kebatu, requerente de asilo alojado num hotel, se mostrou explosiva. Kebatu acabou sendo deportado, mas apenas após um processo confuso, que incluiu sua libertação acidental, recaptura e um polêmico pagamento de última hora de 500 libras (cerca de 3 530 reais) como “incentivo” para não criar tumulto no aeroporto ao ser deportado. É simbólico que Kebatu tenha chegado ilegalmente à Inglaterra em um pequeno barco lançado da costa francesa em junho de 2025. Além dos hotéis de asilo, os barquinhos precários são a manifestação mais visível da crise da imigração.

O uso ilegal de pequenos barcos para transportar migrantes ao Reino Unido começou em 2018, depois que a “crise” migratória no Norte da Europa levou as autoridades francesas a reforçar a segurança nas fronteiras. A prática se acelerou depois dos choques combinados do Brexit e da Covid, que resultaram em checagens mais complexas nos portos e no Túnel do Canal da Mancha (comumente chamado de Eurotúnel). Tradicionalmente, as quadrilhas de tráfico de pessoas usavam caminhões e contêineres para esconder grupos de migrantes – um método popular e, por vezes, mortal: em 2019, 39 migrantes vietnamitas foram encontrados mortos por sufocamento em um contêiner abandonado.

A atração dos refugiados pelo Reino Unido aumentou em 2022, quando os que solicitavam asilo pela primeira vez tinham quase três vezes mais chances de ter sucesso em seus pedidos no Reino Unido do que na França. Quadrilhas de tráfico de pessoas, que, segundo depoimentos, são atualmente lideradas sobretudo por curdos iraquianos, implantaram modelos de negócio sofisticados, usando as redes sociais para atingir potenciais migrantes ainda em seus países de origem. Em uma viagem típica, mais de cinquenta pessoas são espremidas em um bote inflável barato projetado para levar dez indivíduos. Cada cliente paga cerca de 2 mil euros pela viagem. Normalmente, são “capitaneados” por um dos próprios migrantes, que ganha um desconto por assumir a “liderança” da travessia. Na Europa continental, os clientes são mantidos em locais secretos até que as condições climáticas sejam consideradas favoráveis, quando se reúnem em um ponto no litoral, onde membros da quadrilha lançam os botes ao mar. A viagem é perigosa. Em 2024, 78 migrantes morreram afogados no Canal da Mancha quando seus barcos sobrecarregados viraram.

As autoridades britânicas lutam contra o problema. Em 2020, o Brexit encerrou os acordos migratórios com a França. Os dois países só decidiram como administrar a questão em julho de 2025. Esse acordo introduziu um sistema de “um entra, um sai”, pelo qual o Reino Unido pode devolver um imigrante ilegal que tenha chegado de barco de volta à França, em troca de um requerente que tenha solicitado asilo ao Reino Unido por meios legais na França. Até janeiro de 2026, só 281 migrantes ilegais foram devolvidos à França por meio desse acordo. Os dados revelam que o esquema é pouco mais que simbólico. Em 2025, 41 472 migrantes fizeram a travessia ilegal do Canal da Mancha em pequenos barcos. Em um único dia de dezembro de 2025, chegaram 803 pessoas em treze barcos. A maioria era do sexo masculino e provinha da Eritreia, Afeganistão e Irã.

Em resposta à polêmica pública sobre os barcos precários e os hotéis de asilo, em novembro de 2025 o governo britânico introduziu reformas abrangentes na migração. Ao apresentar as medidas, a secretária do Interior, Shabana Mahmood, ela própria muçulmana, filha de imigrantes paquistaneses nascida no Reino Unido, declarou que “a migração ilegal está tornando este país mais dividido”. Explicou ainda que o status de refugiado não concederia mais ao requerente o direito de permanecer no país para sempre, mas apenas enquanto seu país de origem fosse considerado inseguro. Essas reformas são baseadas em uma política muito criticada, mas aparentemente eficaz, introduzida na Dinamarca, onde os pedidos de asilo caíram para o nível mais baixo em quarenta anos.

Naquela noite, volto ao Talbot para a festa de Natal. A chuva cai forte. Pulando as poças d’água, entro correndo no prédio. Um homem usando um terno com desenho da bandeira do Reino Unido me aponta uma escada. Lá em cima, música em alto volume denuncia uma festa. Entro em uma sala grande. Os frequentadores, em geral de cabelo grisalho, ocupam as mesas ao redor de uma pista de dança e um palco baixo. Um microfone ocupa o palco ainda vazio. Sem lugar para sentar, vou ao balcão nos fundos da sala, peço uma caneca de Black Sheep e fico por ali, meio sem jeito. Ao meu lado, dois homens de terno conversam animadamente. Vou me aproximando e explico que estou fazendo uma pesquisa sobre o Reform para uma revista brasileira. Felizmente – pois o Reform pode ser hostil aos jornalistas – eles são simpáticos.

Um dos dois tem um forte sotaque estrangeiro. Ele se apresenta como René e penso que pode ser francês. Na verdade, é alemão. O segundo, chamado Dan, explica com um inconfundível sotaque do Norte da Inglaterra que veio a Blackpool de Manchester, cidade próxima, para reforçar a campanha porta a porta por uma vaga no Conselho de Blackpool, a autoridade local do distrito, que funciona como uma Câmara de Vereadores. Em maio de 2025, o Reform fez uma campanha bem-sucedida para assumir o controle de dez instituições locais em toda a Inglaterra. Dan explica que concorreu como candidato a prefeito pelo Reform em Manchester, onde conseguiu quase 50 mil votos, ficando em terceiro lugar. Sua presença em Blackpool indica a estratégia do Reform de ganhar impulso nacionalmente, conquistando o maior número possível de assentos de conselheiros, similares a vereadores. O partido chegou a introduzir seu próprio “departamento de eficiência governamental”, inspirado no órgão que Trump entregou para Musk dirigir.

Quando me refiro ao Brasil, René menciona que viajará para a Argentina na semana seguinte, e acrescenta: “Sou um grande fã do [Javier] Milei e pretendo encontrá-lo.”

Pergunto se René trabalha para o Reform. “Não, estou na área de hospitalidade e imóveis”, responde ele. “Possuo três hotéis e vários apartamentos aqui em Blackpool.” Desconfio que ele é um doador local do partido.

Depois de uma breve apresentação de uma cantora escocesa, popular em Blackpool por seus shows de tributo a Dolly Parton, Dan (sobrenome Barker) sobe ao palco. Começa explicando que é um dos seis membros do conselho nacional de direção do Reform – e descubro que estava batendo papo com um dos figurões do partido.

Falando com desenvoltura, sem ler anotações, ele revela que voltou há pouco de uma turnê do Reform a Israel (financiada, segundo consta, pelo Ministério das Relações Exteriores israelense), que incluiu visitas ao Parlamento, ao local do massacre de 7 de outubro e às Colinas de Golan. A visita ocorreu logo após um ataque terrorista antissemita a uma sinagoga de Manchester, em outubro de 2025. Mesmo reconhecendo o sofrimento dos palestinos, ele afirma que considera moderada a resposta de Israel ao 7 de outubro, dada a ferocidade do Hamas. Ele ressalta o apoio do seu partido a Israel, opinando que nenhuma outra nação está tão bem equipada para garantir a segurança no Oriente Médio.

Quanto aos novos planos do governo britânico para a reforma da imigração, Dan Barker fala em ampliar a “janela de Overton” em relação ao assunto, citando o conceito criado por Joseph Overton, analista americano, para descrever o espectro do discurso político aceitável pelo público. Ele afirma que a recente fala de Shabana Mahmood é prova de que o Reform é “a oposição de fato” na política britânica: “Estamos definindo a agenda, estamos exercendo influência, o país está pendendo para a direita e nós estamos conduzindo isso com a nossa agenda política e com a nossa atuação.”

Chegando ao final do discurso, ele adota uma posição evangélica, descrevendo sua missão política como “uma luta pela alma e pelo futuro do nosso país”. Ele explica: “Como cristão, existe aqui uma dimensão espiritual para mim. Este país tem sido um farol de luz para o mundo, de muitas maneiras: um farol de liberdade, um farol da lei e da ordem, um farol de justiça, um farol de democracia. Quando nossa luz se apagar, em breve muitos outros lugares ficarão no escuro. Esse é o aspecto sério disso tudo. Há uma batalha acontecendo nesse reino espiritual. A luz e a escuridão – essa é a importância disso tudo para nós, no Reform.”

Depois de Dan Barker, um comediante sobe ao palco. O clima da noite muda completamente. Ao notar um homem sentado na frente tomando notas (não eu), ele não perde a chance: “Você é jornalista?”, aponta. “Se for da BBC, pode se mandar!”

Criticar a BBC é um passatempo favorito do líder do Reform, Nigel Farage, que também é apresentador de tevê na GB News, novo canal de notícias de direita, fundada em 2021. Paul Marshall, um dos donos da GB News, é gestor de hedge funds, apoiador do Brexit e filantropo com uma fortuna pessoal estimada em 875 milhões de libras, o equivalente a 6,15 bilhões de reais. Em 2025, Marshall afirmou que a BBC deveria ser vendida ou desmantelada, chamando-a de “braço de propaganda do Estado”. Durante a campanha do Brexit, a BBC foi muito acusada de parcialidade contra quem era favorável a deixar a UE. Farage usa sua plataforma na GB News para acusar a emissora estatal de ter um viés esquerdista e woke.

Por outro lado, em março 2026, uma reportagem investigativa de Alan Rusbridger, antigo editor do jornal The Guardian, tradicional título progressista, acusou a GB News de violar normas da Ofcom (agência independente que regula a concorrência nas empresas de comunicação). Segundo Rusbridger, “um partido político na Grã-Bretanha acabou tendo, na prática, sua própria emissora de televisão. A GB News se tornou essencialmente a Reform tv.” Andrew Neil, veterano jornalista conservador que ajudou a lançar a GB News , mas que renunciou depois de três meses como presidente e apresentador principal, também declarou à reportagem  que a equipe da redação “transformou a GB News no canal Reform”, acrescentando que não entende por que a Ofcom “permite” que políticos apresentem programas de tevê.

No Talbot, o acusado de tomar notas para a BBC levanta as mãos com falsa indignação, e admite, rindo alto, que é o secretário do Reform em Black­pool e está apenas anotando tópicos para a próxima reunião. Decido sair, mas antes converso com Mark Butcher, presidente do Reform na cidade, que aceita com prazer bater um papo antes da minha volta a Londres.

No dia seguinte, lá estou eu de novo no Talbot, e Butcher me conta que foi dele a ideia de promover o Talbot como o primeiro pub do Reform UK. “Durante 99 anos isso aqui foi o Talbot Conservative Club.” O pub está bastante movimentado para um almoço de segunda-feira. Reconheço alguns jogadores em volta da mesa de bilhar, os mesmos da véspera. “Meu pai, que era padeiro, costumava me trazer aqui. Ele votava nos trabalhistas, mas vinha aqui porque a cerveja era mais barata. Sempre foi um pub muito popular aqui na cidade.”

Nigel Farage visitou o Talbot em junho de 2025, pouco depois do relançamento do pub como pub da nova direita. Butcher é efusivo sobre o líder do partido, sua energia, sua aura e sua fantástica disposição. “Ele é simplesmente brilhante. É um cara normal que se dá bem com as pessoas. É um cara acessível, dá para conversar com ele de verdade. Ele se conecta, ele sabe como se conectar com as pessoas e o timing dele é excelente.”

Butcher acredita que o Reform tem fortes chances de chegar ao governo, mas não sem Nigel Farage: “O Reform sem Nigel seria como tirar Donald Trump dos Republicanos. Não quero nenhuma outra pessoa ali. Minha inspiração vem de batalhar para colocar Nigel lá dentro.”

Como Trump, Farage é alguém que chegou para desmantelar tudo. É um comunicador político formidável com um toque de homem comum que cativa o público. E consegue aparentar isso apesar da sua educação privilegiada no Dulwich College, uma escola particular de prestígio nos arredores de Londres. É uma figura contraditória. Eurocético de longa data e militante anti-UE, tem dois filhos que falam alemão, do seu segundo casamento, com uma alemã. Sua atual parceira é francesa. Farage bebe e fuma. Já sobreviveu a várias emergências: andando na calçada, foi atingido por um carro desgovernado. Sofreu um acidente com um avião leve. Teve câncer de testículo. Nunca entrou numa universidade. Antes de fazer política, trabalhou como trader de metais no distrito financeiro de Londres, a City of London. Vendedor inveterado, disse em 2019: “Quem pensa que a política não consiste em vendas não entende de política. A política consiste em vender ideias. Vender esperança. Às vezes, vender medo. São essas coisas que fazem a política funcionar.”

O herói político de Farage é o influente radical conservador Enoch Powell, notório por um discurso anti-­imigração feito em 1968. Powell, estudioso dos clássicos, aludiu à Eneida de Virgílio, afirmando: “Olhando para a frente, sou tomado por pressentimentos; tal como o romano, parece-­me que vejo ‘o Rio Tibre espumando sangue’”. Powell morreu em 1998.

É notável que Farage não tenha conseguido se livrar das acusações, que já levam décadas, de que tinha comportamentos racistas e antissemitas em seus dias de escola. Embora admita ter participado do que chama de “brincadeiras” inofensivas, alguns ex-colegas de escola já pediram que ele se desculpasse por seu comportamento adolescente. Em dezembro de 2025, em uma carta aberta, 26 de seus ex-colegas e professores expressaram “consternação e raiva” por sua resposta às acusações. O Reform continua a descartar as acusações como uma campanha difamatória da esquerda.

Farage é hábil com a mídia. Sua conta no TikTok, administrada por um jovem de 25 anos, tem atualmente 1,4 milhão de seguidores. Keir Starmer, o primeiro-ministro britânico, tem 244 mil. Em 2023, Farage participou de um reality show muito popular em rede nacional, I’m a Celebrity... Get Me Out of Here! (Sou famoso...  me tira daqui!), onde os telespectadores votam para eliminar as celebridades que enfrentam condições duras, acampados no meio do mato na Austrália. Ficou em terceiro lugar entre doze participantes. Para seus muitos fãs, Nigel Farage é um tipo divertido. Eles o veem como o antídoto àquele Reino Unido sisudo, sem senso de humor, fixado em DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão), com seus burocratas “politicamente corretos” e políticos com agenda baseada em questões de identidade, todos aparentando falar a mesma coisa. Farage, acreditam eles, é um sopro de ar fresco: o único político capaz de sacudir o país de sua letargia social, cultural e política. É fácil compreender por que ele é popular em Blackpool. Na lista de influenciadores do Financial Times de 2025, na qual aparece aliás o ministro Alexandre de Moraes, Farage foi nomeado como “chefe da ruptura”, definido pelo jornal como “porta-voz da classe operária do Norte”.

Butcher, de 57 anos, é envolvente e articulado. Nascido e criado em Black­pool, se autodescreve como sandgrow­nun (gíria local para quem nasceu e cresceu “perto da areia”). A família morava em conjuntos habitacionais do governo, e quando criança ganhava dinheiro carregando malas para os turistas. Na adolescência, abandonou a escola e logo aprendeu a trapacear nas centenas de máquinas de jogo para os turistas, prática que o levou a pequenos crimes e problemas com a lei. Ele diz que já foi detido, mas nunca foi para a prisão. Quando adulto, trabalhou como chefe de cozinha e gerente de uma firma de publicidade.

Ganhou destaque em Blackpool depois de fundar a Amazing Graze, cozinha comunitária que fornece alimentação e apoio para a numerosa população de pessoas sem-teto e usuários de drogas da cidade, sejam residentes ou de passagem. Por meio desse trabalho, passou a se interessar pela política local. Em 2023, desiludido com os partidos tradicionais, fez campanha para conselheiro, como candidato independente. Não venceu, mas atraiu a atenção de ativistas locais do Reform, que o convidaram a entrar no partido.

Em 2024, o deputado conservador que representava o local foi forçado a deixar o cargo, ao ser flagrado recebendo propina de firmas de jogos de azar em troca de atividades de lobby. Com sua saída, o Reform pediu a Butcher que concorresse à vaga. Apesar de não ter sido eleito, conseguiu uma quantidade substancial de votos e elevou seu perfil na arena nacional. Essa eleição suplementar foi levada a sério pelo governo trabalhista, e o primeiro-ministro Keir Starmer foi a Blackpool para apoiar seu candidato, que acabou vencedor.

Quanto à imigração, Butcher é reflexivo. “Não sou a favor de expulsar mulheres e crianças, de ser um cara sem empatia. Não gosto de algumas coisas que estão acontecendo nos Estados Unidos com o ICE. Não gostaria de ver nosso país seguir por esse caminho, mas gostaria que conseguíssemos controlar a situação, em vez de deixá-los definhar em hotéis durante anos e anos.”

Ele também não concorda com fazer manifestações em frente aos hotéis e intimidar as pessoas. Quando manifestantes apareceram no hotel Metropole, Butcher foi até lá para observar. “Havia um cara gritando no microfone: ‘Mandem eles de volta! Mandem eles de volta!’ Daí falei para ele: “Quer parar de falar isso?” E ele parou. Mas precisamos mandar os ilegais de volta, sim. Se você invadiu nosso país, tem que ir embora. Se chegou num barquinho, não deveria voltar aqui nunca mais.”

Sabendo que estou fazendo uma reportagem para uma publicação brasileira, Butcher me pergunta sobre o movimento evangélico no país: “Eles passaram à frente da Igreja Católica, não foi?” Católico por criação, foi coroinha e solista no coro da igreja, mas quando adulto se desiludiu com o catolicismo. No entanto, enfatiza que, embora não frequente a igreja, sua fé sustenta tudo o que faz. “Eu rezo todos os dias. Eu caminho com o Senhor. Tenho uma relação próxima. Reconheço-o todos os dias como meu Salvador.”

No dia seguinte, Butcher vai a Londres para participar de um evento do Reform UK de cânticos de Natal. Está satisfeito ao ver seu partido promovendo o cristianismo. “Se houver gente suficiente para trazer Cristo de volta a Westminster [uma referência ao centro do poder político britânico]... uau!”

A atitude de Dan Barker e Mark Butcher de apego explícito a Deus num contexto político não é comum no Reino Unido, onde, por tradição, a religião é assunto particular do indivíduo, e o rei é chefe da Igreja da Inglaterra. Mas o Reform está promovendo explicitamente o cristianismo como parte da sua estratégia eleitoral. No evento de cânticos natalinos em Londres, onde ambos compareceram, o Reform lançou um grupo chamado Christian Fellowship for Reform (Irmandade Cristã pelo Reform), com o objetivo declarado de ser “o elo entre a Igreja no Reino Unido e o partido Reform”. Tal como Trump, Nigel Farage não é frequentador habitual de igreja. Há pouco afirmou que costumava frequentar a Igreja da Inglaterra, mas parou porque era woke demais. No entanto, já declarou repetidas vezes que os valores “judaico-cristãos” são um alicerce da sociedade britânica.           

Quando minha conversa com Butcher vai chegando ao fim, menciono que ao voltar a Londres vou encontrar Jacob Rees-Mogg, político conservador muito conhecido por suas rígidas convicções católicas. Tal como Nigel Farage, Rees-Mogg tem um programa noturno regular na GB News, chamado State of the Nation (O estado da nação). Rees-Mogg é muito popular entre os apoiadores do Reform da classe operária, apesar da sua própria origem privilegiada, de classe alta.

Butcher é efusivo: “Gosto do Jacob, já o conheci pessoalmente. Você precisa ver a casa dele, tem até uma capela. Grande sujeito, bom cristão. Queremos trazer a oração de volta às nossas instituições. Ele faz reuniões de oração. Grande sujeito, e um verdadeiro intelectual.”

Butcher me acompanha quando saio do Talbot. Na calçada, abre um maço e acende um cigarro. Menciona que quer trazer para Blackpool um “supercassino” – a maior categoria de cassinos permitida por lei, mas precisará de apoio legislativo. “Estou pedindo ajuda ao Nigel para isso. Então, se você ouvir falar de uma emenda parlamentar sobre cassinos, é um trabalho meu.”

Antes de deixar a cidade, vou tomar um café com Alex, que conheço pelas redes sociais há uma década, mas nunca havia encontrado pessoalmente. Quando menciono a razão da minha visita, Alex, morador de Blackpool de 53 anos, explica por que as pessoas estão apoiando o Reform. “Pelo que vejo, pelo que outras pessoas veem, o que parece é que o Reform não tem nenhuma ligação com o Partido Trabalhista, nem com o Partido Conservador. Acho que o maior atrativo é esse: eles não são trabalhistas, não são conservadores, não são liberais. Eles simplesmente não são nada disso.”

Pergunto se isso acontece porque trabalhistas e conservadores são tão semelhantes. “Sim. As pessoas os chamam de uniparty. Não há muita diferença entre os dois – é como se já estivessem unidos, de qualquer maneira.” Alex crê, em última análise, que o principal atrativo do Reform é que o partido parece oferecer algo diferente: “É a mudança. Acho que é como o otimismo. Sei que não é um grande otimismo, mas acreditar que podemos realmente ter alguma mudança. Se você olhar para todas as coisas que levaram à situação atual, e, se alguém lhe der a oportunidade de votar contra essas coisas todas, você vai aproveitar. Vai pular em cima e agarrar a oportunidade.”

N

o trem de volta a Londres, reflito sobre a noite anterior. A presença germânica de René, seu interesse por Milei e a próxima viagem à Argentina, juntamente com o relato de Dan Barker sobre sua experiência em Israel, indicam que, embora a reunião de domingo à noite em um pub do Norte da Inglaterra possa parecer um encontro sem importância de bases políticas, na verdade foi uma manifestação da contínua ascensão global da direita populista, apoiada por redes internacionais de interesses mútuos cada vez mais fortes, que aceleram esse crescimento.

A direita republicana dos Estados Unidos há muito idolatra Nigel Farage. Steve Bannon se inspirou na campanha do Brexit no seu bem-sucedido esforço para colocar Trump na Casa Branca em 2016. Farage é amigo do presidente americano e o visita regularmente. Desde a reeleição de Trump, autoridades do Maga têm demonstrado grande interesse em influenciar a política britânica, começando pelo discurso do vice-presidente J. D. Vance na Conferência de Segurança de Munique, em 2025. No discurso, Vance definiu a maior ameaça à segurança europeia não como a China ou a Rússia, mas como a “ameaça interna” e prosseguiu atacando “nossos queridos amigos”, o Reino Unido. Vance alegou que os britânicos religiosos estavam sendo perseguidos. Qual a base dessa alegação? A introdução de uma zona de acesso seguro, protegida por lei, em torno das clínicas de aborto, para que as mulheres que buscam o procedimento possam se proteger contra o assédio de ativistas antiaborto.

Democracy for sale (Democracia à venda), boletim informativo fundado pelo jornalista investigativo irlandês Peter Geoghegan, revelou que ativistas antiaborto baseados nos Estados Unidos têm feito doações significativas para instituições britânicas, explorando o pretexto da liberdade de expressão para promover sua agenda de campanhas “pró-vida”. A Aliança em Defesa da Liberdade (ADF, na sigla em inglês), sediada nos Estados Unidos, que em 2022 teve papel crucial na anulação da decisão do caso Roe contra Wade, que garantia o direito constitucional ao aborto, abriu um escritório no Reino Unido em 2015 e nos últimos anos vem ampliando suas atividades e gastos no país.

Intrigado por essas revelações, quero saber mais sobre os canais de influência dos americanos sobre a direita britânica. Entro em contato com Peter Geoghegan, que me diz: “Se você examinar a Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos [que se refere explicitamente ao iminente ‘apagamento civilizacional’ na Europa devido à migração], o documento é explícito. O inimigo é a democracia liberal, e creio que estão especialmente interessados no Reino Unido.”

Geoghegan enfatiza múltiplas razões para isso. Primeiro, o Reino Unido e os Estados Unidos compartilham tanto a língua quanto a história, e portanto desfrutam de uma relação muito mais íntima do que aquela dos Estados Unidos com a Alemanha, por exemplo. Segundo, desde a era Margaret Thatcher e Ronald Reagan nos anos 1980, houve maior proximidade entre os Estados Unidos e o Reino Unido, envolvendo atores de todo o espectro político. Terceiro, no pós‑­Brexit, Geoghegan aponta para um rápido intercâmbio de ideias políticas entre centros de estudos e grupos de pressão, como a ADF, nos dois lados do Atlântico. Cobrindo a eleição presidencial de 2016 nos Estados Unidos, Geoghegan ficou impressionado com o número de pessoas que lhe diziam: “Vocês fizeram o Brexit, nós estamos fazendo Trump.”

Segundo ele, estamos vendo uma internacionalização do nacionalismo cristão liderada pelos Estados Unidos. Menciona especificamente James Orr, teólogo da Universidade de Cambridge e conselheiro sênior de Nigel Farage. Orr dirige o Centro para uma Grã-Bretanha Melhor (CBB, na sigla em inglês), antes conhecido como Resolute 1850. O CBB, definido pelo Financial Times como “um centro de estudos no estilo Maga”, segue vagamente o exemplo da Fundação Heritage, a organização que criou o Projeto 2025, o plano para o segundo mandato de Trump. Da mesma forma o CBB, sob a liderança de Orr, está desenvolvendo um plano chamado Projeto 2029 para um governo britânico liderado pelo Reform. Não é coincidência que Orr e J. D. Vance sejam amigos próximos desde 2019. Vance chegou a se referir a Orr como seu “sherpa britânico”, tomando emprestado da diplomacia a palavra que designa quem prepara o terreno para reuniões internacionais.

“Pode ter havido um tempo em que isso era muito mais encenação, um pouco mais conspiratório”, continua Geoghegan, “mas a Grã-Bretanha sempre esteve muito envolvida no que os Estados Unidos fazem, em termos de ir ao Iraque, apoiar a guerra no Afeganistão ou seja lá o que for. Mas agora temos uma verdadeira esteira rolante entre Washington e Londres em termos de influência política.”

O nacionalismo cristão é fundamental para a relação entre a direita populista no Reino Unido e nos Estados Unidos. Os dois grupos buscam promover valores cristãos, não apenas para reagir contra a ameaça percebida do alcance global do Islã, mas também como um baluarte contra a agenda de Diversidade, Equidade e Inclusão, tão na moda, nascida nos Estados Unidos e amplamente difundida. Danny Kruger, cristão evangélico e desertor dos conservadores, responsável pela estratégia do Reform, chegou a descrever o woke, a mentalidade politicamente correta, como uma “ideologia de poder profundamente equivocada e perigosa, hostil aos objetos essenciais do nosso afeto e da nossa lealdade”. Se o Reino Unido for um campo de batalha básico na guerra cultural global do governo americano, o Reform é, decerto, seu aliado mais firme.

E o Reform, por sua vez, está acumulando fundos significativos para financiar suas operações. Em dezembro de 2025, Christopher Harborne, investidor britânico em criptomoedas, homem recluso que atualmente reside na Tailândia, doou 9 milhões de libras ao partido, cerca de 63 milhões de reais. É a maior doação única feita até hoje por uma pessoa viva a um partido político no Reino Unido.

Pouco depois de voltar de Black­pool, vou caminhando por um canto de Londres que nunca havia explorado antes. Espio pelas janelas enquanto ando pela calçada, e vejo árvores de Natal cintilantes e salas de estar acolhedoras, que evocam o passado. É uma visão da Inglaterra urbana que ressalta uma diferença extrema em relação às ruas malcuidadas ao redor do pub Talbot, em Blackpool. Estou a caminho de encontrar Jacob Rees-Mogg, que mora em Westminster, a poucos passos das instituições centrais do poder no país. Minha caminhada até sua casa, uma mansão do século XVIII que ele comprou por 5,6 milhões de libras em 2018 (em torno de 25,8 milhões de reais na época), me leva pela Downing Street, a residência oficial do primeiro-­ministro, passando sob o famoso relógio Big Ben e pelo Parlamento, o centro do governo britânico.

Paro diante de uma porta ornamentada com painéis de madeira e vidro. Uma senhora idosa abre a porta, olha para fora e pergunta se vim ver Jacob. É Veronica Crook, de 83 anos, que trabalha para a família Rees-Mogg desde 1965. Foi babá de Jacob e agora cuida dos seus seis filhos. Conhecida publicamente simplesmente como Nanny, a babá, Veronica é parte integral da persona arquetípica de Jacob, como um britânico da classe alta. Conhecido como um parlamentar excêntrico, já foi descrito como “tão aristocrático que parece que foi transportado de algum século passado”.

Nascido no seio do establishment – seu pai, William Rees-Mogg, foi editor do jornal The Times –, Jacob (embora oficialmente seja “sir”, não usa o título) foi educado em Eton, a escola particular que deu à Grã-Bretanha George Orwell e vinte primeiros-ministros, incluindo os conservadores Boris Johnson e David Cameron. Antes de entrar na política, acumulou uma fortuna considerável trabalhando como banqueiro de investimentos especializado em mercados emergentes. Foi deputado por catorze anos, ganhando fama por sua excentricidade e seus discursos longos, verbosos e às vezes divertidos, até perder seu assento em 2024. Suas opiniões – contra o casamento gay, contra o aborto em quaisquer circunstâncias e contra as políticas Net Zero de redução das emissões de carbono – são consideradas polarizadoras.

Espero em um corredor cheio de casacos de inverno e patinetes infantis. Jacob aparece usando seu traje característico: camisa listrada, gravata e terno com colete. Ele me leva a uma sala de jantar decorada com retratos de família, onde nos sentamos a uma mesa antiga de madeira envernizada. Enquanto Jacob serve água, pergunto se ele tem alguma experiência com o Brasil. Ele diz que visitou o país quando era gestor de fundos de mercados emergentes, mas admite que seu conhecimento é superficial.

Sobre a política no Reino Unido, acredita que o Reform é popular porque fala sobre questões que preocupam os eleitores e que os outros partidos evitam. Nigel Farage, diz ele, é hábil em articular a opinião pública britânica. “A política britânica está mudando. Em 1979, os trabalhistas e os conservadores receberam quase 90% dos votos. Segundo as pesquisas atuais, hoje eles não obtêm mais que 30%. Houve um longo período de fragmentação, e o Reform é beneficiário disso. Nigel Farage desafia as ideias estabelecidas. Ele fez o mesmo que Margaret Thatcher, ao explodir o consenso sobre os melhores interesses da nação.”

Explico que meu avô, um conservador tradicional, costumava dizer: “Se não está quebrado, não conserte.” Pergunto a Jacob o que o mantra Broken Britain (Grã-Bretanha Quebrada) significa para ele. “Bem, veja uma estatística econômica. Em 2000, o PIB  do Reino Unido era 90% do PIB americano per capita. Agora é apenas 60%. É um declínio relativo bastante significativo em relação a uma economia semelhante. Indica que nos últimos 25 anos algo esteve errado com a política econômica. Levando a um nível mais imediato, basta sair daqui e caminhar por meia hora e você verá muita gente dormindo na rua ou pedindo esmola. Bem, quando eu era criança em Londres, não havia pessoas dormindo na rua nem pedindo esmola. Por que isso está acontecendo? Isso é um símbolo de um país quebrado.”

Segundo Jacob, se você caminhar por uma rua como a King’s Road, uma das mais sofisticadas de Londres, pode ter o celular arrancado da sua mão. Esse tipo de coisa não acontecia antes, continua ele, concordando que havia assaltos, mas não na escala dos furtos de telefone. “Há muito crime de baixo nível que não existia antes. Há uma falha em alguns sistemas sociais, com pessoas dormindo na rua e pedindo esmola de forma agressiva. Quando eu era investidor em mercados emergentes, viajava a países emergentes e via pessoas pedindo esmola nos sinais de trânsito. Eu nunca tinha visto isso aqui, até os últimos anos. É isso que quero dizer com Grã-Bretanha Quebrada.”

Como também fui criado em Londres, apenas alguns anos depois de Jacob, eu contestaria sua afirmação de que antes não havia pessoas dormindo na rua. Na época, os sem-teto de Londres se concentravam em um lugar conhecido como Cardboard City, ou Cidade do Papelão, debaixo da Estação Waterloo. No entanto, é fato que o número e a dispersão de pessoas dormindo na rua na capital aumentaram dramaticamente nos últimos anos. Segundo a fundação filantrópica Trust for London, os números quadruplicaram desde 2008. Eu também poderia observar que o roubo de celulares existe hoje e não existia no passado simplesmente porque não havia celulares naquela época. Mas estou ali para ouvir, não para confrontá-lo.

“Bem, você esteve em Blackpool. Se Blackpool não simboliza a Grã-Bretanha Quebrada, então não sei o que poderia simbolizar. É essa sensação de que tudo está decadente, de que há muito pouco emprego. As estatísticas de saúde de Blackpool são muito piores do que em Westminster. E por quê? Os dois lugares têm o mesmo Serviço Nacional de Saúde. Há uma Grã-Bretanha Quebrada, e me parece algo que surgiu devido ao nosso relativo declínio econômico, porque seguimos políticas que não fizeram a economia crescer.”

E a imigração? “A migração em massa tem que parar. Ela prejudica os menos favorecidos, os que têm dificuldade para conseguir empregos bem pagos. O Reino Unido ficou muito dependente da mão de obra barata que vem do estrangeiro. As pessoas prejudicadas pela imigração são as que talvez não tenham boa escolaridade e não conseguem competir contra um imigrante, que é uma pessoa muito determinada, cheia de iniciativa.”

Jacob afirma que as pessoas que emigram geralmente são as melhores e mais inteligentes, reconhecendo a coragem e a ambição necessárias para viajar milhares de quilômetros em busca de algo melhor. Também enfatiza que o imigrante, no nível individual, em geral é uma boa pessoa, embora acredite que a migração em massa seja impossível para o país absorver.

Mas, segundo Jacob, a imigração vem deprimindo os salários. Como exemplo, ele cita a assistência social, área na qual servidores públicos atendem pessoas com deficiências, doenças debilitantes ou com incapacidade relacionada à idade. Trata-se de um setor que depende cada vez mais da mão de obra migrante. Dados do governo apoiam essa afirmação: os vistos aprovados para cuidadores saltaram de 19 864 em 2022 para 89 236 em 2023.

Ele continua: “Não é verdade que os britânicos não querem trabalhar na assistência social. Eles simplesmente não vão trabalhar no setor de assistência ganhando menos do que num supermercado, ou menos que o seguro-desemprego. Bem, é claro que não. Nem eu nem você iríamos. Não é algo perverso, é perfeitamente racional.”

Pergunto se seu partido, o Conservador, está acabado. Além da queda de popularidade, a legenda perdeu inúmeros deputados e ex-deputados de alto perfil, que desertaram para o Reform. De fato, em Blackpool, Dan But­cher me disse que Rees-Mogg algum dia será um desses desertores (sugestão que Jacob já refutou publicamente mais de uma vez). Ele ri. “Será que somos apenas pão amanhecido? É muito difícil dizer no momento. Parece que estamos nos recuperando um pouco.”

Ele é fã de Kemi Badenoch, a atual líder dos conservadores, nascida no Reino Unido de pais nigerianos. Por ironia, o Partido Conservador, teoricamente menos “progressista” que o Trabalhista, deu ao país dois primeiros-ministros fora dos padrões: a primeira mulher (Margaret Thatcher) e o primeiro homem não branco (Rishi Sunak). Agora, com Kemi Badenoch, deu também a primeira líder negra de qualquer grande partido. O Partido Conservador moderno, apesar de seus fracassos, é a prova concreta de que grupos sub-­representados podem chegar ao topo no Reino Unido, e vão chegar.

Jacob explica que continua viajando pelo país para falar às associações conservadoras, e que os membros do partido são favoráveis a fazer um pacto com o Reform se for necessário. O conservadorismo, diz ele, ou seja, as ideias compartilhadas pelo Reform e os conservadores, está cada vez mais popular.

Fazendo jus à sua reputação de cavalheiro inglês de classe alta, Jacob é perfeitamente educado ao encerrar nossa entrevista, quando deve se preparar para seu programa noturno na GB News. Mostro-lhe uma foto de Mark Butcher em frente ao pub Reform em Blackpool. Pergunto se ele se importa que eu tire uma foto parecida. Ele concorda e, antes de se despedir, posa em frente à sua varanda em uma pose semelhante.

O Reform UK é uma força política emergente. Mas será capaz de vencer uma eleição e governar o país? Isso ainda está no plano da dúvida. Nigel Farage é muito popular, mas não imune às vicissitudes da vida pública. Membros descontentes do partido o descrevem como messiânico e autocrático, e não faltam conflitos internos dentro do Reform. Também o fluxo constante de desertores de alto perfil dos conservadores – incluindo Suella Braverman, ex-secretária do Interior, Nadhim Zahawi, ex-ministro das Finanças, e Jake Berry, o ex-presidente do partido – não confirmam a alegação do Reform de ser o partido da mudança. Os críticos o retratam como um depósito de conservadores fracassados. Também já houve escândalos. Em novembro de 2025, Nathan Gill, ex-líder do Reform no País de Gales, recebeu uma sentença de dez anos e meio de prisão – a primeira condenação de um político britânico por suborno – por aceitar pagamentos do Kremlin para fazer declarações pró-Rússia.

Fraser Nelson, respeitado ex-editor da revista conservadora The Spectator, fundada em 1828, recentemente definiu o Reform como “um partido de contradições”, potencialmente explosivo, e alertou que “a montanha-russa pode sair dos trilhos”. Mas, atualmente, o “navio pirata” do Reform, com sua “tripulação indisciplinada”, como definiu Danny Kruger, desertor conservador, avança velozmente, com vento forte em suas velas.

Em maio de 2026, as eleições de meio de mandato confirmaram a reconfiguração prevista do mapa eleitoral britânico. Os votos para 5 mil cadeiras de conselheiro em 136 autoridades locais foram divididos entre seis partidos e candidatos independentes. O Reform UK foi o maior beneficiário dessa fragmentação. Conquistou 26% dos votos, oito pontos percentuais a mais que seu concorrente mais próximo. 


Tradução de Isa Mara Lando.

[1] Em 16 de abril de 2026, foi anunciado que o Metropole fechará as portas em julho deste ano. Será mais um hotel para abrigar migrantes a encerrar suas atividades. Segundo o governo, os fechamentos reduzirão o número total de hotéis de 400 para 185.


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Escritor, investigador cultural e skatista, publicou Nothing by Accident: Brazil on the Edge (Independent Publishing Network)