autos da denúncia
Cristina Fibe 02 Jun 2026
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O disco 25 de dezembro, da cantora Simone, foi um dos grandes sucessos da indústria fonográfica brasileira em todos os tempos. Lançado em 1995 pela PolyGram, hoje Universal Music, o álbum de temática natalina vendeu mais de 3 milhões de cópias, em português e em espanhol. Em quase todas as faixas – inclusive em Então é Natal, o hit que tocou à exaustão –, Simone cantou acompanhada por um coral de meninas na faixa de 9 a 15 anos, que se apresentavam “como se fossem anjos” – nas palavras de George Martin, o produtor de discos célebres dos Beatles. Elas eram as Meninas Cantoras de Petrópolis. No figurino, pareciam bonecas vivas: sapatinhos pretos de verniz, meias brancas até os joelhos, vestidos de veludo azul-marinho, camisa clara de mangas longas e gola abotoada no pescoço, às vezes com um lacinho, outras com um enorme crucifixo.
Àquela altura, o grupo já tinha certa fama. Frequentava programas de tevê, gravara acompanhando nomes como Ivan Lins e – sonho máximo das crianças da época – Xuxa Meneghel. O disco com Simone, porém, levou o sucesso do coral a outro patamar. Da noite para o dia, quem zapeava pelos canais de tevê logo passou a se deparar com as coralistas. Elas apareceram no Domingão do Faustão, no Fantástico, no Jô Soares Onze e Meia, em A Praça é Nossa. O apresentador Raul Gil falava que as considerava como netas, e elas adoravam ir ao seu programa: eram recebidas pela produção com refrigerantes e sanduíches, quitutes mais atraentes do que os servidos em outros camarins.
Em 1997, as MCP (como também eram chamadas) participaram de uma edição duplamente especial do Planeta Xuxa, que celebrou ao mesmo tempo o Natal e a gravidez da apresentadora. No palco, as meninas abriram espaço no meio do coro para a passagem do pai do momento, o ator Luciano Szafir. “Quero que vocês vejam a felicidade dele, no olhar dele, no sorriso dele. Lu! Lulu!”, convocou Xuxa. Na ocasião, as artistas mirins vestiam uma versão mais sacra do figurino – uma capa vermelha aveludada, caindo até quase a altura da cintura sobre um vestido branco, de algodão grosso, que cobria todo o corpo, inclusive as mãos, cruzadas sob as mangas volumosas. Para fechar, a cruz em madeira pendurada no pescoço.
E foram incontáveis os encontros musicais com medalhões da cultura pop brasileira. As meninas gravaram com Sandy & Junior, Hebe Camargo, Gilberto Gil, Roberto Carlos. Apareceram no filme Zoando na TV (1999), estrelado por Angélica. A apresentação com o produtor dos Beatles aconteceu na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, diante de um público estimado em 100 mil pessoas. E vez ou outra havia uma viagem internacional na agenda, para países como Chile, Portugal e Espanha.
“Era um mundo mágico”, lembra Aline Barino, integrante do coral no auge da fama. As meninas ainda usufruíam de uma liberdade que não tinham em casa. Recebiam autorização – dos pais e da escola – para faltar às aulas e encantar as multidões pelo país. Pediam comida no quarto do hotel. Andavam pelo Brasil com as amigas, sem a companhia do pai ou da mãe.
Com tantos atrativos, as vagas para integrar o grupo (entre 30 e 40, a depender da temporada) se tornaram cobiçadas e invejadas em Petrópolis, cidade na Região Serrana do Rio. Aos 5 ou 6 anos já era possível fazer teste para iniciar o curso preparatório, de três anos. Quando completavam 15 anos (ou 16, em casos excepcionais), davam lugar às mais novas.
A escolha das integrantes estava concentrada nas mãos do maestro e professor Marco Aurélio Xavier, que fundou o grupo em 1976, quando tinha apenas 24 anos de idade, num colégio católico da cidade, o Santa Isabel – hoje, o músico tem 74. Era um coral só para meninas, segundo ele, “porque em 2 mil anos as mulheres foram proibidas de cantar”. Uma reportagem no MVHP – Portal de Cifras destaca que o grupo “nasceu de uma ideia feminista” de Xavier, ou Max, como alguns o chamam.
Cabia ao regente avaliar a afinação das candidatas. Na audiência, ele tocava algo simples no piano, como Parabéns pra você ou Atirei o pau no gato, e ouvia a candidata soltar a voz. “Ele tocava as notas, perguntava se você conseguia repetir, algo assim, bem simples”, conta Larissa Mendes, integrante de 1994 a 2000. Ao final do curso preparatório, a depender de como se saíam, as meninas eram então incorporadas ao coral e estavam prontas para começar a gravar e se apresentar pelo Brasil.
Só que, quando a batuta do maestro determinava o fim do canto, o “mundo mágico” começava a desmoronar. Em meio à disciplina rígida dos ensaios, havia situações dolorosas. Em alguns casos, as meninas eram alvo de cobranças semelhantes à de treinadores esportivos e professores de balé perfeccionistas que colocam pressão excessiva sobre seus discípulos, mesmo quando eles ainda não têm idade para lidar bem com elas. Mas há casos mais graves, que incluem assédio moral e abuso sexual.
Desde novembro de 2024, a piauí vem entrevistando ex-integrantes do coral. Ouviu dezessete mulheres, hoje entre 24 e 60 anos. A maior parte, nove delas, preferiu não ser identificada, por temor de ataques com a repercussão do caso, ou porque não dividiram nem com a família os abusos que relataram à reportagem. Todas contaram suas histórias pela primeira vez, sempre em entrevistas gravadas, feitas de forma presencial ou por vídeo.
Entre as memórias mais citadas pelas entrevistadas, o silêncio das coxias é uma das mais constantes, e remete à rigidez que imperava nos bastidores do coral. No decálogo disciplinar do maestro, as meninas estavam proibidas de se aproximar das celebridades que encontravam nos camarins de teatros e emissoras de tevê. Eram desencorajadas a esticar conversas, pedir um autógrafo ou fazer fotos.
Aline Barino, hoje com 41 anos, lembra que tinham que recusar os convites para as festas de lançamento de disco ou comemorações depois de uma apresentação. O regente vetava. “Imagina para uma criança estar ali, na frente de artistas, e não poder se expressar? Eu morria com isso. Queria muito abraçar a Xuxa, falar com a Sandy... Não podia. Ele simplesmente não deixava. Dizia que nós também éramos estrelas, que não deveríamos ‘ficar babando ovo de famosos’.”
Uma das alunas, que participou do coral na virada das décadas 1980 para 1990, diz que só se lembra “do medo que sentia e de não falhar na responsabilidade de pegar as coisas do maestro no palco, depois que ele saía”. Outra, que ficou no coral até o início dos anos 2000, conta: “A gente falava baixo, andava devagar, sempre sorrindo e sendo educada. Eu me lembro do contraste gigante quando fomos a Montserrat, na Espanha, e nos encontramos com um coro infantil só de meninos. Eles eram crianças normais, riam alto, corriam, gritavam. E nós parecíamos robozinhos programados.”
Uma “ex-menina”, como elas eram chamadas depois que atingiam a idade para deixar o grupo, achava fascinante a ideia de ir para o estúdio, viajar, sair do país, aparecer na tevê, cantar com artista, com orquestra, faltar à aula. Na prática, porém, a vida não tinha esse gosto tão doce. “Eu nunca sentia que vivia esse glamour”, diz. “Tudo era incrível ou tinha que parecer incrível. Afinal éramos parte do grupo seleto e abençoado das MCP. Mas me lembro de ficar no estúdio até de madrugada, com sono, sem nunca ter os limites das crianças respeitados, fazer viagens noturnas, ter que correr atrás de trabalhos e provas que ficaram para trás.”
O triunfo do disco natalino de Simone e o aumento da demanda por shows e apresentações nessa época eram fonte de alegria e orgulho, mas cobraram das Meninas Cantoras de Petrópolis um preço emocional e físico. As gravações em estúdios fonográficos eram especialmente cansativas. “Tínhamos que ficar esperando cada voz gravar (soprano 1, soprano 2, contralto 1, contralto 2) e, quando chegava a nossa hora, tínhamos que entregar perfeição. Se ele ouvisse alguém desafinando, tirava do estúdio. E a pressão só aumentava...”, narra uma delas. “Lembro do olhar fulminante, censurador, repreensor, torturante, que transformava a gente em pedra. Sem poder falar, sem expressar nossas necessidades, nosso cansaço.”
Até aqui, tudo se parece com as histórias desagradáveis vividas por outros talentos mirins do showbiz, submetidos a situações inadequadas. Mas havia problemas maiores. Certa vez, segundo lembra uma integrante do coral entre 1995 e 2003, as meninas estavam fazendo um ensaio longo antes de gravar um CD. Na ocasião, Xavier proibiu-as de se sentarem – e a coisa toda durou cerca de quatro horas. Ela, exausta, começou a fingir que estava coçando a perna ou amarrando o tênis apenas para poder dobrar um pouco os joelhos. O mestre se irritou. “Eu estava na frente dele, na primeira fileira. Ele me pegou pelo ombro e me jogou no chão.”
As ex-participantes revelam que tinham medo até de pedir para ir ao banheiro. Algumas chegavam a molhar a própria roupa. “Era melhor passar vergonha em público do que enfrentar o maestro e dizer que precisava fazer xixi”, conta Aline Barino, que hoje trabalha com projetos sociais e de sustentabilidade. Em uma das longas viagens de ônibus para shows, Larissa Mendes, hoje uma arquiteta de 38 anos, segurou tanto a vontade de ir ao banheiro que passou mal, com dor de barriga, a ponto de perder o controle. “Não aguentei, me sujei inteira. Esperei todo mundo sair do ônibus e consegui chegar ao banheiro. Quando fui tirar a roupa, sujei o banheiro todo e não saí mais de lá, fiquei ali chorando, sem saber o que fazer.”
Ela lembra que foi resgatada pela mãe de uma das garotas – uma delas sempre viajava com o grupo, para ajudar o maestro. “Ela me arrumou outra roupa e eu saí. Acho até que fiz a apresentação no dia. E silêncio. Ninguém falou daquilo. Voltamos para Petrópolis. Ninguém falou nada.” A discrição durou até o ensaio seguinte, quando o próprio maestro tomou a frente das piadas diante da turma. Ironizava “quem caga rodando, que suja as paredes, suja o teto”. Larissa lembra: “Saí de lá chorando, chorando muito.” Depois desse episódio, apesar da glória que era pertencer ao MCP, ela deixou o grupo. Perdeu todas as amigas, orientadas a não mais se relacionar com quem tivesse renunciado a integrar o coral. Tinha 12 anos.
Talita Miranda, hoje uma advogada criminalista de 39 anos, participou do coral dos 7 aos 13 anos, entre 1994 e 2000. Era uma das poucas meninas negras que já integraram o MCP. O maestro apelidou-a de Vera Verão, uma referência à personagem interpretada pelo ator Jorge Lafond, negro e longilíneo. Com o tempo, o regente passou a referir-se a ela apenas como Lafond. “Me incomodou um pouco, porque eu sabia que era uma referência à minha cor. Eu sabia. Mas eu pensava, como esse homem pode ser racista, pode ter preconceito, se ele me trata bem?”
Como parte de uma conduta disciplinar implacável, as meninas não podiam faltar. A ausência em um único dia implicava perder a “medalha de ouro” no fim do ano e passar a receber um tratamento com silêncio ou hostilidade. “Eu já fui com catapora, com febre, vomitando. Já desmaiei, porque estava passando tão mal que, durante a apresentação, caí dura para trás”, conta Aline Barino. O ambiente, na visão dela, era de pânico. Algumas desmaiavam durante as apresentações.
O rigor do cotidiano era, em parte, muito apreciado pelos pais e responsáveis. Para seguir no coral, mesmo com tantas faltas à escola, elas precisavam tirar boas notas. Supunha-se que a obediência no coral tornasse todas muito comportadas, e elas recebiam noções de boas maneiras no dia a dia. Era também por isso que muitas mães sonhavam em colocar suas filhas no seleto MCP: elas passavam a ser vistas como moças de fino trato.
Não era o caso da mãe de Larissa Mendes, a menina que pediu para sair depois do constrangimento no episódio em que sujou a roupa. Ela se opôs inicialmente à participação da filha no grupo, mas a garota enxergava no coral, desde muito cedo, um instrumento de validação social.
Larissa estudava no Colégio Santa Isabel e “era bem pequenininha, 4 para 5 anos”, quando foi levada com a sua turma pré-escolar para fazer o teste, em 1993. “Eles faziam isso sem nem comunicar aos pais. Pegavam as meninas na sala de aula, levavam para a sala do Marco Aurélio, e a gente fazia o teste.” Poucas eram aprovadas. Larissa esteve entre elas. “Quando levei esse papel para casa, minha mãe olhou e falou: ‘Não!’”
A mãe detestou saber que a filha fora submetida a uma peneira sem seu consentimento. “Ela é uma pessoa muito simples, sem estudo, do interior de Minas. Meus pais não conheciam o coral. Conseguiram me colocar num colégio particular, mas a maioria da minha família não teve essa oportunidade.” Contrariada com o veto da família, a menina entrou em greve de fome. “Fiz um escândalo em casa. Briguei, chorei, fiquei três dias sem comer. Minha mãe não me mandou para a escola até que eu perdesse o prazo de inscrição. E aquilo foi me remoendo. Cheguei lá atrasada, fui sozinha, bati na porta, minha mãe nem sabia. Chamei o maestro e falei: ‘Sei que acabou o prazo, mas quero participar.’”
Ele a olhou de cima, segundo a sua lembrança, mas abriu as portas. A mãe acabou aceitando, mas seu envolvimento com o grupo era tímido, devido a um jogo de palavras muito repetido pelo maestro, que tinha a função de estabelecer uma regra: “Mãe-tenha distância”. A relação com o professor começou assim: com a menina se sentindo em dívida com o maestro, porque recebera um imenso favor. De certa forma, ela nutre esse sentimento até hoje. “De algum ponto da minha vida eu sou muito grata, porque ele educou a gente em alguns comportamentos sociais que talvez a minha família, vinda de onde veio, não tivesse condições de me dar. Por exemplo, eu saber me sentar à mesa, usar o garfo, a faca da maneira correta, isso era uma coisa que ele passava para a gente. A postura. Ele falava: ‘Larissa, senta direito, não se coça na frente das pessoas.’ Ele educava mesmo, como se fosse um pai”, recorda.
Depois dos três anos de curso preparatório, a cerimônia de investidura era a porta de entrada das aprovadas para, finalmente, se juntarem às Meninas Cantoras de Petrópolis e começarem a gravar e se apresentar pelo Brasil. O coral era tratado como um curso extracurricular, e as meninas nada recebiam por viagens, tempo em estúdio, lançamentos em disco ou shows para milhares de pessoas. Nenhuma delas viu um centavo por direitos autorais ou horas trabalhadas.
A cerimônia da passagem de Larissa do curso preparatório para o coral aconteceu no Mosteiro da Virgem, uma das igrejas mais bonitas e elitistas da cidade, onde as coralistas cantavam aos domingos. Nas cerimônias, elas usavam o figurino composto por túnica branca, capa vermelha e crucifixo no peito. Entravam na igreja de braço dado com seus pais e, no altar, eram entregues ao maestro, que, dali em diante, assumia um papel “paternal” para quase todas. Ao serem nomeadas Meninas Cantoras de Petrópolis, repetiam um juramento. Dele, fazia parte uma promessa meio esquisita, que não tinha nada a ver com a proclamada excelência artística do coral: a de manter os “lábios puros”. Quem entrasse na seleção ficava proibida de namorar.
Corria o final dos anos 1970 quando a mãe de uma coralista de apenas 7 anos de idade procurou uma freira do Colégio Santa Isabel, a primeira sede das Meninas Cantoras de Petrópolis. Ela estava preocupada com a relação de sua filha com o maestro, que tinha perto de 30 anos. A garotinha falava dele como se estivesse apaixonada. Recorda ter ouvido da religiosa: “Cuide da sua menina.” Interpretou a frase como “é problema seu, não nosso”, e foi o que fez: tirou a filha do grupo, e da escola, sem alarde.
“O maestro entrava na cabeça da gente. Dizia que adivinhava pensamentos”, afirma a ex-aluna, hoje com 56 anos. “Eu achava que ele era um bruxo, um mago. Gostava mais dele do que do meu pai, a essas alturas. Eu não entendia nada, só sei que eu queria ser muito amada, a mais amada, a mais querida.”
Ao final dos ensaios, as alunas faziam fila para dar um beijo no rosto do maestro. Em outro contexto, poderiam ser cenas de afeto entre um mestre e suas aprendizes, mas em sua memória alguns limites eram ultrapassados. “Aí eu ficava: se ele lê pensamento, quero que ele dê um beijo encostadinho na minha boca. E ele dava um beijo encostadinho na minha boca. Fiquei completamente adoecida. Quando meus pais me tiraram do coral, fiquei com ódio. Não entendi.”
Desde aquela época, o professor já tinha contato com as integrantes além dos ensaios. Convidava algumas meninas para a sua casa, dava carona em seu carro, comprava sorvete. “A fachada dele era o colégio de freira. Para as famílias, as crianças estavam protegidas porque era uma instituição católica”, diz a ex-aluna.
Foi no convívio fora do coral que os abusos se sucederam. A piauí conversou com uma ex-coralista que participou do grupo entre a segunda metade dos anos 1990 e o início dos 2000. Entrou com 8, mas o maestro a deixou ficar até os 16 anos, um a mais que o limite. Ela foi uma das meninas que, muitas vezes, ela nem sabe quantas, ficaram até mais tarde na sala de aula para ir embora no carro do maestro. Só que ele não a deixava logo em casa. Conta que, antes, o maestro parava o carro em alguma rua escura e abusava dela sexualmente, quando ainda não havia completado 14 anos. “Pegação, mesmo, assim, sério”, descreve.
Perante a lei, a informação sobre a idade faz uma grande diferença. Desde 2009, qualquer contato libidinoso com menores de 14 anos é considerado um “estupro de vulnerável” no Brasil, porém, antes disso, já era crime, com outra terminologia, mas o mesmo conceito de “violência presumida”. A premissa permanece: uma criança não tem condições de consentir um ato sexual com um adulto. “Dentro da minha inocência, eu fazia aquilo em prol da atenção. Ele conduzia para ser assim. O ‘não topar’ nunca nem foi ventilado. Hoje eu tenho ojeriza, acho ele a coisa mais nojenta do mundo, mas na época eu lembro, sim, de ter carinho, de gostar. Eu lembro que no aniversário dele eu procurava comprar o melhor presente.” Seus pais nunca souberam do que se passava. “Acho que confiavam muito nele [no maestro].”
Essa mistura da reverência à figura do mestre com a consciência dos abusos faz com que muitas vítimas sintam vergonha e culpa pelas violências que sofreram. É o caso dela. “Eu acho que o tempo todo eu sabia que estava errada. Claro que hoje eu tenho informação suficiente para saber que, mesmo se eu quisesse estar fazendo aquilo ali, continua sendo muito errado da parte dele, porque eu era uma criança. Mas eu sinto que, apesar de me machucar muito, eu fazia para ter a garantia da atenção dele, nem que fosse naqueles minutos em que a gente estava junto.”
A troca de carinhos do maestro com as crianças era uma constante, e a disputa pela atenção do mestre, conhecido pelas oscilações de humor e pelos gritos, virava uma forma de garantir o lugar especial – e ser mais bem tratada. Nas viagens de ônibus, por exemplo, algumas das que não conseguiam o privilégio de se sentar ao lado de Xavier ou em seu colo ficavam ali à sua volta, fazendo cafuné em sua cabeça, ou de mãos dadas pela lateral do banco.
Foi em um desses passeios que Carla Magno, hoje escritora e jornalista, começou a desconfiar de que algo podia estar fora da ordem. “A primeira vez que tomei consciência de que algo estranho tinha acontecido comigo foi quando, numa dessas viagens, fui escolhida para me sentar ao lado dele”, relatou ela. Carla tinha entre 12 e 13 anos. “Durante a noite, ele pegou a minha mão e botou em cima do pênis dele. E ficou mexendo com a minha mão, por cima da calça. E eu me lembro até hoje... Lembro da forma dura do pênis na minha mão. Eu nunca tinha encostado num pênis, evidentemente. Eu era uma criança.”
Hoje com 38 anos, entendeu que o fato de ser menor de 14 anos a tornava, aos olhos da lei brasileira, vulnerável. “Aquilo foi meio esquisito para mim. Eu falei: ‘Não tô entendendo.’ Mas ele normalizava: ‘É carinho.’” Como a menina não queria de jeito nenhum desagradar o maestro e acabar expulsa do coro, decidiu não fazer nada a respeito. Até que, numa outra viagem, o caráter abusivo daqueles toques ficou ainda mais evidente.
“Dormimos em São Paulo, num hotel em que a gente ficava com frequência, com banheira de hidromassagem... A gente adorava. Eu me lembro direitinho de estar subindo no elevador com ele, sozinha. Quando parou no andar dele, ele me deu um estalinho na boca e disse para eu ir lá no quarto dele depois. E eu fui. Eu fui.”
Na memória que a jornalista consegue acessar, está deitada na cama e o maestro toca as partes íntimas dela, por dentro da calça. “Tenho uma leve lembrança de ele tentar ficar falando que aquilo era carinho. Nesse momento, tocou a campainha.” A mãe de uma das meninas cantoras estava batendo à porta do quarto do professor. Embora desconfie que a “tia” tenha feito isso para protegê-la, ela reforça nunca ter visto atitudes mais incisivas dessas adultas para coibir abusos cometidos por Xavier.
“Ela tocou a campainha, e ele me mandou entrar no armário, que era um closet. Por isso que eu me dei conta que tinha algo errado.” Ao ser obrigada a se esconder, a menina entendeu que aquilo era condenável: “Fiquei dentro do armário fechado. Ele abriu a porta, ela começou a perguntar sobre horário, a que horas a gente ia sair, coisas que podia perguntar pelo telefone... Por que ela foi lá no quarto, eu não sei. Talvez suspeitasse de algo.”
Passado o risco do flagrante, Carla Magno saiu do quarto e nunca mais dirigiu a palavra ao maestro. “Se ele falasse comigo, eu ignorava. Ou debochava.” Ela o enfrentava, mesmo com medo. Decidiu permanecer no coro até chegar à idade limite de 15 anos. Preferiu tolerar a presença do professor a perder a convivência com as amigas, as viagens e o senso de pertencimento ao grupo. Mas naquele hotel paulistano ela diz que teve “a infância rompida, estilhaçada”. Mais de duas décadas e muita terapia depois, revela ainda lidar com o trauma o tempo todo. “Em cada decisão da minha vida”, ressalta.
Em uma tarde de novembro de 2024, uma ex-integrante do MCP atendeu a piauí, por vídeo, recuperando-se de uma gripe. Passara os dias anteriores anotando qualquer lembrança que viesse à cabeça, juntando os cacos das memórias bloqueadas, para dar entrevista e, quase trinta anos depois, encarar as cenas dos abusos que aconteceram quando tinha entre 11 e 12 anos. Ela participou do coral no período em que o grupo fez mais sucesso.
Suas histórias nunca foram compartilhadas com conhecidos nem com seus pais. “Eles vão se sentir responsáveis, e não quero isso. Não sinto que seja responsabilidade deles.” Por isso, pediu que fossem omitidas informações que ajudassem a levar à sua identificação.
Como Carla Magno, ela se lembra da naturalização dos toques entre alunas e professor, o que tornava difícil para as crianças discernir o que era normal do que era abuso. “Existia todo um preparo [para as violações]”, afirma, relembrando a evolução dos carinhos.
Dona de uma voz que se destacava, a menina entrou logo para o seleto grupo das que poderiam cantar solos à frente do coral. Com isso, ela passou a receber também outros mimos. “Ganhei muitos presentes do Marco Aurélio, desde criança. Acho que o primeiro foi um broche da Virgem Negra de Montserrat [padroeira do grupo]. Ganhei dois perfumes importados. Um anel de ouro com brilhantes, que tentei devolver, mas ele insistiu que era um prêmio pela minha desenvoltura musical. Um quadro que ele mesmo pintou...”, enumera, lendo as anotações.
“Agora vou para a lista de abuso sexual. Vai ser difícil, mas vou falar”, diz, enquanto toma um chá para combater a gripe. “Vou tentar falar de uma maneira bem racional, bem sem emoção, porque senão eu não dou conta, tá? Vou começar pelo pior. Tudo foi horrível, mas, para mim, o que me lembro de ser a maior violação foi a mão dele no meu seio. Por dentro do sutiã. Voltando de uma viagem ao Rio, no ônibus.” Ela pensa no medo que teve de o motorista ver a cena, porque estavam no banco da frente, ela sentada no corredor, e o maestro, na janela. Ela não queria ser exposta para alguém de fora, mas, no ambiente das meninas – que o maestro chamava de “óvni” –, aquilo seria visto como algo “normal”.
Sua lista continua: “Eu me lembro da língua dele no meu ouvido. Eu me lembro do dedo dele na minha boca, ele chupando meu dedo. Eu me lembro de beijo de língua no pescoço. Eu me lembro de ele me fazer beijar o pescoço dele com língua. E o primeiro de tudo, quando me pediu um selinho. Eu era muito pequena.”
Ao mesmo tempo, a cobrança pelos “lábios puros” se mantinha. Uma outra petropolitana se lembra que no final de sua passagem pelo coral, onde ficou dos 8 aos 14 anos, começou a namorar um garoto. Ela convidava o namorado para ver as apresentações, e o regente reagia. “Eu ficava na frente do piano, então eu era a pessoa do contato direto, olho no olho. Era muito doido. O maestro me olhava e, no meio da regência, ficava [cochichando] ‘traidora’, ‘traidora’.”
Fora do palco, as abordagens continuavam. “Ele puxava os pelinhos do meu braço e falava ‘traidora’. Era sempre um contato físico. E essa coisa de me deixar mal, porque eu não estava dando exclusividade para ele.” Antes do namoro, a menina era o destaque do grupo, apontada como “perfeita”, a melhor da sala. Por isso, era a eleita para estar nos melhores lugares do ônibus, recolher a pasta do mestre ao final das apresentações, e levá-la para a coxia.
Também recebia presentes do professor: joias, perfumes – “que só podia usar com ele”. A certa altura, ele passou a assinar as cartinhas com ILY, sigla para I love you, e a convidar a menina para passeios “culturais” no Rio de Janeiro. “Era sorteio. E eu era sempre sorteada”, conta. Teve até um aniversário do maestro em que foram jantar só os dois. Ela topou, pensando que a então namorada do professor, uma ex-MCP (já adulta), também estaria lá. Mas, no fim, ninguém mais apareceu. “Ele me levou a um restaurante superescondido, foi colocando música no carro”, diz. A respeito de outra ocasião, ela diz se lembrar “de rezar, pedindo a Deus para não cair na tentação dele. Eu sabia dos meus riscos, porque ele me seduzia”.
Na memória dela, tinha “mão na perna, puxar blusa, olhar no peito...” Ela ouvia a promessa de uma relação duradoura. “Ele dizia que eu seria herdeira dos bens dele, que ia se casar comigo.” Na idade adulta, entendeu a gravidade do que acontecia. Contou tudo para a mãe e para o marido e queimou as cartas, jogou os presentes fora e entregou as joias a Oxum em uma cachoeira. E pensou que, se um dia alguém o denunciasse, se juntaria a essa pessoa. “Ele estava abusando de todas nós.”
“Nunca tive rede social porque não queria que ele me encontrasse. Ele pedia meu contato, eu não deixava [ninguém dar], de jeito nenhum. Uma vez, há uns dois anos, eu o encontrei na rua, e ele falou para o meu pai: ‘Tive três amores, sua filha foi um deles.’ Pegou o celular e começou a mostrar fotos minhas, criança. Ele digitalizou, porque na época não tinha celular. Ficamos sem reação.”
No dia 2 de março de 2016, algumas das integrantes das Meninas Cantoras de Petrópolis sopraram as velinhas de um bolo que celebrou os 40 anos do grupo. Na mesma ocasião, o maestro anunciou o fim das atividades, devido à falta de patrocinadores. “Sobrevivemos 40 anos sem nenhum apoio governamental, político ou empresarial. Eu e os pais mantivemos esse coro por 40 anos, com os meus dez dedos e a minha garganta”, disse Xavier ao telejornal RJ Inter TV, programa de uma retransmissora da TV Globo que cobre parte do interior fluminense.
A reportagem de tevê entrevistava duas ex-integrantes, já adultas, que falavam de maneira carinhosa e saudosa. Uma delas disse que o fim do coral era sentido por ela “como uma pessoa que faleceu”. Não se trata de um depoimento encomendado. Há ex-integrantes que nutrem boas memórias. Talita Miranda, apesar de ter recebido o depreciativo apelido de Vera Verão, é um caso. “Foram anos maravilhosos da minha vida, dos quais eu tenho muita saudade”, disse ela à piauí. Durante a conversa, Miranda emocionou-se ao lembrar do professor, que, afinal de contas, a ensinou a cantar. “Um ótimo maestro, uma ótima pessoa”, disse.
Quando encerrou suas atividades, o grupo já não tinha o apelo pop dos anos 1990, e a repercussão do seu fechamento em veículos de imprensa nacional foi branda, quase nula. Poucos dias depois, em 15 de março de 2016, o governo do Rio de Janeiro declarou o coral das Meninas Cantoras de Petrópolis “um ícone dentre os corais infantojuvenis brasileiros e uma marca na história da nossa cultura”, patrimônio cultural imaterial do estado.
Hoje aposentado, Xavier segue vivendo em Petrópolis. A piauí o procurou por telefone no dia 28 de abril. Ele respondeu de forma solícita. Em uma mensagem posterior, que detalhou que a reportagem trataria de acusações feitas por ex-coralistas, ele disse que daria entrevista no dia seguinte. Em vez disso, bloqueou o contato no Instagram e no WhatsApp. Não retornou mais às tentativas de entrevista, incluindo um e-mail enviado em 4 de maio para o endereço divulgado na página do Facebook das Meninas Cantoras de Petrópolis.
A piauí procurou Simone e Xuxa, as artistas de maior destaque na história do grupo. A cantora quis ouvir mais sobre os relatos. Em conversa por telefone, explicou que teve um contato superficial com as meninas e com o maestro na época do disco 25 de dezembro, e que a participação do coral foi gravada em separado, informação que já havia contado em entrevistas na época. “A minha ligação com eles era profissional. O disco foi gravado em sete estúdios. Nunca tive, assim, convivência. Mas isso não quer dizer que eu não esteja enlouquecida com essa violência, entendeu? Estou indignada.”
Simone mencionou o abuso sexual que sofreu na infância, sobre o qual já falou publicamente. “É uma lembrança que não se apaga.” E acrescentou, sobre o coral: “É tristeza, é crime. Não pode ficar impune.”
Xuxa não quis comentar as denúncias. Sua assessoria de imprensa informou que ela não tinha contato com as cantoras e que por isso não tem nada a dizer.
Em fevereiro de 2025, Maria Gabriela Webler começou a fazer uma chamada de vídeo com a piauí, a partir de Petrópolis. Estava acompanhada de sua mãe, Andrea Alves de Lima. Na conversa, interrompida com frequência pelo choro da filha ou da mãe, elas rememoraram as humilhações que sofreram com o maestro. “Eu era fã dele”, diz a mãe. “Eu gostava das Meninas Cantoras, era apaixonada. A gente ainda sofre muito: minha filha, por ter passado por isso, e eu, por ter causado, porque não era nem um sonho dela, era um sonho meu.”
No início, a menina ia às aulas com alegria. Matriculada em 2010, com 9 anos recém-completos, foi classificada como soprano, a voz mais aguda feminina. Na reta final do período preparatório, em 2011, a mãe notou alterações no comportamento da filha. Ela passou a voltar para casa tristonha, passou a pedir para faltar no coral. Às vezes, nem queria sair de casa, desanimada e deprimida.
Depois de certa insistência de seus pais, Gabriela Webler revelou que era humilhada pelo maestro, que durante as aulas pedia que ela ficasse calada, apenas mexendo a boca para acompanhar a música, pois não sabia cantar, só “miar”. Constrangida e envergonhada diante das colegas, acabou pedindo para sair. Sua mãe foi pessoalmente confrontar o professor. Ouviu que a filha era mentirosa e briguenta.
Como faltavam poucos meses para a formatura e tudo já estava pago, Andrea Lima pediu que a filha concluísse o curso. Na aula seguinte depois do atrito, o maestro disse a Gabriela Webler que sua mãe era “um monstro” e que ela não precisava ter voltado, pois nem sabia cantar. A menina saiu aos prantos. Andrea Lima relembra: “Eu botei no meu pensamento: ‘Realmente eu sou um monstro, porque botei minha filha na boca do lobo.’”
Em outra ocasião, a mãe voltou à sede do coral para buscar as partituras da menina. O encontro terminou em uma nova discussão entre ela e o maestro. Ela não conseguiu reaver o material e, segundo lembra, ainda foi chamada, com o dedo em riste, de “louca”. Devolveu: “Velho enrustido!” “Eu nem sabia o que isso significava”, afirma. O músico a processou por isso. Ela também decidiu fazer o mesmo, mas não conseguiu encontrar um advogado na cidade que pegasse seu caso. Assim, apresentou uma denúncia ao Ministério Público.
Num laudo psicológico inserido no processo, Gabriela Webler afirma desejar “que ele [refere-se ao maestro] pagasse por todo o mal que me fez, e não só a mim, mas a todas as meninas que não tiveram coragem de contar o que passaram”. Aos 10 anos, a menina disse o seguinte à psicóloga que elaborou o laudo: “Você não tem ideia da vergonha que ele me fazia passar quando me humilhava daquele jeito, eu não consigo nem lembrar direito de todas as coisas que ele me disse. Como se não fosse suficiente, quando minha mãe foi saber o que tinha acontecido, ele teve a coragem de dizer que ela o agrediu, quando quem foi agredida o tempo todo fui eu.”
Em defesa do maestro, os advogados de Xavier evocaram o prestígio das MCP – que “já percorreram aproximadamente 300 mil km (mais de sete voltas em torno do planeta Terra), além de outros 385 programas em tevê com os mais renomados artistas da nossa música, muitos dos quais (25) elas tiveram participações em CDs”. Também anexaram autógrafos de personalidades, reunidos em um livro de recados que vai de Pelé (“com todo o meu amor”) a Lula (“com admiração do presidente”, datado de abril de 2004), passando por Gil (“aquele abraço”), Luciano Huck (“vocês são o máximo!!!”), Beth Carvalho (“às minhas queridas Meninas Cantoras de Petrópolis, que já cantam comigo há algum tempo, o meu eterno carinho”) e Dercy Gonçalves (“um grande beijo com muito amor”).
A defesa ironiza a acusação: “Seria subestimar todas as que estão e as que passaram nessa instituição quando aparece uma determinada mãe – a primeira da história, diga-se de passagem – que absolutamente ISOLADA vem acusar o réu de humilhar sua filha. Seria afirmar que as outras centenas de participantes, no mínimo, recebiam tal tratamento e eram ou são masoquistas, ficando caladas até hoje... Será?”
Mãe e filha julgavam que havia, sim, outras vítimas do maestro. “Ele tem um perfil de abusador”, diz Gabriela Webler. “Ele age de uma forma que você mesma chega a duvidar se o que passou é real ou se é fruto da sua imaginação. Eu não duvido que outras pessoas tentaram falar e tenham sido silenciadas. É que minha mãe é teimosa.” Andrea Lima relata que também procurou jornalistas em Petrópolis, mas saiu das conversas com a impressão de que um “manto de silêncio” ajudava a proteger o regente.
Em 2013, Xavier venceu o processo de danos morais contra Andrea Lima, que teve que pagar 2 mil reais de indenização por chamá-lo de “velho enrustido”. No ano seguinte, Andrea Lima é que venceu o processo de danos morais contra Xavier, em razão das humilhações sofridas. O maestro precisou pagar 4 mil reais. Anos depois, a última instância confirmou os valores dos dois lados. Com a diferença a seu favor, Andrea Lima comprou um teclado, antigo desejo da filha, que, no entanto, não consegue tocar. “Já fiz aula, mas não consigo, virou um bloqueio pra mim.”
Colaboraram Alessandra Medina e Rogério Gentile.