Trump encarnando Jesus: a imagem feita por IA e publicada pelo presidente em sua rede social bebe de uma fonte antiga que atribui aos dirigentes um poder milagroso contra o mal - CRÉDITO: REPRODUÇÃO
Trump encarnando Jesus: a imagem feita por IA e publicada pelo presidente em sua rede social bebe de uma fonte antiga que atribui aos dirigentes um poder milagroso contra o mal - CRÉDITO: REPRODUÇÃO

histórias do tio sam

A LÓGICA DO OF COURSE

O fascismo na sua forma contemporânea

19 min de leitura

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Comecei a dar aulas nos Estados Unidos em 2006. Primeiro na Universidade Brown, depois na Columbia e durante mais de quinze anos em Princeton. Portanto, a esta altura, entro naquele país e saio faz quase duas décadas. Sem esquecer que fui diversas vezes à “Terra do Tio Sam”[1] para simplesmente passear, dar uma palestra isolada, participar de um seminário ou de um evento acadêmico. Os Estados Unidos não são para mim uma “terra estrangeira”, ao menos no sentido figurado da expressão. Confesso, porém, que, depois de tantos anos, vivi em abril passado meu primeiro ritual de iniciação.

É certo que não me faltam exemplos retirados da imprensa e casos ouvidos acerca da guinada fascista orquestrada pelo governo Trump, que tem empreendido uma verdadeira política de guerras – internacionais e nacionais. Dessa guinada faz parte a construção da ideia de “estrangeiro” e de “inimigo externo e interno”, e a partir daí a intimidação de imigrantes, jornalistas, professores, de toda e qualquer oposição. Afinal, um Estado como esse vive da coerção, da humilhação e, como explica o ensaísta e professor de filosofia Vladimir Safatle no recém-lançado A ameaça interna (Ubu Editora), da produção da indiferença e da falta de sensibilidade.

Até então, e a despeito de ter tomado algumas pequenas invertidas, eu não havia ainda me deparado, de forma tão insofismável, com a maneira como o governo Trump atua e atravessa as pessoas – diariamente. Pois bem, depois de terminar mais uma temporada em Princeton, já no aeroporto e preparada para voltar ao Brasil, entrei na fila de embarque no Aeroporto Internacional John F. Kennedy. Estranhei quando o movimento foi interrompido pela presença impositiva de seis pessoas, quatro delas policiais.

Ostensivamente trajados e armados, os policiais faziam parte do temido ICE (Immigration and Customs Enforcement), responsável por aplicar as leis de imigração, alfândega e comércio no país. Subordinados apenas ao poderoso Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), os membros do ICE, na gestão Trump, têm autoridade para recolher, sequestrar e, se preciso, até matar. Investigam, detêm e deportam imigrantes indocumentados ou que, segundo seus registros, violaram leis por trabalharem no país sem a devida documentação oficial. A prática do ICE é a da investida violenta, sem pejas ou subterfúgios. Tais atitudes não são exceção: fazem parte da própria lógica do espetáculo da intimidação.

Os policiais com os quais me deparei no aeroporto não fugiam à regra. Corpulentos, fortes, altivos, eles escoltavam até o embarque dois homens que vinham de cabeça baixa e em silêncio, como se cumprissem uma sentença – o que de fato cumpriam, ao menos enquanto se encontrassem em território americano.

Já na porta da aeronave, um rapaz jovem e sorridente dava as boas-vindas aos passageiros. Foi ele que estabeleceu o primeiro contato com os quatro mastodontes uniformizados, que, antes de entrarem no avião, entregaram dois envelopes, presumivelmente com os dados individuais dos homens escoltados. Aparentando naturalidade – nessa situação de exceção –, o chefe da polícia fez logo uma pergunta protocolar ao comissário de bordo, que, àquela altura, fingia não estar assustado: Of course you know how to proceed? (Naturalmente você sabe como proceder, não?)

“Obviamente”, o rapaz à porta não teve chance senão responder com outro of course, o que não o impediu de se desculpar e chamar às pressas (agora maldisfarçando o nervosismo) o seu superior, o comissário-chefe.

A fila de passageiros continuava parada, mas os policiais nem ao menos olhavam para trás ou julgavam dever qualquer tipo de explicação aos passageiros. Os dois rapazes escoltados eram negros e evidentemente pobres. Mas ninguém na fila se manifestava a respeito da demora (nem eu). Afinal, os regimes autoritários são criados e se desenvolvem a partir da ideia de guerras justas, quase santas, como verdadeiros laboratórios de dessensibilização.

O comissário responsável chegou, visivelmente apressado. De forma solícita e aparentando domínio da situação, como se tudo fizesse “naturalmente” parte do seu expediente, ele pegou os envelopes, soltou mais um of course depois da mesma pergunta feita pelos agentes do ICE e os ajudou a conduzir os dois homens, que continuavam quietos e cabisbaixos, até os seus respectivos lugares.

Chamou minha atenção as repetidas vezes que diziam of course. É “claro” que todos sabíamos que diante de nossos olhos se realizava um ritual de humilhação. Mas ninguém comentava a respeito ou esboçava qualquer tipo de reação. O que estava em curso era a conhecida psicologia de massas executada com primor por governos autoritários, a mesma que impõe, na base do “lógico” e da “obviedade”, o que é da ordem da exceção, da violência de Estado e da anulação dos direitos individuais. E faz isso sempre em nome da proteção de um suposto “povo”, de uma entidade coletiva ou de uma nação. Para tanto, estabelece o confronto do “nós” contra “eles” (“os outros”), dos amigos contra os inimigos.

Àquela altura, a fila de passageiros ficara estranhamente em silêncio. Estávamos tomados pelo medo e pela retórica do “evidente”, querendo estar “dentro” e não ficar de “fora”.

A palavra “evidente” vem do latim: evidens, evidentis. É formada de duas partes – e (ou ex), que quer dizer “para fora”, “para fora de”, e videns, particípio de videre, que significa “ver”. Assim, evidens/evidente significa literalmente “aquilo que se vê claramente”, “o que salta aos olhos”. Em português, ganhou uma formulação “clara”, designando aquilo que não deixa dúvida porque é perceptível de imediato.

Todavia, se o que estava na nossa frente na fila do avião era “evidente”, nada tinha de “óbvio”. Afinal, qual seria o destino daquelas duas pessoas? O que haviam feito? Qual era a lei que permitia conduzi-las daquela forma? Por que precisavam entrar caladas e sem os próprios documentos? Aquele era um ritual que se via, mas não se enxergava. Um rito em que negávamos entender o que acontecia bem ali, diante de nós, conferindo àquela situação excepcional um ar de normalidade. Como eu tivesse memorizado os números de assento das duas pessoas – que foram ditos em alto e bom som no momento da entrada no avião –, tentei, já dentro da aeronave, me aproximar delas. Mas fui logo reprimida. Era o protocolo, me disse o comissário de bordo. Of course.

Estavam ali reunidas uma série de características do fascismo histórico, mas agora praticado com as singularidades do nosso tempo: a naturalização da violência, uma certa domesticação psíquica do medo e (por vezes) da esperança, a política de neutralizar a solidariedade e a empatia, a certeza de que a sociedade não é para todos e pertence apenas a “nós”, que constituímos a essência da nação.

Parei para refletir como esses regimes se organizam por meio da ideia da inclusão, mas se pautam, de fato, na exclusão. Na inclusão de alguns (“os nossos”), na exclusão de muitos (“os outros”). Essa é também a lógica cada vez mais perversa dos aeroportos, que, com restrições crescentes, se valem da necessária segurança para impor uma forma ostensiva e agressiva de tratamento dos passageiros. Propiciam, rotineiramente, estruturas de entorpecimento: longas filas, pequenas humilhações realizadas por agentes alfandegários e pela polícia, que, em nome da segurança, abrem malas e muitas vezes vasculham a intimidade dos viajantes.

Assim, a cena que presenciei não era um ato isolado ou uma circunstância excepcional: praticada com frequência, era também um sintoma da anestesia social em que vivemos, da nossa capacidade de deletar a sensibilidade física ou emocional.

Não é de hoje que o fascismo vem sendo tratado de forma consistente pela historiografia, a filosofia, as ciências sociais e a psicologia. Em comum, os estudiosos costumam associá-lo a um tipo de regime e de cultura política que alia práticas sociais muitas vezes violentas com rituais de massa que buscam a adesão emocional.

O historiador americano Robert Paxton, em A anatomia do fascismo (Paz & Terra, 2023), propõe uma das definições mais citadas acerca do tema. Para ele, o fascismo é uma prática política marcada pela obsessão com o declínio nacional, com a ideia de humilhação ou de vitimização. Para se contrapor a tais sentimentos, produz cultos de unidade, energia e pureza, que estimulam movimentos de massa, os quais abandonam a democracia para buscar uma suposta “regeneração social” da nação – não raro recorrendo à violência. Paxton insiste que o fascismo não é apenas uma ideologia, mas um processo histórico, que passa por etapas distintas, como mobilização, conquista do poder e radicalização.

Outro clássico sobre o tema foi escrito pelo historiador britânico Roger Griffin. Em The nature of fascism, publicado em 1991, ele oferece uma definição ainda mais conceitual e sintética. Para Griffin, o núcleo do fascismo é um “ultranacionalismo palingenético” – isto é, um corpo de funcionários do Estado que oferece a certeza de “um renascimento nacional” que virá sanear um período de decadência. Tal situação exige, por sua vez, uma espécie de revolução social e cultural, para criar um homem novo, uma nova era de glória, com frequência ancorada no saudosismo dos tempos de outrora, fartamente idealizados.

O termo palingênese, derivado do grego, significa, justamente, nascer de novo. E, quando utilizado em contextos políticos, remete à suposição de que a nação doente precisa passar por um processo de “purificação radical” para só então renascer. Assim, o fascismo promete reinventar a nação, muitas vezes a partir da criação de supostos inimigos internos e externos – e da eliminação sumária deles.

Vale lembrar ainda o belo ensaio de Umberto Eco, Ur-fascism (no Brasil, O fascismo eterno), de 1995, no qual o crítico e escritor não define o regime de forma acabada, mas identifica traços recorrentes, como o culto à tradição, a rejeição do pensamento crítico, o medo da diferença, o apelo a uma classe média frustrada, o nacionalismo exacerbado, o uso sistemático da linguagem para simplificar e manipular. Eco chama a atenção para as diferentes formas como esse regime pode reaparecer, diferentes dos modelos do passado. Como ele disse, “fascismo” se tornou um termo genérico, pois pode-se eliminar uma ou mais de suas características, e ele ainda guardará as mesmas estruturas.

Interessa também lembrar a teoria do historiador italiano Emilio Gentile, em Fascismo: storia e interpretazione, publicado em 2002, que enfatiza a face religiosa desse regime: um sistema que sacraliza o Estado, mobiliza as massas e busca moldar a sociedade e o indivíduo a partir de um discurso ao mesmo tempo sacro e leigo. Nada mais próximo disso do que a imagem veiculada, faz pouco tempo, por Donald Trump em que ele surge como uma espécie de Jesus Cristo, curando os doentes e sendo venerado pelos cidadãos, que olham para ele de baixo para cima com expressão de adoração.

Não é de hoje que políticos usam imagens assim para produzir adesão emocional. Procuram criar uma experiência visual que aproxima o povo de uma lógica religiosa aplicada à política. Aliás, não por coincidência, a palavra “imagem” tem a mesma raiz linguística que “magia”, uma vez que é isso que elas, as imagens, costumam fazer conosco. Produzem uma eficácia simbólica tal, que deixamos de realmente vê-las – já adivinhamos de antemão os seus significados.

A novidade, entretanto, é o uso da ia, que permite explodir qualquer princípio ético. A imagem publicada na conta de Trump na rede Truth Social mostra o presidente de olhos fechados, com manto carmim, pousando a palma da mão na testa de um homem doente, prestes a ser curado milagrosamente pelo gesto luminoso de seu líder absoluto, Trump.

O historiador francês Marc Bloch, da Escola dos Annales, em seu clássico Os reis taumaturgos (Companhia das Letras, 1993), analisa justamente essa espécie de providência divina delegada aos monarcas medievais, aos quais, sem qualquer comprovação, atribuía-se a capacidade de curar as escrófulas de seus fiéis com um simples toque das mãos. Porém, como explica Bloch, nunca se pôde comprovar alguma cura entre a multidão que vinha em busca da salvação régia. Afinal, as pessoas ou não voltavam para atestar o “milagre”, quando curadas, ou pereciam, permanecendo no anonimato de suas tragédias. A despeito de tantas incertezas, a tradição perdurou, com o povo acreditando piamente no caráter milagroso da realeza.

A imagem produzida por Trump bebe, de certa maneira, dessa fonte antiquíssima, que imputa aos dirigentes um tipo de poder milagroso para combater o mal na Terra. Afinal, a postagem do presidente americano dizia o seguinte: “Eu nunca fui um homem muito religioso [...], mas ​não parece que, com todos esses monstros satânicos, demoníacos e ​que sacrificam crianças sendo expostos [...] Deus pode estar jogando sua carta Trump!”

Dessa vez, porém, parece que o remédio veio com doses exageradas. A reação mundial à postagem foi tão negativa que Trump resolveu logo depois apagá-la da sua rede social. No contexto imediato, a mensagem aludia às desavenças que Trump tem tido com o papa Leão XIV, o primeiro líder da Igreja Católica nascido nos Estados Unidos e um crítico declarado dos ataques ao Irã. Em um discurso feito em Argel, o papa chegou a denunciar as potências mundiais “neocoloniais”, que, na opinião dele, estavam violando o direito internacional.

Tem razão Leão XIV, e a imagem veiculada por Trump só confirma esse tipo de engenharia de inversão e de construção de um grande of course nacional. Afinal, o presidente não só se compara a Jesus, como inclui na imagem vários elementos para sublinhar a concepção de milagre. A águia, símbolo dos Estados Unidos, aparece no céu ao lado de aviões americanos. Além do homem no leito de morte, lá estão também, em torno de Trump, um soldado, uma mulher e um homem comuns, uma enfermeira, todos em posição de adoração. E nessa representação o povo americano é exclusivamente branco. Para confirmar a blasfêmia do presidente, a bandeira americana surge destacada, enquanto os militares, vistos como sombras fúlgidas no céu, aparecem ladeados pela Estátua da Liberdade. Tudo tão evidente e tão cafona.

Mas o objetivo de Trump é esse mesmo: popularizar e naturalizar a inversão. Não são os americanos que atacam outros países. São os Estados Unidos que estão sendo atacados. E só a união em torno de seu líder supremo é garantia da vitória, tanto bélica como espiritual.

O presidente americano também dialoga, por inversão, dissociação e deslocamento com o apelido The King, que lhe foi atribuído. A alcunha régia não tem uma origem formal ou histórica. Como muitas vezes ocorre na linguagem das redes sociais, determinados atributos aparecem de forma difusa e mudam de significado. O apelido surgiu como um tratamento crítico a Trump e foi adotado em 2025 por um movimento de oposição ao presidente, o No Kings (sem reis). Foi esse mesmo grupo que organizou, em várias cidades americanas, manifestações de rua para protestar contra ações autocráticas e abusos do poder pelo presidente que intenciona transformar a república americana em monarquia ou ditadura. Mas o próprio Trump tratou de se apropriar do conceito e transformá-lo em autoexaltação. E assim o termo king acabou tomando, ao menos entre seus apoiadores, uma conotação positiva, reforçando o culto a um presidente que faz o que quer e não se submete a qualquer regra.

O apelido se popularizou em 2018, quando Trump compartilhou no Twitter uma imagem inspirada na série Game of thrones, com a frase Sanctions are coming (As sanções estão chegando). Depois publicou outra, em que aparecia como se fosse um monarca, com a legenda Long live the king (viva o rei). O post gerou imensa adesão e repercussão (a favor e contra), consolidando o uso do apelido nas postagens do próprio Trump. Assim, a representação The King inseriu-se na “retórica política da ambivalência”, típica de chefes populistas que buscam dar novo significado a mensagens à primeira vista negativas. Nesse caso, The King acabou ampliando o culto à personalidade e à autoridade de Trump, expandindo sua popularidade.[2]

Esses são padrões de repetição, formas de retórica do poder, que em seu conjunto aludem a metáforas monárquicas, apresentando a autoridade pessoal do presidente como exemplo dos que estão acima das regras vigentes para o povo. E assim Trump passou a abusar das postagens com coroa, não raro acompanhadas de expressões como a mesma “Viva o rei”. Estamos tratando de figuras simbólicas que parecem clamar por dirigentes acima de tudo e de todos, produzindo, nas palavras do historiador francês Pierre Rosanvallon, em O século do populismo (Ateliê de Humanidades Editorial, 2021), uma “hiperpersonalização” do poder.

A ideia é construir a noção de excepcionalidade. É estabelecer o culto à personalidade única de um político, levando com que seja considerado uma figura não só indispensável, mas também excepcional (no sentido de ser uma exceção), “salvadora” da nação.[3] É uma fórmula antiga, já aplicada pelos fascismos do passado, que apostam na erosão do povo e das instituições democráticas para agregar valor aos outsiders: aqueles que escapam da política tradicional com o objetivo de investir na política em seus próprios termos.

Muitos pensadores têm usado expressões como “novos fascismos” para ajudar a definir o fenômeno dos autoritarismos contemporâneos. Mesmo cientes das diferenças contextuais, eles recusam a ideia de que tal regime tenha ficado parado no tempo, nos anos 1930-40.

Fascismo: um alerta (Crítica, 2018), de Madeleine Albright, ex-secretária de Estado dos Estados Unidos, insiste na ideia de que o fascismo não é só uma ideologia histórica, identificada em regimes do passado. Segundo ela, que conhece a estrutura por dentro, modelos autocráticos contemporâneos, sem serem idênticos, se espelham nos fascismos anteriores, buscando navegar em meio a crises econômicas e estados de desordem social, fazendo uso de instituições democráticas frágeis ou fragilizadas por eles.

Autores como Anne Applebaum, em Autocracia s.a.: os ditadores que querem dominar o mundo (Record, 2024), vêm demostrando como os novos regimes autoritários não atuam isoladamente. Eles formam redes transnacionais de poder, baseadas em corrupção, uso ilícito e por vezes pessoais das finanças públicas, além de manipular extensamente a população. Applebaum argumenta que essas autocracias funcionam quase como “empresas” globais, cooperando em conjunto para enfraquecer democracias liberais.

No mesmo sentido, um dos livros mais citados nos últimos anos, Como as democracias morrem (Zahar, 2018), de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, parte da tese de que os regimes autoritários contemporâneos raramente surgem de golpes à moda antiga, com tanques nas ruas, prisões em massa, mudanças de regime e ataque à institucionalidade. Eles emergem da erosão gradual das instituições democráticas e, com o tempo, em nome de supostos valores republicanos, passam a sequestrar sistematicamente conceitos caros à democracia, como diversidade, inclusão, liberdade de expressão, e assim por diante.A exemplo de alguns regimes fascistas do passado, autocratas partem então de bases legais, mas, uma vez instalados no poder, minam as regras democráticas, deslegitimando adversários, restringindo as liberdades civis e mostrando uma clara tolerância à violência.

 A essa obra, acrescento o livro Como funciona o fascismo (L&PM, 2018), de Jason Stanley, que mostra como os fascismos do passado e os do presente introduzem conjuntos parecidos de estratégias discursivas, como o uso político da mentira, a criação de inimigos internos e externos, a exploração do ressentimento, o ataque à educação e à imprensa. Para o autor, o pressuposto é que os novos fascismos podem existir, mas sem exatamente copiar os regimes clássicos, operando dentro de democracias.

Já Vladimir Safatle, em A ameaça interna, livro citado antes neste artigo, defende que os novos autoritarismos são versões de um fascismo global, que aparece não como expressão do mero ressentimento, da irracionalidade, de patologias individuais ou de impulsos descontrolados, mas como resposta popular a um horizonte de crises estruturais do capitalismo. Assim, os novos fascismos globais são reações diretas à dimensão profundamente autoritária dos modelos de gestão neoliberal, dada sua incapacidade de preservar macroestruturas de proteção social e promover a redistribuição de recursos, ampliando o cenário de desigualdades e concentração de renda. Eles funcionam, segundo Safatle, como uma espécie de “terapia de grupo” de um corpo social paranoico – de tamanho reduzido, mas bélico o suficiente para impor a brutalização social e a violência –, que é expressão, no limite, de um colapso psíquico do coletivo.

Volto ao episódio do ICE no aeroporto em Nova York. Afinal, como explicar eventos como aquele que presenciei? Como entender a reação apática das pessoas que acompanhavam o ritual fascista absolutamente caladas?

Quem sabe uma saída seria recorrer ao filósofo francês Étienne de La Boétie (1530-63), quando afirma que a força do tirano não vem apenas de seus dois olhos, dois braços e duas pernas. Vem sobretudo dos milhares de olhos vigilantes de seus súditos, da força dos braços de seus seguidores, das pernas velozes de seu exército. A tese de Discurso da servidão voluntária (livro provavelmente escrito em 1548) é ao mesmo tempo simples e perturbadora: os tiranos só governam porque milhares de pessoas consentem em lhe obedecer. Ou seja, a dominação política não depende apenas da força, mas faz uso da adesão ativa ou passiva dos próprios dominados: da normalização do que é aberrante. Para La Boétie não seria necessário, pois, lutar contra o tirano: basta não o servir.

Ingênuo ou não, instigante com certeza, o ensaio desse amigo de Michel de Montaigne, que ajudou a divulgar a obra de La Boétie, mostra como não se trata de negar a violência do poder, mas de revelar como a dominação só se torna estável quando internalizada, quando passa a parecer tão natural como inevitável.

Assim, a cena que presenciei no aeroporto, a despeito de ter ocorrido em data, horário e local determinados, era também uma cena comum e cotidiana; mais parecia um sintoma de nossos tempos. A falta de reação diante da violência dos agentes do ICE indica a nossa crescente incapacidade de nos espantarmos com agressões como estas e de fazer gestos de solidariedade, em vez de simplesmente (e o que há de simples nisso?) obedecer.

É certo que dentro e fora da sociedade americana temos visto vários movimentos contrários à política de Trump. Logo depois da sua vitória eleitoral, em novembro de 2024, em San Jose, Berkeley, Chicago, Nova York, Filadél­fia, Cleveland, manifestantes rejeitaram não só a eleição, como teceram críticas à agenda migratória e à guerra em Gaza. No contexto da posse, entre 18 e 20 de janeiro de 2025, ocorreu a People’s March (a marcha do povo), quando ativistas clamaram por direitos civis e se opuseram ao novo presidente em diversas cidades, inclusive Washington. Isso, sem esquecer os protestos de fevereiro de 2025, em todos os cinquenta estados da federação, bem como os ocorridos de janeiro a junho do mesmo ano contra as deportações em massa e o ICE, no Texas, Colorado, Illinois, Geórgia, Alabama e outros locais.

Ainda em relação ao ano passado, vale lembrar as 1,2 mil manifestações realizadas em 5 de abril pelo movimento Hands Off! (Tire as mãos), em todos os estados americanos, e o protesto do No Kings, em 14 de junho, com 2,1 mil atos contra a concentração excessiva de poder por Trump. Ou ainda o Good Trouble Lives On (A boa luta continua), de 17 de julho, que ocorreu em 1,6 mil localidades, com a população marchando por direitos civis, democracia e mobilização eleitoral. E os atos deste ano, como o de março passado, que mais uma vez contou com milhões de manifestantes espalhados por todo o país.

Há, pois, uma continuidade organizativa que combina grandes mobilizações nacionais com protestos locais permanentes, cujas pautas centrais lembram os temas evocados neste texto: reação à política de imigração e deportação, luta pelos direitos civis, críticas à política de guerras e à militarização, rejeição ao autoritarismo e à concentração de poder. O número de manifestantes é significativo, mas ainda abaixo de picos históricos, como os dos vários protestos ocorridos em 2017 ou do movimento Black Lives Matter (Vidas negras importam), em 2020. É pouco, também, diante do estado de guerra criado pelo governo americano, dentro e fora do país.

Minha questão é de escala, e não se limita aos Estados Unidos. Temos assistido ao crescimento das autocracias em todo o mundo sem esboçar reações individuais e coletivas mais efetivas. Às vezes, um tirano cai, mas não são poucas as vezes em que aqueles que os substituem são meros fantoches, menos caricatos, porém mais ardilosos.

Não digo que tudo o que ocorre hoje é “mais do mesmo” ou que “já vi esse filme”, pois a história não é feita de determinismo, e o ontem não precisa se inscrever na agenda do amanhã. Também já busquei explicar que “a história não é bula de remédio”, tampouco “prescrição com data de validade”. Mesmo assim, acredito em “lembretes”, na ideia de que uma lição dada pode restar como conteúdo aprendido. Afinal, sou de uma geração que apostou nos movimentos civis e elegeu líderes com essa agenda, que fez da república não só um regime, mas um modo de vida pautado na solidariedade, e que vislumbrou as virtudes da democracia – a capacidade de ser inclusiva, de lidar com a diversidade e optar pela igualdade –, mas também as incompletudes. Pois é sempre preciso qualificar a democracia, o que não significa erodi-la por dentro.

Já a sensação comungada na fila de entrada do avião era de um socializado of course. E de alívio, do tipo “eu não sou eles”, “eu não sou mais um na fila do pão”. “Lógico”, “claro”, “óbvio”, “natural” são termos que delimitam uma mesma dinâmica: a construção da indiferença e do autoritarismo por contaminação.

Adormeci durante o voo pensando nessa mutação acelerada dos nossos afetos sociais e políticos, cada vez mais atingidos pela lógica da dessensibilização e anestesia social. Pousei no Brasil com enxaqueca.


[1] O excesso de aspas e itálicos presentes neste artigo não é mera coincidência.

[2] A respeito disso ver o livro Demagogue for president: the rhetorical genius of Donald Trump, de Jennifer Mercieca (Texas A&M University Press, 2020).

[3] Ver Strongmen: Mussolini to the present, de Ruth Ben-Ghiat (W. W. Norton & Company, 2020) e Na contramão da liberdade, de Timothy Snyder (Companhia das Letras, 2019).


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Historiadora e antropóloga, professora da USP e da Universidade Princeton e membro da ABL. Publicou livros como O Espetáculo das raças e Lima Barreto: triste visionário, Imagens da branquitude, e é coautora de Enciclopédia negra: biografias afro-brasileiras (todos pela Companhia das Letras)