questões vultosas
Ana Clara Costa piauí_238 02 Jul 2026
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Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Ronaldo Caiado foram os convidados de honra de uma reunião insólita realizada no fim de junho. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) organizou um encontro para apresentar as prioridades do setor aos presidenciáveis. Lula também havia sido convidado, mas não compareceu.
No palco, onde cada um discursou individualmente, repetiram-se, em maior ou menor grau, as palavras de ordem habituais: privatizações, redução da carga tributária, diminuição do chamado “custo Brasil” e flexibilização regulatória. Uma reprodução quase literal da lista de anseios da alta patronagem. Zema classificou a proposta de redução da jornada 6x1 como um equívoco. Caiado reafirmou sua defesa de uma agenda liberal para a economia. E Flávio atribuiu ao Supremo Tribunal Federal parte da insegurança jurídica percebida por segmentos do setor produtivo.
Ninguém se lembrou de mencionar que a família Bolsonaro patrocinou o maior choque já imposto à indústria brasileira desde que a primeira fundição do Barão de Mauá foi inaugurada no Império. Tampouco veio à tona o fato de que o próprio Flávio se reuniu com Trump para defender medidas que tendem a fragilizar a posição internacional dos produtos brasileiros, como iniciativas voltadas a enquadrar o país entre ambientes tolerantes ao terrorismo. Nem mesmo Zema e Caiado, que em tese disputam o mesmo espaço eleitoral do bolsonarismo, se dispuseram a explorar o tema.
Nenhum empresário presente se prontificou a questionar Flávio sobre o assunto. O presidente da CNI, Ricardo Alban, que investiu recursos da entidade em esforços de lobby nos Estados Unidos para tentar conter o avanço das sanções comerciais, também o recebeu sem constrangimentos. O silêncio dizia tanto quanto os discursos.
O ringue, no entanto, estava montado na CNI. Não contra Flávio, mas contra o governo. O ex-governador mineiro criticou “a gastança do Lula e do PT”. O goiano afirmou que a prioridade era “tirar o PT do poder” e advertiu que, se o partido vencesse a eleição, a economia formal seria “invadida pelo crime”. Já o senador fluminense declarou que “Lula faz mais mal ao país do que uma guerra”.
A artilharia contra o petista reflete as convicções do trio, mas também obedece a uma lógica eleitoral. Como disputam o mesmo campo político, atacar o bolsonarismo pode ser um exercício de autofagia, e a direita brasileira conhece bem os riscos dessa estratégia.
Geraldo Alckmin é o exemplo de livro-texto. Depois de décadas disputando eleições contra a esquerda pelo PSDB, lançou-se à Presidência em 2018 e fez o que parecia óbvio: concentrou seus ataques em Jair Bolsonaro, então um candidato de extrema direita que falava em “metralhar” opositores e cuja vitória, de início, parecia improvável. Terminou a campanha acusado de esquerdista pela mesma direita que o elegeu governador de São Paulo por três mandatos.
Zema e Caiado querem evitar o efeito Alckmin e, para isso, parecem dispostos a todo tipo de constrangimento. Além de já terem defendido a anistia a Bolsonaro, pisaram no freio nas críticas à relação de Flávio com o esquema de Daniel Vorcaro para preservar a possibilidade de uma futura convergência. Zema é, de longe, o mais flexível. Pleiteou a vaga de vice bolsonarista, elevou o tom das críticas ao STF para agradar a base bolsonarista e chegou a dizer publicamente que não vê problema em diretórios do Novo preterirem sua candidatura em favor de Flávio.
Caiado tem um ego um pouco mais pronunciado, mas sem exageros. A aliados, tem dito que pretende conter as críticas a Flávio para não afastar eleitores que possam migrar para sua candidatura. No fim de junho, quando Abelardo de la Espriella elegeu-se presidente da Colômbia representando a extrema direita, o governador goiano celebrou publicamente o resultado, afirmando ser mais um sinal do desgaste da esquerda na região.
Há um elemento novo nas eleições de 2026. O campo que se apresenta como democrático deixou de tratar a extrema direita como um adversário a ser isolado e passou a encará-la como uma força com a qual vale a pena conviver – e, se necessário, compor. Não se trata de uma ultradireita protegida pelo ineditismo, como ocorreu com Javier Milei, na Argentina, ou o próprio Espriella, que se tornaram competitivos no embalo de promessas e expectativas. No Brasil, é uma extrema direita já testada. Uma extrema tão extrema que tentou um golpe de Estado violento, com planos de assassinatos, e que agora busca pressionar a soberania brasileira por intermédio dos Estados Unidos.
Em 2018, havia Bolsonaro, mas também havia Geraldo Alckmin, Ciro Gomes, Marina Silva, João Amoêdo, Alvaro Dias e Henrique Meirelles. Nenhum deles apoiou Bolsonaro, e Marina acabou apoiando o PT no segundo turno. Na eleição seguinte, em 2022, Marina e Simone Tebet se uniram à candidatura de Lula. Ciro Gomes, a despeito da conivência com o bolsonarismo que desempenhou ao longo da campanha, não declarou voto em Bolsonaro. Padre Kelmon estava com Bolsonaro.
Neste ano, o cenário é outro. Além de Zema e Caiado, Renan Santos, do Missão, legenda ligada ao MBL, reproduz boa parte da cartilha bolsonarista, ainda que sem a mesma intensidade retórica. Se são irrelevantes isoladamente, juntos somam 8% das intenções de voto, segundo o Datafolha. Mesmo sabendo-se que a transferência dos votos da direita não seria automática num eventual segundo turno entre Lula e Flávio, ainda assim o petista se encontra numa posição menos confortável do que ocupava no mesmo momento do ciclo eleitoral de 2022.
Em junho daquele ano, o Datafolha mostrava Lula com 57% das intenções de voto contra 34% de Jair Bolsonaro no segundo turno. Agora, Lula e Flávio aparecem em empate técnico (47% contra 43%), com o petista à frente. A novidade agora não está apenas nos números. Está na transformação de candidatos que antes disputariam espaço na ultradireita em potenciais aliados do campo bolsonarista.
As vitórias da extrema direita na América Latina nos últimos anos reproduzem um padrão que não esteve presente na ascensão de Jair Bolsonaro. Seus candidatos têm chegado ao poder graças ao apoio de lideranças conservadoras dispostas a pagar o preço da aliança. Foi assim com Milei, com Espriella, com Keiko Fujimori, no Peru, e José Antonio Kast, no Chile. Na Europa, a coalizão que levou Giorgia Meloni ao poder na Itália seguiu lógica semelhante.
Em 2018, Bolsonaro venceu praticamente sozinho. O Centrão certamente não lhe presenteou um único voto em 2022. Agora, o terreno eleitoral brasileiro se parece mais com o de seus vizinhos. O bolsonarismo é representado por um candidato que dificilmente chegará ao Planalto sozinho, mas é certo que conta com trampolins.
Embora a complacência de parcelas das elites com movimentos extremistas não seja novidade — o nazismo e o fascismo já contaram essa história —, o escritor francês Michel Houellebecq foi um dos primeiros a perceber como esse mecanismo voltaria a operar no século XXI. Percebeu-o, porém, com o sinal trocado. Em 2015, publicou Submissão, romance que descreve a disposição de setores das elites tradicionais para compor com o extremismo disfarçado de moderação a fim de impedir a vitória de um adversário político. No caso da França, a direitista Marine Le Pen.
Crítico da influência cultural islâmica na Europa, defensor da identidade nacional francesa e observador do que considerava o declínio da civilização ocidental, Houellebecq direcionava sua atenção à ascensão do Islã político, do qual a extrema direita seria, em certa medida, uma reação. Por essas e outras convicções, ele foi considerado um detrator da intelectualidade francesa e simpatizante da própria Le Pen, embora nunca a tenha apoiado publicamente.
O que aconteceu na França e, em diferentes graus, no restante do mundo ocidental, foi o exato oposto do que Houellebecq anteviu. Setores tradicionais passaram a enxergar a extrema direita não como uma ameaça à ordem democrática, mas como um instrumento útil para derrotar adversários mais imediatos. A acomodação avançou por concessões sucessivas e silêncios convenientes.
Três anos antes da publicação de Como as democracias morrem, que se tornaria a mais influente cartilha sobre a ascensão da extrema direita, o historiador Mark Lilla escreveu uma resenha de Submissão para a revista The New York Review of Books. Lilla observou que grandes transformações políticas raramente chegam por meio de uma ruptura dramática. Elas avançam pela combinação de fadiga, indiferença e adaptação. Não há necessariamente um momento decisivo em que as instituições cedem. Não há uma conflagração final. As coisas simplesmente acontecem. No Brasil, elas estão acontecendo.