O publisher Guilherme Cunha Pereira: membro da Opus Dei, ele pratica ritos de penitência, vive numa residência coletiva da prelazia em Curitiba e toca teclado nas missas no local - CRÉDITO: MONTAGEM DE BETO NEJME_2026
O publisher Guilherme Cunha Pereira: membro da Opus Dei, ele pratica ritos de penitência, vive numa residência coletiva da prelazia em Curitiba e toca teclado nas missas no local - CRÉDITO: MONTAGEM DE BETO NEJME_2026

vultos da imprensa

O PUBLISHER MISSIONÁRIO

Como Guilherme Cunha Pereira fez da Gazeta do Povo seu ideário ultraconservador

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O burburinho que se ouvia na redação da Rede Paranaense de Comunicação (RPC), tevê afiliada à Rede Globo no Paraná, indicava que algo importante estava por vir naquela manhã de sexta-feira, dia 30 de janeiro passado. Em pé, aglomeradas entre fileiras de computadores, havia duas centenas de pessoas: não só a equipe da RPC, mas também das duas rádios do grupo – Mundo Livre e 98 FM – e da divisão paranaense do portal g1. Todos esses profissionais haviam sido convocados para uma reunião a ser transmitida por internet às sucursais no interior e aos funcionários dos jornais Gazeta do Povo e Tribuna do Paraná. Juntos, esses veículos compunham então o Grupo Paranaense de Comunicação (GRPCOM), um dos mais influentes conglomerados regionais de mídia do país.

Pouco antes das dez da manhã, postaram-se à frente do salão os irmãos Guilherme Döring Cunha Pereira e Ana Amélia Cunha Pereira Filizola, sócios e executivos do GRPCOM. Minutos depois, chegou outro sócio, o advogado Mariano Lemanski. Os funcionários custaram a reconhecê-lo. Criador de cavalos da raça appaloosa, Lemanski usava um chapéu de caubói e óculos escuros.

Com um microfone em mãos, “doutor Guilherme” – como Cunha Pereira é chamado – abriu a reunião, comemorando os bons resultados do grupo em 2025. Sua linguagem corporal chamou a atenção dos ouvintes: conforme falava, foi contraindo os ombros, ficou com as bochechas enrubescidas e a voz embargada. Continuou dizendo que se sentia “confortável em passar a bola”, mas caiu em lágrimas, sem conseguir concluir. Ana Amélia, então, assumiu o microfone e explicou que a família Cunha Pereira havia vendido à família Lemanski a maior parte de sua participação acionária na RPC. O criador de cavalos acabara de assumir o comando absoluto da tevê e das rádios, deixando aos Cunha Pereira apenas a posse dos dois jornais.

Por fim, Lemanski tomou a palavra. Elogiou o diretor-geral da RPC, Eduardo Boschetti, e depois, em tom fanfarrão, dirigiu-se aos funcionários: “Amo vocês!” Ao encerrar, não se conteve e bradou vivas à liberdade e à democracia. Três funcionários que estavam na reunião disseram à piauí que interpretaram os brados de Lemanski como um grito de alívio para o empresário: estava encerrado, enfim, o domínio dos Cunha Pereira sobre as rádios e a tevê – considerada a joia da coroa do grupo de comunicação. Todo aquele anúncio não demorou mais do que 10 minutos.

A alteração acionária havia sido oficializada mais de um mês antes, em 19 de dezembro de 2025. A ata da assembleia geral aponta que a família Lemanski ficou com 96% das ações do grupo. Os Cunha Pereira, que tinham metade das ações, reduziram sua participação a apenas 4%, divididos igualitariamente entre três holdings ligadas à família. Na mesma assembleia, Ana Amélia entregou sua carta de renúncia, desligando-se da direção do grupo, e Lemanski foi escolhido como novo diretor, para um mandato de três anos.

As partes não revelam detalhes da transação, alegando cláusulas contratuais de confidencialidade. Na imprensa local, circulou que os Cunha Pereira venderam sua participação por cerca de 300 milhões de reais, mas é provável que a cifra do negócio seja bem maior. As últimas demonstrações financeiras publicadas apontam que o grupo teve lucro líquido de 63,8 milhões de reais em 2022 e 57,6 milhões de reais no ano seguinte. A seguir nesse ritmo, a aquisição por 300 milhões será paga em apenas cinco anos. Fontes da RPC ouvidas pela piauí estimam que o negócio tenha girado na casa de 1 bilhão de reais.

Sem o controle da tevê e das rádios, a família Cunha Pereira permanece com os dois jornais: um de perfil popular, a Tribuna do Paraná, e outro, que deu na última década uma notável guinada ideológica, tornando-se porta-voz da direita ultraconservadora, a centenária Gazeta do Povo.

Ao encerrar seu vínculo com a estrutura decisória da RPC – que tem limitações impostas pelos princípios editoriais do Grupo Globo, do qual a empresa é parceira no g1 do Paraná –, Guilherme Cunha Pereira sentiu-se livre para seus arrojos radicais como presidente da Gazeta do Povo. Em 3 de fevereiro, quatro dias depois do anúncio na redação da RPC, ele gravou um vídeo com ataques duros ao Supremo Tribunal Federal (STF), algo sem precedentes para um publisher na imprensa brasileira.

No vídeo, seu tom de voz era sóbrio, mas a mensagem, estridente. Ele disse que uma “anomalia institucional” se instalou no país, com “ruptura da ordem constitucional” e que o Brasil vive sob uma “ditadura do Judiciário”. Recorreu até à parábola do sapo que foi colocado na frigideira e que se acomodou pouco a pouco ao aumento gradual da temperatura do fogão – até acabar frito. “A democracia e a sociedade estão na frigideira”, comparou. E sentenciou que o Brasil está vivendo uma “autocracia pavorosa”. (Ele não achou que a democracia estava na frigideira na intentona golpista do Oito de Janeiro de 2023: a Gazeta publicou mais tarde um e-book tratando os condenados como presos políticos.)

O publisher também defendeu no vídeo uma mobilização social a fim de que fosse criada uma CPI “para apurar abusos de autoridade da cúpula do Poder Judiciário”. Valendo-se da primeira pessoa do plural, como um sacerdote que prega a convertidos, disse que a Gazeta terá um lado nas eleições: “As chances de mudança serão tanto maiores quanto mais conseguirmos juntos eleger lideranças no Executivo e Legislativo, especialmente no Senado.” O controle do Senado é uma das principais táticas da direita e da extrema direita para as eleições de outubro, porque, entre outras vantagens, a Casa tem a prerrogativa de cassar ministros do STF.

Dessa gravação, nasceu um programa fixo, o Opinião na Mesa, veiculado nos canais da Gazeta do Povo, em que Guilherme comenta temas do noticiário nacional e internacional. O seu alvo principal continua a ser o STF, mas ele já fez vídeos criticando as ações movidas contra líderes religiosos que atacam a homossexualidade e apoiando famílias que preferem educar seus filhos em casa, em vez de mandá-los para a escola. No debate sobre a indicação de Jorge Messias ao STF, sua posição não poderia ser outra: ampla rejeição ao escolhido por Lula. Assim, com seu próprio publisher expondo a imagem e a voz nas mensagens, a Gazeta do Povo, o maior jornal do Paraná, radicalizou sua posição de porta-voz da direita mais extremada.

Fundada em 3 de fevereiro de 1919, em Curitiba, pelos advogados Benjamin Lins e Oscar Joseph de Plácido e Silva, a Gazeta do Povo nasceu se autoproclamando “um jornal imparcial”, independente e de espírito crítico, como consta do primeiro editorial: “Destina-se à defesa dos interesses gerais da sociedade, a chamar a atenção de todos e de cada um para assuntos que, direta ou indiretamente, nos interessam.” Naquele mesmo ano, o jornal apoiou a candidatura à presidência de Rui Barbosa – que acabaria derrotado por Epitácio Pessoa.

Separado administrativamente de São Paulo em 1853, o Paraná tinha apenas 39 municípios quando a Gazeta do Povo foi fundada (hoje tem 399). Curitiba contava com 79 mil habitantes (para efeitos de comparação, a população de São Paulo era de 570 mil pessoas, e a da cidade do Rio de Janeiro de mais de 1,1 milhão). Nessa época, a Gazeta concentrava sua cobertura e circulação principalmente no então chamado Paraná Tradicional, que se estendia da capital até o litoral e à região dos Campos Gerais, no centro-leste do estado.

Como era praxe nos jornais da Primeira República, a imparcialidade da Gazeta do Povo era só discurso. O diário fazia um jornalismo enviesado. “As matérias eram editorializadas, traziam – diferentemente do que se faz no presente – uma visão de mundo bem evidenciada”, escrevem José Carlos Fernandes e Marcio Renato dos Santos, no livro Todo dia nunca é igual: notícias que a vida contou em 90 anos de circulação da Gazeta do Povo, lançado em 2010 pelo próprio jornal.

Aos poucos, a Gazeta foi construindo seu público, até se tornar, em duas décadas, o jornal mais lido da capital paranaense. Segundo o anuário de publicidade de 1949, tinha a preferência de 34% dos curitibanos, batendo os concorrentes Diário da Tarde (24%) e O Dia (22%). Por essa época, a Gazeta já tinha adotado um perfil moderado, livrando-se de tensões com o Estado Novo e de confrontos com o governo estadual.

Apesar de manter leitores fiéis, nas décadas seguintes o jornal entrou em apuros financeiros, com dificuldades para acompanhar as mudanças na imprensa. As limitações técnicas também eram grandes, em razão de seu parque gráfico obsoleto. Em 1962, quando se encontrava em estado falimentar, atolada em dívidas e sem conseguir sequer pagar os funcionários, a Gazeta foi comprada pelos advogados Edmundo Lemanski – que entrou com o dinheiro – e Francisco Cunha Pereira Filho – que empenhou seu capital social no negócio.

Nascido em Porto Alegre e filho de um ferroviário, Lemanski tinha se mudado para Curitiba na segunda metade dos anos 1940, disposto a fazer fortuna. Formou-se em direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), casou-se com a filha do banqueiro Raphael Pappa, dono do Banco Comercial do Paraná (Bancial) – da qual se separou mais tarde – e se tornou diretor do banco. Na Gazeta, Lemanski ficou responsável pela administração financeira. “Minha meta diária sempre foi pensar em como aumentar as vendas do jornal e torná-lo rentável”, disse em entrevista ao seu próprio jornal, em 2009.

Francisco, por sua vez, era filho da elite local. Seu avô materno, o médico João Cândido Ferreira, era considerado um herói da Revolução Federalista (1893-95) e chegou a presidente interino do Paraná (um cargo equivalente ao de governador). Seu pai, Francisco Cunha Pereira, era de Minas Gerais, mas fez carreira de magistrado no Paraná. Depois de passar por repartições importantes do Tribunal de Justiça, tornou-se desembargador e presidiu o Tribunal Regional Eleitoral. Foi um dos fundadores da Faculdade de Direito de Curitiba.

Na juventude, Francisco filho era tido como o melhor partido da cidade. Advogado eloquente, com modos de gentleman e aparência de ator holly­woodiano, ganhou o apelido de Chico Beleza. Em 1956, quando estava com 30 anos, em um baile de Natal no tradicional Clube Curitibano, chamou sua atenção uma moça que lembrava a atriz Grace Kelly. Era Teresinha Döring, de 15 anos, que em 1957 seria eleita “o broto do ano” pela revista Alta Sociedade. Os dois se enamoraram, mas tiveram que esperar um bom tempo para se casar, em dezembro de 1963. A festa do casamento durou dois dias. Foi esse homem que passou a conduzir os rumos da Gazeta, adquirida em sociedade com Edmundo Lemanski.

Francisco Cunha Pereira Filho entrou de cabeça na rotina do jornal. Chegava de manhã e só ia embora depois que a edição do dia era enviada para as rotativas. Sua sala tinha uma aura solene. A mesa em que trabalhava, de madeira maciça escura, ficava sobre um patamar um pouco mais elevado, de modo que ele sempre olhava do alto para os visitantes, afundados em poltronas postadas à frente.

Logo de início, criou uma coluna que flutuava pelo jornal a cada edição e que consistia em uma foto-legenda na qual se registrava a “visita à redação” naquele dia. Com a criação da coluna, “representantes da sociedade organizada viriam à redação expor seus projetos, saindo em nota com fotos na edição do dia seguinte”, escreveram Fernandes e Santos, no livro sobre o jornal. “Ficou declarado naquele pequeno espaço editorial que a redação da Gazeta tinha uma porta sempre aberta para a sociedade paranaense.” Não apenas a do Paraná. Francisco, que quase nunca saía nas fotos, passou a receber líderes políticos nacionais, da direita à esquerda, sindicalistas e empresários, inclusive Lula, que o visitou em 2002, quando fazia campanha para a Presidência. A coluna se manteve por quatro décadas.

O publisher também estabeleceu uma máxima para a nova era do jornal: “Os governos e os governantes passam, mas a Gazeta deve permanecer.” Todas as matérias a serem publicadas eram submetidas ao crivo de Francisco, que não se acanhava em cancelar o que pudesse melindrar lideranças ou parceiros. Nessas ocasiões, telefonava para a pessoa que tinha sido alvo da reportagem, dizendo que ela não precisava se preocupar, porque não seria publicada. Assim, ele atravessou décadas sem se indispor com nenhum político, exceto o governador Roberto Requião. (Em um dos episódios da disputa, Requião e seu partido, o PMDB, espalharam pelo estado outdoors nos quais se lia: “A Gazeta do Povo mente.”) Durante a ditatura militar, o diário não fugiu à regra. Em entrevista ao próprio jornal em 2009, Lemanski disse que encarou o golpe de 64 como a “retomada da tranquilidade após a ameaça que os subversivos causavam à ordem”. E concluiu: “Nunca tivemos problemas com a ditadura porque o jornal era imparcial.”

Da mesma forma, o diário passou a acomodar interesses diversos, focando a cobertura na agenda da cidade, com um jornalismo ligeiro e pouco aprofundado. Na página 2 chegou a ter um espaço destinado apenas às “boas notícias”. Por tudo isso, a Gazeta ganhou a pecha de chapa-branca. Francisco também se deixou seduzir pela ideia de estimular debates públicos e “grandes causas”, atribuindo ao seu jornal a missão cívica de desenvolver o Paraná, o que o levou a deflagrar dezenas de campanhas com ampla cobertura da Gazeta. Algumas acabaram bem, como o movimento para que o estado recebesse royalties da Usina Hidrelétrica de Itaipu. Outras, como a da inclusão do Paraná na rota do gasoduto Brasil-­Bolívia, deram em nada.

Dois anos depois da compra, os sócios Francisco Cunha Pereira Filho e Edmundo Lemanski já tinham colocado as finanças da casa em ordem. Em 1969, deram mais um passo, comprando a TV Paranaense – a futura RPC. Foi o início do que viria a ser o maior grupo de comunicação do estado. Adulado por empresários, políticos e autoridades, Francisco gostava de aparecer em inaugurações de escolas e em audiências solenes da Assembleia Legislativa do Paraná, ou no Congresso em Brasília. “Não raro, a redação parava para assisti-­lo na tevê, quando marcava presença em algum evento e fazia discursos. Nascera para o púlpito”, dizem Fernandes e Santos, no livro sobre a Gazeta.

Ao longo das décadas seguintes, os sócios promoveram constantes atualizações no parque gráfico e fizeram da Gazeta o diário mais lido do Paraná. A empresa faturava tanto com assinaturas quanto com publicidade e classificados. Ficou famosa em Curitiba a fila para anunciar nos classificados, que chegava a dobrar a esquina da Praça Carlos Gomes, o endereço de sua sede. Nos anos 1990, quando Francisco já tinha ultrapassado os 70 anos de idade, o jornalismo da Gazeta começou a dar sinais de esgotamento. A pauta era preguiçosa e sem apuro investigativo. A diagramação parecia antiquada. Era preciso planejar não só a modernização da Gazeta, mas dar os primeiros passos para definir a sucessão no comando do jornal – e “doutor Guilherme” entrou em cena.

Segundo dos quatro filhos de Francisco e Terezinha, Guilherme Döring Cunha Pereira é um homem gentil e reservado, de 60 anos. Magro e de ombros estreitos, tem as sobrancelhas levemente arqueadas e os cabelos castanho-claros penteados para a direita. Usa ternos simples – nunca de marcas renomadas. Com um tom de voz suave e formal, recorre a perguntas retóricas e contrai levemente os lábios ao concluir cada pensamento. Nunca levanta a voz, mas, quando contrariado, fica corado e lança ao interlocutor um olhar severo.

Embora raramente altere seu ponto de vista, ele costuma dizer para seus interlocutores: “Me convença e mudo de opinião.” Flerta com a teoria da justiça do filósofo americano John Rawls, que defende que as regras de uma sociedade justa, baseadas na igualdade de oportunidades, devem ser definidas de forma imparcial. Também costuma mencionar o educador Stephen Covey, autor de Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes. “Eu vejo o Guilherme como um grande intelectual, como um cara muito preocupado com a sociedade. E ele tem o ponto de vista dele”, diz o advogado e jornalista Rhodrigo Deda, que foi repórter e editor executivo da editoria Vida Pública, na Gazeta. “Ele é um cara simples, muito simples, que gosta de conversar, de entender as coisas. É o tipo de pessoa de quem você pode divergir, mas que está sempre aberta a discutir.”

Quando fazia direito na UFPR, em 1983, apesar dos recursos e da posição da família, Guilherme ia para a faculdade de ônibus e se vestia com modéstia. Andava pela escola com o agasalho das aulas de educação física, enquanto seus colegas já vestiam ternos. “Ele era disciplinado, discreto e estudioso”, recorda o ex-deputado e ex-prefeito de Curitiba Gustavo Fruet (PDT), contemporâneo de Guilherme na faculdade.

Naqueles anos, o jovem entrou para as fileiras do Opus Dei, prelazia ultraconservadora da Igreja Católica, formada principalmente por leigos. A “Obra” (como é chamada por seus membros) parte do princípio de que a santidade não está restrita aos sacerdotes, mas pode ser buscada por todos os cristãos na vida cotidiana, especialmente por meio do trabalho e da vida familiar. Apesar de não contar com um número expressivo de membros – são cerca de 150 fiéis em Curitiba, em torno de 3 mil no país –, o Opus Dei costuma arrebanhar adeptos com alta posição social.

Guilherme se tornou um numerário, o adepto que assume um compromisso ainda mais intenso com a vida espiritual e as missões da Obra. Além de fazer votos de castidade, pobreza e obediência, alguns numerários praticam ritos de penitência, como o uso do cilício, uma espécie de corrente, geralmente usada na coxa, com ganchos pontiagudos que entram na carne conforme se aperta o instrumento. O Opus Dei acredita que o ritual de mortificação corporal aproxima os fiéis de Jesus Cristo, que sofreu na cruz.

A opção religiosa fez com que Guilherme também passasse a residir, até hoje, em uma casa da prelazia. Ele mora no Centro Mauá, um espaço de formação do Opus Dei que serve de residência coletiva. É um edifício de quadro andares, com tijolos à vista e jardim bem cuidado, lembrando um pequeno hotel. Entrando-se no segundo andar percebe-se que é um prédio religioso: sobre um aparador há três fotos do monsenhor Josemaría Escrivá, o espanhol fundador do Opus Dei, e perto dali um oratório onde se rezam missas diárias. Nos outros andares, moram três sacerdotes e dez numerários – entre eles, Guilherme, que toca teclado ou órgão durante as missas no oratório. Na casa da prelazia, que a piauí visitou, ninguém quis falar sobre ele.

No fim da década de 1990, quando foi convocado pela família para integrar a direção da Gazeta, Guilherme tinha dado outro rumo a sua vida, distante dos negócios familiares. Com mestrado em direito comercial e doutorado em direito da comunicação, defendido na USP, ele começou a advogar e dar aulas na Faculdade Cásper Líbero e residia em uma casa do Opus Dei em São Paulo. Quem o conhece diz que seu plano era permanecer nessa cidade e fazer carreira jurídica. Mas voltou a Curitiba, atendendo ao chamado da família, e passou a ajudar na gestão do jornal, ao lado do pai e da irmã Ana Amélia, formada em jornalismo pela UFPR e que começara na Gazeta antes dele, como repórter e criadora do Caderno G, dedicado a temas culturais.

Uma das primeiras decisões da dupla foi fazer uma reforma gráfica e editorial na Gazeta. Para isso, Guilherme convenceu o pai, Francisco – que continuava a presidir o jornal –, a contratar uma consultoria da Universidade de Navarra, fundada na Espanha pelo mesmo Josemaría Escrivá e ligada ao Opus Dei. A reformulação foi concluída em 1998 e deu uma cara mais moderna ao jornal. Outra mudança: Guilherme cismou com os classificados de massagistas e acompanhantes para fins sexuais. Mesmo representando uma fatia considerável da arrecadação, ele cortou os anúncios que considerava imorais.

Em 2000, a família Cunha Pereira se envolveu em um caso que chegou ao noticiário nacional. Francisco Cunha Pereira Neto, irmão mais velho de Guilherme e mestrando em física quântica, estava de casamento marcado com Valéria Colombo, estudante de educação artística. Segundo a revista IstoÉ, faltando menos de um mês para o casório, Guilherme e o pai entraram no apartamento do casal, acompanhados de uma equipe médica, e internaram o noivo à força. Guilherme disse ao Ministério Público que “a família separou o casal porque o irmão é esquizofrênico”. Tal condição afastou Francisco Neto dos negócios familiares.

Em meados da década de 2000, por questões de saúde, Francisco saiu em definitivo do jornal – e os filhos Guilherme e Ana Amélia assumiram de vez o comando. “São dois temperamentos completamente diferentes. A Ana Amélia é absolutamente extrovertida, falante. E o Guilherme é mais introvertido, mais reflexivo, mas muito preparado”, diz o jornalista e professor Carlos Alberto Di Franco, amigo da família Cunha Pereira e também membro do Opus Dei.

Juntos, os irmãos continuaram a construir uma nova Gazeta. A conta-­gotas, demitiram antigos funcionários e começaram a apostar em coberturas mais robustas. Logo viria a fase das grandes reportagens. “A gente correu solto”, lembra Oscar Röcker Neto, que ocupou um posto de editor naqueles anos e chegaria a chefe de redação. “Se o doutor Francisco não tivesse se afastado, talvez a gente não tivesse tido aquela liberdade toda. E o Guilherme e a Ana Amélia deram aquela liberdade porque queriam se posicionar e acabar com aquele ranço do passado, da Gazeta chapa-branca”, avalia.

Apesar de Guilherme e Ana Amelia atuarem em conjunto, era a opinião dele que costumava prevalecer. Em reuniões, quando ela manifestava algo que desagradava o irmão, ele lançava um olhar de repreensão. Se ela insistisse na argumentação, Guilherme a interrompia, dizendo “Ana Amélia, depois eu te explico isso”, encerrando o assunto. Em março de 2009, um mês depois de a Gazeta completar 90 anos, Francisco Cunha Pereira Filho faleceu, aos 82, em decorrência de uma parada cardiorrespiratória. Coube a Guilherme assumir o papel de publisher.

Repórter da sucursal da Gazeta do Povo em Foz do Iguaçu, Mauri König investigava, em julho de 2003, um esquema de furto de carros integrado por policiais civis. Os agentes suspeitaram que König estava fazendo uma reportagem sobre eles, e o jornalista, sentindo-se ameaçado, deixou a cidade às pressas e foi se refugiar em Curitiba. Foi então que König teve seu primeiro contato com Guilherme, que estava substituindo o velho Francisco, afastado temporariamente por questões de saúde. Depois de ler a reportagem editada, Guilherme sugeriu ao repórter algumas alterações, como dizer que os policiais tinham sido “lenientes” com o furto, em vez de cravar que participavam do esquema de furtos. “Eu me sentei na mesa, na frente dele, que foi muito cortês, um gentleman, na verdade”, lembra König. “Discordei do termo ‘lenientes’ e de uns três ou quatro que ele queria mudar. E ele cedeu, mantendo o texto exatamente como eu tinha feito.” Publicada em 13 de julho daquele ano, a reportagem é um marco no jornal, pois deixou claro que a Gazeta estava apta a fazer jornalismo investigativo.

Em janeiro de 2004, porém, apareceram indícios de que a mudança não seria tão tranquila. König tinha passado nove dias no Paraguai, apurando que propriedades rurais compradas por brasileiros no país vizinho estavam sendo invadidas por sem-terra paraguaios. A primeira reportagem da série foi diagramada como manchete da edição de domingo. König comprou o jornal, mas não encontrou a matéria. Uma editora lhe contou que tinha sido derrubada por ordem do velho Francisco, que havia voltado ao trabalho. Indignado, o repórter informou que se demitiria.

No dia seguinte, König foi chamado à sala de Guilherme, que o demoveu da ideia de se demitir. “Ele disse: ‘Me dá um tempo, eu e a Ana Amélia vamos conversar com meu pai para entender o que aconteceu e publicar seu material’”, conta o repórter. Cerca de duas semanas depois, entre 11 e 15 de janeiro de 2004, a série de reportagens foi publicada na íntegra. Guilherme tinha, efetivamente, batalhado pela publicação. Ele explicou a König que o pai vetara o material por receio de provocar “um conflito diplomático” entre Brasil e Paraguai.

Apesar da intervenção de Guilherme, ainda havia resistência dentro da própria redação, da parte dos que eram fiéis a Francisco. Algum tempo depois, König produziu uma reportagem especial sobre a fome no Paraná, intitulada Devorados pela miséria. Contava a história de uma família na cidade de Mangueirinha cujas condições de vida eram tão extremas que as pessoas faziam um “rodízio” na hora da alimentação: a cada dia, um comia um pouco mais que os outros. A foto escolhida para abrir o texto, feita por Albari Rosa da Silva, retratava os pés descalços de um menino de 5 anos, com os dedos deformados, tomados por bichos-de-pé.

Um dos chefes de reportagem se recusou a publicar a matéria. König o ouviu dizer que não concordava com “essa opção terceiro-mundista do jornal”. Para driblar a resistência interna, outra chefe de redação, Claudia Belfort, optou por publicar na edição de sábado, dia 3 de julho de 2004, considerada menos nobre e, portanto, com menos vigilância interna. A matéria estabeleceu um novo marco na redação: venceu o Prêmio Esso, na categoria Regional Sul, e recebeu menção especial nos Prêmios Ibero-Americanos pelos Direitos da Infância. As fotos ganharam menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog.

Guilherme exultou. Com carta branca do publisher, o jornal passou a desenvolver uma cultura de grandes reportagens investigativas. Vieram o reconhecimento nacional e vários prêmios. O exemplo mais celebrado é a série de reportagens Diários secretos, sobre funcionários-fantasmas na Assembleia Legislativa do Paraná, produzida em 2010, em parceria com a RPC. Assinado por Katia Brembatti, Karlos Kohlbach, James Alberti e Gabriel Tabatcheik, o material está entre os mais premiados do jornal. Provocou, além disso, um movimento estadual pela moralização na política.

Na Gazeta, König conquistou também o prestigioso Prêmio Maria Moors Cabot, conferido pela Universidade Columbia. (Segundo ranking do Jornalistas&Cia, é o repórter brasileiro com mais prêmios internacionais.) Outra série de reportagens, feita por ele e mais três jornalistas, focou em desvios da cúpula das polícias Civil e Militar. Ameaçados, os repórteres passaram a andar com escolta armada, custeada pela Gazeta. König chegou a sair do país. Guilherme sofreu ameaças veladas e teve que lidar com uma série de pressões do governo do Paraná. Ainda assim manteve a publicação da série até o fim e seus desdobramentos. “Ele, como publisher, como herdeiro do grupo, tinha esse poder de bancar essas reportagens”, diz König. “Achava que isso era importante para marcar uma posição social do jornal e para produzir mudanças sociais, que acreditava ser o papel do jornalismo. O problema é o tipo de mudança e os métodos que ele passou a usar mais tarde.”

No início de 2009, um caso ocorrido no interior do Pernambuco chamou a atenção do país: uma menina de 9 anos de idade engravidara, depois de ter sido estuprada pelo padrasto, no município de Alagoinha. A criança tinha 36 kg, 1,32 metro de altura, o que tornava a gestação de altíssimo risco. O episódio gerou debates acalorados em torno do aborto legal, provocando reações extremas de setores da Igreja Católica. Um dos nomes mais engajados nesse embate foi o arcebispo emérito de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, que defendeu fervorosamente que a menina deveria dar à luz. Por fim, a gestação foi interrompida. Dom José excomungou todos os envolvidos no procedimento – da mãe da menina aos médicos.

Em Curitiba, ainda antes de o aborto legal ser realizado, Guilherme determinou que seu time de editorialistas redigisse um editorial defendendo o arcebispo e argumentando que a gestação deveria ser levada até o fim. A então editora de Opinião, Maria Sandra Gonçalves, teve que se desdobrar: apontou que soaria mal ao jornal se envolver de forma tão ferrenha em um tema tão sensível à sociedade. O editorial acabou não sendo publicado. Foi uma das raras vezes em que Guilherme voltou atrás em suas convicções.

Bem antes disso, em 2004, o jovem repórter Pedro Carrano havia feito uma reportagem de capa para o caderno Fun – voltado ao público adolescente –, tratando de questões de gênero. “A matéria buscava explicar o que era transgênero, transexual, travesti, crossdressing”, relembra o jornalista. Com o caderno já diagramado, o então diretor de redação, Arnaldo Cruz, vetou a publicação. Uma prova de impressão com a reportagem chegou às mãos de Guilherme, que concordou com o veto e fez picadinho das duas páginas. Como não havia tempo hábil de diagramar um novo material para ocupar o espaço da reportagem censurada, o caderno semanal simplesmente não circulou. A reportagem nunca foi publicada. “O José Carlos Fernandes [editor do caderno] fez o que pôde para tentar publicar o material”, diz Carrano.

Com os dogmas do Opus Dei debaixo do braço, Guilherme é um fervoroso crítico do aborto e um defensor da família tradicional. “Em seus editoriais, a Gazeta nunca teve nenhuma dificuldade em se posicionar, mesmo de maneira contramajoritária em temas bem polêmicos”, diz Maria Sandra Gonçalves, a editora de Opinião. “Como fazer a defesa da vida, ao invés da defesa do aborto, como a maioria dos jornais.”

Desde a chegada de Guilherme à Gazeta, todos sabiam sua relação com o Opus Dei. Na década de 2000, quando publicações colocaram a Obra sob a luz dos holofotes (como O código Da Vinci, de Dan Brown, e Opus Dei: os bastidores, de Dario Fortes, Marcio Fernandes da Silva e Jean Lauand), Guilherme reuniu seus editores e promoveu uma espécie de tira-­dúvidas com a redação, respondendo perguntas sobre a Obra. Na ocasião, ele confirmou que é celibatário e faz uso do cilício. Na mesma década, a Gazeta enviou seus editores a São Paulo para cursos de aperfeiçoamento ministrados pelo Master Negócios de Mídia, um braço do Ise Business School, que tem um convênio com o Opus Dei. O próprio Guilherme ministrou um módulo do curso. Em uma confraternização dos alunos, o diretor-geral do Master, Carlos Alberto Di Franco, levantou um brinde ao autor de O código Da Vinci.

À piauí, Di Franco contou que fez brindes a Dan Brown não uma, mas inúmeras vezes. “Porque O código Da Vinci levou a uma, digamos, crise de imagem, que foi ótima para o Opus Dei. O Opus Dei tinha uma postura muito mais reativa e passou a ter uma postura propositiva”, afirmou. Sobre o fato de o ideário de Guilherme ter se tornado cada vez mais presente na Gazeta do Povo, Di Franco disse: “Claro que ele tem suas convicções e entende, de alguma maneira, que elas podem ser úteis para o país. Nesse sentido, eu acho legítimo e creio que, de fato, ele tem essa aspiração [de influenciar a sociedade].”

Em Curitiba, no início dos anos 2010, a Gazeta passou a realizar um Programa de Desenvolvimento de Jornalismo, o “masterzinho”, voltado aos repórteres da casa. Além de contar, entre outros, com alguns professores da Universidade de Navarra, o curso tinha dois módulos ministrados por Guilherme. Em um deles, o executivo versava sobre direito da comunicação. Em outro, mais etéreo, abordava as virtudes na perspectiva aristotélica. Defendia que não se nasce virtuoso, mas que a virtude se forja pelo hábito e que a felicidade reside no exercício constante das virtudes. Por essas e outras, em tom de galhofa, os participantes apelidaram o “masterzinho” de “catecismo”.

Guilherme tinha obsessão em identificar as pessoas com poder de transformar a sociedade. Semanalmente, promovia rodadas em que ouvia políticos, secretários de Estado, empresários e outros líderes. As reuniões eram realizadas na sede da RPC ou da Gazeta e contavam com a participação da cúpula dos veículos, além de alguns repórteres de áreas afins. Guilherme também almoçava com lideranças, com a mesma finalidade. “Em regra, eu fazia uma apresentação de algum tema, depois era sabatinado. O Guilherme parecia ver aquilo como uma missão”, diz Gustavo Fruet, que, quando era prefeito de Curitiba (de 2013 a 2016), participou algumas vezes das rodadas e almoçou com o publisher. “Ele queria saber sobre política, a fim de fazer uma avaliação de conjuntura, mas também saber o que eu pensava sobre aspectos espirituais, como se fosse uma tentativa de sondagem. Era uma tentativa de diálogo, mas também de se certificar sobre envolvimento religioso”, conta Fruet.

Na redação, Guilherme costumava questionar o perfil dos personagens das reportagens. Lamentava que as matérias não tratassem tanto como ele gostaria de pessoas com filhos e reclamava que falassem de muitas mulheres que haviam se separado para viver com independência. Queixava-se como se a redação conspirasse para destruir a família tradicional. Por isso, alguns editores acabavam filtrando os conteúdos para não desagradar o dono. Há casos que beiram o ridículo. Numa reportagem sobre o imposto de renda, o jornalista entrevistou um casal homoafetivo. No processo de edição, por excesso de zelo, a palavra “casal” foi trocada por “dupla”. Quando o material editado chegou à sua mesa, o então chefe de redação, Oscar Röcker Neto, achou a troca uma bobajada e retomou o termo “casal” no texto. Röcker Neto, que trabalhou na Gazeta de 2003 até 2012, sabia das preferências de Guilherme, mas achou a mudança era inofensiva. “Eu não imaginava que, depois, aquilo chegaria ainda mais longe.”

Em 2010, Maria Sandra Gonçalves foi nomeada diretora de redação da Gazeta do Povo, o cargo mais importante do jornal. Era a primeira mulher a exercer o posto e também a primeira indicação de Guilherme e Ana Amélia para o comando do jornal. A nomeação foi uma surpresa, já que a jornalista tinha apenas 39 anos, nenhuma experiência executiva e liderava uma editoria, a de Opinião, de menor relevância no jornal. Como editora, ela participava das reuniões semanais em que os sócios do jornal, o diretor e o chefe de redação decidiam os rumos dos editoriais e definiam as linhas da cobertura dos temas mais relevantes. No curso desses encontros, Gonçalves acabou compreendendo como o publisher pensava e estabelecendo afinidade com ele.

Gonçalves permaneceu no cargo até meados de 2015. Em 2017, já com Leonardo Mendes Júnior na diretoria de redação, o jornal saiu em definitivo do armário. Em um projeto conduzido por Guilherme e sem paralelo na imprensa nacional, a Gazeta publicou um manifesto editorial ultraconservador intitulado Nossas convicções. “É um conjunto de textos que explicitam de uma maneira um pouco mais sistemática qual é a visão de mundo do jornal, qual é o seu DNA imutável”, diz Mendes Júnior à piauí. Ao longo de 28 textos, a Gazeta seguiu um padrão corrente – é ultraconservadora nos costumes e liberal na economia. É contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, contra o aborto, contra qualquer estrutura de família que não seja a tradicional. É a favor do Estado mínimo, da livre-iniciativa, do mercado livre. “É como se a gente dissesse naquela época: ‘Esse aqui é o ideário que nos guia’”, afirma Mendes Júnior, hoje diretor de redação do jornal O Estado de S. Paulo. “As pessoas passam a ter mais condições, olhando para isso, de entender se aquele veículo faz sentido para elas ou não e também se está sendo coerente com o que elas defendem.” Para ele, enfim, é uma questão de transparência.

Enquanto vivia seu melhor período jornalístico, empilhando prêmios e começando a ganhar um certo reconhecimento nacional, a Gazeta do Povo sofreu um desajuste em suas contas, entrando no vermelho. Não era uma particularidade do diário paranaense, mas algo que afetou indistintamente os jornais brasileiros ao longo da década de 2010. Os veículos impressos passaram a perder receita de publicidade para a internet e, depois, para as redes sociais. Mesmo ampliando sua audiência digital, os diários se viam com dificuldades para monetizar seus sites e manter os anunciantes, cada vez mais atraídos pelo mundo digital.

Com o descompasso, a Gazeta passou a cortar na própria carne. Houve uma série de passaralhos – o jargão usado na imprensa para definir as demissões em massa. Os desligamentos chegaram a tal ponto que o Sindicato de Jornalistas Profissionais do Paraná criou o “demissômetro”, para alertar periodicamente sobre os cortes. Segundo a entidade, entre 2011 e 2015, a Gazeta mandou embora 59 jornalistas. (Uma década antes, em 2004, a redação contava com 150 jornalistas; hoje são 94 profissionais, incluindo gestores e todo o departamento comercial.) Em 2015, Mauri König, o principal representante da fase premiada do jornal, também foi demitido.

O enxugamento afetou em cheio o jornal, que se viu obrigado a reduzir as pautas. As reportagens especiais e investigativas foram se tornando mais raras até morrerem por asfixia. “À medida que o problema financeiro se agravou, o desafio foi se tornando maior e minando o ânimo das pessoas”, lamenta Maria Sandra Gonçalves.

Nessa fase, ela promoveu reuniões com as diferentes editorias da Gazeta para anunciar uma nova orientação. Mencionando a Regra de Pareto (que diz que 80% de resultados provêm de 20% de causas), ela disse que o con­teú­do do jornal, até então, era 80% ba­sea­do em critérios jornalísticos e 20% influenciado pelos interesses dos leitores. A partir daquele momento, a proporção se inverteria porque era preciso satisfazer os leitores para aumentar a audiência. À piauí, Gonçalves diz não se lembrar dessas reuniões, mas relata que existia, sim, uma linha editorial de “ter mais presente a opinião do leitor, para que a conexão aumentasse”.

Com o prejuízo anual crescendo ano a ano, Guilherme acelerou as mudanças. Demitiu Gonçalves e, em outubro de 2015, confiou a direção de redação a Leonardo Mendes Júnior, então com 36 anos. Outra vez, a decisão surpreendeu. Mendes Júnior tinha sido um bom repórter de esportes, mas não tinha experiência executiva. Apenas dois meses e meio antes, ele assumira a edição executiva de uma pasta que congregava as editorias de Vida e Cidadania, Vida Pública e Mundo. Logo de saída, houve a sinalização de que o impresso deixaria de ser prioridade. Além disso, o formato da Gazeta mudou de standard para berliner, que é mais compacto. As edições de fim de semana (sábado e domingo) deixaram de circular, dando lugar a uma revista.

A partir de então, o jornal passou a planejar a sua “virada”, nas palavras de Mendes Júnior. Em 2017, saiu do papel o projeto que se assentava em um tripé. Foi extinto o jornal impresso, cujo conteúdo migrou para o universo digital (manteve-se apenas a revista de fim de semana), nacionalizou-se a cobertura e o público-alvo, e escancarou-se a linha editorial de ultradireita. Na reunião em que apresentou o novo modelo à redação, Mendes Júnior celebrou a ousadia. “Nós seremos o case”, disse.

Ainda no primeiro semestre de 2017, a Gazeta do Povo ampliou seu time de colunistas, trazendo nomes alinhados à direita, como Rodrigo Constantino e Leandro Narloch. Logo no início, Mendes Júnior deixou claro que as convicções do jornal não ficariam restritas aos espaços editoriais e de opinião, mas deveriam perpassar todo o conteúdo, incluindo as reportagens. Mesmo as fontes a serem ouvidas deveriam ser alinhadas à perspectiva do jornal. Era o fim da pluralidade e da objetividade. “Se você tem como algo crucial a visão de um veículo, não faz muito sentido isso ficar restrito à área de opinião, ao editorial”, afirma Mendes Júnior.

Aos poucos, com a ascensão da ultradireita no Brasil, o jornal começou a atrair uma audiência ideológica, capturando leitores de outros estados. Segundo Mendes Júnior, em 2018, quando Jair Bolsonaro venceu a eleição, o número de assinantes de fora do Paraná superou os do estado. “E isso, sim, é um atestado de que a nacionalização estava caminhando”, ele diz. Naquele ano, a Gazeta declarou apoio veemente a Bolsonaro, catapultando a audiência. Em outubro, mês das eleições, apostando em um conteúdo editorializado, o jornal registrou 33,7 milhões de usuários únicos em seu site, tornando-se o veículo digital mais lido do país. As assinaturas dispararam. O jornal online fechou 2017 com 50 mil assinantes. Em 2025, tinha 140 mil.

Ao mesmo tempo, a Gazeta começou a reduzir seu prejuízo, embora ainda amargasse um rombo milionário. Antes da virada, o déficit anual estava na casa dos 40 milhões de reais. Em 2017, o saldo negativo caiu para a dos 30 milhões de reais. Em 2018, 20 milhões. O buraco era coberto pelo superávit do grupo, principalmente pelos lucros da RPC. “Na época, eu vi esse projeto como a melhor oportunidade que a Gazeta tinha. Era onde realmente valia colocar as fichas”, diz Mendes Júnior. Conforme um acordo coletivo de trabalho protocolado em abril de 2025, a meta da Gazeta era fechar o ano passado com saldo negativo de 2,7 milhões de reais.

Apesar da crise atravessada pela Gazeta, dinheiro não é um problema premente para os Cunha Pereira. A família tem participação em pelo menos 36 CNPJs, que somam um capital social superior a 137 milhões de reais. Além de holdings e empresas de comunicação, tem negócios em construtoras, imobiliárias, concessionárias de automóveis e até em uma empresa de aquicultura que produz camarões. Guilherme é sócio e presidente da Faculdade Belavista, em São Paulo, voltada aos cursos de direito e economia, que tem entre os parceiros a Universidade de Navarra e outras instituições ligadas ao Opus Dei.

A radicalização conservadora e a inclinação à extrema direita política do veículo não se devem, claro, unicamente ao viés financeiro. “A virada era um caminho que permitia ampliar o alcance das convicções, dos valores defendidos por Guilherme”, diz Mendes Júnior. “O problema do Guilherme é que ele acha que tem uma missão divina para cumprir na Terra. Essa missão divina é a plataforma dele, que ele vai promover mundos e fundos para fazer virar”, afirma Oscar Röcker Neto, ex-chefe de redação. A opção do publisher pelo bolsonarismo, diz ele, tem mais a ver com o aborto do que com aspectos propriamente políticos: “Se você garantir que vai vetar o aborto de tudo quanto é jeito, todo o resto, para o Guilherme, se justifica.”

A Gazeta persistiu em seu avanço rumo à direita radical. Demitiu o único colunista identificado com o progressismo, o paranaense Rogerio Galindo – e contratou Alexandre Garcia, Guilherme Fiuza e J.R. Guzzo. “O que eu posso te dizer é que Galindo não foi demitido por ser de esquerda, Galindo não foi demitido porque criticava o Bolsonaro”, diz Mendes Júnior, sem, no entanto, informar o real motivo da demissão. Mais tarde, o jornal acrescentou ao seu corpo de articulistas o senador Sergio Moro (PL-PR), o deputado federal cassado Deltan Dallagnol e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).

O e-book que o jornal lançou defendendo a intentona golpista do Oito de Janeiro é assinado por Cristina Graeml, ferrabrás da direita gestada nos corredores da Gazeta e que agora tenta uma carreira política. Depois de perder a eleição para a Prefeitura de Curitiba em 2024, ela deve disputar uma vaga ao Senado. Outros e-books editados pela Gazeta seguem a mesma linha, como O fim da democracia no Brasil, que reúne textos com críticas ao STF, A vida e obra de Bento XVI, elogioso ao conservadorismo do papa alemão, e Cristofobia: como o Ocidente está se curvando ao medo, escritos por vários autores.

No dia 18 de março, a Gazeta do Povo publicou um editorial em que defendeu a conversão da prisão de Bolsonaro em regime domiciliar por razões humanitárias. “Não é privilégio, mas sensatez”, diz o jornal, aludindo ao estado de saúde do ex-presidente, condenado a 27 anos e três meses. Em 2019, Genival Inácio da Silva, o Vavá, irmão de Lula, morreu de câncer. Na ocasião, o petista estava preso em Curitiba e foi impedido, não de ir para a prisão domiciliar, mas apenas de comparecer ao velório. Em sua coluna na Gazeta, Rodrigo Constantino escreveu na época que “desumano é fazer palanque político em velório de parente”.

Em junho de 2021, Guilherme Cunha Pereira concedeu uma entrevista ao amigo Carlos Alberto Di Franco, transmitida pelo YouTube. Nela, o publisher deixou claro que a radicalização da Gazeta do Povo ocorreu porque ele enxergou “uma grande oportunidade” no fato de não haver no Brasil veículos da grande mídia posicionados de forma incisiva à direita. “Essa oportunidade, curiosamente, não tem a ver prioritariamente com uma questão tecnológica, tem a ver com uma questão de conteúdo e convicções”, disse o executivo, que, em seguida, resumiu o ideário da Gazeta: “Nós somos mais liberais em termos sociopolíticos e econômicos, né? E mais conservadores em termos de comportamento, em termos de preservação e proteção da família, da vida. E nós achamos que [esse] é o posicionamento de boa parte dos brasileiros.”

Guilherme disse que as últimas pesquisas apontam que cerca de 80% dos brasileiros são contrários ao aborto. “O que nos surpreendia é o fato de não haver veículos que traduzissem essa mesma visão”, afirmou o publisher. Há nuances. Em uma pesquisa do Datafolha em 2024, 66% dos brasileiros se declararam contrários ao projeto de lei do deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ­), que pretendia equiparar a pena para o aborto à prevista para homicídio, inclusive em casos hoje considerados como aborto legal. O projeto de lei provocou grande reação na sociedade. Até hoje não foi votado. A mesma pesquisa apontou que 59% dos brasileiros são a favor de alguma forma de aborto.

À piauí, Di Franco elogia o projeto capitaneado por Guilherme. Avalia que, com o caminho adotado, a Gazeta conseguiu melhorar seus resultados, fidelizando leitores ao deixar explícito seu posicionamento político e nacionalizar seu conteúdo. “Eles simplesmente passaram a dar uma credibilidade e uma visibilidade a uma visão que já tinham. E essa visão casou com uma demanda de uma parcela importante do leitorado brasileiro”, afirma Di Franco. “Você pode gostar mais ou gostar menos, mas é indiscutível que eles conseguiram um resultado muito impressionante do ponto de vista de projeto.”

Quem ajudou a construir a reputação jornalística da Gazeta lamenta os novos rumos. Para Mauri König, o veículo “regrediu 150 anos”, em termos jornalísticos, retornando ao modelo adotado no século XIX, quando os jornais se restringiam à publicação de textos opinativos e enviesados. “A Gazeta do Povo é o retrato do que o Guilherme pensa para a sociedade e que é manifestado por meio dos colunistas e das matérias editorializadas que produz sobre os temas de interesse dele”, diz König.

Ao mudar de rumo, o veículo se desfez do ideal do velho Francisco – aquele segundo o qual “os governos e os governantes passam, mas a Gazeta deve permanecer”. Röcker Netto chama a atenção para o fato de o projeto de nacionalização da Gazeta ser diametralmente oposto ao viés “paranista” defendido por Francisco. “O Guilherme jogou o legado do pai dele no lixo, porque abandonou o Paraná. Tanto é que o projeto da Gazeta, hoje, não tem a ver com o Paraná, mas com reunir esse nicho de extrema direita espalhado pelo Brasil”, diz. Maria Sandra Gonçalves também lamenta que o jornal tenha abandonado a cobertura de temas do estado. “O que sinto falta é daquele serviço, daquela conexão bem local.”

Alegando ter um acordo de confidencialidade sobre a venda de sua participação na RPC, Guilherme não quis falar com a piauí. Depois de quatro pedidos de entrevistas, o publisher me telefonou em 11 de março e, em tom amigável, disse que sua “linha sempre foi de abertura”, mas que não haveria como conceder entrevista sem “abordar o tema da transição que ocorreu e do próprio negócio [da venda das ações da RPC]”. Entretanto, respondeu rapidamente sobre sua decisão de participar dos vídeos editorializados da Gazeta. “Acho que o momento pedia, talvez, o posicionamento. E a própria equipe entende que o fato de você ter uma cara tem um peso de consistência, dá mais identidade e mais força”, disse.

Ao encerrar a conversa, afirmou, de maneira cordial: “Boa sorte aí e espero que faça um belo trabalho. Imagino que eu não vá gostar muito, mas pode ficar tranquilo. Respeito profundamente. Pessoas diferentes têm visões diferentes. Posso até discordar, mas sei que é o esforço de fazer uma leitura da realidade da melhor maneira possível.” Dias depois, em 23 de março, Guilherme gravou um novo vídeo. Estava menos cordial. Atacou o Supremo, pediu o impeachment de Alexandre de Moraes e Dias Toffoli e defendeu uma CPI para investigar os “abusos de autoridade no âmbito dos tribunais superiores”.


*O autor desta reportagem foi repórter da Gazeta do Povo entre março de 2010 e outubro de 2018.


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É jornalista radicado em Curitiba. Autor do livro Waltel Branco - O maestro oculto (Banquinho Publicações)