poesia
Edmilson de Almeida Pereira piauí_238 02 Jul 2026
3 min de leitura
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O FOGO
Onde não existe forma para o fogo o
fogo é a forma
ígnea linha que não degrada em
nenhuma resma
ou rito.
Quando se trata de não trair a eva-
língua da natura
nenhum livro confere a si próprio a aura
ou erva
divina.
Não há por trás do barro inflamado da
palavra
nenhum ser maior que o fogo inicial
apenas
o faro e a lira.
ANTICANTO
Nenhum gesto na cidade
invadida por uma língua surda.
Sem o que nos torna loucos,
desperdiçamos horas
antes de cada nascimento
– nenhum parto na rua calva,
nenhum rio pós-estiagem
é tanto que dure um rastro.
Domingo é o dia da consciência
terrível – quem fotografa
nega o desaparecimento.
Viva a morte do deus-rapto –
deus findo no advérbio.
O canto nascido fora do mito
é humano, selva de silvos,
nada sabe de si mesmo.
É contra, é fardo, é lúcido
ao cair da noite – tem o alarde
por ofício, não salva ninguém,
não se ouve quando fala.
BUMERANGUE
JOHNNY ALF
BADEN POWELL
o grande lance
é não ser commodity de país tropical
JOHNNY POWELL
BADEN ALF
síntese que desliga o ponto eletrônico
JOHNNY FLOWER
BADEN BADEN
o grande
número aflora na sala-sílex do ouvido
JOHNNY ALF
FLOWER POWER
síntese que desliga as cercas elétricas
ERHU
duas linhas de melancolia
pairam
no horizonte solar
duas senhas: uma chave
economia de um rouxinol
fendido
por uma nave estelar
uma clave: dura
nênia
sentada à sombra do palácio
uma mulher
de seda
um cavalo de cordas
em
disparada
a o
c v
h e
u n
v t
a o
contra o muro de pedras
duas ilhas para uma
mulher e o arco
da melancolia
FÁBULA
I
Não seria tarefa difícil
plantar o jasmim do imperador.
A terra
molhada e o
grou
o animariam para o trabalho.
Como o poema, no
entanto, a ferramenta
tropeçou.
Não foi para o jasmim,
afinal,
que se cavou e cavou.
Tantos anos à beira do perfume
aqui
se deitará
o homem sem império.
II
As carpas famintas não têm
fome. Ontem e hoje,
a mão lhes oferece o suficiente.
As carpas.
A vulva azul chama-as
para a superfície da água – a fome,
contudo,
amargou o primeiro néctar.
III
Nu sob as cobertas,
triturado pela febre,
porém duro
nas ocasiões secretas.
Não há jasmim
ou carpa
(impérios de beleza)
que o convençam a caminhar
para o Norte
ou para o Sul.
Com um gato roçando-lhe os
pés, desafia
a guerra
para durar no tempo.
Nu sob as cobertas,
rega a carpa
e o jasmim
com sua fonte íntima.
O PÁSSARO DE SAQQARA
Maior que o voo é sua hipótese,
maior que a hipótese, o voo
soterrado – maior que a hipótese-
voo, a dúvida
sobre o que realizou a mão
agreste e o ímpeto aéreo.
Perdido o gesto inaugural da
hipótese resta a manhã
sem passado – extraído do sono
cada ínfimo
osso
desgarra, plana
no céu imaginário de quem o escavara.
CANTO BASENJI
Um lobo uiva no cão que não sabe latir.
Não sabe, mas tem como nenhum outro,
como nenhum outro tem sua voz.
Uma voz que não se repete em outro cão.
Um outro cão que igual a ele
(lobo e música sob a nuvem) tem orelhas
de caçador altas – agudas. O cão Basenji,
que desaparece nas sombras, sonha o sonho
do homem na caça do animal infinito.
Um lobo ouve no cão que, sim, bebe o filtro
mãe dos delírios – homem e cão
Basenji – filhos-espírito como
outro nenhum.