poesia

ONDE NÃO EXISTE FORMA PARA O FOGO, O FOGO É A FORMA

CRÉDITO: LUCIANO FEIJÃO_2026
CRÉDITO: LUCIANO FEIJÃO_2026

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O FOGO

Onde não existe forma para o fogo o

fogo é a forma

ígnea linha que não degrada em

nenhuma resma

ou rito.

Quando se trata de não trair a eva-

língua da natura

nenhum livro confere a si próprio a aura

ou erva

divina.

Não há por trás do barro inflamado da

palavra

nenhum ser maior que o fogo inicial

apenas

o faro                                                e a lira.

ANTICANTO

Nenhum gesto na cidade

invadida por uma língua surda.

Sem o que nos torna loucos,

desperdiçamos horas

antes de cada nascimento

– nenhum parto na rua calva,

nenhum rio pós-estiagem

é tanto que dure um rastro.

Domingo é o dia da consciência

terrível – quem fotografa

nega o desaparecimento.

Viva a morte do deus-rapto –

deus findo no advérbio.

O canto nascido fora do mito

é humano, selva de silvos,

nada sabe de si mesmo.

É contra, é fardo, é lúcido

ao cair da noite – tem o alarde

por ofício, não salva ninguém,

não se ouve quando fala.

BUMERANGUE

JOHNNY                 ALF

BADEN                  POWELL

o grande lance

é  não ser commodity  de  país  tropical

JOHNNY                 POWELL

BADEN                  ALF

síntese  que  desliga  o  ponto  eletrônico

JOHNNY                 FLOWER

BADEN                  BADEN

o grande

número  aflora  na sala-sílex  do ouvido

JOHNNY                 ALF

FLOWER               POWER

síntese que desliga as cercas elétricas

ERHU

duas linhas de melancolia

pairam

no horizonte solar

duas senhas: uma chave

economia de um rouxinol

fendido

por uma nave estelar

uma clave: dura

nênia

sentada à sombra do palácio

uma mulher

de seda

um cavalo de cordas

em

disparada

a  o

c  v

h  e

u  n

v  t

a  o

contra o muro de pedras

duas ilhas para uma

mulher e o arco

da melancolia

FÁBULA

I

Não seria tarefa difícil

plantar o jasmim do imperador.

A terra

molhada e o

grou

o animariam para o trabalho.

Como o poema, no

entanto, a ferramenta

tropeçou.

Não foi para o jasmim,

afinal,

que se cavou e cavou.

Tantos anos à beira do perfume

aqui

se deitará

o homem sem império.

II

As carpas famintas não têm

fome. Ontem e hoje,

a mão lhes oferece o suficiente.

As carpas.

A vulva azul chama-as

para a superfície da água – a fome,

contudo,

amargou o primeiro néctar.

III

Nu sob as cobertas,

triturado pela febre,

porém duro

nas ocasiões secretas.

Não há jasmim

ou carpa

(impérios de beleza)

que o convençam a caminhar

para o Norte

ou para o Sul.

Com um gato roçando-lhe os

pés, desafia

a guerra

para durar no tempo.

Nu sob as cobertas,

rega a carpa

e o jasmim

com sua fonte íntima.

O PÁSSARO DE SAQQARA

Maior que o voo é sua hipótese,

maior que a hipótese, o voo

soterrado – maior que a hipótese-

voo, a dúvida

sobre o que realizou a mão

agreste e o ímpeto aéreo.

Perdido o gesto inaugural da

hipótese resta a manhã

sem passado – extraído do sono

cada ínfimo

osso

desgarra, plana

no céu imaginário de quem o escavara.

CANTO BASENJI

Um lobo uiva no cão que não sabe latir.

Não sabe, mas tem como nenhum outro,

como nenhum outro tem sua voz.

Uma voz que não se repete em outro cão.

Um outro cão que igual a ele

(lobo e música sob a nuvem) tem orelhas

de caçador altas – agudas. O cão Basenji,

que desaparece nas sombras, sonha o sonho

do homem na caça do animal infinito.

Um lobo ouve no cão que, sim, bebe o filtro

mãe dos delírios – homem e cão

Basenji – filhos-espírito como

outro nenhum. 


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Poeta, ensaísta e professor, é colaborador do programa de pós-graduação em Estudos Literários da Universidade Federal de Juiz de Fora. Publicou Poesia & agora (Mazza Edições) e A saliva da fala: notas sobre a poética banto-católica no Brasil (Fósforo).