anais da desinformação

ARQUEOLOGIA DE UMA FARSA

Os defensores de Ratanabá buscam respaldo institucional para uma ideia delirante
Quando soube da reputação do empresário brasileiro Urandir Oliveira, o presidente do Congresso Nacional do Paraguai, Silvio Ovelar, brecou a realização do evento nas dependências do parlamento. “O Congresso não permite esse tipo de palhaçada” - CRÉDITO: ANDRÉ VALENTE_2026
Quando soube da reputação do empresário brasileiro Urandir Oliveira, o presidente do Congresso Nacional do Paraguai, Silvio Ovelar, brecou a realização do evento nas dependências do parlamento. “O Congresso não permite esse tipo de palhaçada” - CRÉDITO: ANDRÉ VALENTE_2026

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A conversa aconteceu na última semana do BBB 26, entre duas finalistas do reality show da TV Globo. “Ratanabá é a cidade que tem submersa dentro da Amazônia”, disse Milena Moreira, a Tia Milena. Antes que ela tivesse tempo de concluir a frase, Ana Paula Renault cortou: “Isso é mentira.” 

– É verdade! – insistiu Moreira.

– Isso é fake news, gatinha. Escuta o que a sua amiga está falando. Estão chegando uns canais muito ruins para você. 

Moreira tentou se defender. “Eles não mostraram os quadrados que tem na floresta, por cima, sobrevoando de helicóptero, que liga um país no outro, por debaixo da Terra?” Foi mais uma vez desmentida por Renault, que acabaria vencendo o programa, com quase 76% dos votos dos telespectadores. Moreira parecia decepcionada. “Nossa, eu achei tão interessante essa teoria...”

Sem saber, a recreadora infantil estava espalhando um disparate muito popular na internet: a ideia de que há na Amazônia os vestígios de uma cidade criada há centenas de milhões de anos por uma civilização extraterrestre. Os tais quadrados na floresta a que ela se referia são como uma malha de retângulos visível sobre a cobertura florestal, que se popularizou em vídeos e fotos aéreas que circularam na internet. A formação fica no município de Apiacás, em Mato Grosso, na divisa com Pará e Amazonas. Para os defensores da ideia fantasiosa, são as “quadras de Ratanabá”. Para os cientistas, apenas estruturas que decorrem de fenômenos naturais. 

Quem quiser saber mais acerca da suposta cidade perdida não vai achar nada na Nature ou na Science, duas das revistas científicas mais prestigiosas do mundo, na qual costumam ser publicados estudos de grande impacto sobre a arqueologia amazônica. Tampouco encontrará sinal dessa cidade nos periódicos de maior prestígio da disciplina, como a Antiquity ou o Journal of Archaeo­logical Science. É nas revistas especializadas que os pesquisadores submetem seus achados ao escrutínio crítico de especialistas independentes. Justamente por isso, na literatura com revisão por pares não há qualquer registro de Ratanabá, por mais ínfimo que seja. 

Mas o leitor ávido por mais informações sobre o tema encontrará uma fartura de material nas páginas da Dakila Pesquisas, a associação que promove a existência da cidade fantasiosa nas redes. O trecho a seguir, que não tem qualquer lastro em evidências científicas, está no site de Dakila: 

A civilização dos Muril foi a primeira que chegou na Terra há 600 milhões de anos atrás. Os Muril ficaram aqui até um pouco antes da elevação dos Andes, por volta de 450 milhões de anos atrás. O império central dos Muril ficava na região onde hoje existe a Floresta Amazônica. Esse império que era o centro de toda a civilização, a capital do mundo, era chamado de Ratanabá.

É uma fábula, sem a menor comprovação, seja de que natureza for. Existe ainda uma profusão de vídeos publicados em canais ligados à Dakila. Em um deles, de 2022, Rafael Hungria, youtuber que se apresenta como psicólogo, pesquisador e especialista em Ratanabá, informa que os Muril foram uma civilização extraterrestre caracterizada pela tecnologia avançada e pela alta estatura. Hungria fala também sobre o Caminho do Peabiru – uma rede de caminhos, estudada por historiadores e arqueólogos, que foi construída por indígenas sul-americanos e conectava diferentes regiões do continente antes da chegada dos europeus. 

Para adeptos da Dakila Pesquisas, a rede está no centro de uma narrativa aloprada. Seria uma vasta malha de rotas terrestres e subterrâneas que conectavam Ratanabá a vários pontos da América do Sul e até de outros continentes. Uma dessas trilhas sairia do Forte Príncipe da Beira, que fica na margem direita do Rio Guaporé, no município de Costa Marques, em Rondônia. A fortificação, porém, não foi construída pelos Muril, como dizem os ratanabanos. É, comprovadamente, uma obra dos portugueses do século XVIII. 

A falta de compromisso com a realidade não impede – talvez até favoreça – que esses vídeos tenham mais audiência do que muitos estudos arqueológicos sobre a Amazônia. Afinal, muitas vezes as mirabolâncias são mais atraentes do que a aspereza da realidade. A live de Hungria, por exemplo, já foi vista mais de 1,1 milhão de vezes – e, a julgar pela conversa no BBB 26, muita gente caiu no conto de Ratanabá. 

A ideia de uma cidade na Amazônia há 450 milhões de anos é um equívoco em muitos níveis. A começar pelo fato de que a Amazônia sequer existia naquela época: a floresta, tal como a conhecemos hoje, com seu sistema de rios, seu clima e sua biodiversidade, só se consolidou há poucos milhões de anos, depois do soerguimento dos Andes. Na suposta época da fundação de Ratanabá, o único continente que havia no Hemisfério Sul do planeta era Gondwana, que reunia terras que hoje correspondem a América do Sul, África, Antártida, Austrália, Índia e Península Arábica. As terras que muito tempo depois seriam ocupadas pela Amazônia possivelmente estavam cobertas por mares rasos. 

Além disso, há 450 milhões de anos não havia florestas tropicais, não havia mamíferos e os dinossauros ainda estavam longe de aparecer. O mundo animal era muito diferente do de hoje, dominado por invertebrados marinhos, como os trilobitas, que são parentes extintos dos insetos e crustáceos. Os parentes mais próximos dos humanos e demais mamíferos que estavam vivos naquela época eram peixes sem mandíbula – os primeiros vertebrados terrestres só sairiam da água dezenas de milhões de anos depois.

Os seres humanos só surgiram há cerca de 315 mil anos, na África, e demoraram a chegar ao continente americano. O sítio arqueológico mais antigo já escavado na Amazônia tem pouco mais de 13 mil anos, e alegações de presença humana anteriores a essa data no continente são contestadas por alguns especialistas. Tome-se o caso do Sítio Arqueológico Santa Elina, em Mato Grosso, que fica 890 km ao Sul de Apiacás, a suposta sede de Ratanabá. Ali há indícios robustos de que houve uma ocupação humana há pelo menos 26 mil anos, mas ainda assim a data não é consensual entre os arqueólogos. Só que esse debate acontece nas revistas especializadas, e não nas caixas de comentário do YouTube.

Em entrevista à piauí, o geólogo Caiubi Souza Kuhn, pesquisador da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), disse que não há como levar a sério a ideia de que houve uma civilização com 450 milhões de anos. “Não é preciso uma pesquisa aprofundada para descartar a ideia de Ratanabá, que nem dá para chamar de hipótese, é um factoide mesmo”, diz Kuhn. “Ao dizer que isso pode ser real, estamos negando a teoria da evolução, a deriva continental, a tectônica de placas e tudo o que a gente conhece sobre a história geológica e biológica do nosso planeta.”

Indagado sobre sua interpretação a respeito das formações geométricas que aparecem nas supostas imagens de Ratanabá, ele diz: “Existem vários lugares em que uma combinação de estruturas geológicas e sistemas de fraturas, associados ao processo de erosão, criam configurações que parecem quadras, como naquele caso.” Kuhn, que se especializou no estudo dos processos naturais que moldam a superfície terrestre e fez uma parte do seu doutorado na Alemanha, desmente ainda a alegação de que “a natureza não trabalha com linhas retas”, repetida à exaustão pelos defensores de Ratanabá. “Estruturas lineares na natureza são comuns em processos tectônicos”, afirmou. “Isso não é nada extraordinário do ponto de vista geológico.”

O principal nome por trás da disseminação da falsa cidade de Ratanabá é o empresário Urandir Fernandes de Oliveira, de 63 anos, nascido em Marabá Paulista, no interior de São Paulo. No site da Dakila, ele é apresentado como pesquisador e estudioso de temas como física quântica, astronomia e arqueologia. Sua formação é como técnico em contabilidade. 

Oliveira está à frente de um conjunto de quase vinte empresas que ele chama de Ecossistema Dakila, a maioria delas com sede em Mato Grosso do Sul. O empreendimento central é a Associação Civil Idakila, fundada em 1999 em Corguinho, município de 4,8 mil habitantes a 93 km de Campo Grande. O conglomerado inclui empresas de setores variados, que vão da extração de argila e insumos naturais à produção de cosméticos, passando pela venda de materiais de construção e exportação de vinhos. 

Em 2018, o grupo de Oliveira lançou uma plataforma de moeda digital e criptoativos que ficou conhecida como BDM Digital e passou a ocupar lugar central nas finanças do grupo, servindo tanto como meio de pagamento para bens e serviços quanto como ativo de investimento para associados e simpatizantes. O projeto é operado pela BDM Dourado Digital Gestão de Ativos, que foi registrada em agosto de 2020 com capital social de 10 milhões de reais. No mesmo ano, foi fundada a BDM Serviços Ltda, uma instituição financeira com capital social de 55,55 milhões de reais. 

Oliveira é um personagem dado a divulgar mentiras. Não foram poucas as vezes em que contou com a imprensa. Em 1995, ele foi tema de uma reportagem de Domingos Meirelles no Globo Repórter, em que foi apresentado como um paranormal capaz de acender e apagar lâmpadas ou mover objetos com o poder da mente, habilidade que, segundo ele, adquiriu depois de manter contato com um extraterrestre quando tinha 12 anos – tudo com o endosso de uma psicóloga que dizia não enxergar qualquer truque na exibição a que assistira. O programa não questionou os poderes paranormais alegados pelo personagem.

A fama nacional veio em 2010, quando Oliveira apareceu como interlocutor privilegiado do ET Bilu, tema de uma reportagem no Domingo Espetacular, da TV Record. O suposto alienígena foi filmado no escuro por detrás da vegetação na fazenda que servia de sede ao Projeto Portal, uma organização criada por Oliveira que promovia atividades ligadas à espiritualidade e pesquisas alternativas. Era uma armação visivelmente tosca. A reportagem de Arnaldo Duran incluiu o depoimento de peritos que afirmavam se tratar de uma fraude, e o depoimento de uma ex-seguidora que alegou que o paulista era “um embuste”. Ainda assim, o programa dedicou intermináveis 21 minutos ao tema, o suficiente para dar popularidade ao personagem e eternizar sua mensagem, que se tornou um dos memes mais conhecidos da internet: “Busquem conhecimento.” Com o passar do tempo, o Projeto Portal virou a Associação Dakila.

A exibição do Domingo Espetacular chamou a atenção também para as complicações de Oliveira com as autoridades, informando que, em 2000, ele havia sido indiciado por estelionato e falsidade ideológica, acusado de vender terrenos em Corguinho de forma ilegal. O paulista chegou a ser preso em Porto Alegre, em março daquele ano. Ouvido na ocasião pelo jornal Zero Hora, alegou: “Tudo que estou fazendo é legal.” O empresário foi solto quatro dias depois, e o inquérito foi arquivado.

As iniciais do empresário formam a sigla UFO, o equivalente em inglês de óvni, objeto voador não identificado. Embora ele se identifique como ufólogo, não é levado a sério por outros estudiosos dos discos voadores (a ufologia não é reconhecida como disciplina científica). Um dos nomes mais respeitados do campo no Brasil era Ademar José Gevaerd, falecido em 2022. Gevaerd fundou a revista Ufo em 1985 e editou a publicação por décadas. Em entrevista à piauí em 2019, ele contou que conheceu Oliveira em Mato Grosso do Sul nos anos 1990. Gevaerd se revoltou por entender que o paulista recorria à ufologia para enganar seus seguidores e escreveu artigos na revista Ufo para denunciá-lo. Em represália, Oliveira inspirou-se no gato de Gevaerd, o Bilu, para batizar o alienígena que lhe deu fama nacional, o ET Bilu. “Num debate com Urandir na Rede Bandeirantes, eu disse que as histórias dele eram tão mentirosas que nem o meu gato Bilu acreditava”, afirmou o ufólogo. “Passados alguns anos, ele botou o nome no ET.” Confrontado com a história pela Folha de S.Paulo em 2011, Oliveira disse que “Gevaerd nem gostava de gato”. 

Em fevereiro passado, a comunidade ufológica brasileira foi sacudida pela notícia de que Daniel Gevaerd, filho de Ademar, havia vendido a revista Ufo ao grupo Dakila, do antagonista de seu pai. As dívidas de quase 1 milhão de reais pesaram na decisão, conforme Daniel revelou ao site Midiamax. “Parece que o querido Gevaerd está se revirando no túmulo”, escreveu o site Ovniologia ao noticiar a operação.

Oliveira também patrocinou expedições e experimentos para provar que a Terra não é redonda, contrariando uma convicção sedimentada há mais de dois milênios e confirmada por inúmeras linhas de evidência desde a Grécia antiga. Mais uma vez, o resultado dessas pesquisas foi divulgado num documentário produzido pela Dakila e lançado no YouTube em 2018 – e, de novo, nada saiu nos periódicos especializados. O nome do filme é Terra convexa, mas se trata de uma nova roupagem um pouco mais sofisticada para a lorota da Terra plana.

O mito de Ratanabá ganhou visibilidade durante o governo de Jair Bolsonaro, depois que Urandir Fernandes de Oliveira foi recebido por Mario Frias, que então ocupava o cargo de secretário especial de Cultura. O encontro se deu em setembro de 2020 (e, em plena pandemia, nenhum deles usou máscara).  Mas Frias só falou de Oliveira nas redes sociais quase dois anos depois, quando já havia deixado o governo para concorrer às eleições (foi eleito deputado federal pelo PL-SP com 122,5 mil votos). 

No carrossel de fotos que publicou no Instagram, o ex-secretário incluiu imagens aéreas das supostas quadras de Ratanabá e falou da cidade sem questionar sua existência, sua idade ou a civilização por trás dela. Disse ainda que Oliveira lhe mostrou artefatos encontrados em galerias subterrâneas no Forte Príncipe da Beira, que fariam parte do Caminho do Peabiru e levariam a Ratanabá (as galerias não são abertas à visitação pública). Acrescentou que os pesquisadores contaram com o apoio de várias instituições governamentais, incluindo as Forças Armadas e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a quem cabe proteger e preservar o patrimônio arqueológico brasileiro. Mas ressaltou que não receberam dinheiro do governo, e fizeram as pesquisas com recursos próprios. 

A postagem de Frias só foi feita em junho de 2022 para aproveitar uma onda que havia colocado Ratanabá na lista dos assuntos mais comentados nas redes sociais. A fama súbita se deveu, em parte, a uma postagem do Choquei, canal de entretenimento e fofoca nas redes sociais que, naquele ano, também passou a publicar notícias sobre outros temas, frequentemente reproduzindo conteúdo de terceiros sem os devidos cuidados de apuração e checagem. A publicação comprou pelo valor de face a história de uma cidade perdida na Amazônia com 450 milhões de anos, e a história viralizou, rompendo a bolha dos seguidores da Dakila. Mais tarde, o Choquei apagou as postagens e pediu desculpas aos leitores, mas o canal ajudou a normalizar a ideia de Ratanabá. 

Mario Frias não foi o único bolsonarista a dar apoio à Dakila. Em junho de 2024, o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), em São Paulo, assinou um protocolo de intenções com a associação de Oliveira, conforme noticiou a Folha de S.Paulo. O acordo foi selado pelo secretário de Turismo e Viagens, Roberto Alves de Lucena, aliado de Bolsonaro que foi deputado federal por três mandatos. A finalidade da iniciativa era apoiar ações de mapeamento e exploração turística do Caminho do Peabiru no território paulista, e não havia previsão de repasse de dinheiro público à Dakila. A parceria foi encerrada seis meses depois, por falta de resultados, mas ajudou a dar credibilidade para a associação de Oliveira, como se o governo paulista estivesse endossando a hipótese descabida de que o Caminho do Peabiru levava a uma cidade amazônica que não existe. (Até o fechamento desta edição, o acordo aparecia no site da Dakila como se ainda estivesse vigente.)

A piauí quis saber se a Secretaria de Turismo e Viagens tinha conhecimento do envolvimento da Dakila com a promoção de desinformação nas redes, mas a pasta não respondeu à pergunta. Em vez disso, mandou uma nota em que informa que o protocolo “tinha escopo estritamente técnico e o objetivo exclusivo de cooperar no mapeamento dos Caminhos do Peabiru”, e que “não envolveu qualquer repasse de recursos públicos ou apoio a outras frentes de atuação do instituto”. Afirmou ainda que a secretaria “pauta suas parcerias pela integridade e pelo interesse público”.

Outra tentativa de aliança, também frustrada, aconteceu em 2025, quando a Associação Dakila firmou um acordo de cooperação técnica com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) para a realização de atividades de ensino, pesquisa e extensão. Ao noticiar a colaboração nas redes sociais, a Dakila anunciou que ela permitiria “um estudo aprofundado de Ratanabá, do Caminho do Peabiru e de outros sítios históricos”. Durou pouco. Cerca de um mês depois da assinatura, a reitoria comunicou a Oliveira a rescisão unilateral do convênio. Consultada pela piauí, a UEA não explicou por que firmou o acordo e nem por que desistiu dele.

Em outro movimento de infiltração institucional, Oliveira teve sucesso. Em 2018, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul lhe concedeu uma “moção de congratulação” em “reconhecimento pela realização de pesquisas em diversas áreas do conhecimento como matemática, física, física quântica, astronomia, geologia, biologia, geografia e paleontologia”. Dorotéia Bozano, diretora do Instituto de Física da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), espantou-se com a homenagem: “Nós ficamos chocados”, disse ela, na época, à piauí. “É muito constrangedor para quem sempre se preocupou em formar novos cientistas com senso crítico.”

Do outro lado da fronteira, entre políticos do Paraguai, Oliveira não conseguiu avançar. Em 2019, ele foi indicado por um parlamentar para apresentar na Sala Bicameral do Congresso Nacional do Paraguai uma conferência com o título Novas Descobertas das Realidades Paralelas – Como Descobrir e Desenvolver Suas Habilidades Individuais. Quando soube da palestra e da reputação do palestrante, o presidente da Casa, Silvio Beto Ovelar, vetou o uso da sala. “O Congresso não permite esse tipo de palhaçada”, disse ele, na ocasião.

Entre maio e junho de 2022, Urandir Oliveira participou de um sobrevoo da área da Floresta Amazônica onde ficam as “quadras de Ratanabá”, junto com Fernanda Lima, pesquisadora da Dakila com formação em engenheira mecatrônica. Dois aviões foram usados na operação. Um deles estava equipado com um sensor de LiDAR, tecnologia que usa laser para mapear a topografia do solo da floresta abaixo das árvores. Novidade naquele momento, a ferramenta tem revolucionado a arqueologia nos últi­mos anos, já que permite a identifica­ção de sítios escondidos pela vegetação. O primeiro trabalho a usar o LiDAR na Amazônia brasileira tinha saído em 2020 no Journal of Computer Applications in Archaeology.

Concluído o sobrevoo, Oliveira e a pesquisadora divulgaram as imagens do LiDAR numa live, com alarde. Ao lado da dupla, estava o arqueólogo Saulo Ivan Nery, o único ali com credenciais acadêmicas para o estudo de ocupações antigas da Amazônia. Ele falou das supostas quadras em termos sóbrios. “Vou defender a hipótese que esses cortes no terreno são fruto de ação antrópica”, afirmou. Estava falando difícil para dizer que aquelas estruturas haviam sido produzidas pela ação humana. Mas ressaltou que só pesquisas arqueológicas no local permitiriam provar a existência de Ratanabá. Oliveira estava bem mais convicto. Descreveu as formações como estruturas monumentais erguidas pelos Muril: falou em torres, galerias, e até na varanda de uma megaconstrução. “Ratanabá é real. É verdade. Tem interferência humana. Foi construída por civilizações antigas”, decretou. Nery ouviu as mentiras calado. No site da Dakila, a fábula ganhou asas com a divulgação de supostos relatos de crânios alongados e esqueletos de indivíduos de até 12 metros descobertos naquela região. (Os crânios e esqueletos nunca apareceram.) 

O passo seguinte do grupo foi tentar apresentar o trabalho feito com LiDAR num evento científico que desse uma chancela acadêmica à pesquisa. Escolheram o Simpósio Nacional de Geomorfologia, disciplina que estuda as formas da superfície terrestre, previsto para agosto de 2023, em Corumbá (MS). Enviaram um trabalho com título sóbrio: “Análise da paisagem para identificação de formas de relevo a partir de imagens geradas por tecnologia lidar.” A área investigada com a ferramenta era a das “quadras de Ratanabá”, mas, no trabalho científico, eles preferiram designar a formação como o “xadrez de Apiacás”. 

O geomorfologista Fabiano Pupim, hoje pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), conta que o trabalho despertou interesse. Afinal, usava uma tecnologia nova, o LiDAR, cujo uso era caríssimo, e parecia sério. “Em momento algum eles falavam de cidade perdida ou de gigantes, tratavam só de estruturas geomorfológicas numa região remota da Amazônia”, diz Pupim. Na hora H, diante de dezenas de participantes, o grupo da Dakila subiu ao palco para uma apresentação oral. O coordenador da mesa, o geomorfologista Marco Túlio Diniz, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), estranhou a parafernália mobilizada pela equipe para a exposição acadêmica. “O cara estava com microfone de lapela, e eles montaram um aparato multicâmeras, com tripés e uns dois ou três iPhones filmando e transmitindo”, diz Diniz. 

Quando a apresentação começou, Diniz notou que os integrantes estavam dizendo ao público coisas que não estavam no artigo. “Foi uma loucura total. Fizeram uma espécie de pregação de coisas que não tinham o mínimo embasamento”, lembra ele. Diniz disse que polígonos como os do xadrez de Apiacás, exibidos nos slides da apresentação, são relativamente comuns naquele tipo de formação. “Os arenitos se fraturam de forma retangular”, explica. Um pesquisador com o olhar treinado nunca veria nisso vestígios de uma civilização desconhecida. “Jamais vou dizer que aquilo são ruas ou construções de uma cidade perdida”, diz o cientista. “Todo mundo percebe que é uma rocha fraturada.” Na plateia, sugiram questionamentos. Pesquisadores queriam saber qual era a fonte dos dados ou a idade daquela estrutura. “Mas eles não tinham nada, eram só considerações que vinham da cabeça deles”, diz Diniz.

Para os seguidores da Dakila nas redes, pouco importava que o trabalho tivesse sido contestado: a simples imagem de Oliveira e seus colegas naquele ambiente já vendia a ideia de que Ratanabá estava sendo levada a sério pela ciência. Em meia hora, o vídeo da apresentação no YouTube ganhou mais de oitocentas visualizações, de acordo com Fabiano Pupim. Os cientistas fizeram uma corrente para denunciar o vídeo, que acabou sendo derrubado, mas as redes da Dakila guardam até hoje registros da participação do grupo no simpósio científico. “Temos agora uma publicação científica do LiDAR e de toda a pesquisa que fizemos não só em volta de Ratanabá, mas em toda a arqueologia e a antropologia que pesquisamos até hoje”, comemora Oliveira num vídeo no Instagram.

O grupo repetiu a fórmula no Congresso Boliviano de Paleontologia, realizado na cidade de Sucre, em 2025. Apresentaram quatro trabalhos científicos, incluindo um estudo que apontava a descoberta de um possível ramal do Caminho do Peabiru, mais uma vez com o auxílio do LiDAR, só que desta vez no município de São Lourenço da Serra, na Grande São Paulo. De novo, a cidade amazônica e a civilização que a construiu passaram longe dos trabalhos publicados nos anais do evento. De no­vo, foram às redes celebrar o acolhimento das suas pesquisas pelos cientistas bolivianos. Procurada pela piauí, a Associação Boliviana de Paleontologia disse que não tinha conhecimento das atividades do grupo Dakila e que o episódio deixou uma lição. “Passaremos a analisar com cuidado as atividades e o histórico dos participantes do congresso”, afirmou a direção.

Em 2024, Oliveira conseguiu avançar mais uma casa. O Brazilian Journal of Animal and Environmental Research publicou o artigo que havia sido apresentado no simpósio em Corumbá, sem menção a Ratanabá ou a seus fundadores – mas, agora, Oliveira figurava como o primeiro autor do trabalho. O periódico em questão é especializado em pesquisa animal e ambiental, áreas sem grande afinidade com a geomorfologia, e não está indexado nas bases de dados que reúnem as principais revistas científicas do mundo. Além disso, promete fazer a revisão por pares dos artigos recebidos em até cinco dias, prazo excessivamente curto para se encontrar especialistas disponíveis para uma avaliação rigorosa – um sinal de que a revista está mais preocupada com o fluxo de publicação do que com o rigor da revisão.

Saulo Ivan Nery é um pesquisador paulista de 41 anos formado em geografia, em 2010, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Interessou-se pela arqueologia durante a graduação, tanto que apresentou como trabalho de conclusão de curso uma monografia sobre o tema. Depois, trabalhou por anos com arqueologia de contrato, como são chamados os estudos realizados por exigência legal antes da realização de obras que podem afetar sítios arqueológicos. Em 2023, concluiu um mestrado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), com uma pesquisa sobre sítios arqueológicos da região de Diamantina. 

No YouTube, Nery responde por @oarqueólogodeRatanabá. Ao contrário do que sugere o nome de perfil, em seus vídeos ele não defende que houve uma cidade perdida erguida há 450 milhões de anos. Mas tampouco desmente a história. A piauí perguntou a Nery por que o estudo enviado ao simpósio de geomorfologia omitia Ratanabá. Em e-mail que enviou com cópia para seu advogado, ele respondeu que o artigo focou estritamente em interpretações geomorfológicas validadas pela comunidade científica. “Mencionar ou não Ratanabá gera mais problemas para a imprensa ou arqueologia brasileira do que para nossa equipe”, escreveu. “Essa necessidade de rotular antes de dialogar acaba criando falta de raciocínio e diminuindo questionamentos neutros e ponderados sobre a realidade.” O arqueólogo só não esclareceu onde estavam os questionamentos neutros e ponderados dele próprio em relação aos absurdos espalhados pelo líder da Dakila.

Durante a graduação em geografia na Unesp, Nery ficou amigo de Marcel Nunes Ribeiro, que compartilhava com ele os mesmos interesses acadêmicos. Ambos fizeram iniciação científica no Laboratório de Arqueologia Guarani e Estudos da Paisagem, do qual Ribeiro é membro até hoje, e foram trabalhar juntos com arqueologia de contrato depois de formados. “Saulo era um cara muito ético, retilíneo e de conduta responsável no trabalho”, disse Ribeiro à piauí. Viraram amigos próximos, mas se distanciaram depois que deixaram de morar na mesma cidade. Ainda trocam notícias ocasionalmente e, quando se encontram, se tratam com afeto. 

De acordo com Ribeiro, Nery costuma mergulhar de cabeça nas atividades com que se envolve. Teve uma fase de interesse pela cultura reggae, quando ambos moraram no Maranhão, trabalhando para a Petrobras. Depois, veio uma conversão à religião mórmon e a fase das medicinas da floresta – e, agora, Dakila. Ribeiro soube que o amigo estava envolvido com o pessoal de Ratanabá quando deparou com ele nas redes sociais. Ficou surpreso ao vê-lo associado às narrativas fantasiosas. “Nunca o vi falando alguma besteira muito grande, mas ele está o tempo todo ali ao lado dos caras, ouvindo e, de alguma forma, endossando”, afirmou. 

Ribeiro confrontou o amigo, mas ele desconversou e disse que não concordava com nenhuma daquelas teses. Perguntou se Nery estava fazendo aquilo por dinheiro e ouviu que não era o caso. Entendeu que não tinha muito mais que conversar sobre arqueologia com o colega de graduação e deixou de tocar no assunto. Ele anda distante do amigo, mas disse se preocupar com seu futuro. “Ele sempre foi um grande profissional, mas as pessoas que confiavam nele não vão mais lhe dar trabalho”, disse. E lamentou constatar que o Nery de hoje é muito diferente do colega de quem se tornou amigo. “É foda você olhar para uma pessoa e não a reconhecer mais.”

A popularidade de Ratanabá contribui para tirar o foco dos ancestrais dos povos indígenas atuais, que são os verdadeiros protagonistas do passado profundo da Amazônia. Ao atribuir a construção de uma cidade monumental a uma civilização misteriosa vinda de fora, Oliveira e seus seguidores reforçam a ideia de que os povos da floresta seriam incapazes de elaborar estruturas complexas – uma tese preconceituosa que a arqueologia vem desmontando nas últimas décadas.

Para Beto Marubo (nascido Wino Këyshëni), representante em Brasília da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), o mito da cidade perdida é uma forma de desconstruir o papel dos povos indígenas e atentar contra seus direitos. “É muito fácil dizer que eram alienígenas que estavam na Amazônia em vez de explicar que os povos indígenas estiveram ali por milênios, e que a Amazônia é o que é hoje graças à ação deles”, disse Marubo no congresso mais recente da Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB). “Lembrando sempre que nós éramos milhões e fomos praticamente extintos.”

No mesmo evento, o advogado Hugo Mercês, que representa a SAB, disse enxergar indícios fortes de racismo e silenciamento das comunidades indígenas na disseminação da desinformação ligada a Ratanabá. Mercês defendeu que o caso fosse investigado pelo Ministério Público Federal para avaliar se há de fato elementos que permitam tipificar uma conduta criminosa.

O trabalho de arqueólogos como Eduardo Góes Neves, da USP, tem ajudado a caracterizar como os povos indígenas que habitam a Amazônia há mais de 13 mil anos vêm ajudando a dar forma à floresta. Desde 2022, ele está por trás também do Amazônia Revelada, um projeto de pesquisa que usa o LiDAR para identificar sítios arqueológicos com a finalidade de promover a sua conservação. De acordo com Neves, cerca de 2 milhões de reais foram gastos no projeto para custear o sobrevoo de uma área de 1,6 mil km2 (o financiamento do trabalho vem da National Geographic Society).

A viralização de Ratanabá despertou nos arqueólogos reações que vão da frustração à revolta. Para o historiador e arqueólogo Artur Henrique Franco Barcelos, pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) especializado no estudo das missões jesuíticas, o tema virou uma obsessão. Barcelos montou um dossiê sobre a atuação do grupo Dakila descrevendo a propagação das mentiras e as tentativas de se legitimar via congressos científicos e Iphan. 

O material foi publicado em maio de 2024 no site da SAB. Dois meses depois, a Sociedade divulgou, em parceria com o projeto Amazônia Revelada, uma nota de repúdio ao grupo Dakila, denunciando suas “narrativas bastante fantasiosas e racistas”. “Achamos importante alertar a comunidade científica como um todo e buscar seu apoio para melhor combatermos as ameaças que representa a alarmante e crescente atuação do grupo Dakila Pesquisas no país”, diz o comunicado. No mês seguinte, o programa de pós-graduação em que Saulo Nery fez mestrado na UFVJM apresentou uma nota repudiando as ações do ex-aluno que “não representam os princípios éticos do curso”.

A contraofensiva da Dakila veio na forma de uma live em que Urandir Oliveira manifestou seu ressentimento com os arqueólogos das universidades. Acusou-os de falta de caráter e comportamento antiético e, numa inversão de papéis, alegou que eram eles, e não a Dakila, que espalhavam fake news. Lançou também uma campanha pela expulsão desses arqueólogos das universidades. “Eles não estão fazendo nada, estão ganhando o nosso dinheiro sem trabalharem, só criticando o que Dakila está fazendo.” Oliveira disse que Artur Barcelos falava “muita asneira” e tinha “pouca vergonha”. Acusou Eduardo Neves de plágio por se interessar pelos mesmos lugares que tinham sido visitados por equipes da Dakila, como a Serra da Muralha, em Rondônia (a expedição de Neves ao sítio foi relatada na piauí_214, julho de 2024). Dirigindo-se ao arqueólogo, disse: “Ora, tenha vergonha, tenha caráter, tenha nobreza. É muito feio fazer um papel desses. Parece uma criança invejosa querendo tomar o doce de outra.”

Oliveira e seus seguidores, ao mesmo tempo que nutrem rancor pelos arqueólogos das universidades, buscam o reconhecimento deles quando submetem trabalhos para eventos acadêmicos. “Se esses caras desprezam tanto a ciência, por que é que eles têm que disputar esse espaço?”, questionou Neves em entrevista à piauí. “Eles sabem que precisam da legitimação da ciência.” Alvo dos ataques de Oliveira, o arqueólogo da USP não frequenta as redes sociais e não perde tempo assistindo aos vídeos da Dakila. “Quando chego em casa, eu quero tomar uma cerveja e ficar com minha esposa e meu filho”, diz. “Não vou tirar duas horas para ficar ouvindo o cara me xingar.” 

Ao ser informado que Oliveira alega que seu grupo descobriu o Forte Príncipe da Beira, Neves ficou espantado. Explicou que os portugueses construíram o forte para proteger o escoamento do ouro descoberto na região de Cuiabá. “Essa região que hoje é Rondônia foi muito estratégica para a Coroa portuguesa no século XVIII.” A fortificação foi abandonada depois da Independência e tomada pela vegetação, mas foi identificada pela expedição liderada no começo do século xx pelo almirante José Carlos de Carvalho. Neves acrescentou um detalhe que ridiculariza as alegações de Oliveira: o Forte Príncipe da Beira está representado no brasão de armas de Rondônia. “Como é que você descobre uma construção que está no brasão do estado?”, questionou.

Em março deste ano, a Associação Civil Idakila entrou com uma ação de responsabilidade civil por abuso do direito de expressão científica e institucional contra a SAB e contra Artur Barcelos. Na ação, pede indenização por danos morais de ao menos 25 mil reais para Oliveira e outros 25 mil reais para sua associação, além de direito de resposta. A ação sustenta que Barcelos e a SAB atribuíram desonestidade deliberada à Dakila sem provas, e que a acusação de viés racista pode causar danos à honra e à reputação dos autores. Afirma ainda que a acusação de charlatanismo, feita por Barcelos a Oliveira em seu dossiê, mancha a honra de Oliveira e sua associação. 

Chama a atenção uma estratégia dos advogados da Dakila para contornar a falta de validade científica nas alegações sobre Ratanabá. O texto sustenta que “o direito brasileiro não submete a liberdade associativa a critérios de validação científica, acadêmica ou ideológica”, e que “a divergência epistemológica com as teses da Dakila – ainda que procedente do ponto de vista de determinadas correntes científicas – não é critério jurídico de idoneidade técnica para pesquisa”.

Em entrevista ao site Impacto+, no ano passado, Urandir Oliveira foi indagado sobre a origem dos recursos da Dakila. Sua resposta: “As empresas de nosso ecossistema são autossustentáveis, desenvolvendo e comercializando os produtos oferecidos. Já Dakila tem recursos do ecossistema, mas por se tratar de uma associação com milhares de membros de todo o mundo também tem financiamento próprio.” 

Parte da receita do grupo vem das mensalidades pagas pelos sócios da Associação Dakila. O valor atual da mensalidade é de 81 reais para os sócios titulares (dependentes pagam menos, e há um desconto de 6 reais por mês para quem pagar em BDM Digital). O site do grupo informa que são 728 mil participantes, mas não informa quantos deles são sócios e quantos estão adimplentes (se 1% desse contingente paga a mensalidade plena, a receita mensal passa de meio milhão de reais). 

Outra parte dos recursos da Dakila vem de atividades de campo promovidas em Zigurats, um complexo turístico, residencial e de eventos idealizado por Urandir Oliveira em Corguinho. Nos eventos, os participantes se hospedam no complexo e podem reservar casas, apartamentos ou barracas. O encontro mais recente, realizado ao longo de seis dias em junho, reuniu 1,2 mil participantes, segundo a imprensa local. Os valores de inscrição e hospedagem são enviados aos interessados por WhatsApp ou mensagem nas redes sociais. Em abril deste ano, em outro evento, a hospedagem para adultos variava de 110 a 273 reais por dia, segundo tabela que circulou entre grupos ligados à Dakila. Os valores podem ficar ainda menores se o inscrito for morador de Zigurats. De acordo com uma reportagem institucional no site da Dakila de 2024, havia ali cerca de cem residentes e mais de quatrocentas casas disponíveis para visitantes e turistas.

Dinheiro é um assunto que já levou Oliveira à polícia. Em 2020, policiais civis de São Paulo investigaram uma denúncia de dois seguidores, que acusaram Oliveira de estelionato. Os denunciantes eram Ana Carolina Vieira Franco de Godoy Reginato, uma empresária paulistana de 54 anos, e seu filho, o advogado Alexandre Orion Reginato. Os dois são sócios de Oliveira na BDM Digital Administração de Negócios. Em seu depoimento, a mãe disse que Oliveira “se aproveitou da [sua] condição de fragilidade e crença” e a convenceu a fazer um empréstimo num banco, a tirar dinheiro “das economias de uma vida inteira” e a trabalhar no “projeto da associação”.

Seu filho também foi induzido a fazer aportes financeiros. Em depoimento, contou a mecânica da abordagem. Hospedados na “fazenda Corguinho”, ele e outros eram chamados no meio da madrugada e levados para algum lugar da fazenda, onde aguardavam uma voz que seria dos extraterrestres. A voz, sempre na escuridão, pedia dinheiro e dava instruções de como investir os recursos. Alexandre disse que chegou a investir 230 mil reais, mas depois passou a se sentir “incomodado com a insistência em forçar que as pessoas investissem cada vez mais em projetos indicados pelo Urandir e seu grupo; sempre surgindo novos projetos e nunca conseguindo resgatar nada do que havia transferido para as contas indicadas pelo Urandir”.

Oliveira, em seu depoimento, admitiu que arrecadava dinheiro. Contou que Alexandre contribuiu com 300 mil reais. Ana Carolina desembolsou 270 mil e ainda fez um empréstimo de cerca de 1 milhão com juros de 6% ao mês – e, segundo Oliveira, o valor estava sendo devolvido em parcelas mensais de 26 mil reais. Sua defesa negou que tivesse ludibriado ou induzido os seguidores nessas operações. O inquérito terminou arquivado, a pedido do Ministério Público, que não encontrou elementos para definir o estelionato. O caso, no entanto, não encerrou o conflito. Há uma disputa na esfera cível sobre a natureza e o destino de recursos transferidos para empreendimentos ligados ao líder da Dakila. Ana Carolina cobra na Justiça mais de 800 mil reais.

Para além de questões financeiras, os bastidores do que se passa no complexo de Oliveira, de vez em quando, aparecem em depoimentos de moradores e visitantes de Zigurats. Em reportagens de jornais e revistas, eles relatam ter convivido com criaturas extraordinárias – ou “seres de outra dimensão que simplesmente vibram numa faixa de frequência diferente”, conforme disse ao jornal O Globo em 2019 um ex-estudante que havia largado a faculdade de engenharia para viver no complexo criado por Oliveira.

A comunidade reunida em Corguinho não é uma igreja ou culto, mas guarda semelhança com as chamadas “religiões ufológicas”, inspiradas por extraterrestres (o Movimento Raeliano talvez seja o expoente mais conhecido desse grupo de religiões que surgiu a partir dos anos 1950). Em estudos dedicados ao fenômeno, o teólogo alemão Andreas Grünschloß, da Universidade de Göttingen, mostrou que as religiões ufológicas se estruturam em torno de narrativas que combinam ciência, espiritualidade e esoterismo. Alguns de seus traços comuns – também presentes no grupo liderado por Oliveira – são o fato de se reunirem em torno de uma figura individual com acesso privilegiado ao conhecimento, de celebrarem o saber de civilizações extraterrestres e de proporem uma reinterpretação da ciência e da arqueologia convencional.

Em 14 de abril do ano passado, o Iphan no Pará recebeu um e-mail pedindo o registro de dois sítios arqueológicos no município de Altamira, batizados de Becker e Becker ii. Ambos eram abrigos sob rocha, um termo técnico que os cientistas usam para designar um tipo de cavidade pouco profunda, nos quais haviam sido identificados artefatos de pedra e cerâmica, além de ossos e vestígios de um possível enterramento. Um detalhe chamou a atenção dos técnicos do Iphan. As fotos registravam as peças de cerâmica encontradas nos dois sítios e, ao lado dos objetos, para dar uma noção do tamanho de cada um, aparecia uma espécie de régua – com o logotipo de Ratanabá e da Dakila. 

O e-mail pedindo o registro vinha assinado por Natalia Reikdal San Martin, uma arqueóloga de 28 anos formada pela Furg, a universidade onde trabalha Artur Barcelos, o pesquisador que preparou o dossiê sobre a Dakila. Barcelos se lembra dela como uma aluna estudiosa, educada e discreta. Ele só foi saber do envolvimento da estudante com o grupo de Urandir Oliveira quando a viu nas redes vestindo o uniforme da Dakila. 

Reikdal frequenta eventos da associação desde pequena, por ser filha e neta de simpatizantes. A futura arqueóloga ficou marcada pelo encontro com “uma entidade da nona dimensão” durante uma caminhada na fazenda que frequentava desde os 9 anos, conforme registrou num depoimento publicado em 2016 na coletânea O legado dos diferentes, que reúne relatos de experiências sobrenaturais (sua mãe e avó também contribuíram com o volume). Desde que se formou, em 2024, Reikdal se juntou a Saulo Nery na posição de arqueóloga da organização. No ano seguinte, integrou a equipe que foi à Bolívia participar do congresso de paleontologia, no qual apresentou três trabalhos.

No e-mail ao Iphan, Reikdal informou que os abrigos sob rocha tinham sido identificados de forma fortuita durante uma atividade de campo. “No momento da vistoria, não estávamos equipados com GPS, pois não se tratava de uma pesquisa arqueológica sistemática. Contudo, está previsto o retorno à região para complementação dos dados, incluindo o georreferenciamento adequado dos sítios”, escreveu. Além do logotipo de Ratanabá e da Dakila que aparecia nas fotos, a equipe do Iphan estranhou que um pedido estivesse desvinculado de uma pesquisa arqueológica. 

Mais que isso. A solicitação protocolada pela arqueóloga não trazia os dados de geolocalização e outras informações de contexto necessárias para o registro. E não era tudo: nas fotos, os objetos pareciam ter sido tirados do contexto em que estavam originalmente nos sítios. Algumas das cerâmicas apresentavam sinais de que tinham sido limpas e manipuladas, o que dependia de uma autorização que o Iphan não tinha dado. Não bastasse isso, as peças se pareciam muito com material exibido em vídeos publicados por canais ligados à Dakila. Aos técnicos do Iphan, aquilo tudo parecia incompatível com os princípios éticos e legais que os arqueólogos devem seguir. O caso continua tramitando dentro do Iphan e ainda não foi enviado à Polícia Federal ou ao Ministério Público.

Caso o pessoal da Dakila conseguisse cadastrar com sucesso os sítios com fotos em que aparecia seu logotipo, eles poderiam apresentar o registro aos seus seguidores como uma prova de que a entidade é séria e reconhecida institucionalmente. Procurada pela piauí, Reik­dal respondeu por e-mail. Disse que “não [associou] os achados dos sítios Becker e Becker II à hipótese de Ratanabá no material protocolado junto ao Iphan”. Sobre a presença do logotipo, disse apenas que a marca “não possui relação com a análise arqueológica dos artefatos nem interfere nos procedimentos de registro técnico realizados”.

Reikdal, ao ser indagada sobre se endossa as teses da Dakila, disse que sua atuação profissional “não está baseada em endossar previamente hipóteses, mas em investigá-las por meio de métodos científicos”. Ela também defendeu que as questões que envolvem Ratanabá devem ser examinadas por meio de “pesquisas multidisciplinares, trabalhos de campo, escavações, análises laboratoriais e novas tecnologias de investigação”. Só não explicou quais evidências justificam que se dê qualquer credibilidade à hipótese que a sua atuação ajuda a legitimar. 

Em 2021, a organização de Urandir Oliveira fez seu primeiro pedido de pesquisa arqueológica na Amazônia para o Iphan, órgão encarregado de autorizar esse tipo de estudo. O documento apresentado em nada se parecia com os projetos de pesquisa que os arqueólogos submetem ao instituto: não havia especificação da metodologia, nem cronograma, nem plano de trabalho ou equipe técnica habilitada, todos eles requisitos exigidos pelo Iphan. O documento tampouco citava quem era o arqueólogo responsável pelos trabalhos, ou qual instituição conservaria o material encontrado nas escavações. O máximo que informava é que a pesquisa duraria dois anos, seria executada por uma equipe de dez pessoas, teria início no Forte Príncipe da Beira e dinheiro não era problema. “Temos recursos próprios para realizar as nossas pesquisas, necessitamos apenas de autorização para as mesmas”, afirmava o projeto. 

Quando se examina o conteúdo do documento, parece uma pegadinha. O grupo afirmava buscar “diversas ruínas e construções que remetem às primeiras civilizações que estiveram na Terra, entre elas a desconhecida Muril [...]”. Para apresentar a instituição responsável pelo projeto, o documento explicou que a Dakila Pesquisas trabalhava com uma metodologia de estudos própria e que estudava “todo o tipo de informação, envolvendo tudo aquilo que é rejeitado ou que a ciência tradicional não consegue explicar”. Incluiu fotos de Zigurats, um esquema com o modelo da Terra convexa com gelo nas bordas e aquele registro do encontro de Oliveira com Mario Frias, então titular da secretaria à qual o Iphan estava vinculado (a foto ainda não tinha sido publicada nas redes sociais).

A solicitação da Dakila recebeu uma forcinha de Brasília: menos de uma semana depois do envio do pedido, chegou ao Iphan um e-mail do gabinete do deputado federal Ricardo Barros (Progressistas/pr) solicitando atenção ao requerimento de pesquisa protocolado pela associação de Oliveira. Não se tratava de um parlamentar qualquer: ex-­ministro da Saúde do governo Temer, Barros era o líder do governo Bolsonaro na Câmara e um dos articuladores políticos do Centrão. Mas seu lobby não surtiu efeito. Na resposta à Dakila, o Iphan informou que o pedido não atendia aos requisitos legais e não entrou no mérito da civilização amazônica fantasiosa que o grupo pretendia estudar.

 Em agosto de 2023, a Dakila submeteu ao Iphan um projeto de pesquisa bem diferente daquele proposto dois anos antes. Desta vez, o documento não falava em Ratanabá, nos Muril ou nas expedições para investigar o formato do planeta, e citava as principais referências da arqueologia amazônica, incluindo mais de um trabalho de Eduardo Neves, o pesquisador da USP que Oliveira adora espinafrar em suas lives. 

O novo projeto propunha uma pesquisa arqueológica de três anos na Terra Indígena Kayabi, com o objetivo de mapear bens arqueológicos, fortalecer a identidade cultural indígena e apoiar iniciativas de turismo étnico e arqueológico. Para isso, propunha fazer levantamentos de campo, escavações exploratórias, atividades de geoprocessamento e educação patrimonial conduzidas por uma equipe multidisciplinar que incluía pesquisadores indígenas.

À primeira vista, parecia um projeto sério e alinhado com as preocupações da arqueologia contemporânea. Mas um detalhe mostra que a iniciativa estava associada à desinformação promovida pela Dakila nas redes sociais. A terra indígena que o grupo propunha estudar – uma área de pouco mais de 10 mil km2 onde vivem grupos dos povos Apiaká, Munduruku e Kayabi – fica em Apiacás, em Mato Grosso, justamente na área das supostas “quadras de Ratanabá”.

Em janeiro de 2024, um parecer técnico do Iphan fez duras críticas ao projeto de pesquisa e recomendou que fosse indeferido. Os técnicos alegaram que o projeto não detalhara quais ações seriam desenvolvidas ou quais comunidades seriam impactadas, não explicara como seriam tratados os sítios arqueológicos e artefatos que fossem encontrados, e tampouco obtivera o consentimento (obrigatório) dos povos indígenas envolvidos. O parecer ainda questionou por que Urandir Oliveira aparecia como diretor de pesquisa, embora não tivesse formação compatível com a posição. O Iphan também questionou a forma como o projeto tratava os indígenas, apresentados como povos que precisam ser conscientizados e ensinados pelos pesquisadores brancos sobre o uso do território que ocupam há séculos.

Por fim, o parecer chamou a atenção para um potencial conflito de interesse na empreitada. Afinal, o grupo Dakila incluía empresas de ramos como turismo, mineração, cosméticos, construção e farmácia. “Nota-se que a maioria destes empreendimentos comerciais estabelecem diversos núcleos de interesses econômicos e financeiros relativos às matérias-primas ofertadas pelo ambiente natural das terras indígenas na qual pretendem obter licença para prospectar”, afirma o documento. Com base em “suspeitas de má-fé, notório comprometimento ético e indícios de falseamento”, o Iphan rejeitou o projeto e encaminhou o caso para investigação. 

O parecer desfavorável do Iphan não impediu que a Dakila conduzisse atividades na região de Apiacás, a julgar por denúncias apresentadas por grupos de mundurukus que vivem na Terra Indígena Kayabi e no seu entorno. De acordo com um dossiê elaborado em 2025 pelo Greenpeace, integrantes da Dakila vêm fazendo sobrevoos e entradas não autorizadas naquele território, embora a organização nunca tenha obtido autorização para realizar pesquisas ou intervenções na região.

O dossiê inclui o relato de uma ação de fiscalização autônoma feita em outubro de 2025 na Terra Indígena Kayabi por um grupo de mundurukus. O relato é assinado por nove autores, incluindo líderes e advogados de associações indígenas. Os signatários alegam que está sendo construída uma pousada na região da aldeia Mayrowi, no ponto conhecido como “Xadrez”, que é um território sagrado para indígenas locais. “A empresa Dakila Pesquisas atua ali sem qualquer consulta ao nosso povo, espalhando mentiras sobre supostas ‘cidades perdidas’, levando turistas e pesquisadores sem respeitar nossa cultura, nossa floresta e nossos ancestrais”, diz a denúncia. 

Houve ainda uma série de sobrevoos no local que perturbaram os grupos de indígenas. “A gente ficou incomodado com o trânsito de aviões e helicópteros passando bem em cima da nossa aldeia, todo dia”, disse à piauí Ediene Kirixi Munduruku, moradora da Terra Indígena Kayabi e coordenadora da Associação das Mulheres Munduruku Wakoborũn. Kirixi disse que as atividades seguem em curso. “A gente ainda vê essas movimentações de barco e de avião.” 

A oposição à Dakila não é unanimidade entre os povos que vivem naquela terra indígena. Lideranças da aldeia Mayrowi se aliaram à organização no projeto de pesquisa enviado ao Iphan, e Ediene Kirixi afirmou que a construção da pousada conta com o apoio de moradores dessa aldeia. Mas a líder indígena lembrou que a lei prevê a consulta a todos os povos potencialmente afetados por empreendimentos, não só de algumas aldeias. “É um direito que temos de ser consultados, é uma obrigação da empresa.” No que depender do grupo representado por ela, a Dakila não vai atuar em seu território. “A gente não aceita esse empreendimento e essa pesquisa. É uma grande violação dos nossos direitos.”

Num despacho relacionado à denúncia, o procurador da República Adriano Augusto Lanna de Oliveira notou que Urandir Oliveira é sócio-administrador de três empresas ligadas à mineração e tem ao menos dezoito processos minerários registrados em seu CPF. Essas informações, afirma o procurador, “abrem espaço para a suspeita de que as incursões na TI Kayabi estão sendo realizadas, na verdade, com o objetivo de explorar, ilicitamente, as terras indígenas dos povos indígenas ali localizados”.

Em julho de 2024, a Sociedade de Arqueologia Brasileira recebeu a denúncia de que Saulo Nery, sócio da entidade desde 2015, mantinha vínculo com o grupo Dakila, que promovia a falsa história de Ratanabá e era acusado de violar direitos indígenas. O conselho de ética da SAB concluiu que a atuação do arqueólogo feria uma série de preceitos éticos. Por norma, os associados se comprometem a respeitar o conhecimento tradicional, a dignidade dos que vivem nas áreas de pesquisas e as demandas relativas a lugares sagrados. O conselho recomendou a expulsão de Nery. A decisão final seria tomada durante o congresso da entidade em Brasília, em novembro de 2025. 

A comissão organizadora do congresso de arqueólogos estava apreensiva com a possibilidade de manifestação de simpatizantes da Dakila. Alarmados com as lives belicosas de Urandir Oliveira e seus colegas e escaldados pela participação da equipe da Dakila no encontro de geomorfologia, os organizadores tomaram uma medida incomum: elaboraram um protocolo a ser seguido pelos coordenadores de sessão em caso de filmagem e transmissão das apresentações, ofensas e outras perturbações da ordem. “O ideal, nesse tipo de situação, é se preparar para o pior”, afirmou Adriana Schmidt Dias, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) que, na época do congresso, presidia a SAB. Com centenas de trabalhos apresentados ao longo de cinco dias em sessões simultâneas realizadas em várias unidades da Universidade de Brasília (unb), não faltariam oportunidades para constranger os arqueólogos. Mas os seguidores de Oliveira não deram as caras em Brasília, e não foi preciso acionar o protocolo.

A assembleia em que se decidiu o destino de Saulo Nery foi realizada em clima de tensão. O acesso ao auditório foi controlado com rigor. Já eram transcorridas quase cinco horas de deliberações quando chegou a hora da votação. Artur Barcelos, o autor do dossiê sobre a Dakila, pediu a palavra à presidente da SAB. “A expulsão de um membro é uma atitude bem forte e não deixa ninguém feliz”, afirmou, antes de fazer um arrazoado dos motivos pelos quais Nery tinha sido denunciado. Os sócios votaram por meio de um dispositivo eletrônico, e o placar foi projetado no telão: 93 votos pela expulsão, 0 votos contra e 0 abstenções. “Por unanimidade, os associados se posicionaram contra a anticiência”, afirmou a presidente da SAB.

Em nota enviada à piauí, o advogado de Nery disse que seu cliente “atuou, exclusivamente, como prestador de serviços técnicos especializados para a empresa Dakila, sem participação na direção, administração ou gestão”. Afirmou que a SAB não se manifestou acerca dos argumentos apresentados por Nery na fase de instrução do processo e defendeu que a sociedade tinha o dever de justificar a expulsão e informá-la a seu cliente. Prometeu tomar medidas legais caso identificasse “vícios insanáveis” no processo de expulsão.

Além da inédita expulsão de um associado, outra novidade do congresso de arqueologia foi uma sessão sobre desinformação. Em sua fala, Barcelos apontou fatores que deram à história de Ratanabá a proporção que alcançou. “Me arrisco a dizer que o maior problema está nas mãos de todos vocês”, afirmou à plateia. Referia-se aos celulares, que não só capturaram a atenção de todos, como também tiraram dos cientistas o lugar de autoridade que ocupavam na sociedade. “Hoje qualquer pessoa com um smart-phone conectado à internet é um produtor de conteúdo, sem absolutamente nenhum filtro”, afirmou. Lembrou que a história de uma civilização misteriosa se beneficiou do fascínio que a arqueologia sempre despertou no público. “Esse grupo furou a bolha e alcança pessoas com as quais a gente não fala.”

No debate ao final da sessão, Barcelos disse estar preocupado com o futuro do Iphan. Notou que o grupo de Oliveira se coloca abertamente contra a instituição, citou a reunião do empresário com Mario Frias e o acordo que a empresa estabeleceu com a gestão de Tarcísio de Freitas. Vislumbrou um cenário em que um aliado de Oliveira ganhe as eleições para presidente e o empresário emplaque uma indicação para a autarquia. “E aí, quando você vai ver, o indicado é um terraplanista”, afirmou Barcelos. “Tenho receio de que um campo político abra espaço para isso.”


Reportagem feita com a colaboração de Allan de Abreu.


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Repórter da piauí, é apresentador do podcast A Terra é Redonda (Mesmo) e autor dos livros Admirável novo mundo: uma história da ocupação humana nas Américas (Companhia das Letras) e Domingo É Dia de Ciência (Azougue Editorial)