diário do irã

"CAVAMOS OS ESCOMBROS EM BUSCA DE NOSSOS FILHOS"

Uma viagem até a cidade iraniana de Minab, onde ataques americanos mataram mais de uma centena de crianças
Lápides e retratos das crianças mortas em Minab depois de um duplo bombardeio americano, em fevereiro: um dos meninos, cujo corpo não foi encontrado, teve enterrado apenas o seu sapato - CRÉDITO: HANDOUT_GETTY IMAGES_2026
Lápides e retratos das crianças mortas em Minab depois de um duplo bombardeio americano, em fevereiro: um dos meninos, cujo corpo não foi encontrado, teve enterrado apenas o seu sapato - CRÉDITO: HANDOUT_GETTY IMAGES_2026

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No início de julho desembarquei no Irã para acompanhar, como jornalista, o funeral de Ali Khamenei, o líder supremo do país, assassinado pelas forças militares dos Estados Unidos e de Israel em 28 de fevereiro passado. No mesmo dia da morte do aiatolá, começou a guerra contra o Irã, que até hoje não teve fim, apesar dos intermitentes acordos de cessar-fogo.

No dia 8 de julho, os Estados Unidos recomeçaram os bombardeios. Nessa nova fase, os países inimigos continuaram concentrados na circulação de embarcações no Estreito de Ormuz, principal passagem dos navios que exportam petróleo do Oriente Médio. Houve pelo menos cinquenta mortos e quinhentos feridos do lado do Irã, segundo dados do Ministério da Saúde. Do lado americano, foram três mortos, todos soldados.

Além do funeral, minha viagem ao Irã, encerrada no dia 15 de julho, teve outro objetivo, para mim mais relevante: chegar à cidade de Minab, onde ocorreu o mais brutal ataque dessa guerra, quando um duplo bombardeio americano atingiu uma escola primária, matando 120 crianças. Foi complicado chegar a Minab, num país sob ataque militar, como descrevo no diário a seguir. Mais difícil ainda foi ouvir o que me contaram os pais e parentes das crianças mortas.

4 DE JULHO DE 2026, SÁBADO_Pousei em Teerã por volta das três da manhã. Dentro do avião, coloquei um lenço na cabeça, imitando a conduta de mulheres ao meu redor.

No aeroporto, na fila da imigração, me conectei ao wi-fi gratuito e a um VPN (rede virtual privada, na sigla em inglês) que já havia baixado no celular, indispensável para acessar o WhatsApp, que está bloqueado no Irã. “Estou te esperando no desembarque, não se preocupe”, me escreveu Ali Reza Ramadan, iraniano que conheci há dois anos em Beirute, capital do Líbano.

Não me preocupar era um pouco improvável. Entrar no Irã como jornalista é um desafio logístico e político – um jogo que exige conhecer pessoas certas, facilitadores da obtenção do visto, autorizações para transitar pelo país, filmar e entrevistar pessoas, especialmente em meio à guerra que os Estados Unidos travam agora com o país.

Qual o propósito da sua visita?”, me perguntou o oficial de imigração. “Vim para fazer a cobertura jornalística do funeral do aiatolá Ali Khamenei”, respondi. Depois de um silêncio de 5 minutos e de verificar meus documentos, o homem me devolveu o passaporte. “Pode entrar”, disse. A imigração iraniana não carimba passaportes de estrangeiros para evitar que eles sejam impedidos, posteriormente, de entrar em outros países que sancionam o Irã ou que tratam alguns de seus aparatos de Estado como terroristas.

Ao descer a escada rolante na área de desembarque, avistei Ramadan. Ele tem 28 anos e é produtor multimídia. De estatura média, cabelos e barba preta, semblante sério e quase sempre com um ponto de escuta no ouvido, parece ter saído de um filme de espionagem. Estava me esperando no aeroporto com mais dois homens, seus colegas de trabalho. Contive o impulso de apertar suas mãos. Na fé islâmica, o toque físico entre mulheres e homens que não sejam casados ou pertencentes à mesma família é desencorajado.

O trâmite para obtenção de autorização para jornalistas internacionais foi de certa forma flexibilizado pelo Estado para a cobertura do funeral. A maior abertura a veículos internacionais parece fazer parte da estratégia iraniana durante essa guerra de aumentar a visibilidade mundial das mortes de civis e dos danos à infraestrutura civil que os ataques americanos e israelenses estão produzindo no país.

É bastante comum que a jornalistas estrangeiros no Irã seja designado um acompanhante iraniano. A razão oficial é garantir a segurança do jornalista, além de facilitar e traduzir entrevistas. A razão não oficial é controlar aquilo que será veiculado na mídia estrangeira.

Ali Reza Ramadan é meu acompanhante, o que significa que passaremos os dias juntos, nos separando somente no momento que eu voltar ao hotel. O fato de tê-lo conhecido antes, em um evento em Beirute, facilitou a minha vinda ao Irã em muitos aspectos e deve permitir que, mesmo com alguém monitorando meus passos, eu possa trabalhar com certa liberdade.

O aeroporto, situado a uma hora do Centro da capital, chama-se Imã Khomeini. O nome é uma homenagem ao aiatolá Ruhollah Khomeini, líder da Revolução Islâmica de 1979 que instalou o regime teocrático no país e mudou por completo sua política externa. Fez da luta anti-imperialista e antiamericana uma bandeira e construiu no Oriente Médio uma rede de grupos políticos aliados, o chamado Eixo da Resistência, que inclui o Hezbollah, no Líbano, os Houthis, no Iêmen, e o Hamas, em Gaza, entre outros.

A rodovia pela qual passamos rumo ao Centro de Teerã estava repleta de outdoors com fotos de Ali Khamenei, que sucedeu a Khomeini em 1989 e ficou quase quatro décadas no poder. Foi morto em sua casa, em Teerã, num ataque conjunto dos Estados Unidos e Israel, em 28 de fevereiro passado, quando os dois países iniciaram uma guerra contra o Irã, sob a alegação de que o país estava à beira de fabricar um arsenal nuclear.

Não há, até hoje, evidências públicas que sustentem essa afirmação. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) diz que nunca teve provas de um programa estruturado e sistemático de fabricação de armas nucleares por parte do Irã. O que existe, segundo a AIEA, é um acúmulo de urânio enriquecido a 60% – patamar preocupante, mas ainda distante dos 90% necessários para uso bélico. A AIEA classificou esse urânio acumulado como motivo de vigilância, mas não como prova de armamento iminente. Nem o governo americano nem o israelense apresentaram evidências concretas de um programa de armamento em curso.

Ali Khamenei foi morto junto de quatro membros de sua família, inclusive sua neta de apenas 1 ano e a nora Zahra Haddad Adel, mulher de Mojtaba Khamenei, seu filho, que veio a sucedê-lo como líder supremo. O funeral só acontece agora, mais de quatro meses depois, porque um memorando de entendimento assinado em 17 de junho entre Estados Unidos e Irã sinalizou a possibilidade de um cessar-fogo.

Ao lado dos cartazes nas ruas com o rosto de Khamenei, vi pela primeira vez o símbolo da cerimônia fúnebre que se estenderá até 9 de julho: um punho cerrado, acompanhado dos dizeres We must rise (Devemos nos levantar) – o lema oficial escolhido pelo governo iraniano para as homenagens, escrito em inglês e farsi. Pelo caminho havia também bandeiras e retratos de outras figuras mortas pelos Estados Unidos e Israel nos ataques deste ano, entre elas cientistas iranianos de renome e vítimas da chamada Guerra dos Doze Dias, travada entre os mesmos países em junho de 2025.

Quando já estava amanhecendo, paramos na entrada de Teerã para tomar um café da manhã tradicional: ovos, tomates e cogumelos servidos diretamente em uma frigideira. Ramadan me entregou a credencial para a cerimônia e um chip de celular que chamou de “chip para jornalistas”. A internet no Irã é limitada pelo Estado em diversas ocasiões, e existem diferentes tipos de chip, cada um correspondendo a um nível de autorização de acesso. Esse nível varia de acordo com quem você é: sua profissão, seu grau de proximidade com o governo, sua relevância institucional. Quanto maior essa autorização, mais amplo é o acesso à internet e a determinados aplicativos – muitas vezes nem é necessário um VPN estrangeiro.

Ramadan também me explicou o esquema de segurança em Teerã para o funeral: checkpoints foram montados para a revista de pessoas e carros; a entrada de automóveis vindos de outras cidades havia sido limitada; anéis de segurança foram estabelecidos ao redor da Grand Mosalla Imã Khomeini – um complexo religioso com uma mesquita e um grande espaço aberto para orações –, onde os corpos serão velados em cerimônia aberta ao público hoje e amanhã. Na segunda-feira, dia 6, os caixões serão levados em cortejo pelas ruas de Teerã.

A cerimônia do enterro de Khamenei começou ontem, com um evento exclusivo para autoridades estatais e diplomáticas. Entre os países que enviaram delegações estão a Rússia, China, Paquistão e Arábia Saudita. Hoje foi o primeiro dia de homenagens abertas às pessoas em geral. O funeral promete ser um dos maiores da história.

Seguimos para meu hotel, no Centro de Teerã, onde deixei as malas para irmos até a Grand Mosalla. Por causa das restrições à circulação de veículos, Ramadan sugeriu que seguíssemos de moto. Ajeitei o hijab e subi na garupa, me sentindo em uma cena do filme iraniano Close-up. É muito raro condutores e passageiros de motos no Irã usarem capacete.

A comoção nas ruas era imensurável. Passamos por pessoas dormindo em bancos nas praças e sobre papelões na calçada. “Não são moradores de rua”, explicou Ramadan. “São pessoas que vieram de outras cidades e estão dormindo aí para acompanhar o funeral.” Milhares caminhavam sob um Sol escaldante até a Mosalla. A maioria das mulheres portava o chador, o manto tradicional usado por muçulmanas xiitas, sobretudo entre as mais devotas e nos contextos religiosos e cerimoniais, como funerais e peregrinações. Diferente do hijab, lenço que cobre apenas os cabelos e o pescoço, o chador é uma peça única: uma longa capa com capuz que envolve o corpo inteiro, da cabeça aos pés, mas não cobre o rosto (ao contrário do niqab, muito utilizado na Arábia Saudita). Tradicionalmente preto, embora também existam versões estampadas, o chador não é uma peça exclusiva do xiismo, mas está fortemente associado à identidade religiosa e política do Irã depois da Revolução de 1979.

Além do uso do chador, pude observar outras manifestações do islã xiita, como homens batendo repetidamente no próprio peito, um gesto ligado à ashura, cerimônia em que os fiéis se autoflagelam, em memória de Hussein, neto do profeta Maomé, morto na Batalha de Karbala, no ano 680. Para os xiitas, Hussein é o modelo supremo de sacrifício e resistência contra a injustiça e a tirania. Sua morte é revivida anualmente como luto coletivo. Bater no peito ou, em certos casos, ferir a si mesmo, é uma forma do fiel xiita buscar redenção pela morte de Hussein.

O xiismo e o sunismo são os dois principais ramos do islã. A divisão remonta à sucessão do profeta Mohammad, que morreu em 632 (os muçulmanos consideram pejorativo o nome Maomé). Os xiitas acreditam que a liderança da comunidade islâmica deveria ter permanecido na família do profeta, com Hussein. Os sunitas defendem que não deveria seguir critérios familiares, mas recair sobre quem fosse mais apto para o cargo.

Na prática, os califados islâmicos que se sucederam ao longo da história – como o Omíada e o Abássida – tinham o sunismo como base doutrinária e política. Por séculos, o xiismo permaneceu uma corrente minoritária e, com frequência, perseguida dentro do mundo islâmico, sem nunca ter servido de base a um projeto de Estado. Isso só mudou em 1501, quando a dinastia Safávida ascendeu ao poder na Pérsia (hoje Irã).

O Irã é atualmente o único Estado teocrático do mundo oficialmente constituído sob o xiismo, enquanto a maior parte dos países de maioria muçulmana é sunita. Essa trajetória ajuda a explicar por que o xiismo se consolidou, ao longo dos séculos, como uma espécie de identidade religiosa marginalizada dentro do islã: uma fé nascida da derrota política, forjada no luto por Hussein e que só encontrou tardiamente e de forma isolada um território onde pudesse se tornar poder de Estado.

No xiismo, a morte de alguém em nome do que se considera uma causa justa – no caso do Irã, a luta contra os Estados Unidos e Israel – transforma a pessoa em mártir. A morte deixa de ser um evento individual. É vivida coletivamente, como um evento social intenso: pessoas chorando em um velório como se tivessem perdido um parente, mesmo sem serem próximas de quem está sendo velado. Para o xiita, ser mártir é ter acolhimento garantido nos braços do divino, deixando um legado digno de orgulho.

Ao entrar na Grand Mosalla, a sacralidade, a teatralidade e a coletividade do luto xiita eram visíveis em cada detalhe. Na arena central do complexo, ao ar livre, se concentravam centenas de milhares de pessoas de todas as idades. No fundo da Mosalla, um telão imenso transmitia as apresentações, em um grande palco, de cantores e religiosos puxando cânticos, conduzindo orações, recitando poesias de lamentação e gritando palavras de ordem que a multidão repetia em uníssono. Entre os bordões, “morte à América” e “morte a Israel”. Sobre esse mesmo palco, estavam os caixões de Khamenei e familiares, cobertos por bandeiras do Irã.

Ao contrário do que chegou a ser noticiado, o espaço da Mosalla não era segregado por gênero. Homens e mulheres ocupavam a mesma arena, misturados. A separação só ocorria na área mais próxima dos caixões, onde havia maior aglomeração e, portanto, o toque inevitável entre os presentes. No local foi instalado um sistema de irrigação suspenso, para amenizar o calor (a temperatura chegou a 35ºC no sábado), e pontos de distribuição de alimentos e água (prática comum também durante os dias de ashura). Preto era a única cor das vestimentas. Crianças, adolescentes, adultos e idosos empunhavam bandeiras do Irã, de grupos armados xiitas apoiados pelo país – como o Hezbollah –, e pregavam vingança pela morte de Khamenei.

Vim até aqui para exigir justiça pela morte do nosso mártir”, disse Garshasbi, jovem vindo do Curdistão iraniano que segurava uma grande foto de Ali Khamenei. “Nós não temos absolutamente nenhuma confiança nos Estados Unidos e seguiremos em frente. Se Deus quiser, a vitória final será do povo iraniano.” (Para não expor as pessoas citadas nesta reportagem, elas estão identificadas apenas pelo pronome, com exceção das que já tiveram seus nomes divulgados.) Massouma, de 25 anos, nascida e criada em Teerã, tinha opinião similar. “Eu estou aqui hoje porque não quero ver o sangue das crianças de Minab derramados em vão”, disse, se referindo às mais de cem crianças mortas em um ataque americano a uma escola primária em Minab, no Sul do Irã, no mesmo dia da morte de Khamenei, em 28 de fevereiro.

É difícil afirmar que todos os presentes na cerimônia fúnebre eram apoiadores do regime iraniano. Adorado por uns, odiado por outros, Khamenei se tornou depois de sua morte o símbolo da propagada luta contra políticas imperialistas e a expansão do sionismo israelense na região.

O velório continuou noite adentro.

5 DE JULHO, DOMINGO_Chegamos por volta do meio-dia à Grand Mosalla para o segundo dia de cerimônia fúnebre. Chegar à área restrita para jornalistas não foi simples. A segurança é intensa: homens armados na entrada, verificação da credencial a cada poucos metros e raio X para os equipamentos fotográficos e mochilas. Mulheres passam por uma revista especial, em um ambiente mais reservado, com a presença exclusiva de pessoas do mesmo sexo.

A sala de imprensa é um ambiente predominantemente masculino. As poucas mulheres presentes usam chador e fazem parte de mídias controladas pelo governo iraniano. Espaços como o fumódromo são reservados aos homens – não por alguma regra explícita, mas por uma convenção social tacitamente respeitada por todos. Não apenas ali, mas em muitas outras situações, fui a única mulher com um cigarro na boca, gesto que, por si só, bastava para causar estranhamento e desconforto em algumas pessoas ao redor.

A sala de imprensa tinha uma vista privilegiada da Grand Mosalla e me deu outra perspectiva da dimensão do evento, quando avistei o mar de pessoas que estava na área aberta embaixo. O governo estimou que milhões estariam presentes ao longo dos seis dias de cerimônia pública, baseando-­se no número dos que estiveram no funeral do aiatolá Khomeini em 1989 – cerca de 10 milhões. A televisão estatal falou em 15 milhões de pessoas presentes agora em Teerã.

No início da noite, voltei para a garupa da moto de Ramadan e fomos para perto da Praça Enqelab, onde acontecia o encontro e a prece de familiares das pessoas mortas nos ataques americanos à escola de Minab. Os números variam a respeito de mortos, mas fala-se em ao menos duzentas pessoas, sendo 120 crianças. Pretendo saber mais quando for a Minab.

Na praça, conversei com Massoud Barani, de 38 anos, que perdeu seu filho Reza Barani, de 8 anos. “No dia dos ataques, eu estava fora de Minab. Cheguei na escola cerca de 30 minutos depois dos bombardeios”, ele contou. “Quando vi o que estava diante de mim, a primeira coisa que pensei foi: ‘Acho improvável que alguém tenha saído vivo.’ Havia partes de corpos de crianças espalhadas pelo chão, algumas ainda tinham pulso, ainda se moviam. Fui até a sala de aula do meu filho. Só havia escombros.”

Na praça, Massoud segurava a foto de seu filho. Estávamos ambos sentados em uma carteira escolar improvisada que fazia parte da homenagem às vítimas. Ele relatou que, junto a dezenas de outros pais, revirou os escombros em busca de Reza. “Estávamos desnorteados, buscando nossos filhos. Foi muito doloroso. Por causa da explosão e da onda de choque, os corpos das crianças tinham sido despedaçados e arremessados a cem, duzentos metros de distância”, disse. “Enquanto eu procurava, vi partes dos corpos das crianças: uma cabeça separada, uma mão separada, uma perna separada. Estavam queimadas e já não dava para identificá-las.”

O corpo de Reza, sem vida, foi encontrado por Massoud no necrotério do hospital. A placidez do pai ao me contar os detalhes daquele dia me desconcertou. No olhar e no tom de voz de Massoud não havia sinal de raiva, descontrole, desespero. Não se tratava de resignação, mas o oposto; uma espécie de energia renovada, quase uma obrigação moral e espiritual de dar continuidade à causa pela qual seu filho deu a vida. “Como os americanos dizem ter as tecnologias mais avançadas para escanear o solo, essa ação só pode ter sido intencional, o que demonstra a selvageria deles”, afirmou Massoud. “Eles vieram e mataram nossos filhos daquela maneira violenta para destruir o espírito do povo iraniano. O martírio dos nossos filhos é doloroso para nós, mas não nos paralisa. Estamos ainda mais firmes e permanecemos de pé para vingar o sangue dessas crianças contra nossos inimigos, os Estados Unidos e Israel.”

6 DE JULHO, SEGUNDA-FEIRA_Mohsen Hayat, jovem iraniano de 26 anos, veio ao meu hotel por volta das oito da manhã. Nós nos sentamos no café do segundo andar. Ele parecia exausto. Eu o conheci na minha primeira vez no Irã, em julho de 2025, logo depois da Guerra dos Doze Dias, quando ele trabalhou como meu tradutor do farsi para o inglês. O farsi, embora compartilhe o alfabeto e algumas palavras com o árabe, é um idioma inteiramente diferente.

Falamos por uma hora, reconstituindo o dia da morte de Khamenei e os dias que se seguiram. “Quando fiquei sabendo da morte dele, foi um choque”, ele contou. “Até confirmarem, houve muita especulação sobre se teria mesmo morrido. Foi como se um vácuo tivesse sido aberto.” Para Hayat, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, convenceu Trump de que eliminar o topo da liderança iraniana faria o regime colapsar. “Netanyahu estava errado”, afirmou. Para surpresa geral, o governo iraniano se manteve operacional. Com a morte de Khamenei, seu filho Mojtaba Khamenei foi eleito o novo líder supremo do Irã no dia 8 de março de 2026. Foi a primeira vez desde 1979 que a liderança do país passou de pai para filho.

Desde então, Motjaba não fez nenhuma aparição pública nem transmitiu mensagens em vídeo. Levantou-se a suspeita de que também tenha sido morto e que a sucessão não passa de uma ficção do governo iraniano, que, por sua vez, alega motivos de segurança para evitar a exposição de Motjaba. “A liderança dele ainda não começou”, disse Hayat. “Os aparatos e funcionários de antes da morte de Khamenei continuam no mesmo lugar. Como o país está em guerra, ainda não sabemos o que significa, na prática, o Irã liderado por Mojtaba.”

Uma van chegou ao hotel para me buscar. Me despedi de Hayat, apesar de estarmos indo para o mesmo lugar: o cortejo fúnebre de Khamenei. Hoje, feriado nacional, é o encerramento do velório na Grand Mosalla. Depois, começa o cortejo com os caixões.

Os corpos do ex-líder supremo e de seus quatro familiares passarão por Qom, importante centro de estudos religiosos xiitas no Irã, a cerca de 150 km da capital, e seguirão até o Iraque, onde serão levados a Najaf (cidade do santuário do imã Ali, primeiro imã xiita) e a Karbala (na qual fica o santuário do imã Hussein, o neto do profeta Mo­hammad). O Iraque, que não está em guerra com o Irã, autorizou a entrada dos corpos exclusivamente nas duas cidades, sob condições especiais. Em 9 de julho, o funeral se encerrará com o enterro em Mashhad, santuário do imã Reza, oitavo líder xiita, e cidade natal de Ali Khamenei.

O cortejo iria começar às 6 horas (no horário de Brasília, 23h30), no bairro de Tehranpars, no Leste de Teerã, a partir de onde percorreria 18 km até a Praça Azadi, no centro-oeste da capital. Pessoas haviam se posicionado ao longo deste perímetro – algumas passaram a madrugada na rua para garantir um lugar. A chance de alguém ficar próximo do caixão é parte importante do luto xiita. É comum as pessoas passarem itens de vestuário – lenços, bonés, camisas – em cima do caixão e guardarem a peça como talismã. Mudanças de última hora levaram a organização a iniciar o cortejo por volta do meio-dia, próximo à estação de metrô Dr. Habibollah, a 2 km da Praça Azadi, deixando para trás a maior parte da multidão que esperava. Ao alcançar a praça, os caixões foram removidos de helicóptero para serem levados a Qom.

Com o encurtamento expressivo do cortejo, houve uma frustração generalizada. A tia de 75 anos de Ali Reza Ramadan havia chegado às 6 horas em Tehranpars e, ao saber da mudança, teve de caminhar quilômetros para tentar pegar a cerimônia pelo caminho. Ela não conseguiu ver os caixões. Exausta, horas depois, ligou para Ramadan chorando, dizendo que Khamenei acabara de ser morto uma segunda vez, agora pelo próprio Irã.

O cortejo fúnebre foi, em grande medida, um evento masculino. O corpo a corpo, com a proximidade dos indivíduos, a insalubridade e até certa agressividade da experiência de estar ali, em pé, espremido, dividindo o espaço com milhares de outros para tentar se aproximar do caixão, afastou as mulheres nessa parte final da cerimônia. A aglomeração na hora da passagem do caixão se mostrava também perigosa, já que era passível de causar mortes por sufocamento e pisoteamento. As próprias autoridades iranianas calcularam que o evento em Teerã poderia causar entre 1,5 mil e 3 mil mortes, como revelou o jornal alemão Die Welt. Mas não houve notícia de óbitos.

Os números de participantes na cerimônia são imprecisos. As autoridades iranianas falaram em alguns milhões, mas não é possível confirmar a cifra. O que se pode dizer com segurança é que foi uma cerimônia grandiosa, com um número exorbitante de pessoas.

Para divulgar esse evento de grande importância para o Irã, o governo iraniano apostou em uma articulação midiática que incluiu, além dos jornalistas estrangeiros, a vinda de influenciadores ativistas para ampliar o alcance da cerimônia nas redes sociais.

Esses influenciadores, entre os quais os americanos Jackson Hinkle e Christopher Helali (que vivem na Rússia), fazem uma cobertura movida mais pelo fervor político do que pelo compromisso jornalístico. Na prática, tomam o lado do governo iraniano por acreditarem no propósito da luta anti-imperialista que o regime professa, mas, ao fazê-lo, acabam pondo de lado o que não é do interesse do poder no país, como lembrar os protestos de janeiro de 2026 e a repressão violenta que se seguiu.

Alguns desses influenciadores assumiram protagonismo nas homenagens. Hinkle subiu em um palco na Praça Enqelab, em meio à cerimônia fúnebre, pegou o microfone e conduziu a multidão a repetir “abaixo os Estados Unidos” em coro. Enquanto eu me posicionava no terraço de um prédio próximo à Praça Azadi para a cobertura da passagem dos caixões, uma senhora irlandesa ao meu lado, ativista e influenciadora, entoava incessantemente Allahu Akbar, que, ao pé da letra, significa “Deus está acima, é maior”. Ativistas estrangeiros como aquela mulher, ao entoarem esta frase de forma performática e descontextualizada diante das câmeras, ainda que movidos pela solidariedade, acabam reforçando a imagem de que a cerimônia e o povo muçulmano como um todo é fanático e ameaçador, o que não corresponde à realidade.

7 DE JULHO, TERÇA-FEIRA_Deixei o hotel em Teerã às oito da manhã. Depois da partida dos caixões para Qom, a capital pareceu retomar seu ritmo habitual. Meu plano era ver uma parte da cidade que não cultua o líder supremo. De táxi, peguei a Avenida Valiasr, que corta Teerã de Norte a Sul. Ainda que as imagens de Khamenei seguissem ocupando os cartazes pelo caminho, a atmosfera começou a mudar quando eu me aproximei do bairro de Tajrish. Foi como se eu estivesse entrando em outro país. Ruas largas e arborizadas. Prédios com fachadas de mármore, em que detalhes da arquitetura persa se misturam a linhas modernas. Shoppings com vitrines que poderiam ser confundidas com as de lojas europeias ou americanas, embora as roupas e acessórios sejam produzidos no Irã.

Eu marcara um encontro com uma professora de ioga, que pediu para não ter seu nome publicado. Ela exerceu papel relevante nos grandes protestos contra o regime dos aiatolás que ocorreram no Irã no início deste ano. O táxi parou na frente de um portão de ferro, com uma bandeira preta da ashura pendurada. Não havia qualquer indício de que naquele estabelecimento funcionasse um estúdio de ioga. Até que, minutos depois, uma das alunas desembarcou de uma lambreta azul, vestindo uma camiseta sem manga, os cabelos soltos e sem hijab. Logo depois, chegou a professora, de 35 anos, os cachos pretos do seu cabelo emoldurando perfeitamente seu rosto afilado.

As academias de ginástica, os estúdios de ioga e outros estabelecimentos semelhantes no Irã são segregados por gênero. Aquele era um estúdio exclusivo para mulheres. A professora revelou, no entanto, que trabalha em outros lugares, onde, driblando a lei, os ambientes são mistos. “Uma das regras é não levar o seu próprio tapete de ioga para as aulas, para que ninguém no prédio note a movimentação de homens e mulheres com esse objetivo e levante suspeita sobre o caráter misto do estúdio”, contou.

Em sua conta no Instagram, com cerca de 3 mil seguidores, ela costumava postar conteúdos relacionados à sua profissão: fotos e vídeos em que demonstrava posições e técnicas da ioga, nos quais vestia top e bustiês que deixam a barriga à mostra, leggings e shorts de elastano. Por causa disso, foi detida e chamada a prestar esclarecimentos, além de ter o chip do seu celular cancelado duas vezes.

Ela me contou que a politização dos iranianos e a oposição contra o regime teocrático acontece em geral a partir do momento que eles entram na universidade. “É ali o nosso primeiro contato real com outras pessoas, num ambiente misto”, explicou. “É quando se começa a ver o mundo de outra forma. Na universidade, homens e mulheres dividem o mesmo espaço de formação intelectual, de mobilização, de construção coletiva de ideias.”

Para a professora, a importância das universidades como caldeirão político chamou a atenção em setembro de 2022, quando estudantes foram às ruas protestar pela morte de Jina Mahsa Amini. Esta jovem curda foi morta sob custódia do estado iraniano, depois de ter sido detida por supostamente não usar o hijab da forma exigida pelas autoridades. O caso de Mahsa Amini desencadeou o movimento Mulher, Vida, Liberdade, apoiado por diversos setores da sociedade iraniana, em que mulheres queimavam seus véus nas manifestações e reivindicavam direitos. “Depois da morte de Mahsa, alunos e alunas passaram a desafiar abertamente as normas de vestimenta, usando bermuda, camisetas que deixam os braços à mostra, e abandonando gradualmente o uso do véu nos corredores e salas de aula.”

A resposta inicial do governo foi dura em 2022, com multas, detenções e uma escalada de repressão. Mas, aos poucos, as autoridades cederam à pressão. A professora de ioga ilustrou a mudança: “Antes, o hijab precisava ser usado rente ao rosto, sem deixar escapar um fio de cabelo sequer. Depois, o governo passou a tolerar o lenço apenas jogado sobre a cabeça, sem cobrir o cabelo por completo. Até finalmente fazer vista grossa em relação às mulheres que optam por simplesmente não usar o hijab.”

Perguntei a ela então sobre os protestos de janeiro deste ano, quando milhões de iranianos tomaram as ruas depois de uma manifestação iniciada no Grande Bazar de Teerã, motivada pela inflação galopante e a desvalorização acelerada do rial, a moeda local. O que começou como um protesto pontual de comerciantes se transformou em um movimento de contestação muito amplo, que atingiu seu ápice em 8 e 9 de janeiro.

Um longo silêncio seguiu à minha pergunta. A professora usava óculos Ray-Ban escuros e por isso demorei a perceber que estava chorando. “Eu nem consigo explicar”, ela me disse, com a voz baixa. “Aqueles foram os dias mais sombrios da minha vida. Nem a guerra se compara com o que houve.” Depois, inclinou-se no banco em que estava sentada e escondeu o rosto nas mãos por um instante. “Eu sou forte”, continuou. “Mas estou cansada de ter que ser. É esgotante viver nesse empurra e puxa constante com o governo.”

O número exato de mortos pela repressão durante os dias de protesto em janeiro passado permanece impreciso. A cifra divulgada pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã é de 3 117 pessoas. Mas os próprios ministérios divergem entre si: enquanto o chanceler Abbas Araghchi falou em “algumas centenas” de vítimas, o falecido Ali Khamenei admitiu em discurso público que “milhares” haviam morrido. Na época, jornalistas de agências internacionais documentaram necrotérios sobrecarregados simultaneamente em Teerã e outras cidades do país. Organizações de direitos humanos e veículos da oposição no exterior, como o Iran International, chegaram a estimar em 12 mil ou mais o número de mortos apenas naqueles dois dias.

8 DE JULHO, QUARTA-FEIRA_Eu estava em um restaurante com Ali Reza Ramadan e alguns jornalistas quando, no começo da madrugada, ouvimos a notícia de que os Estados Unidos voltaram a bombardear o Irã. Os ataques se concentravam na cidade de Bandar Abbas, no Sul do país, e no Estreito de Ormuz. O argumento do governo Trump foi de que o Irã havia atacado embarcações que navegavam no estreito por uma rota que passa pelas águas territoriais de Omã. Um burburinho tomou conta do restaurante, com todos assistindo no celular a vídeos dos ataques em Bandar Abbas.

Depois, seguimos para o aeroporto, a fim de pegar o voo para Mashhad, no nordeste do Irã, e assistir ao último dia do funeral de Khamenei.

A chegada ao aeroporto de Mashhad foi intensa. No terminal de desembarque, havia pôsteres do aiatolá assassinado por todos os lados. No chão, centenas de mochilas e sapatos infantis, cada um com uma fotografia das crianças assassinadas nos bombardeios americanos da escola primária em Minab.

A cidade estava mobilizada para o enterro, que acontece amanhã. Mashhad é uma cidade moderna, limpa, com ruas amplas, e quase não vejo mulheres usando hijab. Ainda no carro me inteirei de que Trump, em uma conferência da Otan em Ancara, na Turquia, afirmou que o cessar-fogo com o Irã havia terminado.

9 DE JULHO, QUINTA-FEIRA_De manhã, quando cheguei ao saguão do hotel, com a tevê ligada, o assunto em um canal de notícias era o último dia do funeral e não os novos bombardeios americanos. Os ataques feitos durante a madrugada foram às ilhas de Qeshm e Abu Musa, no Estreito de Ormuz, e também às cidades de Iranshahr, Konarak e Chabahar, no sudeste do Irã. Um deles atingiu a linha de trem entre Teerã e Mashhad. Como consequência, os serviços ferroviários entre as duas cidades foram interrompidos, impossibilitando a viagem de milhares de fiéis que viriam a Mashhad prestar suas homenagens.

O Ministério da Saúde do Irã informou que os ataques nos últimos dois dias já deixaram catorze mortos e pelo menos 78 feridos no país. Em retaliação, o Irã atacou bases militares dos Estados Unidos no Kuwait, Catar e Bahrein.

O sepultamento de Khamenei e sua família ocorreria de manhã, mas foi adiado para o período da tarde devido a atrasos do cortejo nas cidades de Karbala e Najaf, no Iraque, por onde os caixões passaram ontem. Saímos do hotel por volta do meio-dia. Os bombardeios não pareciam ter alterado a determinação das pessoas em ocupar a cidade para o evento histórico. Andar pelas ruas era quase impossível – a multidão nos arrastava.

Em um hotel na avenida central da cidade, subimos até o oitavo andar, onde outras equipes de jornalistas já estavam posicionadas, usando o terraço e parte do telhado para fazer transmissões ao vivo, fotografar e filmar.

No final da tarde, os caixões finalmente chegaram, conduzidos por grandes caminhões que furavam a multidão. Em cima dos veículos, caixas de som reverberavam músicas ligadas à fé xiita: cânticos de despedida e lamentações em referência a Hussein. Ao redor dos caixões, havia flores e bandeiras do Irã. Alguns homens, de pé sobre os caminhões, recolhiam lenços e outros objetos estendidos pelos fiéis, os passavam nos caixões e os devolviam. Uma enorme bandeira vermelha era carregada no cortejo, com os dizeres We will kill Trump (Nós mataremos Trump). Outra grande bandeira, com o desenho de um alvo sobre o rosto do presidente americano, foi erguida no prédio em frente ao hotel onde eu estava. As pessoas no cortejo entoavam: “Nossa palavra é apenas uma: vingança, nada mais do que vingança.”

Ao meu lado, escorado no parapeito do terraço, Ramadan cobriu o rosto com as mãos. Por tê-lo ao meu lado como profissional enquanto trabalho todos esses dias, acabei esquecendo que ele é um xiita e que atravessa essa semana de luto afetado diretamente pelos eventos: não só a morte de Khamenei, mas também uma guerra que perdura por quase cinco meses e tirou a vida de mais de 3,5 mil de seus compatriotas. “Sabe o que é mais curioso de tudo isso?”, ele me diz. “Se realmente tivéssemos armas nucleares, Khamenei não estaria naquele caixão.”

O aiatolá foi sepultado no santuário do imã Reza, ao lado dos quatro membros de sua família. É o fim de uma semana de luto para o Irã e, ao que parece, o começo de uma nova etapa dessa guerra.

10 DE JULHO, SEXTA-FEIRA_Começamos o dia muito cedo, indo rumo à cidade de Minab, a da mortandade das crianças. Apesar da escalada da guerra no Sul do país, decidimos arriscar e apanhar um voo para a Ilha de Kish, próxima do Estreito de Ormuz, a fim de pegar um barco para o continente e depois ir de táxi até Minab.

No voo, está sentada perto de mim uma jovem de piercing no nariz, cabelo curto encaracolado, sem hijab. Ao notar que Ramadan e eu não estávamos falando farsi, Ayda, de 35 anos, puxou conversa comigo. Nascida e criada em Mashhad em uma família secular, ela estava indo visitar sua irmã, que mora na Ilha de Kish. Cabeleireira há oito anos, me disse que não usa hijab desde os protestos pela morte de Mahsa Amini, em 2022. “Hoje em dia acho até estranho ver uma mulher de hijab”, confessou. “Como trabalho com cabelos, isso é bom para mim. Cabelos são agora, mais do que nunca, políticos.”

Enquanto o avião pousava em Kish, perguntei se ela não tinha medo de vir para uma região tão próxima aos bombardeios. “Você se acostuma”, disse Ayda, sorrindo. “Tenho vontade de sair do país, em busca de um lugar em que não precise me preocupar com coisas como ataques americanos. Mas minha família está aqui, e quero estar perto deles, então não é tão simples.” Quando nos levantamos para sair do avião, tirei o meu hijab. “Agora sim, você está linda”, brincou Ayda, se despedindo.

Chegar a Minab não foi simples. Meu guia e eu pegamos um barco em Kish até a cidade litorânea de Bandar Aftab. Antes de embarcar, fomos parados pelas autoridades. Ramadan disse para eu me sentar na sala de embarque, enquanto ele corria de um lado para o outro, suando em bicas, falando apressadamente em farsi e sacudindo meu passaporte diante dos funcionários. A reclamação funcionou. Embarcamos no último segundo.

“Não fale inglês aqui”, me pediu Ramadan em Bandar Aftab, enquanto tentávamos conseguir um táxi para Minab por um preço baixo. O calor era insalubre, como se estivéssemos dentro de um forno.

A viagem no táxi demorou seis horas. No caminho, nos atualizamos sobre a guerra. O memorando de entendimento assinado entre Irã e Estados Unidos no dia 17 de junho parece ter fracassado. Trump afirmou hoje que novas conversas com o Irã serão realizadas, mas que o cessar-fogo foi encerrado. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos impuseram novas sanções ao Irã, contrariando uma das cláusulas do memorando de entendimento, que previa uma suspensão gradual delas.

As primeiras sanções ao Irã remontam à Revolução Islâmica de 1979. Foram ampliadas nos anos 1990 e, sobretudo, nos anos 2000, em resposta ao programa nuclear iraniano. O alívio parcial trazido pelo acordo nuclear de 2015 durou pouco: em 2018, o governo Trump retirou unilateralmente os Estados Unidos do acordo e restabeleceu – e ampliou – o regime de sanções, hoje um dos mais severos já impostos a um país.

No Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo e gás natural do mundo, o tráfego de embarcações caiu pelo segundo dia consecutivo.

11 DE JULHO, SÁBADO_Na manhã do dia 28 de fevereiro passado, a vida dos moradores de Minab, de 70 mil habitantes, mudou para sempre, após dois ataques que mataram 203 pessoas, entre elas 120 crianças da escola primária Shajareh Tayyebeh.

Na rua que leva à escola primária há um muro com fotos dos olhos de cada uma das crianças que foram mortas ali. Na frente do estabelecimento foi montada uma espécie de tenda para abrigar os pais e famílias das vítimas que vêm diariamente prestar suas homenagens. A escola parece ter sido cortada ao meio, tendo restado apenas uma das metades. Na estrutura que restou, é possível ver três salas de aula com as paredes quase inteiramente queimadas. Algumas carteiras escolares coloridas e pequenas cadeiras, intactas, pairam em frente às lousas com escritos do que estava sendo ensinado para as crianças naquela manhã de sábado – dia útil no Irã.

Escombros do que era o segundo andar pendem sobre o primeiro. Vejo ainda barras de portas de aço contorcidas e restos de parede, cadernos e livros espalhados pelo chão, e um muro pintado com desenhos do Ursinho Pooh e figuras de crianças brincando. No meio dos escombros, foi afixada uma placa com a foto da única criança cujo corpo ainda não foi encontrado. É um menino, e só acharam dele um sapato, encontrado a 200 metros da escola. Dele foi enterrado apenas esse sapato.

Enquanto Ramadan e eu circulávamos pelo lugar, um segurança do local nos abordou. Mojtaba Hanjberry, de 39 anos, perdeu a irmã, uma professora de 28 anos, nos ataques. “Ela trabalhou aqui durante oito anos. Tudo que encontrei de minha irmã foi seu tronco, sem pernas, sem braço, sem cabeça. Eu a reconheci pelo vestido que estava usando naquele dia”, ele disse. Enquanto falava, Hanjberry começou a chorar. “Todo dia eu trazia minha irmã para o trabalho e, ao fim do expediente, a levava de volta para nossa mãe. Isso nunca mais vai acontecer. Nunca mais levarei minha irmã de volta para os braços da minha mãe.”

Acompanhamos Hanjberry até uma árvore, a 100 metros dos escombros da escola. “Estão vendo aquilo ali?” Ele apontou para uma pequena camiseta preta rasgada, emaranhada em um galho a 10 metros do chão. “É o resto da roupa de um dos alunos. A força da explosão o lançou até aqui.”O segurança, que estava longe do epicentro das explosões, fez parte dos grupos de pessoas que, minutos depois dos ataques à escola, começaram as buscas pelos corpos. “Eles atacaram a escola duas vezes. O segundo ataque veio poucos minutos depois do primeiro. Pessoas que correram para acudir as vítimas ou começar a busca pelos corpos foram atingidas e mortas no segundo bombardeio.”

Hanjberry se referia ao que se chama em inglês de double-tap strike (ataque duplo), uma tática que consiste em bombardear o mesmo alvo duas vezes em sequência, geralmente com poucos minutos de intervalo. A prática tem sido amplamente empregada por Israel no Sul do Líbano e na Faixa de Gaza. É frequentemente classificada como crime de guerra: na maioria dos casos, o segundo ataque não atinge apenas os sobreviventes do primeiro, mas também socorristas, equipes médicas, jornalistas e civis que acorrem ao local. É uma tática cruel, cuja intenção é garantir que não restem sobreviventes em um local.

Quando o mundo soube do ataque à escola primária em Minab em fevereiro passado, circulou o argumento de que a escola Shajareh Tayyebeh estava localizada dentro de um complexo militar e seria, portanto, um alvo legítimo em um contexto de conflito armado. O que pude verificar, porém, é outra coisa: a escola não apenas se encontra em uma área civil, como fica a centenas de metros de distância da instalação militar mais próxima. Como os Estados Unidos não puderam distinguir um complexo militar de uma escola cheia de crianças de 6 a 8 anos, se possuem uma força militar com tecnologia de altíssima precisão na identificação de alvos, como a que foi capaz de localizar e matar o líder supremo do Irã, um homem cercado de aparatos de segurança e extremamente protegido?

Consternados, Ramadan e eu seguimos para o cemitério de Minab, onde um grande loteamento foi reservado para as vítimas dos ataques à escola. A maioria das lápides estava coberta de flores, velas e bandeiras do Irã, com a fo­to da pessoa assassinada em cima. Uma mulher de meia-idade, de chador, estava ajoelhada, lavando com água e sabão a lápide de uma criança. Desde o sepultamento das crianças, grupos de pessoas fazem da ida àquele local um compromisso diário. À noite, famílias se reúnem perto da lápide do seu filho, neta, irmã ou sobrinho, estendem toalhas no chão, sentam-se e passam horas ali.

O iraniano Jawat Shahrjoo, de 35 anos, estava sentado em uma cadeira de onde podia ver a maioria das lápides. Pai de Ali Shahrjoo, de 7 anos, que morreu nos ataques, ele visita a lápide de seu filho todos os dias, das cinco da tarde à meia-noite.

Jawat chegou à escola entre um bombardeio e outro, e foi lançado para longe no segundo ataque. “Quando finalmente consegui chegar na escola, fiquei completamente desesperado”, contou. “Tentei erguer uma criança que estava pendurada na janela e seu corpo se dividiu em dois. Havia pedaços de crianças por todas as partes.”

Sereno, ele me levou até o túmulo de seu filho. Na foto sobre a lápide, Ali tem cabelos lisos e pretos, com uma pequena franja, e sorri timidamente. “Procurei meu filho por mais de doze horas nos escombros”, disse Jawat. “Quando finalmente o encontrei, estava no hospital. Não tinha mais rosto nem pernas.”

Também encontrei no cemitério Zahra Mirani, de 32 anos, e seu marido, Abbas Mirani, de 35, que esticavam um pano para se sentar ao lado da lápide de Arsha Mirani, seu filho de 7 anos. Ele relatou o que viveu naquele sábado: “Às nove e meia da manhã daquele dia, ficamos sabendo que a guerra havia começado. Por volta das dez horas, recebi uma ligação da professora de Arsha me pedindo para ir buscá-lo, já que por causa da guerra a escola encerraria suas atividades mais cedo naquele dia. Saí do trabalho, passei em um posto de gasolina para abastecer o carro, quando escutei o bombardeio e vi uma fumaça subindo na região da escola. Fui imediatamente para lá. Ao me aproximar do lugar dos ataques, havia muito trânsito. Deixei meu carro no meio da rua e saí correndo em direção à escola.”

Abbas mal conseguia pronunciar as palavras enquanto falava comigo. Precisava de longas pausas entre uma frase e outra. “Quando cheguei, vi muitos corpos. Comecei a procurar meu filho entre os pedaços de corpos no chão. O cheiro era horrível. As pessoas gritavam, confusas. Eu e outras dezenas de pais cavamos e removemos os escombros em busca dos nossos filhos”, recordou, com lágrimas nos olhos. “Como o segundo andar da escola era só para meninas, elas foram as primeiras que encontramos sob os escombros. Os corpos estavam destroçados, era quase impossível reconhecê-los. O que nossos olhos viram naquele dia é indizível. Buscamos nossos filhos por mais de doze horas, até encontrarmos Arsha, sem vida.”

Zahra, sua mulher, contou: “Nosso filho amava futebol, era fã do Real Madrid e apaixonado por seu irmão menor, de 4 anos, que agora o procura por todos os lados. Tínhamos comprado uma chuteira nova para ele. Naquele sábado, eu insisti que ele não fosse à escola com o tênis novo, para não estragá-lo na aula de educação física. Mas meu filho não voltou da escola naquele dia, e nunca mais vai poder usar sua chuteira nova.”

A vida da família se transformou drasticamente desde os ataques. “Não temos mais lazer. Vivemos entre nossa casa e essa lápide, todos os dias”, disse Zahra, que deu um beijo na lápide de Arsha antes de deixarmos o cemitério juntos. O casal nos convidou para jantar com eles em um restaurante tradicional próximo e, num gesto de generosidade inesperado diante das circunstâncias, me deram balas de café e fizeram questão de dizer que, se um dia eu retornar à Minab, devo me hospedar na casa deles.

12 DE JULHO, DOMINGO_Saímos de Minab de madrugada, sem termos pregado o olho. Um taxista nos conduziu até Bandar Abbas, onde cochilamos de favor no apartamento de um amigo de Ramadan. Um segundo taxista então nos levou de volta à cidade litorânea de Bandar Aftab, onde pegamos o barco para a Ilha de Kish e, depois, retornamos a Teerã.

A tensão tomou conta de nós durante toda a viagem, sobretudo ao passarmos perto do Estreito de Ormuz, o epicentro dessa guerra. Ao longo do dia, os Estados Unidos conduziram múltiplos ataques em diferentes regiões do país, e Bandar Abbas foi atacada horas depois de deixarmos a cidade. O Irã, por sua vez, continua atacando os países aliados dos Estados Unidos na região: Emirados Árabes Unidos, Catar, Jordânia, Kuwait, Omã e Bahrein.

Ao chegarmos no aeroporto de Kish, nosso voo para Teerã foi adiado por mais de seis horas, por causa do fechamento do espaço aéreo devido aos bombardeios. Quando finalmente entramos no avião, tivemos de esperar a liberação da subida do voo não só pela torre de comando, mas pelas autoridades iranianas.

Na chegada a Teerã, Ramadan e eu nos separamos. Ele me deixou em um apartamento de temporada em Sa’adat Abad, bairro no Norte da cidade. No Irã, aplicativos como Uber e Airbnb não funcionam. Aqui, grande parte das funções deles é resolvida pelo aplicativo Snapp, como contratar corridas de carro, alugar apartamentos por curtos períodos e comprar passagens de avião. O apartamento parecia um cenário de reality show: mesa de sinuca enorme na sala, balcão de cozinha vermelho, iluminação de quarto de motel.

13 DE JULHO, SEGUNDA-FEIRA_Acordei sem internet no telefone. O “chip de jornalista” que Ramadan havia me dado no meu primeiro dia no país parece ter chegado ao fim de sua vida útil. Resolvi mudar de locação. Consegui entrar em contato com o hostel Firouzeh Heritage, no distrito 7, próximo ao bairro de Iranshahr. Ao contrário do que se pode imaginar de um hostel – pessoas jovens de todas as partes do mundo em férias –, o local estava repleto de iranianos na casa dos 30 a 40 anos, vindos de outras partes do país para trabalhar em Teerã. Encontraram aqui uma espécie de comunidade e refúgio.

Enquanto esperava meu quarto ficar pronto, fui para a varanda e pedi um cigarro para puxar conversa com dois homens sentados ali. Curiosos com a presença de uma brasileira em um hostel em Teerã, Matassem, de 32 anos, nascido no Curdistão iraniano, e Mohammad, de 31, natural do Norte do Irã, logo se sentiram confortáveis em contar um pouco da vida deles. O primeiro é médico e vive no hostel há cerca de um ano. “Aqui tenho uma comunidade”, disse o curdo. “Isso para não falar do custo de vida em Teerã, que é altíssimo. Tudo ficou ainda mais difícil desde o começo desse ano.”

Contei que tinha acabado de retornar de Minab, no Sul do Irã, e testemunhado o quanto a guerra afetou o povo iraniano. “Não é tão simples assim”, ele disse. “O que aconteceu em Minab é muito triste, mas o responsável foi um governo estrangeiro. Acho que é ainda mais triste ter visto o meu próprio governo atirar em milhares de pessoas, inclusive mulheres e crianças, em janeiro deste ano.” Seu semblante era calmo, como se falasse de um assunto trivial, embora seu tom da sua voz transmitisse dor e desesperança. “A guerra é horrível, claro. Mas muitos iranianos querem que essa guerra continue porque pensam que é a única forma de derrubar o regime”, completou.

Interrompi a conversa quando minha carona chegou. Fora do hostel me esperava, em cima de sua moto, a iraniana de 24 anos que eu contatei para uma conversa sobre o país e que me pediu para não ter seu nome publicado. Fomos apresentadas por Rogger, um amigo brasileiro em comum que a havia conhecido em Teerã em setembro de 2022. Eu não a havia contatado à toa – sabia que ela, a motociclista, foi ativa nos protestos no Irã nos últimos quatro anos. “Mulheres não podem ter carteira de motorista para motos no Irã”, ela me contou. “Então, por isso, teoricamente, eu não poderia estar te conduzindo. Mas confia em mim, vai dar tudo certo.”

Nossa primeira parada foi na galeria de arte Soo Contemporary. A exposição da artista Fahimeh Haghighi parecia uma coleção de coelhos brancos meio psicodélicos, mas ela logo me explicou o significado do trabalho. O animal faz referência ao episódio veiculado pela rede televisiva americana NBC News, em abril de 2019, em que, na saída de um bar em Orlando, nos Estados Unidos, um homem fantasiado de coelho branco brigou com outro homem para defender uma mulher que estava sendo violentada. Na exposição, vi materializado um aspecto da cultura iraniana que já havia notado no comportamento de Ali Reza Ramadan: tudo é dito nas entrelinhas, ou por meio de alusões e metáforas. É quase como se os silêncios falassem.

Em seguida, a motociclista me levou à Rua Iranshahr. Cheia de cafés descolados, lojas de decoração, grupos de jovens com roupas góticas e nenhum sinal de hijabs. Poderia facilmente ser confundida com uma rua europeia. Fomos até o Cafe Type, decorado com máquinas de escrever de todos os tipos. Ali, ela se abriu sobre os últimos quatro anos da sua vida. Lésbica, amante de corrida de rua, formada em literatura inglesa pela Universidade de Teerã e criadora de conteúdo para atletas, a jovem iraniana parecia ter, em sua linha do tempo, dois marcos temporais bem estabelecidos, separando um antes e depois: em setembro de 2022, a morte da jovem Mahsa Amini quando estava sob custódia do Estado iraniano e o movimento Mulher, Vida, Liberdade; em janeiro de 2026, os protestos populares que antecederam a guerra atual.

“Em setembro de 2022, eu ainda fazia universidade e morava com minha ex-namorada e seu irmão. Naquela época, absolutamente todas as mulheres usavam hijab nas ruas”, ela contou. “A regra era clara: se você não queria ser presa ou ser incomodada pela Polícia da Moralidade, deveria cobrir seu cabelo completamente e usar roupas que cobrissem o corpo inteiro.”

A Polícia da Moralidade à qual se referiu era um braço das autoridades estatais iranianas. Sua função era fiscalizar regras de conduta social, como não beber álcool, usar corretamente o hijab, vestir roupas modestas. Essa polícia pode ter sido abolida (não se sabe ao certo) em dezembro de 2022, em consequência da pressão exercida pelos protestos do movimento Mulher, Vida, Liberdade. “Ficamos sabendo da morte de Mahsa Amini pelas redes sociais, já que as mídias controladas pelo Estado não disseram nada a respeito”, recordou ela. “O Instagram era a nossa principal fonte de informação sobre o que realmente estava acontecendo no país. Começamos a nos organizar para sair às ruas. Eu e o irmão da minha ex-namorada fomos aos protestos – ela não quis ir porque tinha muito medo.”

A jovem contou que a presença da Guarda Revolucionária Islâmica nos protestos não era facilmente perceptível, já que seus homens se vestiam à paisana e se mesclavam com os civis, revelando sua identidade somente quando estavam prestes a prender alguém. A Guarda Revolucionária é um braço das Forças Armadas iranianas que possui serviço de inteligência próprio e funciona como um aparato de resguardo de interesses políticos do Irã, inclusive fora do país. “Brincamos entre nós que ser pego pelo serviço de inteligência iraniano é sinônimo de sorte”, disse ela, rindo. “O tratamento oferecido pela Guarda Revolucionária é menos institucional que o do serviço de inteligência. Você pode desaparecer nas mãos deles.”

Ela enfatizou a importância das universidades de Teerã no movimento iniciado em 2022 contra os excessos do Estado. “A dissidência nasceu nas nossas salas de aula. Nós nos organizamos nos campus. O Irã mudou muito desde então”, disse. “Gradualmente, fomos nos sentindo confortáveis para não usar mais o hijab. No começo, eu tinha medo de ser violentada pelas pessoas na rua. Hoje, não me preocupo mais, até saio para correr de shorts. Mahsa Amini não morreu em vão.”

O segundo marco temporal da história dela e de seu país é o início de janeiro deste ano, quando milhões de iranianos saíram às ruas para protestar contra o regime. “A diferença entre os protestos de setembro de 2022 e os de janeiro de 2026 é que no primeiro eles vieram para nos prender; no segundo, para nos matar”, resumiu. “Depois do que eu vi, sei que a nossa libertação só poderá vir de fora.” Durante os protestos, ela foi baleada duas vezes na perna. Balas também passaram de raspão em sua orelha.

Com tantas mortes, os protestos de janeiro foram seguidos por um período de silenciamento no Irã. O governo mergulhou a população em um blecaute de internet de cerca de quarenta dias. Até hoje grande parte da população continua com acesso limitado à rede, já que o preço dos dados móveis aumentou significativamente. A motociclista, que trabalhava como produtora de conteúdo de internet para atletas, perdeu do dia para a noite sua fonte de sustento. “Tem sido difícil reencontrar razões para viver. A corrida me ajuda a manter a cabeça no lugar. Eu preciso estar forte e conseguir correr muito, você sabe, para o próximo protesto”, completou, sarcástica.

A vida daquela iraniana pairava, desesperançosa, em algum lugar no meio de duas narrativas. De um lado, o anti-imperialismo professado pelo governo iraniano – a retórica de resistência contra décadas de intervenção ocidental na região e contra sanções que sufocam a economia do país há mais de quatro décadas. De outro, a guerra travada pelos Estados Unidos e Israel, movida sob o argumento de pretender libertar o povo iraniano do regime dos aiatolás e impedir a produção de armas nucleares.

Uma guerra que até agora não libertou ninguém e já matou mais de 3,5 mil iranianos, entre eles as 120 crianças de Minab, brutalmente bombardeadas.


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Advogada e jornalista, mestre em Direitos Humanos e Ação Humanitária com foco em Oriente Médio pela Sciences Po Paris. Cobriu o conflito entre Israel e Hezbollah e a queda de Bashar al-Assad na Síria