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João Batista Jr. piauí_239 06 Ago 2026
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Marcus Vinícius Teixeira Soares dos Santos anda preocupado com a política migratória de Portugal. Ele acredita que a entrada de estrangeiros no país europeu prejudica a economia, leva a saúde pública ao colapso e aumenta a criminalidade. São ideias perfeitamente alinhadas à plataforma anti-imigração do Chega, partido de extrema direita pelo qual Santos se elegeu deputado, em 2024.
O curioso é que Santos, de 47 anos, é ele mesmo um imigrante – um carioca negro, nascido na Ilha do Governador. Em 2019, ele se mudou para a cidade do Porto, onde deu aulas de artes marciais, antes de se tornar deputado. “Quando você sai de um país para ir ao outro, tem de se adaptar àquela cultura e respeitar”, me diz Santos, em uma sala de reunião do Palácio de São Bento, prédio do século XVI onde funciona a Assembleia da República, o Parlamento português, em Lisboa.
O Chega não faz parte do atual governo do primeiro-ministro Luís Montenegro, que é de centro-direita, embora ocupe hoje 60 das 230 cadeiras na assembleia, que é unicameral (não existe Senado em Portugal). Na visão de Santos, a bancada de que ele faz parte já evitou uma profunda mudança no país: “Portugal estava a se transformar em uma Arábia Saudita.”
Como o Alternativa para a Alemanha, o Reunião Nacional na França e outras agremiações da extrema direita europeia, o Chega emprega um argumento padronizado para justificar sua rejeição muito particular aos imigrantes egressos de países islâmicos. Santos o resume assim: “Os muçulmanos têm dificuldade em se adaptar à cultura judaico-cristã.” Neste ano, o Chega conseguiu aprovar na Assembleia uma lei proibindo o uso da burca em Portugal, sob pena de multa que pode variar de 150 a 750 euros, em caso de negligência.
Santos lamenta ainda o aumento significativo de imigrantes asiáticos, como os de Bangladesh. “Tem muitos motoristas de aplicativo que sequer falam português”, reclama. Mas é simpático a franceses, americanos, brasileiros ricos, “e até árabes”, que compram imóveis e quintas em Portugal: “Eles não causam problemas.”
Os imigrantes não aculturados seriam responsáveis, na avaliação de Marcus Vinicius Santos, por uma onda de crimes em Portugal. Houve nos últimos anos um ligeiro aumento no número de homicídios no país: 98 foram registrados no ano passado, nove a mais do que em 2024. Mais da metade deles, porém, foram cometidos por conhecidos da vítima (28% eram vizinhos; 15%, familiares; e 13%, cônjuges).
Ao todo, em 2025 houve 365 802 registros policiais, como condução sob efeito de álcool e sem habilitação. A criminalidade violenta – assalto, estupro, homicídio – representa 4% do total de casos. Santos fala muito em um crescimento no número de sequestros-relâmpagos, mas não houve, em 2025, nem um só caso registrado desse crime.
O Índice Global da Paz coloca Portugal entre os dez países mais seguros do mundo. Mas Santos desdenha dos dados oficiais, acusando governo e imprensa de divulgarem apenas crimes cometidos por portugueses, para proteger os imigrantes. Uma das bandeiras de seu partido prevê que pessoas com dupla cidadania – o que é o caso de Santos, que tem passaporte brasileiro e português – deixem de ser cidadãs de Portugal se cometerem um crime. Essa medida não foi para a frente por não ter amparo na Constituição.
Filho de um oficial da Aeronáutica e de uma dona de casa, Marcus Vinícius Santos foi criado em um lar de classe média. Dois hábitos cotidianos reuniam o futuro deputado português e seus três irmãos na sala da casa: ver o telejornal com o pai e as novelas com a mãe. “Eu nunca gostei de ler”, admite.
Ele recorda que seu primeiro contato com a direita foi por via postal. Como muitos integrantes das Forças Armadas no Rio de Janeiro, seu pai recebia cartões de aniversário e de Natal enviados pelo gabinete de um deputado que então tinha nos militares sua base eleitoral: Jair Bolsonaro.
Na infância, Santos começou a praticar artes marciais para controlar a hiperatividade. Em 1999, aos 20 anos, foi um dos lutadores que representaram o Brasil no Campeonato Pan-Americano de Jiu-Jítsu, na Flórida. Encantado pelos Estados Unidos, decidiu ficar no país. “Eu não falava inglês. Fui morador de rua por um tempo”, conta. Chegou a dormir dentro de um contêiner de lixo, perto da academia onde treinava, por receio de ser visto pela polícia.
Foi assim até que o dono da academia apresentou o jovem brasileiro a um bondoso haitiano, que o abrigou em sua casa, em Winter Haven, localidade a 75 km de Orlando. “Esse senhor me adotou”, diz. “A mulher dele trabalhava como faxineira na Disney, e ele, na academia.” Com essa família, Santos aprendeu inglês e crioulo haitiano. Voltou para o Brasil no limite da validade do visto de seis meses.
Tempos depois, tentou de novo o sonho americano. Foi detido duas vezes (mas não deportado, garante) por trabalhar com visto de turista, em 2004 e 2005. Ele diz que mais tarde acertou sua situação legal e até se tornou sócio da Champions MMA, uma rede de academias na Flórida. “Obtive a faixa preta em jiu-jítsu com o Santos, uma das pessoas mais legais que já conheci”, me disse, por telefone, Ross Kellin, dono da rede de academias Champions MMA. Os dois não são mais sócios, mas Santos empresta a sua imagem às academias de Kellin. Sobre o seu ex-professor ter se tornado político em Portugal, o americano afirma: “Tem de respeitar as regras do país. Imagina alguém ir ao Brasil e não aceitar açaí, guaraná e outras questões locais?”
Santos tem dois filhos, de relacionamentos diferentes. Gracie, de 24 anos (o nome homenageia os Gracie, famosa família brasileira dedicada às artes marciais), mora no Brasil. Carlson, de 12 anos (em homenagem a Carlson Gracie, patriarca da família), nasceu em Portugal. O primeiro contato com o Chega se deu por meio do Facebook, em 2019, antes de a legenda ser oficializada. “Eu fui um dos fundadores do partido no Porto”, orgulha-se. Pela mesma época, ele estabeleceu contato com a família Bolsonaro. Viajou de Lisboa para o Rio especialmente para participar de comícios ao lado de Flávio e Eduardo Bolsonaro.
Em março de 2025, jantou na casa de Jair Bolsonaro na Barra da Tijuca, seis meses antes de o ex-presidente ser condenado por tentativa de golpe. Ainda atento à política brasileira, Santos já decorou a desculpa para o enrosco de muitos milhões de dólares de Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro: “Ele foi buscar dinheiro privado para fazer um filme.”