Maltratado pelo Republicanos, Eduardo Cunha tentou se filiar ao PL, ao Podemos, ao PP, ao PSD, ao Avante e ao MDB – todos o recusaram. Sem opção, acabou ficando no Republicanos mesmo - CRÉDITO: KLEBER SALES_2026
Maltratado pelo Republicanos, Eduardo Cunha tentou se filiar ao PL, ao Podemos, ao PP, ao PSD, ao Avante e ao MDB – todos o recusaram. Sem opção, acabou ficando no Republicanos mesmo - CRÉDITO: KLEBER SALES_2026

vultos do voto

O MORTO-VIVO

Em pré-campanha, Eduardo Cunha continua fiel a Eduardo Cunha

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Caía a noite sobre o Estádio Municipal Engenheiro João Guido, o Uberabão, quando os 1 500 torcedores do Uberaba Sport Club explodiram nas arquibancadas com o primeiro gol. O Zebu, apelido que se refere à mascote do clube e à tradição pecuária da região, estava fazendo sua estreia na segunda divisão do Campeonato Mineiro e saía à frente do Caldense, também um dos times mais antigos de Minas Gerais. No camarote, quem comemorava com ardor o gol do Zebu, que acabaria vencendo a partida por 2 a 0, era Eduardo Consentino da Cunha.

Eduardo Cunha? O ex-deputado federal que se elegeu quatro vezes pelo Rio de Janeiro? Celebrando vitória do Zebu no Uberabão? O ex-deputado que foi cassado pela quase totalidade de seus pares na Câmara dos Deputados por esconder alguns milhões em uma conta secreta na Suíça? Que ficou quatro anos e meio preso? Que instaurou e conduziu com o fígado o impeachment de Dilma Rousseff? Sim, ele mesmo. Estava lá, naquele sábado frio de maio, vibrando com os braços no ar, um boné laranja e uma blusa vermelha com o escudo do Uberaba e o patrocínio de sua rádio – a “Rádio Maravilha”, aquela “de todas as igrejas, que toca o som do Céu”.

Desde que deixou a prisão em 2021, Eduardo Cunha está focado em seu projeto de vida: voltar à Câmara dos Deputados. No Rio, a coisa não foi adiante, dado que o ex-deputado preferiu lançar no estado a candidatura de sua filha, Danielle Cunha, e não havia espaço político para tanto Cunha. Em 2022, transferiu seu título eleitoral para São Paulo e, equilibrando-se numa decisão judicial provisória que lhe devolvia os direitos políticos, lançou-se a deputado federal pelo PTB. Teve apenas 5 mil votos.

Em 2024, voltou então suas atenções para Minas Gerais, onde nunca morou, nunca teve parentes nem negócios. “Minas é a síntese do Brasil”, diz ele, toda vez que sobe num palanque. “Aqui, convivem realidades diferentes, regiões com perfis distintos, fronteiras com seis estados.” Mas Eduardo Cunha não está em busca de sínteses nem diferenças. Quer votos para eleger-se deputado federal pelo Republicanos.

“O Uberaba Sport é um nicho político dele hoje”, diz o presidente do clube, Rodrigo Alcino, que pretende concorrer a deputado estadual em dobradinha com Cunha. Os outros dois nichos de Cunha, diz Alcino, são a periferia de Uberaba, cidade de 350 mil habitantes, e as igrejas evangélicas, ele que é membro da Assembleia de Deus, Ministério de Madureira. Daí, as visitas frequentes a Uberaba. Daí, a rádio “de todas as igrejas”. Daí, a torcida para que o Zebu ascenda à primeira divisão do Campeonato Mineiro. “Daria um retorno eleitoral muito grande para ele”, diz o cartola.

Para conquistar a simpatia do Zebu, Eduardo Cunha abriu o bolso. “Ele está investindo no clube, em estrutura, nos atletas”, festeja Alcino. Graças aos aportes financeiros de Cunha (cujo valor o cartola não revela), o gramado do campo foi trocado, o ônibus da equipe também, o centro de treinamento tem novos equipamentos e até a alimentação dos atletas melhorou. Indagado sobre o investimento, Cunha nega que tenha feito “qualquer investimento direto”. Diz que o dinheiro chega ao clube apenas por meio de publicidade da Rádio Maravilha.

Já os eleitores evangélicos são alcançados por Cunha por meio de suas visitas a templos e, claro, pelas ondas da Maravilha FM, que se transformou num fenômeno radiofônico. Inaugurada em julho do ano passado com um único estúdio em Belo Horizonte, hoje, apenas um ano depois, seu sinal já atinge quase 60% do estado e seus estúdios se espalham por 32 cidades. Só nos últimos meses, passou a ser retransmitida em João Pinheiro, Pirapora, Pouso Alegre, Varginha, Cambuí, Governador Valadares, Ubá, Uberaba, Patos de Minas, Leopoldina, Juiz de Fora, Ipatinga e Teófilo Otoni – todos municípios onde Cunha busca votos.

Circulando a bordo de um helicóptero Agusta A109, que, novo, não sai por menos de 7 milhões de dólares, Cunha chama a atenção onde a população não está habituada a ver políticos voando. No Sul do estado, em cidades como Itaú de Minas e Nepomuceno, e na Zona Mata, em cidades como Leopoldina, a chegada de Cunha em helicóptero até virou notícia nos jornais locais. E o dinheiro para voar assim? “Qualquer despesa de viagem que porventura eu tenha feito ocorreu dentro da minha possibilidade”, diz o ex-deputado e completa afirmando que o veículo que mais usou em suas andanças por Minas foi o seu próprio carro.

Quando indagado sobre suas despesas, Cunha tem uma resposta na ponta da língua. “Não estamos ainda em período eleitoral para ter de dar satisfação do montante que tenho gasto.” De fato, a campanha só começa no dia 16 de agosto, mas até seus aliados reconhecem que Cunha está em plena campanha – e não é de agora. Sua rotina não chega a diferir muito da de outros candidatos. Fora a singularidade de ser um ex-presidiário cassado cabalando votos num estado em que não tem conexões e chegar às cidades mineiras pelos céus, Eduardo Cunha tem feito o que faz boa parte dos candidatos. Mas há uma notável exceção: o uso de dinheiro público.

"Ele colocou aqui 1 milhão e 50 mil reais na saúde!” A alegre exclamação é do vereador Guilherme Coxa (PP), ex-presidente da Câmara Municipal de João Pinheiro, no noroeste de Minas. Eduardo Cunha deixou boa impressão no vereador. “Fez isso sem ser nada em Minas Gerais”, disse ele, espantado com a generosidade do forasteiro. “Apesar de todos os escândalos em que se envolveu, ele deve ter seus mil, mil e quinhentos votos aqui.” A bolada para a saúde de João Pinheiro, cidadezinha de 46 mil habitantes, coincidiu com a chegada de Cunha ao município, onde desembarcou para comprar duas rádios locais e integrá-las à rede Maravilha. “Alô, dr. Eduardo Cunha, aqui é Gláucon, prefeito de João Pinheiro. Passando para lhe agradecer pelos investimentos, por confiar no nosso município”, publicou, em suas redes sociais, o chefe do executivo municipal, filiado ao Novo. E prosseguiu: “E já tem uma promessa, que eu estou sabendo, de mais 1 milhão de reais.”

Os exemplos da prodigalidade do ex-deputado estão por toda a parte. “Notícia boa não para de chegar!”, comemorou, no final do ano passado, o vereador Mica Carvalho (MDB), da pequena Piau, cidade na Zona da Mata com pouco menos de 3 mil moradores. “Uma parceria minha [...] juntamente com o Eduardo Cunha hoje destinou o valor de 300 mil reais. Esse valor vai ser destinado à compra de medicação”, disse o vereador em vídeo postado nas redes da prefeitura. “Sem ser deputado, ele conseguiu 990 mil reais para nós”, contou à piauí o prefeito de Cássia, Donizete Vilela (Cidadania), que recebeu o ex-deputado em meados de 2024. “Ele é muito simpático, muito articulado. Tem que tirar o chapéu para ele.”

Como Eduardo Cunha, “sem ser deputado”, conseguia distribuir verba federal com tanta facilidade? A magia intrigava os concorrentes, mas, em julho passado, as coisas começaram a ficar mais claras – e assombrosas. Eduardo Cunha estava manipulando verbas do orçamento secreto na Câmara dos Deputados, como se fosse um parlamentar. Uma investigação da Polícia Federal descobriu a manobra clandestina e informou o caso ao ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, que mandou bloquear 6,15 milhões de reais que o ex-deputado conseguiu distribuir a aliados e assim irrigou sua campanha em Minas Gerais.

Os 6,15 milhões estavam previstos em 21 emendas, todas destinadas a cidades mineiras e todas, nas palavras do ministro Dino, “forjadamente documentadas para escamotear o verdadeiro solicitante”. Funcionava assim: Cunha previa a distribuição de verba pública para uma determinava cidade e um deputado amigo aparecia publicamente como autor da emenda, embora fosse apenas um laranja. No caso da emenda em favor da cidade de João Pinheiro, por exemplo, o solicitante oficial foi o deputado Gilberto Abramo (Republicanos-­MG), que não quis dar entrevista à piauí. Depois que o esquema foi publicamente revelado, o vereador Mica Carvalho, que propagandeou sua parceria de 300 mil reais com Cunha, apagou o vídeo das redes sociais da Prefeitura de Piau.

A Polícia Federal obteve indícios concretos do esquema por meio de mensagens trocadas entre Eduardo Cunha e uma servidora da Câmara, Mariângela Fialek, a Tuca. Ela é encarregada de organizar a logística da mina de ouro das emendas do orçamento secreto desde a gestão do deputado Arthur Lira (PP-AL) e continua a cumprir a mesma função na gestão de Hugo Motta (Republicanos-PB). A PF suspeita que Cunha tinha autorização de ambos para operar seu esquema. Numa mensagem em que orienta Tuca sobre uma emenda, Cunha diz que havia conversado com “Arthur” e “Hugo”.

Lidas no conjunto, as conversas com Tuca mostram que Eduardo Cunha pintava o sete. Numa mensagem, conforme descreve o ministro Dino em sua decisão, Cunha tinha “uma cota informal de valores” do orçamento para distribuir – um descalabro em se tratando de alguém que não tem mandato. Em outras mensagens, Cunha orientava o destino do dinheiro, trocava uma cidade por outra, redefinia um valor aqui e outro acolá. Em outra mensagem ainda, irritado com a burocracia para despachar a verba, Cunha desabafou: “Eu não aguento mais esses mineiros enrolados.” Em seguida, mandou mudar o destino da emenda. “Troca a de Governador Valadares por essa, pois lá também criaram caso [...]. É mais fácil trocar.”

O uso eleitoreiro das emendas era descarado. Na cidade de Manhuaçu, por exemplo, a distribuição da verba federal, por obra de adversários, estava sendo atribuída ao deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), e não a Eduardo Cunha. O ex-deputado então até ameaçou cancelar o benefício. Para faturar eleitoralmente, ele precisava que o dinheiro fosse claramente atribuído a Gilberto Abramo, seu deputado laranja, “senão vamos ter de trocar e não mandar para lá”. (De acordo com a prestação de contas da Prefeitura, Manhuaçu não recebeu a verba.)

Na prática, Cunha era um “agente privado com poderes políticos equivalentes ou até superiores aos de parlamentares em exercício”, afirma o relatório da Polícia Federal entregue ao ministro Dino. “Isso revela um quadro de gravíssimo desvio de finalidade, pois as emendas, criadas para atender demandas legítimas de representantes eleitos, acabam subordinadas a um esquema informal coordenado por quem não mais responde ao eleitorado, ao Parlamento ou às regras republicanas de transparência.”

No bojo da mesma investigação, descobriu-se que o esquema era mais amplo e beneficiava também o ex-deputado Valdemar Costa Neto, o eterno presidente do PL. No seu caso, a cota que o ministro Dino mandou bloquear chega a 119 milhões de reais. De início, instado a dar explicações, Valdemar disse que um presidente de partido fazer indicações de emendas era a “coisa mais natural do mundo”. Pegou tão mal que Valdemar refez a declaração mais tarde, optando por dizer que apresentava apenas “sugestões” de emendas, jamais indicações. Para a PF, a atuação clandestina de Cunha e Valdemar mostra “sintomas inequívocos de cometimento dos crimes de peculato”.

Procurado pela piauí, Cunha mandou sua assessoria de imprensa dizer que as emendas foram “oficialmente apresentadas e indicadas por parlamentares, bancadas ou órgãos legitimados, os únicos que possuem competência sobre o processo orçamentário”. E disse que “não apresentou, subscreveu ou formalizou nenhuma das emendas mencionadas na reportagem”. Em esquemas clandestinos, os autores tendem de fato a não apresentar, nem subscrever, nem formalizar nada. A servidora Mariângela Fialek, por sua vez, disse que sua atuação era estritamente técnica, apartidária e impessoal.

Pelo seu passado e seu presente, Eduardo Cunha enfrenta algumas dificuldades no curso da pré-campanha. Em Teófilo Otoni, por exemplo, foi recebido na periferia da cidade com uma faixa que atravessava a rua e onde se lia: “EDUARDO CUNHA, TEÓFILO OTONI SABE O QUE VOCÊ FEZ NO VERÃO PASSADO. NÃO VOTAMOS EM CORRUPTO!”

No verão passado, Cunha jogou como atacante em várias posições do crime. No início de sua carreira política, envolveu-se com ninguém menos que Paulo César Farias, o PC Farias – tesoureiro que dividia propina com o então presidente Fernando Collor. Por indicação de PC Farias, Cunha presidiu a Telerj, então estatal fluminense de telecomunicações, onde se enrolou num escândalo de superfaturamento em um contrato milionário. Chegou a ser investigado por corrupção, mas o caso acabou em pizza.

Mais adiante, arquitetou um esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas numa operação em que a Petrobras comprou blocos petrolíferos em Benin, na costa ocidental da África. Também cobrou propina em contratos de construção de navios-sonda celebrados pela Petrobras com um estaleiro estrangeiro. Pelo esquema de Benin, pegou 14 anos e 6 meses de prisão. No caso dos navios-sonda, mais 15 anos e 11 meses. Em 2016, por decisão do então juiz Sergio Moro, deu entrada no presídio de Pinhais, no Paraná, e depois esteve em Bangu, no Rio de Janeiro.

Na prisão, frequentou cultos evangélicos, aderiu a programas de leitura para remição de pena – leu a Bíblia e o clássico existencialista O estrangeiro, de Albert Camus –, trabalhou servindo café da manhã e quentinhas aos apenados, dividiu cela com o ex-ministro petista José Dirceu e escreveu, em parceria com a filha Dani Cunha, um catatau de 808 páginas, Tchau, querida: o diário do impeachment.

No livro, Cunha se apresenta como um “homem de bem”, republicano nato preocupado com os destinos da nação e polo passivo de uma disputa insólita contra um governo ardiloso que o atacava injustificadamente a todo momento. Já seus desafetos na direita são descritos como políticos mal-agradecidos, inescrupulosos e sem palavra, que o abandonaram às feras depois que sua função no impeachment estava cumprida.

Em abril de 2021, mesmo ano que Tchau, querida chegou ao mercado, sua sorte começou a mudar. Em meio à pandemia, sua prisão preventiva foi revogada. Cunha deixou então a prisão depois de quatro anos e meio entre os presídios do Paraná e do Rio de Janeiro. Pouco depois, o Supremo Tribunal Federal anulou sua primeira condenação por entender que fora julgado na esfera judicial errada. Dois anos depois, a segunda condenação também caiu por terra sob o mesmo argumento.

Hoje, responde a outros sete processos por corrupção no STF.

Com esse passivo, volta e meia seu caminho na campanha fica obstruído – e não é apenas em Teófilo Otoni. Às vezes, alguns correligionários evitam até divulgar seus encontros públicos com o ex-deputado. Em 25 de abril, Cunha esteve na 91ª edição da ExpoZebu, evento tradicional de Uberaba. Ali, foi tratado com cortesia por Ronaldo Caiado, o presidenciável do PSD, e seu vice, Gilberto Kassab. Meio incomodado, o governador Mateus Simões, também do PSD e postulante ao governo mineiro, deu um sorriso amarelo, mas mandou um alô ao ex-­deputado. Todos os encontros foram filmados pela assessoria de Cunha e postados em sua rede social, embora nenhum dos outros políticos tenha feito o mesmo em suas redes.

De vez em quando, as barreiras aparecem até mesmo entre os evangélicos. Em janeiro, por exemplo, Cunha convidou-se para o aniversário do pastor Emerson Magno, de Montes Claros. O ex-deputado esteve só 10 minutos com o pastor, contou sobre seus planos radiofônicos e, sem rodeios, pediu apoio à sua eleição. O pastor, receoso, disse que ia pensar no assunto. Enquanto pensava, começou a circular nas redes um vídeo do aniversário do pastor em que Cunha aparecia. A repercussão foi péssima. “A igreja virou palanque político, triste”, lamentou um internauta. “Aqui, não, pica-pau”, respondeu outro.

Os protestos ajudaram o pastor a decidir. “Liguei para o ex-deputado e falei que não queria ligar a minha imagem e da igreja [à campanha dele]”, lembra o pastor. “Tenho amigos pastores que são muito ligados ao Eduardo há muitos anos. E apesar de todo aquele passado, que é visível e ocorreu, falam muito bem dele”, conta Emerson Magno. Ele justifica sua decisão de tomar distância: “Não é um julgamento de valores, é você não querer manchar aquilo que construiu. Se a gente puder fazer algo para ajudar a cidade, o.k., mas desde que isso não seja uma lepra.” Depois, Cunha voltou a Montes Claros e convidou o pastor para visitar os estúdios da Maravilha FM. Magno declinou novamente.

A “lepra” de que fala o pastor chegou ao ambiente partidário. Em agosto do ano passado, quando dava seus primeiros passos para viabilizar sua candidatura, Cunha foi atingido pela metralhadora verbal do senador Cleitinho Azevedo, seu colega no Republicanos que batalha para ser candidato ao governo de Minas. “Aqui em Minas tem um canalha, um vagabundo, que chama Eduardo Cunha, que está vindo para cá agora, querendo fazer campanha para deputado federal. Vocês vão ter coragem de votar num vagabundo desse?”, disse Cleitinho em um vídeo do Instagram. Em resposta aos desaforos, Cunha está processando o senador no STF.

Com a recepção pouco calorosa, Cunha tentou mudar de partido. Primeiro, bateu à porta do PL. Valdemar Costa Neto, dono do partido, gostou da ideia, mas a bancada mineira reagiu. Os deputados temiam que o passado de corrupto de Cunha respingasse nas demais candidaturas. Cunha continuou seu périplo partidário e ouviu negativas do Podemos, do PP, do PSD, do Avante e do MDB, legenda na qual, um dia, deu as cartas com desembaraço. As recusas seguiam um roteiro teatral: o líder nacional do partido demonstrava boa vontade, mas, ao consultar a bancada estadual, constatava o risco de debandada, pedia sinceras desculpas ao ex-­deputado e encerrava as negociações.

Sem outra opção, Cunha permaneceu no Republicanos, onde ninguém assume que lhe abriu as portas. Ouvido pela piauí, o deputado Marcos Pereira, presidente nacional do Republicanos, desconversa. “Assuntos estaduais devem ser tratados com as executivas estaduais.” O presidente estadual, o deputado licenciado Euclydes Pettersen, também desconversa. Em entrevista ao jornal O Tempo, disse: “Cunha já estava filiado antes mesmo da nossa entrada. Não houve decisão do diretório estadual, simplesmente ele permaneceu.” (O próprio Pettersen é um político radioativo: a CPI que investigou o escândalo do INSS pediu seu indiciamento sob a suspeita de que recorreu a empresas de fachada para ocultar propinas. “Narrativa meramente política”, rebate ele.)

A decisão de Cunha de ficar no Republicanos não se deu apenas por falta de alternativas. Há também cálculo político. Gleidson Azevedo, o irmão gêmeo do senador Cleitinho, será candidato a deputado federal e, como é popular em Divinópolis, cidade da qual já foi prefeito, estima-se que arrebanhará um enorme balaio de votos. A regra do coeficiente eleitoral pode produzir a ironia das ironias: os votos de Gleidson, que também não gosta do “canalha, vagabundo”, podem ajudar a eleger Eduardo Cunha.

O ex-prefeito de Divinópolis se revolta contra as regras. “Acho um absurdo um deputado poder puxar outros. Se a Câmara tem 513 deputados, os 513 mais bem votados é que deveriam ser eleitos”, diz. Ao ser indagado sobre o caso de Eduardo Cunha, Gleidson se zangou. “Vocês estão gravando, né?!”, disse, encarando a câmera do celular na mão de seu assessor. “Eu acredito que você veio aqui a mando dele [Cunha]. Eu não sou bobo, não!”, reagiu. Esclarecido o caso, o ex-prefeito se acalmou um pouco. “Em Divinópolis, acho que ele não terá nenhum voto.”

Entre políticos cuja reputação já está avariada, Eduardo Cunha tem nadado de braçada. Em uma viagem, Cunha reuniu-se com o ex-prefeito de Pirapora e Lagoa dos Patos, Warmillon Braga, ex-União Brasil, dono de extensa ficha criminal. Braga, 61 anos, já foi denunciado e preso por desvio de verbas públicas, fraudes em licitações e obstrução da Justiça. Desde novembro de 2023, é investigado pela Polícia Civil de Minas Gerais pela suspeita de aliciamento de menores e pedofilia, acusações que sempre negou. A piauí não conseguiu contato com o ex-prefeito.

Em Uberlândia, onde inaugurou uma estação da Maravilha FM, Cunha contou com a presença do ex-senador Wellington Salgado (MDB), a quem a Justiça tenta há mais de um ano e meio notificar de uma ação penal em que ele aparece como suspeito de transmissões clandestinas de tevê. Um dos possíveis locais em que os oficiais de Justiça poderiam encontrá-lo é a sede da Unitri, o centro universitário que pertence ao ex-senador. O endereço eles já têm: em junho de 2025, a Unitri foi alvo de uma operação de busca e apreensão em um processo que trata de uso indevido de propriedade intelectual nos materiais dos cursos a distância da instituição.

Em Prudente de Morais, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Cunha esteve com o ex-prefeito Haroldo Cunha Abreu (PP). Assim como ao ex-deputado, a Lei da Ficha Limpa tem causado insistentes aborrecimentos a Abreu. Ele está inelegível desde 2019, por não ter prestado satisfações ao Tribunal de Contas da União quanto ao uso de repasses do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação ao município.

Os enrolados do mundo evangélico também fazem parte da lista. O apóstolo Valdemiro Santiago, líder da Igreja Mundial do Poder de Deus, anda inaugurando igrejas na companhia de Cunha. Na abertura de um templo em Araxá, na região do Alto Paranaíba, em abril do ano passado, Santiago, olhos nos olhos com o ex-deputado, discursou aos fiéis: “Esses dias eu desejei que o senhor estivesse lá [na Câmara] de novo.” E profetizou: “Vamos em frente, porque Deus vai abençoar, e tudo vai voltar a ser como era antes.”

Por suas dívidas milionárias com o fisco, aluguéis e trabalhadores das igrejas, Santiago teve penhorada uma mansão em Ilhabela, no litoral paulista, um apartamento em Rondonópolis, em Mato Grosso, que custa em torno de 2 milhões de reais, e um helicóptero que, novo, valeria 10 milhões de reais, além de um dos templos da sua congregação, em São Paulo, avaliado em 33 milhões de reais. Em 2021, o apóstolo foi investigado por suspeita de estelionato. Na pandemia, vendia feijão com a milagrosa propriedade de “curar a Covid”. O caso foi arquivado.

A Maravilha FM é o grande cabo eleitoral de Eduardo Cunha. Todos os sábados, às dez da manhã, entra no ar o programa Mesa Redonda Maravilha, com apresentação de Eduardo Cunha, no qual, durante uma hora, o ex-deputado debate política com líderes de diferentes recantos de Minas. É comum que o programa seja gravado nas cidades que Cunha está visitando, seja para cabalar votos, ocasião em que visita câmaras de vereadores, prefeituras e cultos, seja para inaugurar mais uma filial de sua rádio, quando aproveita para convidar políticos, pastores e líderes de ONGs conservadoras.

No dia 9 de maio, o Mesa Redonda Maravilha aconteceu em Montes Claros, no Norte do estado. Participaram um deputado estadual e um ex-vereador. Antes de começar a conversa, como sempre faz, Cunha leu um versículo bíblico. Naquele sábado, sua escolha recaiu sobre Lucas, capítulo 17, versículo 3: Se teu irmão pecar, repreende-o. E, se ele se arrepender, perdoa-o. O versículo, provocam os adversários, cairia como uma luva para o próprio Cunha, caso tivesse, de fato, se arrependido dos pecados.

O assunto do dia era a importância do Poder Legislativo. “Cada parlamentar representa, de forma muito legítima, interesses diversos”, pincelou o deputado estadual Carlos Henrique, do Republicanos. O ex-vereador Valdecy Fagundes de Oliveira (PP) completou: “A gente fica muito feliz de ser cobrado e de, através de emendas parlamentares, ajudar a população.” Cunha, sempre vidrado no orçamento público, aproveitou para defender uma de suas principais ideias: a de que os políticos deveriam dispor de uma parte do orçamento sem qualquer interferência ou ingerência do Poder Executivo. Uma espécie de “liberou geral”, disfarçada de iniciativa para fortalecer a democracia parlamentar.

A presença radiofônica de Cunha em Minas tem chamado a atenção de outras rádios, que estranham a velocidade com que a concorrente se espraia pelo estado. O diretor de uma importante rádio mineira, que pediu para não ser identificado, diz temer que “atropelos” dentro da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) venham a interferir até mesmo na frequência de outras emissoras.

Na política, sua expansão radiofônica também incomoda. O deputado federal Rogério Correia (PT-MG) diz que candidatos a cargos eletivos nem sequer deveriam ser donos de rádio. “Tinha de ser proibido. É a utilização de uma concessão pública em favor de uma candidatura. É completamente ilegal. Vamos levar essa denúncia ao Tribunal Regional Eleitoral.” Correia formalizou uma denúncia na Anatel, questionando a “atuação coordenada de interesses econômicos e políticos no setor de radiodifusão em Minas Gerais” por parte de Cunha e solicitando “escrutínio rigoroso” na expansão do sinal de emissoras no estado. Em resposta ao deputado, a Anatel afirmou que novos processos de expansão se encontram “em apreciação” e observarão exclusivamente “elementos técnicos”.

A tática de usar as ondas do rádio para cabalar votos não é nova. Em meados de 1990, Eduardo Cunha estreou nos microfones da Rádio Melodia FM, dirigida ao público evangélico, e conseguiu uma suplência de deputado estadual no Rio, em 2001. Já como diretor da Melodia FM, cedeu um programa ao então governador Anthony Garotinho, que retribuiu o mimo nomeando Cunha para presidir a Cehab, a estatal da habitação. (Cunha ficou poucos meses no cargo. Foi afastado sob acusação de favorecer uma microempresa a vencer uma licitação de 34 milhões de reais para a construção de casas populares. O caso acabou na gaveta.)

E vem mais por aí. No fim de junho, além da Maravilha FM, Cunha inaugurou outra rádio, em Belo Horizonte – uma filial da Jovem Pan News. Meses antes, anunciou um empreendimento gráfico em Leopoldina. Em entrevista ao Mídia Mineira, disse que está “com vários empreendimentos no estado de Minas Gerais, mas o meu coração está nesse aqui”. No entanto, quando indagado pela piauí sobre seus negócios em Minas, disse: “Não sou acionista e nem cotista de nenhuma empresa e também não tenho que dar satisfação sobre atividades de natureza privada.”

Eduardo Cunha é um “homem de bem” que responde a sete processos por corrupção. Não tem investimentos em Minas, mas é um investidor. Está em plena campanha, mas não está em campanha. E, por fim, parece viver um isolamento público, que pode deixar a impressão de que se transformou num pária, capaz apenas de relacionar-se com a arraia-miúda da política. Ninguém deve se iludir.

Como tantas coisas na sua vida – na ética de homem de bem, na campanha que faz, nos negócios que não existem –, seu nível de influência também é ambíguo. Nas altas esferas, onde as articulações ficam longe dos olhos do público, Cunha continua forte, com trânsito e influência. Sua capacidade de manipular emendas do orçamento secreto mesmo sem mandato é um sinal eloquente de que, nos bastidores, apesar de tudo, seu poder não esmoreceu. Cunha opera como o gato do célebre experimento teórico do físico Erwin Schrödinger: está morto e muito vivo ao mesmo tempo.

“Isso é Deus, né?”, disse o ex-deputado ao voltar a pisar na Câmara em fevereiro de 2023 para acompanhar a posse de sua filha como deputada federal. Estava ali celebrando a sua influência na elite política. Num plenário abarrotado de deputados e suas parentelas, ostentando o broche dourado de parlamentar na lapela, Cunha reviveu os tempos do seu auge. Foi cumprimentado com aparente entusiasmo por aqueles que compuseram a tropa de choque do impeachment de Dilma. Entre eles, estava o jovem Hugo Motta, que dois anos mais tarde ocuparia a presidência da Casa.

Para avançar sua influência política, inicialmente Cunha lançou a filha para a Câmara dos Deputados na eleição de 2018. Na ocasião, divulgou uma “carta aos brasileiros”, em que diz que a filha era “muito mais preparada” do que ele e advertiu: “Os meus adversários podem aguardar que ela dará mais trabalho do que eu dei.” A filha teve apenas 13 mil votos. O ex-deputado frustrou-se com a derrota e magoou-se com a falta de apoios que considerava certos, mas não ficou parado. Tornou-­se colunista de política do Poder360 e continuou suas maquinações eleitorais.

No pleito de 2022, enquanto ele próprio era derrotado na disputa para deputado federal pelo PTB de São Paulo, Dani Cunha fez campanha no Rio de Janeiro escondendo o nome do pai nas propagandas de rádio e tevê. Desta vez, obteve 75 mil votos e finalmente conseguiu se eleger. No dia da posse da filha, Cunha estava radiante. “Quis Deus que ela fosse eleita, e bem eleita”, disse ele ao jornal Correio Braziliense. “Já eu estava disputando uma eleição em São Paulo, fora do meu estado, e sem efetivamente fazer campanha. Então, o objetivo que eu tinha foi atingido com a eleição dela.”

Desde sua estreia na Câmara, Dani foi tratada com uma deferência incomum aos recém-chegados, um sinal evidente de que o ex-deputado mantinha influência entre seus ex-pares. Ela se entrosou muito bem com o então presidente da Câmara, Arthur Lira, e em menos de seis meses de mandato conseguiu um feito extraordinário: aprovou um projeto de lei que tramitou a jato, sem passar por nenhuma comissão parlamentar, coisa que até veteranos têm dificuldade de conseguir. O projeto torna crime o preconceito contra pessoas “politicamente expostas”. Ou seja: contra os próprios políticos. Prevê prisão de 2 a 4 anos, além de multa. O projeto aguarda apreciação no Senado.

Ainda em 2023, Lira escolheu Dani – outro milagre para um novato – para liderar o grupo de trabalho da minirreforma eleitoral, quando propôs um projeto cujo casuísmo para beneficiar o pai era tão descarado que, nos bastidores, ganhou o apelido de “Lei Eduardo Cunha”. O ex-deputado, consultado pela piauí, afirmou que não teve “qualquer influência na escolha” de sua filha, tampouco interferiu na apresentação do projeto da “Lei Eduardo Cunha”. São coisas que caem do céu.

Em outro sinal de seu prestígio remanescente, Cunha jantou com os deputados Arthur Lira e Guilherme Derrite (PP-SP), no fim de 2025. No cardápio, o projeto de lei antifacção, que então tramitava na Câmara. O encontro, na época, foi noticiado pelo jornal Valor Econômico, e Cunha apresentou palpites e sugestões para a nova lei. A piauí procurou Lira e Derrite para saber quais as ideias que Cunha ofereceu, mas nenhum dos dois, por alguma razão que não explicaram, quis falar do assunto.

A “Lei Eduardo Cunha” está no centro do projeto político do ex-­deputado. A proposta consiste numa mudança que Dani introduziu na minirreforma eleitoral para beneficiar os abatidos pela Lei da Ficha Limpa. Ou seja: seu próprio pai. Sua proposta prevê começar a contar os oito anos de inelegibilidade a partir da data da punição, e não mais a partir do término do mandato do punido. Na prática, em vez de seu pai ficar inelegível até 2027, ele recuperaria seus direitos políticos em 2025.

A lei foi aprovada na Câmara e no Senado com apoio generalizado, inclusive do PT. O problema é que a Rede Sustentabilidade recorreu ao STF alegando que a flexibilização da Lei da Ficha Limpa feria a Constituição. No mesmo período em que a Rede recorreu à Justiça, Cunha teve uma conversa com o presidente da Câmara, Hugo Motta. Os dois garantem que nem tocaram no assunto. À piauí, Cunha afirmou: “Não tenho qualquer influência na atuação do atual presidente Hugo Motta.”

Na mesma época, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, um dos proponentes da Lei da Ficha Limpa, começou a pressionar o STF para que julgasse a mudança o quanto antes. No dia 26 de maio, o MCCE fez uma nota alertando para a “tentativa de interromper o julgamento por meio de pedido de vista”. Disse que, se isso acontecesse, na prática, abriria “espaço para candidaturas que seriam barradas pelas regras originais da Ficha Limpa”.

Dois dias depois, em 28 de maio, a sorte voltou a sorrir para Eduardo Cunha. O ministro Gilmar Mendes pediu vistas. Se ele levar o tempo máximo de noventa dias para tomar sua decisão, o nome de Cunha estará nas urnas em 4 de outubro.

 A depender do eleitor mineiro, o gato morto-vivo pode virar zebu.


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É jornalista e doutor em Comunicação pela UnB