esquina
Maitê Silveira piauí_239 06 Ago 2026
6 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Ao som de Meu companheiro, de Francisco Alves e Orestes Barbosa, os 55 espectadores entram em silêncio no Espaço 2 do Departamento de Artes Cênicas da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), em Florianópolis. Do teto, descem dois grandes tecidos pretos, curvados um para cada lado da sala. No palco, há uma mesa de madeira, rodeada de panelas, utensílios metálicos e um ventilador. Mais adiante, esse conjunto representará um avião.
Dois holofotes jogam luzes vermelhas sobre quatro figuras postadas diante da mesa, vestindo jaquetas de couro, macacões e óculos, como aviadores dos anos 1920. Enquanto o público se acomoda na sala, os personagens estão em pose de sentido, batendo continência (espectadores atentos notam que dois deles têm tremores na mão abaixada). “Olá, eu me chamo Jorge”, diz um dos atores. “Hoje, deixamos nossas roupas laranja e usamos este figurino. Eu gosto de caçar, pescar e atuar.” Luiz também se apresenta. Diz que gosta de dançar, desenhar e jogar truco.
No dia 6 de julho, segunda-feira, às onze da manhã, Jorge, de 48 anos, e Luiz, de 29 (por questões legais, seus nomes completos não podem ser revelados), se apresentaram em público pela primeira vez. Os outros dois personagens são interpretados pelos professores de teatro Guilherme Augusto, de 23 anos, e Davi Lentz, de 20.
Os quatro encenam uma adaptação livre de O voo sobre o oceano, de Bertolt Brecht. As mãos trêmulas de Jorge e Luiz não se devem apenas ao nervosismo: distúrbios musculares são efeitos comuns das medicações antipsicóticas que os dois tomam no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico (HCTP) de Florianópolis, onde são obrigados a usar o uniforme laranja de que Jorge falou. Em meio à plateia, onze pacientes em alta progressiva do HCPT prestigiavam os colegas.
Em 2023, uma resolução do Conselho Nacional de Justiça determinou o fechamento dos manicômios judiciários – instituições, como o HCTP, onde pessoas com transtornos mentais que estão em conflito com a lei cumprem um período de tratamento em privação de liberdade.
A resolução, entretanto, foi contestada em diferentes Ações Diretas de Inconstitucionalidade (adis) protocoladas no Supremo Tribunal Federal (STF) pela Associação Brasileira de Psiquiatria, pela Associação Nacional dos Membros do Ministério Público e pelo partido Podemos. No ano passado, um relatório do Conselho Federal de Psicologia contabilizou que treze desses hospitais psiquiátricos ainda estavam em atividade no país.
Exclusivo para homens, o HCTP de Florianópolis abrigava, até meados do mês passado, 86 internos, embora sua capacidade máxima seja de 72. É o único no Brasil em que oficinas de teatro são oferecidas aos pacientes. As primeiras aulas, em 2019, foram conduzidas por Bruna Traversaro, uma aluna do curso de licenciatura em artes cênicas da Udesc que realizou seu projeto de estágio no HCTP.
Então com 20 anos, Traversaro já havia passado por duas internações psiquiátricas, o que prejudicou seu desempenho na faculdade. O trabalho no HCTP significou muito para ela. “Foi uma última tentativa de provar que eu podia fazer teatro”, conta. A proposta era convidar os alunos a explorar o espaço e se expressar com o corpo. “O foco não era ser político nem terapêutico. Todo mundo tem direito de brincar e fazer teatro. De experimentar e descobrir algo”, diz Traversaro. No final de 2019, a turma encenou uma peça de Natal.
O projeto foi retomado no começo de 2023 pelo grupo de pesquisa e extensão Teatro e Prisão: Práticas de Infiltração das Artes Cênicas em Espaços de Vigilância, coordenado pelo professor Vicente Concilio, do Departamento de Artes Cênicas da Udesc. Desde 2017, o grupo tem levado oficinas e peças teatrais a penitenciárias e instituições similares na Grande Florianópolis. Mas a atividade está agora ameaçada, devido ao plano de transferência do Complexo Penitenciário da Agronômica, que abriga o HCTP, na região central da capital catarinense, para unidades espalhadas pelo estado. O lugar, que fica numa área valorizada da cidade, deve se transformar na Cidade da Cultura, projeto do governador Jorginho Mello (PL).
Concilio afirma que seu grupo vive uma “situação paradoxal”: apesar de defender o abolicionismo penal, acredita que o plano do governador atende a interesses imobiliários, e não a uma preocupação com a dignidade dos apenados ou o acesso à cultura. “Como se já não existissem ações culturais nesses espaços”, diz. “De que tipo de cultura a gente está falando?”
O governo de Santa Catarina foi procurado pela piauí, mas não respondeu. A Secretaria de Estado de Justiça e Reintegração Social informou que uma liminar do Tribunal de Justiça de Santa Catarina assegura o “pleno funcionamento da unidade” até o julgamento das ADIs no Supremo. “Paralelamente, o Estado segue planejando a implantação de uma nova estrutura, que contará com uma Unidade de Referência Psiquiátrica, garantindo a continuidade da assistência especializada e dos serviços atualmente prestados, em conformidade com as definições que vierem a ser estabelecidas pelo Poder Judiciário”, disse em nota.
No HCTP, os professores Guilherme Augusto e Davi Lentz continuam convidando os pacientes para exercícios teatrais, nas sextas-feiras, das 14 às 15h15. “A gente tenta pensar o teatro para fazer algo concreto na vida deles. Não só imaginar novos mundos possíveis, mas, de verdade, tirá-los um dia lá de dentro”, diz Augusto.
Os alunos são chamados a participar da criação coletiva de uma peça. O texto de Brecht foi apenas o ponto de partida, e uma pergunta orientou a elaboração do roteiro: “Se você pudesse pegar um avião e ir para um lugar perfeito, como ele seria?” Menos de um mês separou o primeiro ensaio do espetáculo. Em respeito às angústias de cada paciente, apenas 2 dos 13 alunos atuaram na peça.
Ao pilotar o avião-mesa, os personagens divagam sobre o destino do voo, que pode ser uma cachoeira cercada de árvores frutíferas, um campo extenso para deitar e olhar as estrelas, uma sala de teatro. Luiz sugere um lugar onde seja possível beber um cappuccino. Jorge vai além nas fantasias gastronômicas: “Lá, a comida nunca acaba. A gente pode comer uma pururuca. Aquela que faz crec, crec, crec.”
A viagem utópica é interrompida por intempéries. Luiz interpreta então o MC Nevoeiro, vilão que ameaça derrubar o avião com as turbulências de um batidão funk. O break dance do jovem ator arranca aplausos.
Depois, vem o Sono, personagem interpretado por Jorge. “Chhhhh! Durmam todos! Vou hipnotizar vocês”, ele diz, balançando um relógio. Com os pilotos adormecidos, o avião precipita-se no oceano. Jorge e Luiz protagonizam a batalha entre a água e o motor, que é decidida no jokenpô ou “pedra, papel, tesoura” – um tipo de jogo com as mãos.
O motor vence, e a viagem continua. Para celebrar, cantam com a plateia Passarinhos, de Emicida, e vão saindo de cena, escondendo-se atrás dos tecidos pretos. Simulando um comunicado em rádio, Augusto anuncia que jamais se soube o paradeiro final do avião – e a peça se encerra com esse mistério. Tampouco está claro o destino que terão os pacientes do HCTP de Florianópolis e de outros hospitais de custódia no Brasil.