Pangaré tinhoso: Dark Horse custou 13 milhões de dólares. Só com desenvolvimento de projeto, incluindo roteiro, foram 383 mil dólares. “Isso aí é padrão Oscar”, diz um produtor brasileiro - VITO QUINTANS_2026
Pangaré tinhoso: Dark Horse custou 13 milhões de dólares. Só com desenvolvimento de projeto, incluindo roteiro, foram 383 mil dólares. “Isso aí é padrão Oscar”, diz um produtor brasileiro - VITO QUINTANS_2026

suspeitas cinematográficas

EM CARTAZ, A CAIXA-PRETA

Como Flávio Bolsonaro se enredou no maior escândalo bancário do país em nome de um filme sobre o pai

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– Olha só. O último pagamento que ele fez [...] foi em maio de 2025.

O senador Flávio Bolsonaro estava dando uma entrevista à GloboNews. No dia anterior, o site Intercept Brasil havia publicado uma notícia explosiva: em 8 de setembro de 2025, o senador enviara um áudio ao banqueiro Daniel Vorcaro, hoje preso sob acusação de promover a maior fraude bancária do país, cobrando dinheiro para um filme sobre seu pai. Queria que o banqueiro pagasse parcelas atrasadas do financiamento do filme, cada uma no valor de 1,6 milhão de dólares – mais de 8 milhões de reais na cotação atual. No áudio, procurou desculpar-se: “Apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá? Mas, enfim... É porque tá num momento muito decisivo aqui do filme.” Concluiu dizendo que, se o dinheiro não aparecesse, haveria um desmonte: “Perde ator, perde diretor, perde equipe, perde tudo.” 

A notícia do Intercept, apurada pelo repórter Paulo Motoryn*, caíra com o peso de 1 tonelada na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro – e o senador tentava dar explicações para reduzir o estrago. Na GloboNews, disse que, quando enviou o áudio ao banqueiro, “ninguém sabia” de suas fraudes, mas a alegação não colou. Afinal, desde o ano anterior a atuação do Banco Master levantava suspeitas e havia sido objeto de uma ampla reportagem publicada pela piauí. Cinco meses antes do áudio de Flávio Bolsonaro, houve até um pedido de CPI no Congresso para investigar o banqueiro. E cinco dias antes, em 3 de setembro de 2025, o Banco Central estava no encalço do Master e vetou um negócio com o BRB, o banco estatal de Brasília, por suspeita de fraude de 12 bilhões de reais. Ou seja: todo mundo sabia que o Master e seu dono estavam enrolados com a polícia. 

Na parte final da entrevista, Flávio Bolsonaro tentou minimizar o áudio da cobrança de dinheiro, dizendo que o banqueiro não dava qualquer dólar para o filme havia meses, desde que as suspeitas vieram a público. Foi quando disse a frase: “Olha só. O último pagamento que ele fez [...] foi em maio de 2025.” Como prova de comportamento idôneo, disse que, quando surgiu “a primeira informação pública” sobre possíveis irregularidades de Vorcaro, o fundo americano que recebia o dinheiro do banqueiro e transferia para o filme, o Havengate Development Fund, no Texas, “foi isolado, foi fechado lá, e o fundo fez uma comunicação às autoridades” dos Estados Unidos. Pouco depois, a entrevista foi encerrada. Aparentemente, Flávio saiu satisfeito com sua versão. O estrago continuava grande, mas, pelo menos, ele dissera que o filme de seu pai não recebia um tostão do banqueiro enrolado desde maio de 2025. 

Agora, se sabe que o senador estava escondendo o cofre. A piauí apurou que em 16 de setembro, oito dias depois de ser cobrado por Flávio, o banqueiro cedeu à pressão, mexeu no bolso e enviou mais uma parcela de 1,6 milhão de dólares para o Havengate – precisamente 1 milhão, 666 mil e 667 dólares. A informação consta de um relatório do Coaf, o órgão que fiscaliza transações financeiras, ao qual a piauí teve acesso. O documento mostra que a relação de compadrio financeiro entre Flávio e o banqueiro continuou por bem mais tempo do que o senador admitiu até agora. Com esse repasse que estava oculto, o total enviado por Vorcaro para o filme de Bolsonaro sobe de 10,6 para 12,3 milhões de dólares, mais de 65 milhões de reais na época.

E há evidências de que houve ainda mais um pagamento, depois de nova pressão de Flávio. Na manhã de 22 de outubro, já no terceiro dia de gravações, o senador voltou a procurar Vorcaro. Às 8h54, escreveu: “Bom dia, mermão! Já estamos no terceiro dia de gravação. Estamos no limite.” Nove minutos depois, insistiu: “Mais uma vez, com toda a liberdade que temos, se não der me fala que procuro urgente outro caminho.” Às 9h22, Vorcaro respondeu: “Deixa comigo irmão, vou ver agora.”

A pressão surtiu efeito. A piauí teve acesso a um trecho inédito dos diálogos por WhatsApp entre Daniel Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda, que ajudou a captar dinheiro para o filme. Numa mensagem ao banqueiro, enviada menos de 1 hora depois das mensagens de Flávio, Miranda escreve: “Consegue liberar as parcelas do filme?” E completa, usando um emoji: “Se não vai parar tudo por lá 😐”. Vorcaro responde: “Sim. Liberei mais uma hoje”, ao que Miranda retruca: “Vou avisá-los. Flávio disse que iria te ligar tb.” Vorcaro então pede que Miranda apresente suas desculpas a Flávio pelos “atrasos” nas parcelas. Se esse outro pagamento de 1,6 milhão de dólares foi efetivamente realizado como afirmou o banqueiro, o total desembolsado por ele vai para 14 milhões de dólares, ou 72 milhões de reais. 

Procurado pela piauí para explicar por que escondeu que sua relação financeira com o banqueiro durou praticamente todo o ano de 2025 e qual foi o total pago pelo banqueiro, Flávio Bolsonaro não quis falar. Sua assessoria disse que a revista deveria perguntar à produtora do filme sobre a existência de outros pagamentos. “Isso não é com a gente.” Confrontada com o fato de que a informação da nova parcela revelava uma mentira pública do candidato, a assessora continuou achando que Flávio não tinha nada a explicar.

Não é a primeira vez que o senador falta com a verdade no caso do financiamento de Dark Horse, o nome da cinebiografia de Jair Bolsonaro. Em março passado, quando veio a público que seu número estava na agenda de Vorcaro, Flávio disse à colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, que nunca tivera contato com o dono do Master. Quando o repórter Thalys Alcântara, do Intercept, perguntou por que Dark Horse fora bancado por Vorcaro, Flávio reagiu: “É mentira, de onde você tirou isso?” Deu uma risada de deboche e deixou o grupo de repórteres que o entrevistava dizendo: “Pelo amor de Deus! Jornalistas, bom trabalho. Militante não dá, cara.” Horas depois, o Intercept divulgou o áudio de Flávio pedindo dinheiro ao banqueiro e reclamando que havia “muita parcela pra trás”. Flávio também disse, naquela mesma entrevista à GloboNews, que o Havengate é fiscalizado pela SEC, órgão americano semelhante à Comissão de Valores Mobiliários no Brasil. Não é verdade. Por fim, disse que o fundo fora fechado assim que surgiram as primeiras suspeitas sobre os negócios de Vorcaro. Nos registros fazendários do Texas, o fundo continua ativo até hoje.

A polícia agora investiga o caminho tortuoso do dinheiro. Os recursos não saíam diretamente das empresas de Daniel Vorcaro, nem caíam na conta da produtora do filme, a Go Up Entertainment LLC, nos Estados Unidos, como seria o percurso normal. Em vez disso, Vorcaro remetia o dinheiro por meio de um doleiro, Antonio Freixo Junior, o “Mineiro”, dono da Entre Investimentos e Participações, que já se apresentou publicamente como especialista em “câmbio de saída, que é uma coisa mais arriscada”. O destino era o Havengate, o fundo sediado no Texas e administrado por Paulo Calixto, advogado especializado em imigração – sem relação com a área de cinema – e amigo de Eduardo Bolsonaro, que também vive no Texas.

Como o Havengate enviava o dinheiro à produtora do filme, as investigações do caso estão focadas em descobrir se, de fato, todo o dinheiro acabava indo para a produção cinematográfica. A polícia investiga se parte do dinheiro ficou no fundo ou acabou no bolso de Eduardo Bolsonaro, que passou a viver nos Estados Unidos em fevereiro do ano passado – por coincidência, os mesmos mês e ano em que Vorcaro começou a mandar as parcelas do filme para o Havengate. A primeira remessa, de 2 milhões de dólares, é de 13 de fevereiro de 2025.

Até agora, não há evidência de que parte dos milhões de Vorcaro foi desviada para custear a permanência de Eduardo nos Estados Unidos. Mas os investigadores ainda querem entender com mais clareza o papel que Eduardo desempenhava em relação aos recursos financeiros. Quando o Intercept divulgou o áudio de Flávio em maio passado, Eduardo reduziu seu papel na produção. Em entrevista à CBN, disse apenas que chegara a investir 50 mil dólares dos seus próprios recursos no filme, para garantir a contratação do diretor, mas o valor lhe foi devolvido posteriormente. 

Na documentação americana sobre o filme, no entanto, Eduardo ora aparece como “produtor executivo”, ora como “financiador”. O que as investigações pretendem descobrir é a extensão de seu domínio sobre os recursos na conta do Havengate. A piauí apresentou a pergunta à Go Up, mas não obteve uma resposta objetiva. 

Na prática, as investigações do caso estão lidando com duas caixas-pretas – a do filme e a do fundo. 

A saga do filme começou no dia 13 de dezembro de 2022, quando faltavam menos de três semanas para que Bolsonaro deixasse o Palácio do Planalto. Naquele dia, enquanto maquinava o golpe que resultaria na intentona do Oito de Janeiro, Bolsonaro assinou um contrato cedendo os direitos cinematográficos sobre sua vida para a Go Up, produtora sem experiência alguma no setor, da empresária paulistana Karina Ferreira da Gama e seu sócio Michael Brian Davis, naturalizado americano. A opção pelos direitos teve um preço simbólico: 1 dólar. Se o projeto avançasse, haveria um bônus de 25 mil dólares no início das filmagens e outro, no mesmo valor, na estreia do filme nos cinemas. A depender do sucesso de bilheteria, haveria outras compensações. Ainda não havia ator principal, nem diretor, nem financiador conhecido.

As primeiras tentativas de captar recursos não deram em nada. No escritório do então marido de Karina, Wemerson Marinho da Gama, Eduardo Bolsonaro e Mario Frias chegaram a se reunir para debater o assunto. Eduardo, Frias e Flávio Bolsonaro decidiram então passar o chapéu no mercado, mas foram meses e meses de buscas infrutíferas. As coisas só começaram a mudar no fim de 2024, quando apareceu o banqueiro Daniel Vorcaro. Coube ao lobista Thiago Miranda, ex-sócio do Portal Leo Dias, agendar um encontro que se tornaria decisivo entre Flávio e Vorcaro. 

O encontro foi marcado para 11 de dezembro, quarta-feira, às 17h30, na casa do banqueiro, em Brasília. Não há documento que permita afirmar que a reunião efetivamente ocorreu. Mas, às 18h24 daquele dia, o deputado federal Mario Frias (PL-SP), o ex-ator que consta como produtor executivo do filme, enviou um áudio de 17 segundos para Vorcaro cujo conteúdo dá a entender que o acerto foi feito. “Só te agradecer, meu irmão”, começou. Disse que o projeto iria “mexer com o coração de muita gente” e seria “muito importante para o nosso país”. Falava como quem sabia do papel de financiador que o seu interlocutor havia assumido no projeto: “Preciso de vez em quando te falar como as coisas vão andando, tá?” Vorcaro estava em outra ligação. Ligou pouco depois. A conversa durou menos de 2 minutos.

Quatro dias mais tarde, em 15 de dezembro, Mario Frias, que escrevera a primeira versão do roteiro, informou ao banqueiro que convidara o americano Cyrus Nowrasteh para dirigir o filme. Nowrasteh disse que conseguiria convencer o ator Jim Caviezel a interpretar Bolsonaro, desde que duas perguntas fossem respondidas: Ele poderia ler o roteiro? E seria bem pago? Também falava em começar os trabalhos e encerrava: Let’s do it, my friend... Frias celebrou: “Milagres só são possíveis quando há fé.” E completou, em outra mensagem a Vorcaro: “Vai ser a maior superprodução de uma história brasileira.”

Em janeiro de 2025, a fé começou a dar lugar à ansiedade com o fluxo de caixa. Autorizado por Vorcaro, Miranda passou a acionar o pastor Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro, para tratar das questões financeiras. Como as coisas pareciam lentas, Flávio Bolsonaro escreveu para Miranda no dia 20 de janeiro pedindo que desse “um gás na resposta do jurídico do investidor”. Miranda cobrou o banqueiro. “Cara, hoje é a data-limite daquele primeiro aporte do filme. Preciso acelerar. Estamos no laço.” Na ocasião, Vorcaro estava em Courchevel, nos Alpes franceses, na companhia do “amigo de vida” Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro. Paciente, respondeu: “Vou atrás aqui.” 

Como mostram as mensagens de WhatsApp, assim que era pressionado, Vorcaro pressionava Zettel para iniciar os repasses. Zettel, por sua vez, alegava problemas com câmbio e perguntou qual empresa transferiria os valores para “o fundo” – referia-se ao Havengate. Em 28 de janeiro, o banqueiro demonstrou a relevância que atribuía ao financiamento do filme. “Esse é o mais importante disparado. Não pode falhar mais.” Três dias depois, Vorcaro voltou a pressionar Zettel, que respondeu: “Não faz assim que me dá dor de barriga...” Em seguida, Zettel relatou as dificuldades que vinha enfrentando para liberar a operação.

Os dias se passavam, e o problema já havia chegado ao próprio Banco Master. Em mensagem a Vorcaro, Zettel escreveu: “Câmbio do Master criando caso... Já mandei 1.000 documentos meus.” Vorcaro, então, decidiu que a operação deveria ser intermediada pela Entre Investimentos, que pertencia ao doleiro. Era uma empresa conhecida pelo banqueiro, que já havia investido 614 milhões de reais em companhias do Grupo Entre. (Menos de um ano depois, Mineiro, o doleiro, foi alvo de uma operação de busca e apreensão da Polícia Federal por seu envolvimento no escândalo do Master. A Entrepay Instituição de Pagamento, outra empresa do Grupo Entre, foi liquidada pelo Banco Central.)

A polícia investiga as razões que levaram Vorcaro a escolher um doleiro enrolado e triangular a operação por meio de um fundo, em vez de mandar o dinheiro diretamente do seu banco para a produtora do filme. O fato é que o primeiro pagamento, de 2 milhões de dólares, aconteceu no dia 13 de fevereiro. No dia seguinte, Zettel mandou o comprovante da transação, na qual o dinheiro saiu da Entre e pousou na conta do Havengate no JPMorgan Chase Bank. “Filme!”, escreveu Zettel. Era a primeira parcela dos 24 milhões de dólares – mais de 120 milhões de reais – que Vorcaro se comprometeu a pagar.

No dia 12 de março, um mês depois do primeiro pagamento, Vorcaro mandou mensagem para Zettel reclamando que nenhuma outra parcela havia sido enviada ainda. “Tem que pagar a segunda e a terceira”, insistiu. Zettel respondeu: “Vou pra cima do Mineiro.” No dia 24 de março, finalmente, saíram as duas parcelas. Animados com o fluxo financeiro, Flávio Bolsonaro e Mario Frias quiseram prestigiar o banqueiro e programaram um encontro. Thiago Miranda, que intermediou o convite, escreveu para o banqueiro: “[Flávio e Frias] Querem levar o presidente na sua casa para assistir juntos com vc [a um] documentário.” Na época, Jair Bolsonaro ainda estava solto. (Em entrevistas à imprensa, Miranda e Flávio negaram que a reunião tenha acontecido.)

Ainda em março, Eduardo Bolsonaro, já instalado no Texas, fez duas chamadas de voz não atendidas para Miranda e então enviou uma mensagem. “O ideal seria haver os recursos já nos Estados Unidos. Que dos Estados Unidos para os Estados Unidos é mais tranquilo”, diz Eduardo, expressando em seguida uma preocupação. “Se a empresa brasileira a enviar aos Estados Unidos não tiver aquele grande orçamento que mencionamos como exemplo, será problemático.” Eduardo então sugere “enviar o máximo possível ainda neste sistema atual”, ou seja, por meio do doleiro. Em seguida, diz que Altieris Santana, sócio de Paulo Calixto, o controlador do Havengate, estava à disposição: “Inclusive voa para fazer reunião pessoal com quem quer que seja.” 

A mensagem está sob análise da Polícia Federal. Para os investigadores, o diálogo mostra que Eduardo tinha participação ativa na discussão sobre como o dinheiro do filme deveria chegar aos Estados Unidos – o que faz sentido para alguém que, oficialmente, consta como produtor executivo da empreitada. Os investigadores, no entanto, querem saber se Eduardo tinha ingerência na gestão dos valores depositados no Havengate pelo dono do Master.

Entre abril e maio de 2025, Vorcaro ainda mandou mais três parcelas para o Havengate, mas o cerco do Banco Central começou a apertar. Com problemas graves de liquidez, o Master foi obrigado a pedir socorro de 4 bilhões de reais ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que protege os clientes em caso de quebra ou liquidação do banco. De maio em diante, a situação só se complicou. Talvez por isso Flávio tenha dito à GloboNews que, depois de maio, Vorcaro não fez nenhum pagamento adicional. Não só fez, como os bastidores mostram que a realidade era diferente.

Com o Banco Master e Daniel Vorcaro agonizando em praça pública, o clã dos Bolsonaro não aliviou as cobranças do dinheiro. Em agosto, o lobista Thiago Miranda enviou uma planilha para Vorcaro atualizando os números. Mostrava que, até aquele momento, o banqueiro havia remetido 10,6 milhões de dólares para o filme, e o último pagamento fora no dia 29 de maio. E contabilizou: “Duas em atraso e está para vencer a terceira agora em agosto.” Miranda pediu uma previsão de Vorcaro “para eu passar para eles”. Sob pressão, o banqueiro prometeu pagar: “Segunda fazemos as duas.” Miranda deu-se por satisfeito: “Ok. Te lembro. E aviso pra eles. Abs. Estou por aqui monitorando essa reta final aí.”

Mas, enrolado nas teias da fraude bancária que o levaria à prisão, Vorcaro não cumpriu a promessa – e Flávio Bolsonaro pegou o telefone e cobrou a conta no áudio que veio a público. O banqueiro então pagou mais aquela parcela de 1,6 milhão de dólares em 16 de setembro e, provavelmente, aquela outra em 22 de outubro. Enquanto pastoreava o dinheiro do banqueiro, Flávio também procurava adulá-lo. Como mostram mensagens que já vieram a público, fazia convites para encontros e jantares. Convidou o banqueiro para jantar com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh em São Paulo no dia 2 de novembro. “Totalmente reservado”, observou. O banqueiro topou na hora, ofereceu sua casa para o evento e convidou Flávio para um café na manhã seguinte, em Brasília. 

Até novembro de 2025, Flávio e Vorcaro combinaram pelo menos cinco encontros – mas não se sabe quantos de fato aconteceram. Tudo indica que acabaram desenvolvendo uma relação fraterna. Em 7 de novembro, dez dias antes de Vorcaro ser preso pela Polícia Federal no Aeroporto de Guarulhos ao tentar embarcar para Dubai, Flávio lhe mandou um vídeo da produção do filme, com a seguinte mensagem: “Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de vc!” O banqueiro reagiu com satisfação. “Que demais. Ficou perfeito.”

Em 16 de novembro, um dia antes de sua prisão, Vorcaro retornou uma mensagem de Flávio e disse que estava na igreja. O senador respondeu com duas imagens de visualização única, cujo conteúdo é desconhecido até hoje, e em seguida fez uma declaração de compromisso eterno – e voltou a pedir dinheiro. “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!” A luz, no caso, era a data do novo pagamento. Não se conhece a resposta do banqueiro, dada em mensagem de visualização única, mas Flávio respondeu em seguida: “Amém!”

No dia 17 de novembro, Vorcaro foi preso pela primeira vez. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. No dia 22, Jair Bolsonaro foi preso preventivamente depois de usar ferro de solda para derreter a tornozeleira eletrônica. No dia 25, o Supremo determinou o início do cumprimento de sua prisão em regime fechado. No dia 29, Vorcaro foi solto – e Flávio foi visitá-lo. Quando a visita foi revelada pelo site Metrópoles, Flávio explicou-se assim: “Eu fui sim ao encontro dele para botar um ponto-final nessa história. Dizer que, se ele tivesse me avisado que a situação era grave como essa, eu teria ido atrás de outro investidor há muito mais tempo e o filme não correria risco.” 

Depois disso, não se tem notícia de que Flávio tenha buscado outro investidor. 

Em outubro de 2025, pouco antes da prisão do seu principal financiador e depois da prisão do próprio cinebiografado, Dark Horse começou a ser rodado em São Paulo, com um cronograma que previa 36 dias de filmagem, em estúdio e cenas externas. Depois de quase três anos existindo apenas em contratos, planilhas, promessas e transferências internacionais, o filme finalmente saía do papel. 

Nos sets de filmagem, o ambiente não era dos mais amistosos. Os sindicatos que representam as diversas categorias de trabalhadores envolvidas no trabalho – técnicos, atores de apoio, figurantes – começaram a receber um volume incomum de reclamações. Houve registros de figurantes relatando longas jornadas de trabalho durante as quais recebiam apenas um kit lanche, atrasos de pagamento, problemas com transporte, cachês inferiores aos apontados pelo sindicato e até revista abusiva por parte de seguranças, com “toques nas regiões dos seios e partes íntimas”, e trabalhadores sendo acompanhados por fiscais até para ir ao banheiro. As denúncias, levadas aos sindicatos, estão sendo investigadas pelo Ministério do Trabalho.

Uma jovem atriz, que pediu para não ser identificada, trabalhou quatro dias como figurante. Apesar da proibição de uso do celular nos sets de filmagem, ela conseguiu entrar com seu aparelho escondido e ligou o gravador durante quase duas horas. O áudio, ao qual a piauí teve acesso, revela um ambiente um tanto conflagrado, com gente reclamando, entre outras coisas, que não podia usar os banheiros da locação e que os sanitários móveis tinham sido removidos. A certa altura, uma voz feminina, ligada à produção, diz: “Não é o mundo perfeito, é o cinema.” 

Na hora de rodar as cenas externas, havia certa desorganização, com figurantes entrando no local de filmagem sem se identificar adequadamente. Em uma das filmagens em São Paulo, no Memorial da América Latina, um figurante chegou a ser agredido por um segurança, segundo o boletim de ocorrência. Documentos médicos registraram lesões, e a Polícia Civil requisitou exame de corpo de delito. 

No dia 5 de dezembro, quando foi filmada a cena da facada que Bolsonaro levou em Juiz de Fora, Jim Caviezel apareceu nas gravações com a peruca que usa no filme levemente mal ajustada. Entre o Beco do Pinto, o Solar da Marquesa de Santos e as proximidades do Museu das Favelas, no Centro histórico da capital, uma multidão de figurantes reconstituiu a caminhada que antecedeu a facada. Na cena em que Caviezel é colocado num carro para ser levado ao hospital, houve tumulto, com o carro avançando sobre a massa de figurantes.

No início de dezembro, a produção tentou filmar no Pátio do Colégio, também no Centro histórico, mas não obteve autorização. O período da filmagem coincidia com o Advento – período litúrgico que antecede o Natal –, o que poderia causar transtornos aos fiéis. Quando soube que se tratava de uma obra sobre Bolsonaro, um representante do Pátio do Colégio, que pediu para não ser identificado, reforçou a negativa. Não queria envolver a instituição em uma obra com conotação política – e rejeitou inclusive uma oferta de pagamento. A produção, então, gravou nas imediações, atrapalhando mesmo assim as atividades da instituição religiosa.

Apesar de tudo, a filmagem de Dark Horse – seja em cenas de estúdio, seja nas ruas – não era um ambiente em que tudo parecia estar entrando em colapso, como se chegou a comentar. Com dificuldades aqui e ali, as coisas avançavam. A piauí procurou cerca de vinte nomes da cúpula da produção – do diretor Cyrus Nowrasteh à controller Juliana Piazza Santana –, mas a maioria não quis dar entrevista. Juliana Santana, uma das poucas que chegou a acusar o recebimento do pedido de entrevista, mas não falou alegando sigilo profissional, é figura importante nas investigações. O controller é o responsável pela administração financeira do filme.

Quando as câmeras foram desligadas, em dezembro, Daniel Vorcaro já estava solto. Jair Bolsonaro continuava preso. E uma personagem começava a ocupar o centro da cena: Karina Ferreira da Gama, a dona da produtora Go Up.

Na verdade, Karina da Gama nunca sonhou com algo parecido a Hollywood. Jornalista de formação, virou empresária do terceiro setor em São Paulo e começou sua vida de empreendedora promovendo eventos da comunidade evangélica, à qual ela pertence. Nos anos 2010, fez negócios com o poder público em São Paulo por meio de uma ONG e, na década seguinte, envolveu-se com produções culturais e passou a presidir outra ONG. Até que os Estados Unidos começaram a aparecer no seu horizonte, quando se associou ao amigo Michael Brian Davis. Juntos, tentaram fazer uma série documental sobre atletas cristãos, mas o projeto não deu certo. Depois, decidiram formar uma sociedade – a Go Up Entertainment LLC.

Em 2022, os sócios da Go Up procuraram Mario Frias, então secretário especial de Cultura do governo Bolsonaro, para tentar viabilizar um projeto de apoio a pequenos produtores culturais. Daí, nasceu uma relação. Na campanha eleitoral daquele ano, Karina e seu então marido prestaram serviço à candidatura de Frias a deputado federal. Receberam 54 mil reais. Em dezembro, com auxílio de Frias, a Go Up obteve os direitos cinematográficos de Bolsonaro. Em 2023, já com a adesão de Eduardo Bolsonaro, o projeto do filme ganhou corpo e a previsão de orçamento total atingiu uma cifra polpuda: 25,4 milhões de dólares. Era preciso começar logo a captação de recursos para cumprir a previsão de iniciar as filmagens em 30 de outubro de 2024. Demoraria muito mais, pois o grande mecenas Daniel Vorcaro, que aceitaria bancar 24 milhões de dólares, só seria fisgado para o filme em dezembro de 2024.

Mas, enquanto o filme não decolava, as ONGs de Karina faturaram alto. Uma delas, o Instituto Conhecer Brasil (ICB), capturou um peixão: um contrato milionário com a Prefeitura de São Paulo, na gestão de Ricardo Nunes. O objetivo do contrato era instalar e manter 5 mil pontos de wi-fi gratuito em comunidades da capital, ainda que o ICB não tivesse nenhuma experiência na área. O contrato era de 108 milhões de reais e, pouco depois de ser assinado, recebeu aditivo, saltando para 157 milhões de reais. O fluxo do dinheiro chama a atenção: a prefeitura pagava o ICB que, imediatamente, contratava fornecedores, como se fosse apenas uma empresa de passagem.

No segundo semestre de 2024, Karina encontrou mais uma nova fonte de renda para suas ONGs – emendas parlamentares de Brasília. Uma de suas entidades, a Academia Nacional de Cultura, foi contemplada com 3,6 milhões de reais por iniciativa de quatro deputados bolsonaristas do PL – Carla Zambelli (SP), Marcos Pollon (MS), Delegado Ramagem (RJ) e Bia Kicis (DF). Por sorte, o dinheiro chegou aos cofres do Estado de São Paulo e não foi repassado à entidade. O governo considerou que nem todos os requisitos para o repasse estavam sendo atendidos.

Mas o deputado Mario Frias fez uma emenda despachando 2 milhões de reais para o ICB. Neste caso, o dinheiro chegou. Na verdade, foram duas remessas, de 1 milhão cada uma, para dois programas distintos – um projeto esportivo e outro de empreendedorismo. O último termo da emenda foi assinado em 30 de dezembro de 2024. Por coincidência, a assinatura aconteceu no mesmo mês em que Vorcaro concordou em financiar Dark Horse. Assim, Frias, o deputado, mandava dinheiro público para a ong cuja dona, na outra ponta, era sua parceira em Dark Horse.

Os recursos recebidos pelo ICB – tanto os da Prefeitura de São Paulo, quanto os da emenda parlamentar – compõem um enorme mosaico de suspeitas. Em São Paulo, no caso da instalação de wi-fi gratuito, um inquérito policial investiga pagamentos por serviços que nunca foram prestados e a existência de 4 milhões de reais em notas fiscais frias. Uma das empresas subcontratadas pelo ICB, por 12 milhões de reais, pertencia a Alex Bispo dos Santos, que chegou a ser preso por feminicídio, é apontado pelo Ministério Público como membro do PCC e, desde o fim de agosto, está foragido da polícia. Em sete mandados de busca, a Polícia Civil já bateu em endereços relacionados ao ICB, à própria Karina e a fornecedores dos programas. Apreendeu celulares, computadores, pen drives, discos rígidos e documentos que estão sob análise. 

No caso das emendas parlamentares enviadas por Mario Frias ao ICB, a piauí apurou que uma auditoria da Controladoria-Geral da União encontrou tantos problemas nos dois projetos que está tomando providências para pedir o dinheiro de volta e responsabilizar os envolvidos. O projeto Lutando pela Vida previa aulas de esportes de combate para quinhentas pessoas em Pirassununga, no interior de São Paulo. Uma auditoria da CGU detectou pagamentos sem comprovante da entrega de bens e da prestação de serviços. O outro projeto, o Jovem Empreendedor, que prometia capacitar 250 pessoas e alcançar 2 250 estudantes de escolas públicas, fez ainda pior. Depois de um ano e meio, a CGU descobriu que o programa não capacitou ninguém e não atendeu nenhum estudante. Uma reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, informou que parte do dinheiro foi para o advogado de Frias.

Com as suspeitas de malversações financeiras, a pergunta central que os investigadores querem responder é: haveria alguma conexão entre os recursos públicos que abasteceram o ICB e o caixa de Dark Horse? A hipótese está sendo investigada pela Polícia Civil de São Paulo depois que os investigadores encontraram “consistentes suspeitas de confusão patrimonial de que os recursos públicos [...] tenham sido desviados para custear as atividades de produção do referido filme, utilizando as contas das empresas subcontratadas”. No dia 24 de agosto passado, essa suspeita subiu de nível. O ministro Flávio Dino, responsável pelo inquérito que investiga os desvios de recursos do orçamento secreto no Congresso, autorizou a Polícia Federal a ter acesso ao material recolhido pela Polícia Civil. Com isso, Dark Horse passou a ser alvo de duas investigações paralelas: uma aberta há pouco pelo ministro Dino e outra comandada pelo ministro André Mendonça, que vem apurando o financiamento de Vorcaro ao filme.

Ao examinar os documentos que já estão disponíveis, a piauí não encontrou transferência do icb para a Go Up, que produz o filme. As únicas conexões já descobertas estão no quadro de funcionários: há pessoas que trabalham no ICB e, também, na produção do filme. Uma delas é justamente Juliana Piazza Santana, que exerce a mesma função de controller no ICB e na Go Up. Todos os envolvidos – a Prefeitura de São Paulo, o deputado Mario Frias, além da própria Karina Gama – negam qualquer ligação entre as duas pontas.

Em maio, quando apareceu pedindo dinheiro para Vorcaro, Flávio Bolsonaro disse que, em trinta dias, traria a público uma prestação de contas do filme. Até hoje, quase quatro meses depois, não apresentou nenhum documento. A produção de Dark Horse, por sua vez, entregou às autoridades um Laudo de Perícia Investigativa Defensiva, destinado a provar que as contas conferem. Encomendada pela própria produção, a perícia coincide até nos centavos. Com apenas 32 páginas, afirma que, até o dia 4 de junho de 2026, a produção gastou 13 393 081,29 dólares. E informa que a produção recebeu do Havengate um total de 13 393 081,29 dólares. 

Na prática, não é uma prestação de contas. Quem examina fica com a impressão de uma conta de chegada, já que o laudo não desdobra os valores, nem identifica gastos específicos. Não se sabe quanto recebeu cada ator, diretor ou produtor, quais empresas foram contratadas, os serviços que prestaram, nem em que datas os pagamentos foram feitos. O documento afirma que o dinheiro é rastreável, mas não apresenta os dados que permitiriam fazer isso. 

Ainda assim, quando foi questionado sobre a prestação de contas que não apresentou, Flávio Bolsonaro disse que a produtora já o fizera e que o assunto é uma “página virada”. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, traindo seu passado de auditor da CGU, apressou-se em concordar. “Acho que ele já deu explicações. Se nenhum fato novo aparecer, eu acho que está tudo esclarecido.” A piauí mostrou o laudo para três produtores brasileiros, todos eles envolvidos em filmes de grande porte no Brasil e no exterior, que apontam exatamente o oposto do governador paulista.

Mariza Leão, que já produziu mais de quarenta filmes em cinco décadas de carreira, ficou alarmada com alguns números. O laudo informa que, no Brasil, a produção gastou 21 milhões de reais. “Gastar 20 e poucos milhões no Brasil, hipoteticamente filmando durante quarenta dias, é um custo muito alto”, disse ela. Sua principal ressalva ao laudo, no entanto, nem é sobre o tamanho das cifras, mas não explicá-las com um mínimo de detalhamento. Para saber se o dinheiro declarado corresponde à produção realizada, disse Leão, é preciso descer a algum nível de detalhe. “Quem foi o eletricista-chefe?”, exemplificou. “Quanto recebia normalmente um profissional daquela categoria? Quanto recebeu em Dark Horse? Se for dez vezes acima do padrão, por quê? Baseado em quê?’”, disse.

Outros dois produtores, ambos com experiência em coproduções internacionais e que pediram para não ser identificados, ficaram surpresos com o fluxo do dinheiro. Primeiro: estranharam o fato de que o dinheiro saía do Brasil, chegava ao fundo nos Estados Unidos e, depois disso, parte voltava para o Brasil, onde financiava as filmagens rodadas aqui. Segundo: acharam no mínimo “atípico” que os recursos tenham sido enviados para um fundo e, só mais tarde, caído na conta da Go Up, a produtora. O comum nas produções é que os recursos captados cheguem diretamente à produtora, que então se encarrega de administrar o caixa.

Entre os poucos detalhes oferecidos pelo laudo, alguns não fazem sentido. Um deles é que apenas 28% dos custos de produção aparecem como tendo sido efetuados no Brasil, que, no entanto, foi o único país onde houve filmagens. Outro é o gasto de 383 mil dólares com desenvolvimento do projeto, sobretudo roteiro. Um dos produtores ficou espantado com a cifra. “Se esse é o custo do roteiro, esse roteirista é um cara que ganhou o Oscar. Isso aqui é padrão Oscar”, disse. 

Outra rubrica chamou ainda mais a atenção dos produtores. O laudo informa que a Go Up gastou 2,68 milhões de dólares em soft-production, assim chamada uma etapa inicial em que normalmente trabalha apenas uma equipe reduzida, dedicada a tarefas de planejamento e pesquisa. Uma fase seguinte, a pré-produção – quando o número de profissionais aumenta e começam as contratações de elenco, equipamentos, cenários, figurinos e demais estruturas necessárias às filmagens – custou 2,66 milhões. Ou seja: a fase preparatória mais enxuta teve custo ligeiramente superior ao de toda a etapa seguinte, mais encorpada. Para um dos produtores ouvidos pela piauí, a desproporção não é coerente. 

A Go Up teve a oportunidade de apresentar respostas menos imprecisas. Procurado pela piauí, Michael Davis, sócio da produtora, mandou uma longa carta. Disse que Dark Horse era uma produção americana, que seguia as práticas americanas e, portanto, qualquer comparação tendo o cinema brasileiro como referência era “fundamentalmente equivocada”. Em vez disso, pediu que a reportagem lhe mandasse perguntas factuais específicas, com documentos e evidências, separando fatos estabelecidos, alegações de terceiros e inferências do repórter. A piauí aceitou os termos propostos por Davis e lhe enviou um questionário com 146 perguntas, divididas em blocos apoiados por documentos.

Entre as perguntas, havia também questões básicas: Que empresa contratou formalmente o elenco e a equipe nos Estados Unidos? Quem administrava a folha de pagamento? Em que banco ficava a conta da produção e quem tinha poder de assinatura? Quem podia autorizar despesas e movimentar o dinheiro? Davis não respondeu às perguntas, alegando cláusulas de confidencialidade, mas encaminhou uma nota de esclarecimento genérica em que afirma que a Go Up conduz suas atividades e a produção de Dark Horse “de forma documentada, transparente e em conformidade com suas obrigações contratuais”. Disse também que minutas internas e documentos não assinados não deveriam ser confundidos com acordos vigentes e anunciou que estava adotando “medidas civis e criminais” contra o compartilhamento não autorizado de informações internas.

O detalhe é que o autor da nota de esclarecimento não é Michael Davis, nem Karina da Gama, nem ninguém formalmente vinculado à Go Up ou à produção de Dark Horse, mas o advogado Paulo Calixto, o administrador do fundo Havengate – que, em tese, não tem nada a ver com o filme. Seu nome aparece nos metadados do arquivo de PDF da nota de esclarecimento, nos quais consta que ele criou o documento duas horas antes de a piauí recebê-lo. Davis negou enfaticamente qualquer participação de Calixto e sugeriu que o escritório da Go Up no Brasil explicasse a presença dele nos metadados.

Karina da Gama recebeu uma versão em português das 146 perguntas e enviou à revista a mesma nota de esclarecimento. Indagada por que o documento foi criado por Calixto, ela deu explicações pouco claras. Primeiro, disse: “Quando enviado o ofício, devem ter colocado em um papel timbrado de um documento que já existia.” A piauí insistiu por esclarecimento mais plausível. Karina disse então que o documento “saiu da Go Up [...] com informações de Calixto”, mas em seguida deu meia-volta e disse que não sabia a resposta. Ocorreu então o seguinte diálogo:

– Quais informações de Calixto que foram usadas? – perguntou a piauí.

– Quais informações? Que Calixto? Quem é o Calixto? 

– Você falou que foi escrito com informações de Calixto... 

– Quem foi? Mas aonde? Você recebeu uma notificação da Go Up. Mas olha aqui, tem um dado do Calixto, no título. Não sei, não sei o que te dizer – respondeu Karina.

– A senhora saberia dizer então quem escreveu o documento?

– A produtora não sabe dizer – encerrou ela.

A primeira notícia de que os filhos de Bolsonaro queriam fazer um filme sobre a vida do pai foi dada no dia 1° de agosto do ano passado. A matéria publicada pelo Portal Leo Dias não mencionava o Banco Master, não falava do orçamento milionário, nem que Daniel Vorcaro era o principal financiador. Contava apenas que Jair Bolsonaro seria retratado como um homem “corajoso e determinado”, citava o diretor Cyrus Nowrasteh e dizia que as “polêmicas e controvérsias” em torno do ex-presidente seriam amenizadas. 

O Portal Leo Dias tinha relação financeira com o universo de Vorcaro. Em julho de 2024, Thiago Miranda intermediara a venda de 17% do portal – do qual ainda era sócio – por 10 milhões de reais a um empresário mineiro suspeito de atuar como laranja do banqueiro. Os envolvidos sempre negaram que Vorcaro estivesse por trás da compra, apesar de o Master, entre fevereiro de 2024 e maio de 2025, ter transferido 9,9 milhões de reais ao portal – supostamente, para cumprir um “contrato de publicidade”. 

Essa relação financeira não estava por trás da notícia que o portal havia dado sobre a existência de Dark Horse. Ao contrário. Ao ler o post sobre o filme, o banqueiro ficou irritado e, cerca de uma hora depois de a notícia entrar no ar, procurou Thiago Miranda. Não gostou da revelação da existência do filme justamente no Portal Leo Dias. “Achei que divulgar que tá fazendo o filme é muito ruim, não acha?”, disse o banqueiro. Miranda concordou. “Acho muito!! Tínhamos combinado de não divulgar nada.” Disse ainda: “Vou pedir para apagar.” Em seguida, mandou uma mensagem dizendo que havia falado com Mario Frias e Flávio Bolsonaro, e completou: “Já mandei deletar.” 

Vorcaro, neste momento, não deixou barato e reclamou que o próprio Miranda havia divulgado a notícia ou permitido que fosse veiculada. Miranda assumiu a responsabilidade. “Vc tá certo. Como ninguém sabe de nada, eles fizeram e não passou por mim. Foi erro meu.” Às 13h06, encerrou o assunto: “Resolvido. Flávio disse que vai te dar uma ligada tb.” E termina: “Estou precisando te encontrar, me avisa quando estiver em Brasília.” Vorcaro responde: “Vamos.”

Ao confirmar a história para a piauí, Leo Dias disse que, quando publicou a notícia, não sabia que seu ex-sócio Thiago Miranda estava envolvido com Dark Horse. A pedido do ex-sócio, ele apagou o post. O caso reafirma o papel relevante de Miranda nas engrenagens do filme, embora seu nome não apareça como produtor, financiador ou executivo da Go Up em nenhum documento. É um personagem que atuava nas sombras, em linha direta com o banqueiro e os Bolsonaro, tratando de um assunto que, desde o início, deveria ficar longe dos olhos do público.

Leo Dias conta que a relação de seu ex-sócio com Flávio Bolsonaro vai além do filme. Diz que, em fevereiro do ano passado, foi à festa de aniversário de Miranda, ocorrida na casa de Vivianne Leão Piquet, ex-mulher do piloto de Fórmula 1 Nelson Piquet, e que Flávio estava lá. Diz ainda que Miranda lhe confidenciou que seu nome chegou a ser cogitado para coordenar a campanha presidencial de Flávio. Dias garantiu que nunca teve o número de telefone do senador. “O Thiago foi sempre o elo. Sempre.” Procurado pela piauí, Miranda, que anda recolhido de sua antes agitada vida social, mandou dizer por meio de seu advogado, Rafael Martins, que não iria se manifestar.

Oito meses depois das gravações de Dark Horse, três dos principais personagens da história mudaram de condição. Jair Bolsonaro continua preso, mas em regime domiciliar. Flávio Bolsonaro virou candidato a presidente e vem se esforçando para fazer com que as suspeitas em torno de Dark Horse se tornem uma “página virada”. O filme, porém, voltou ao noticiário no fim de agosto com a decisão do ministro Flávio Dino de investigar se a produção recebeu dinheiro de emendas parlamentares.

Daniel Vorcaro, por sua vez, depois de preso e solto em seguida, voltou a ser preso. Está na Papudinha, uma unidade do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília. Suspeita-se que, como em tantos outros dos seus negócios, aceitou financiar Dark Horse por interesses que não são propriamente financeiros: apesar do prejuízo com a produção talvez tivesse a esperança de lucrar em outras esferas.

No mercado brasileiro de cinema, para que um filme se pague, é preciso que arrecade nas bilheterias cerca de 2,5 vezes o seu custo de produção. No caso de Dark Horse, a arrecadação teria que chegar a 188 milhões de reais, pelo menos. É praticamente impossível. É mais do que o recolhido por Minha mãe é uma peça 3, estrelado pelo ator Paulo Gustavo, que faturou 143,8 milhões de reais e é até hoje o filme de maior bilheteria na história do cinema nacional.

Dark Horse, que deverá ter 1 hora e 40 minutos de duração, ainda não completou seu percurso. Como as filmagens foram feitas sem comunicado prévio à Ancine, a agência reguladora do setor cinematográfico instaurou um processo administrativo para apurar a irregularidade. Mesmo assim, a Ancine concedeu ao filme o Registro de Obra Estrangeira (ROE), a pedido da distribuidora Europa Filmes. Falta ainda a emissão de outro documento, o Certificado de Registro de Título (CRT), sem o qual o filme não pode ser exibido nos cinemas. Em razão do enrosco burocrático, Dark Horse ainda não tem data de estreia prevista no Brasil, mas não virá a público antes das eleições.


*A reportagem do Intercept foi assinada também por Eduardo Goulart, Laís Martins, Andrew Fishman, Cecília Olliveira, Leandro Becker e Mauricio Moraes.


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Repórter da piauí, baseado em Brasília