despedida

GERALDO, GERALDINHO, MANTEIGA, GERALDÃO

O centroavante que ajudou o Corinthians a vencer a uruca
Geraldão e Sócrates: a dupla fez vinte gols no Paulista de 1979 - CRÉDITO: REPRODUÇÃO
Geraldão e Sócrates: a dupla fez vinte gols no Paulista de 1979 - CRÉDITO: REPRODUÇÃO

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Em 1950, segundo o Censo, Álvares Machado, no extremo Oeste paulista, tinha 17 mil habitantes. Um deles, com apenas 1 ano, chamava-se Geraldo da Silva, provavelmente conhecido como Geraldinho. A primeira informação que temos do menino é que trabalhou como boia-fria. A boia devia ser boa, pois Geraldinho acabou se transformando em Geraldão.

O pequeno boia-fria jamais poderia imaginar – jamais! – que, em setembro de 1977, apareceria num poema do jornalista e escritor Raul Drewnick, publicado no jornal O Estado de S. Paulo: 

A mão que pôs na encruzilhada a vela,/A mão que na bandeira pôs a vida,/A mão que sem mais essa nem aquela/No ingresso deu o prato de comida,/A mão que se crispou em agonia,/A mão que no incentivo se agitou,/A mão que deu na cara da ironia,/A mão que desaforo não levou,/É a mesma que amanhã, no trem lotado,/Vai mostrar o jornal escancarado/Na manchete “Corinthians Campeão”./E ninguém vai chorar do mau salário,/Da condução: nas ruas, o operário/Vai refazer os gols do Geraldão. 

O boia-fria que se tornou centroavante foi bicampeão paulista pelo Timão (1977 e 1979) e bicampeão gaúcho pelo Internacional (1982 e 1983). Começou a trajetória profissional em 1969, no São Bento, de Marília (SP). Também defendeu o Grêmio, o Botafogo, de Ribeirão Preto, o Juventus (SP) e o Colorado (PR), entre outros. Pendurou as chuteiras em 1989, no modesto Garça (SP). 

Enquanto atuava pelo Corinthians, virou ídolo da torcida não propriamente por ser um atleta excepcional. Estava longe de exibir a técnica de um craque, mas tinha força e muita garra, fazia gols bonitos e participou de três momentos decisivos do clube.

Em 1977, o Corinthians amargava um jejum de duas décadas. Ou melhor: não vencia nenhum campeonato relevante desde 1954, quando faturou o título paulista. Foi justamente em 1954 que eu, com 8 anos, me meti nesse tabu. Explico. Eu vivia no interior de São Paulo, em Lins, terra do glorioso Clube Atlético Linense, o Elefante da Noroeste, e calhou de o Corinthians jogar lá. Nós, acreditem, ganhamos. O Linense derrotou o Timão por 1 a 0. No entanto, corre ainda hoje, inclusive na súmula da partida, o absurdo de que os corintianos é que ganharam por 1 a 0, gol do Pequeno Polegar, o Luizinho. Posso garantir que esse papo não passa de fake news. Eu estava lá, cacete! No jogo de volta, em pleno Pacaembu, o Timão venceu por 2 a 1. Mas aí eu já era meio corintiano.

Viajei! Me esqueci do Geraldão... Retorno para 1977. Era dia 13 de outubro, uma quinta-feira. O Corinthians disputava a final do Campeonato Paulista contra o timaço da Ponte Preta, a Macaca de Campinas. Caso ganhasse, o alvinegro da capital quebraria o persistente tabu. Antonio, meu primeiro filho, com 50 dias de vida, não dormiu naquela noite – nem no horário do jogo e nem depois, durante as comemorações na rua que foram até o amanhecer. Se o Antonio não dormiu, eu e Marta, a mãe dele, muito menos, assim como os nossos vizinhos. Eu diria que nenhum vizinho dormiu naquela noite em São Paulo. Os fogos e as buzinas ensurdeceram a cidade. 

Eu ficava balançando o Antonio, que arregalava os olhos: “É o Timão, Antonio... É o Timão. Basílio, Basílio!!! Geraldão! Tobias!!! Dorme, filho... É o Wladimir... Olha o Ruço, Marta! Tá russo! Antonio, tem um jogador chamado Cambalhota... Romeu Cambalhota! Geraldão, Geraldão! Vaguinho, filhinho! Geraldão e Vaguinho, aumentativo e diminutivo juntos, já viu isso? Picas!”

Geraldão estava lá, dentro do quarto do Antonio, com o time todo. O centroavante, ainda que tenha lutado bravamente, não fez o gol da vitória por 1 a 0 – o gol que pôs fim à uruca, à ziquizira, à urucubaca de exatos 22 anos, 8 meses e 7 dias. A glória de estufar a rede coube ao Basílio. No Paulista de 1977, porém, Geraldão entrou para a história como artilheiro do Corinthians, com 23 gols.

Meu filho não dormiu naquela noite de festa, mas virou corintiano. E eu me senti feliz. 

Em dezembro de 1976, dez meses antes do título inesquecível, houve a tal invasão. A torcida do Corinthians se deslocou aos milhares para o Rio de Janeiro. Iria apoiar a equipe no jogo contra o Fluminense. O vencedor disputaria a final do Campeonato Brasileiro. Cerca de 146 mil pagantes assistiram à partida no Maracanã. Dizem que uns 60 ou 70 mil deles eram corintianos. Ninguém nunca soube ao certo. 

Eu morava no Rio e, quando vi a quantidade de carros com placa de São Paulo chegando à Zona Sul, peguei o nosso – com placa de São Paulo – e escondi por uns dias na casa da avó de Marta. Medo de apedrejamento.

Geraldão estava lá. Minha segurança renascia toda vez que o Geraldão pintava na área. Depois do empate por 1 a 1 no tempo regulamentar e na prorrogação, o Corinthians ganhou nos pênaltis. O goleiro Tobias defendeu duas bolas. No Fluminense, jogava o Rivellino, um dos heróis da Copa de 1970, que havia brilhado no Timão durante dez anos.  

O Corinthians acabou perdendo a final do Brasileiro para o Internacional, no Beira-Rio. O Inter do lendário técnico Rubens Minelli e de Manga, Figueroa, Marinho Peres, Falcão, Batista, Dadá Maravilha... Só feras. 

Não, dessa vez o Geraldão não estava lá. A revolução começou em 1982, quando o sociólogo Adilson Monteiro Alves virou diretor de futebol do Timão. A ele se aliaram jogadores tão politizados quanto Casagrande, Wladimir e, principalmente, Sócrates. A ditadura militar ainda dava as cartas no país, mas a autogestão passou a reinar no Corinthians. O técnico Mário Travaglini continuava escalando o time sozinho. Em compensação, outras decisões importantes eram tomadas em grupo. Todos podiam votar, dos atletas aos demais funcionários. 

O movimento da Democracia Corinthiana sobreviveu até 1985 e teve papel de destaque na luta pela volta das eleições diretas para a Presidência da República. Geraldão já não pertencia à equipe, mas tudo indica que inventou o Sócrates. Foi mais ou menos assim: em 1978, os gols do centroavante escasseavam. O folclórico presidente do Corinthians, Vicente Matheus, resolveu bater um papo com ele.

– O que está rolando, meu garoto? Cadê os gols?

Manteiga (outro apelido do Geraldão) teria respondido:

– Se o senhor trouxer o Sócrates, eu posso garantir.

– Sócrates? Isso é nome de jogador? Parece mais nome de imperador grego. 

– Nome de filósofo, Seu Vicente... Ele se formou em medicina. Jogava comigo no Botafogo de Ribeirão Preto. Por isso, eu fazia mais gols lá. Ele é que criava os lances. Dava passe de calcanhar.

– Sócrates... Era só o que me faltava! 

Trouxe.

De 1978 a 1981, o Doutor e Geraldão armaram um fuzuê Brasil afora. Em 1979, conquistaram o Campeonato Paulista depois de marcarem vinte gols. Cada um fez dez. Ao longo de todas as temporadas no Timão, o centroavante participou de 280 jogos e acumulou 91 gols.

Geraldo da Silva, o Geraldinho, o Geraldão, o Manteiga, morreu em agosto. Tinha, vejam só, 77 anos. Sua família não divulgou a causa da morte.


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