diário

O HOMEM QUE CONHECIA TODO MUNDO

Um cultor e patrono da arte moderna circula pelos ateliês, mesas e salões da Belle Époque
Imagem O homem que conhecia todo mundo

46 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Ele ajudou a fazer a máscara mortuária de Friedrich Nietzsche, recebeu de Paul Verlaine a última lembrança que o poeta guardava do amante Arthur Rimbaud, encomendou duas gravuras a um miserável Edvard Munch, que depois pintou seu retrato, comemorou com Vaslav Nijinsky a estreia de Sagração da Primavera, partilhou a mesa com praticamente toda a vanguarda artística e literária da Belle Époque. O CONDE HARRY CLÉMENT ULRICH KESSLER considerava-se um cidadão europeu numa época em que o otimismo com o avanço técnico (telefone, cinema, automóvel, avião) convivia no continente com as rivalidades nacionais que levariam à Primeira Guerra Mundial.

Kessler herdou o título de conde do pai, um banqueiro alemão. Sua mãe vinha de uma família de altos funcionários do Império Britânico. Ele nasceu em Paris, passou a adolescência em Londres, e usou sua fortuna para difundir e financiar a arte moderna. Na Alemanha, desafiou o conservadorismo da aristocracia imperial como fundador da Associação dos Artistas, membro do conselho editorial da revista Pan e diretor do Museu de Artes e Ofícios de Weimar. Aristocrata ele próprio, homossexual e oficial orgulhoso da reserva do Exército, editor, escritor, dândi, boêmio e diplomata, Kessler era tudo isso e ao mesmo tempo um observador irônico dos diferentes mundos que frequentava. Ele manteve um diário por 57 anos, até sua morte em 1937. As anotações de 1880 a 1914 só foram encontradas em 1983, quando da abertura de um cofre que Kessler alugara na ilha de Mallorca, na Espanha, onde se refugiou do nazismo. O conjunto ocupa nove volumes em alemão (Harry Graf Kessler, das Tagebuch), dos quais foram traduzidos os trechos a seguir.

1893

23 DE AGOSTO, TERÇA-FEIRA, SÖLLENTHIN_ Alojamento ruim em Söllenthin, onde ficaremos oito dias. Divido um quartinho com Dungern[1], camas terríveis, penas sobre palha. À tarde, banho de rio com Dungern. Depois, calor intenso no caminho de volta e nos perdemos; como nossas coisas ainda não tinham chegado e estávamos encharcados, tivemos de nos deitar nus em nossas camas horríveis. Não havendo salão no local, armamos nossas barracas na campina atrás do alojamento e montamos ali a cantina.

27 DE OUTUBRO, SEXTA-FEIRA, BERLIM_De manhã, despedi-me de Dungern, meu querido garotinho. Fui a Potsdam para o almoço com os oficiais.

29 DE NOVEMBRO, QUARTA-FEIRA_O Valbert de Wyzewa.[2] Nunca me reconheci tão completamente em um livro. Esse gozo antecipado de tudo na fantasia, até que toda a realidade se torne uma repetição insípida – essa é a forma que o conflito entre ideal e realidade, base de toda melancolia, assume para o sonhador, enquanto para o homem de ação esse conflito aparece sob a forma do fracasso de seus planos. O que da realidade de fato me arrebatou os sentidos? Mulheres, desejei inúmeras, tive algumas, mas não fruí efetivamente de nenhuma. Literatura e filosofia, assim como ciência e história, excitaram minha fantasia, mas nada disseram a meus sentidos. Uma dúzia de impressões da natureza e da arte proporcionaram-me sensações profundas: as cores do crepúsculo, o silêncio nos campos e pradarias, o mar, o Himalaia à luz da manhã, e também Don Giovanni, Parsifal, algumas obras de Michelangelo, Rembrandt, Dürer. Tudo o mais foi sonho.

1894

25 DE SETEMBRO, TERÇA-FEIRA, BERLIM_À noite, fui à primeira apresentação pública de Os Tecelões,[3] no Deutsches Theater. Estava completamente lotado. Muitas mulheres maquiadas e carregadas de brilhantes. Ao final de cada ato e, por fim, em palco aberto, os aplausos foram tempestuosos, ostensivos, enormes, mas sem dar a impressão de espontaneidade. Com certeza, Os Tecelões não é uma peça tendenciosa. O efeito que ela produz, aliás, repousa em grande parte no fato de os personagens terem razão, pelo menos para si mesmos, uma vez que as relações sociais, a sociedade moderna, ocupam aí o papel que o destino desempenhava no drama grego. Mas não deixamos de sentir que há alguma coisa ilógica em todos aqueles dedos adornados de brilhantes nos camarotes, movendo-se num aplauso. Esquecemo-nos de que, em nosso íntimo, somos divisíveis: uma parte de nós pode querer ou sentir coisa diferente da outra. O aplauso é dirigido aí apenas ao deleite estético – à excitação mental, por assim dizer; dele não decorre que os que aplaudem teriam menos prazer ao saborear ostras no Dressel porque viram a família Baumert jantar carne de cachorro.

1895

20 DE JANEIRO, DOMINGO, BERLIM_Depois do café da manhã, fui até Munch[4] e Fidus.[5] Munch mora em Charlottenburg, no quarto andar de uma moradia estudantil. Esvaziou a sala e a utiliza como ateliê. Pelas duas janelas sem cortinas, a luz pálida de inverno ilumina grandes pinturas coloridas e inacabadas, encostadas de pé às paredes; um cheiro amargo de terebintina misturada ao da fumaça dos cigarros penetra no nariz. Munch ainda é jovem, mas tem já uma aparência decrépita, cansada, faminta tanto mental quanto fisicamente. Ele nos recebe num roupão bastante gasto; em torno do pescoço, enrolou um lenço escocês, um xadrez de azul e verde. Ficou muito feliz quando lhe paguei 60 marcos por umas poucas gravuras.

Fidus é bem o contrário dele: um rapazinho bem jovem e gracioso, com o rosto rosado de uma garota e longos cabelos castanhos cacheados, que, numa voz aguda de falsete, fala de si e dos outros com impertinência e autoconfiança. Um homenzinho ou garoto – escolhe-se com hesitação qual palavra usar – tão afetado e bonito como seus desenhos. É evidente que ganha dinheiro, porque o ateliê – um ateliê de verdade – é grande, arejado e ali, no Tiergarten, não há de ser barato. No momento, ele pinta duas paisagens que lhe encomendaram e vai receber 600 marcos por tela.

8 DE JUNHO, SÁBADO, PARIS_Fui à exposição de Monet[6] [na galeria] de Durand-Ruel.[7] Cerca de quarenta grandes paisagens; muitas vezes, a mesma paisagem sob iluminação variada – um único portal de uma catedral em vinte versões diferentes [a catedral de Rouen] –, sempre com novos efeitos de cores, todos eles, porém, fincados na realidade. Se paramos para pensar um pouco, somos capazes de indicar, a cada concepção, a posição exata do sol e das nuvens no céu.

As pérolas da exposição parecem-me, contudo, as paisagens contendo os dois rios invernais, ou, melhor dizendo, o mesmo rio em dois dias diferentes de inverno [La Seine a Bennecourt, HivereLes Glaçons, Bennecourt]. Em uma, o rio congelado; na outra, semicongelado. Mais especificamente, a paisagem em que uma leve névoa branca toma conta do ar e quase apaga os contornos das árvores é, talvez, a coisa mais perfeita que já vi, em se tratando da delicadeza na matização de valores de uma mesma cor. Tudo se reveste de branco, mas com uma nitidez e uma atmosfera quase inacreditáveis; um artifício e, no entanto, uma obra artística de mestre.

10 DE JULHO, QUARTA-FEIRA_Depois do café da manhã, em casa de Verlaine[8] por causa da [revista] Pan. Após algum empenho, descobri o apartamento dele num prédio pobre de trabalhadores situado na rue Saint-Victor, subindo quatro lances de escada cheirando a gatos, carvão e roupas íntimas do operariado postas para secar. Depois de atravessar um vestíbulo escuro – no qual o olfato leva a supor serem cuecas os objetos quentes de lã que pendem das paredes e por entre os quais é difícil serpentear –, tateia-se até a porta da habitação de um único cômodo em que vive o maior poeta da França. Bato e entro.

É um lugar baixo, escuro, parcamente mobiliado: duas ou três cadeiras de palha, uma grande cama de casal – a cama de Verlaine e de sua ilegítima madame Verlaine –, uma mesa branca de madeira, que claramente serve como mesa de cozinha, de trabalho e para as refeições; nas paredes, fotografias amareladas e uns quadros piegas, a galeria de arte de madame. Deitado na cama, Verlaine, vestido e calçando pantufas. De início, ele não se levanta. A bizarra cabeça de Sócrates mal se ergue dos travesseiros desarrumados. Então, depois de algumas desculpas e explicações – uma soneca depois do almoço, reumatismo, calor –, ele se levanta, veste um roupão e me conduz até a janela, para me mostrar os vasos de flores e as gaiolas que a emolduram.

O pobre e grande poeta parece relativamente satisfeito, apesar da pobreza e das dores na perna de que se queixa – os médicos já a teriam querido amputar certa vez. Louva suas flores coloridas, seus passarinhos (cujas crias encheram-no de alegria paterna), a vista de que desfruta (mais além de alguns telhados, meia dúzia de plátanos), os moradores de seu bairro, que, depois do trabalho, cantam canções tão tolas e comoventes, e sua mulher, que dele cuida com tanta lealdade. “Tenho alguém que cuida muito bem de mim”, ele repete diversas vezes, como se fosse importante para ele que eu registrasse esse fato e, ao mesmo tempo, como uma espécie de explicação ou desculpa preventiva.

Enquanto conversamos debruçados na janela, ela chega – uma pessoa baixinha, de certa idade e gorda, com cabelos negros e crespos – e, sem se preocupar muito com minha presença, vai pôr suas groselhas em conserva. Só interrompe essa tarefa para, depois de diversos pedidos, ir abrir o guarda-roupa para dar ao poeta o lenço de que ele necessita com urgência. A relação dela com Verlaine é, antes, a de uma governanta que a de uma amante. […] Dependem um do outro mais em razão de suas deficiências que de seus méritos. Claramente, é também a madame quem toma conta das questões financeiras, porque, ao me apresentar, Verlaine explicou a ela que eu representava uma grande revista e trazia uma oferta em dinheiro.

Mas é justamente esse papel maternal, essa aparente superioridade, que torna tão mais melancólico o contraste entre a cozinheira gorda e ordinária e o poeta das Festas Galantes. Muito do tom das últimas obras de Verlaine, de sua produção transformada em maior ou menor grau em trabalho assalariado, pode ser explicado com base nessa relação. Em casa, ele não parece se sentir disposto a escrever. Ao me mostrar uma fotografia dele próprio sentado num café, diz: “Aí estou eu, em meu escritório.”

A menção a Arthur Rimbaud parece fazer tremular uma chama nervosa em seus olhos, mas Verlaine fala dele com serenidade: “Ele teve uma grande influência sobre mim… Ele me fez muito bem, mas me causou muita dor também… Nós partimos juntos, em busca de aventura… Muita coisa absurda, à la [Oscar] Wilde, foi dita sobre nós…” Ele me assegura que Rimbaud está morto. Por isso a publicação das poesias dele estaria enfrentando dificuldades, porque a irmã de Rimbaud, uma solteirona, estaria querendo suprimir tudo que, na opinião dela, se presta a revestir seu irmão de uma luz satânica. “Ela quer transformá-lo num anjo, o que ele nunca foi. Era um homem, ou melhor, um garoto, de gênio.”

26 DE JULHO, SEXTA-FEIRA_Pela manhã, outra vez em casa de Verlaine, por quem sinto mais simpatia a cada vez que o vejo. […] Ele havia desenhado a cabeça de Rimbaud no meu exemplar de Iluminações. Falou com entusiasmo de Goethe, mas disse que, infelizmente, não sabia alemão. Certa ocasião, contou-me, ofereceram-lhe um emprego em Dresden, como representante de uma empresa de vinhos, e ele quase aceitou a proposta para, assim, aprender a língua; depois, porém, a história não se concretizou.

Inglês, por outro lado, ele compreende muito bem. Sem titubear, traduziu para mim um poema de Swinburne[9] anotado por Rimbaud, até perceber que eu também entendia o original. Notável, e instrutiva no tocante a sua vida visionária num mundo de fantasia, foi a indiferença com que, em meu favor, se desfez do manuscrito, que caracterizou como le dernier souvenir que ainda possuía de Rimbaud. E, no entanto, devia gostar dele, e gostar muito, porque volta e meia torna a falar de Rimbaud, descreve sua figura hercúlea, os olhos de um azul profundo e de mirada quase fixa, o nariz pequeno e arrebitado – que, como seu caráter, tinha algo de irônico e de irreverente –, e a grande, fantástica genialidade, que contrastava de forma quase inquietante com sua aparência infantil e sua juventude.

26 DE OUTUBRO, SÁBADO, NAUMBURG_Parti cedo para Naumburg. Com a senhora Förster-Nietzsche[10] no arquivo do filósofo, tratando da publicação das obras musicais dele na Pan; almocei e jantei com ela. Uma mulher pequena, graciosa, ainda bonita, de cabelos encaracolados e a cor do rosto exibindo frescor. Além dela, Kögel[11] e um certo dr. Hecker. Kögel, um homem alto, de pele escura, dotado de uma cabeça bela e expressiva, mas cujo aspecto de genialidade ele exagera um pouco com o auxílio dos cabelos desgrenhados.

No arquivo, um simpático espaço de proporções medianas que abriga a Biblioteca Nietzsche e os manuscritos, Kögel tocou diversas vezes o Hino à Amizade e alguns Lieder de Nietzsche. O Hino, uma poderosa obra heroico-mordaz em um estilo intermediário entre Bach e a Nona Sinfonia, é uma encarnação genuína de afetos verdadeiramente nietzschianos e zaratustrianos.[12] O mais curioso é que essa obra, composta em 1873, à época da amizade mais próxima entre [Richard] Wagner e Nietzsche – ela própria, um monumento a essa amizade –, nada tem do estilo musical de Wagner, ao passo que as obras anteriores de Nietzsche apresentam, em parte, uma presença wagneriana muito forte.

Nos últimos tempos, Nietzsche experimentou uma forte regressão de suas faculdades mentais; está agora, diz ela, apático e indiferente. Kögel mostrou-me o pórtico da casa de Nietzsche, onde Stoeving[13] o retratou. Ali, diz-se, ele passa horas sentado nos dias quentes, perdido em si mesmo. Só reconhece os amigos de infância; aqueles dos tempos de universidade não conhece mais. É notável essa persistência das impressões mais antigas, prova de sua importância em todo o desenvolvimento posterior – isso se aplica à família, à religião da infância, à primeira educação etc.

29 DE OUTUBRO, TERÇA-FEIRA, BERLIM_Ainda sobre o dia 26: contou-me a senhora Förster que Nietzsche desejava ardentemente que se pudesse comprovar ter sido Bacon[14] o autor das peças de Shakespeare, mas julgava tolas as tentativas feitas, até o momento, de comprová-lo. Além disso, falou-me da apreciação de Nietzsche pelos oficiais prussianos e sua classe – para ele, a de mais futuro, ou a única de futuro na Alemanha. Digno de nota é também o ódio do círculo de Naumburg pelo livro de Lou Andreas-Salomé.[15] Caracterizam-no como pura vingança feminina, tanto mais perigosa porque, admitem, é a obra mais importante escrita sobre Nietzsche até o momento.

1896

22 DE JUNHO, SEGUNDA-FEIRA, BERLIM_Na comunidade humana, sempre se enfatizou demasiadamente a dor em prejuízo da alegria. Talvez a solução seja compartilhar não o sofrimento, e sim a alegria, a maior elevação possível da quantidade de alegria e, assim, das forças vitais no mundo. […] A rigor, esse pensamento é o ponto central da filosofia nietzschiana, embora ele próprio tenha de fato, depois, conferido outra pedra angular a sua construção. É um preconceito – e, ademais, um preconceito superficial – que a dor se revista de mais mistério, de mais profundidade e mais alcance do que a alegria. Nesse sentido, ambas se igualam, porque são talvez a mesma coisa, ou partes de uma mesma coisa, como as duas extremidades de um pêndulo.

7 DE OUTUBRO, QUARTA-FEIRA_Casamento de Otto [von Dungern]. Às 8, em seguida à valsa nupcial, despedi-me de Otto e parti para Berlim. Às 11 e meia, rumo a Hamburgo.

1897

20 DE JULHO, TERÇA-FEIRA, BAYREUTH_Soirée em Wahnfried.[16] Apenas cinquenta ou sessenta pessoas, mas, entre elas, a rainha de Württemberg. Cosima[17] toda de preto, com uma espécie de chapéu na cabeça e um véu de gaze preta que avança até as sobrancelhas; debaixo do véu, o rosto de energia fabulosa, com sua poderosa estrutura óssea; as maçãs do rosto e o osso nasal parecem de granito. Depois de cada peça, ela parabenizava bem alto os executantes com sua voz algo grosseira, que se podia ouvir até dos cômodos vizinhos. É curioso que essa mulher, que, precisamente como mulher, desempenhou um papel na vida de dois ou talvez três gênios – Bülow, Wagner e Nietzsche –, nada tenha de feminino em sua aparência. […] Em meio a todos os seus convidados, homens e mulheres, é como se ela fosse de outra raça: toda feita de ossos e do poder de sua vontade.

Consultei Siegfried[18] sobre um retrato de Cosima para a Pan, talvez feito por Whistler,[19] mas ele se recusou até a falar com ela sobre isso. Por alguma espécie de idiossincrasia, Cosima se opõe a que falem dela. Toda Bayreuth tem o caráter de uma pequena corte que tem nos Wagner seus principezinhos; é notável como essa atmosfera é perceptível em tudo, desde as vilezas humilhantes perpetradas para se obter um convite para visitar Wahnfried até os retratos nas tavernas e nos salões de cabeleireiros.

7 DE AGOSTO, SÁBADO, WEIMAR_Cheguei às cinco e meia. Na estação, o criado de Nietzsche de libré. A casa fica acima da cidade, junto de uma colina com um jardim recém-plantado. Dentro, há muito espaço. No térreo, arquivo e recepção; no 1º andar, a residência privada de Nietzsche e sua irmã; no 2º, meu quarto de hóspede, sem banheira. Uma casa abastada, mas mobiliada sem levar em conta necessidades culturais mais refinadas. No espaço de recepção, no térreo, móveis revestidos de veludo vermelho e fotografias familiares emolduradas misturam-se a lembranças do Paraguai; além disso, véus de renda, bordados, cerâmicas indianas – tudo obedecendo em primeiro lugar a um interesse temático, sem a pretensão de evocar uma impressão estética.

Quando ela [Elisabeth Nietzsche] se entusiasma, começa a falar em dialeto saxônico e, por vezes, se torna chorosa. […] Contou-me que Wagner às vezes tratava Cosima de modo vergonhoso, mesmo diante de convidados, recriminando-a, por exemplo, pelo adultério cometido com ele. Cosima sempre se calara diante de tudo aquilo. Nietzsche muitas vezes fora da opinião de que ela era infinitamente mais culta que Wagner.

Sobre a vida de Nietzsche no momento, ela fala de um jeito mais esperançoso desde a mudança para cá. Ele gosta da nova casa. Quando chegou, examinou com cuidado a decoração, caminhou por toda parte quase sem precisar de ajuda e dizendo sempre: “Palazzo, palazzo!” […] Da maneira como ela relata tudo isso, é como se estivesse falando sobre uma criança pequena, que começa a aprender a falar. […] Depois da refeição, discutimos as novas edições do Zaratustra e dos poemas.

8 DE AGOSTO, DOMINGO_Antes do café da manhã, a senhora Förster me conduziu ao quarto de Nietzsche. Ele dormia num sofá. A cabeça portentosa repousava sobre o peito, algo descaída para o lado direito, como se demasiado pesada para o pescoço. A testa é colossal; a cabeleira, ainda castanho-escura, assim como o bigode desgrenhado e saliente; debaixo dos olhos, amplas bordas castanho-enegrecidas fincadas nas maçãs do rosto. […] As mãos, algo inchadas e como se fossem de cera, mostram veias de um roxo esverdeado, como num cadáver. Empurraram uma mesa e uma cadeira de braços para junto do sofá, de modo que, em caso de um movimento desastrado, o corpo pesado não caia no chão. O ar abafado de tempestade o fatigara e, embora a irmã o acariciasse diversas vezes e, carinhosa, o chamasse “meu querido, meu querido”, não havia como acordá-lo. Não parecia um doente ou um louco, e sim um defunto.

2 DE OUTUBRO, SÁBADO_Fui a Weimar em razão da edição do Zaratustra. Hospedei-me em casa dos Nietzsche. Às dez, fui para a cama. Nem quinze minutos depois de eu ter apagado a luz, acordei assustado com os gritos altos do desafortunado, lá embaixo. Sentei-me na cama e ainda ouvi duas ou três vezes aqueles sons longos, roucos, que ele gritava com toda a força noite adentro. Depois, fez-se novamente o silêncio.

22 DE OUTUBRO, SÁBADO, PARIS_De manhã e, de novo, à tarde com Rodin,[20] porque ele ainda não fizera a cópia que me prometera [do retrato em gravura] de Victor Hugo. Cedo, ele me recebeu num roupão azul acolchoado e salpicado de grandes manchas de gesso. Enquanto esperávamos em vão pela gravura, ele desempacotou o ateliê inteiro; inúmeros grupos em gesso, maiores e menores, quase todos relacionados ao universo de Dante, em parte magníficos, em parte quase desprovidos de forma a olhos estranhos, até ele chamar a atenção para o que havia pretendido. Por exemplo, um pequeno estudo de uma mulher gorda e nua cujo corpo é “belo como um vaso antigo”. Enquanto isso, chegou uma modelo, uma morena alta vestindo calça de ciclista que foi se despir atrás de um pequeno biombo e cujas qualidades físicas, para mim invisíveis, eu o ouvi louvar.

Ele transmite uma impressão simpática, mas cada vez menos genial. […] Quando lhe perguntei quando terminaria sua Porta do Inferno, se queixou de que não encontrava ninguém que pudesse ajudá-lo. Os artistas jovens teriam, em sua maioria, crescido dentro de um rol de concepções estranhas às dele: “As pessoas à minha volta fazem as coisas de um jeito bem diferente de mim.” E quando algum tem talento, vai-se embora tão logo tenha aprendido alguma coisa com ele. “Eu comecei coisas demais!” O Inferno de Dante exerceu enorme influência sobre Rodin. Antes, contou-me, trabalhava com um exemplar do Inferno no bolso.

1898

29 DE JANEIRO, SÁBADO, BERLIM_Pequeno baile da corte. No imperador,[21] boca e entorno, de uma energia bestial, desenvolvem-se cada vez mais; na velhice, essa região vai sobrepujar toda a impressão causada pelas porções superiores do rosto, sobretudo pela testa, e restará apenas a vontade de buldogue. Será uma sorte se ele encontrar o cérebro capaz de dar uma direção proveitosa a essa força da natureza. A imperatriz[22] está agora bem velha, quase branca, com uma boca envelhecida e sulcada por tantos sorrisos. Em seu círculo, o imperador gesticula animadamente com a boca; a imperatriz já não consegue estender seu sorriso até os olhos.

Na batalha pelos convites para hoje, vale notar o poder que sua posição social – os bailes na corte, os banquetes etc. – confere ao imperador. Os grandes proprietários de terras precisam trazer suas filhas à corte, trata-se simplesmente de uma vantagem econômica; e, por meio deles, o imperador comanda milhões de camponeses. O imperador só pode lamentar que os reis não tenham adquirido esse poder sobre os burgueses, os industriais, os comerciantes e os artesãos. Quando, até época recente, a maior parte da população era de trabalhadores rurais, o poder da corte era muito maior.

O tenente Dohna conta que, recentemente, um chefe de companhia do Primeiro Regimento da Guarda, depois de ler em voz alta o decreto do imperador contra a pederastia – que apontou sobretudo para o descontrole nos círculos mais elevados –, chamou um principezinho totalmente inocente e, ignorando ostensivamente os demais oficiais não principescos, disse: “Portanto, alteza, eu lhe peço, deixe disso.” Tudo que o decreto fez foi provocar anedotas obscenas.

22 DE MARÇO, TERÇA-FEIRA, BRUXELAS_Cheguei cedo aqui. Van de Velde[23] foi me buscar na estação. Fui com ele para Uccle, onde estou hospedado em sua casa. Sua mulher é uma bela loira, vestida numa espécie de costume medieval, com predomínio do azul e decote quadrado, que lhe cai muito bem. Na casa, uma atmosfera luminosa e saudável. À refeição, não há serviçais na sala; a comida é passada por uma janela na parede da cozinha, que, muito sensatamente, é vizinha da sala de jantar. A mulher a apanha das mãos do criado sem se levantar (a janela fica bem atrás do lugar dela à mesa) e a estende aos demais. A conversa flui com naturalidade, não poupa a mulher de ouvir eventuais grosserias, mas tampouco as busca. Discuti com Van de Velde seu esboço para o Zaratustra, e ele concordou com algumas pequenas alterações.

23 DE MARÇO, QUARTA-FEIRA_Os Van de Velde tomam café da manhã na cozinha, a fim de que os serviçais se sintam obrigados a manter também esse espaço tão limpo e em ordem como os demais cômodos da casa. O espaço, iluminado e com suas panelas e tigelas lustrosas e cintilantes, confere a essa primeira refeição a um só tempo grande frescor e intimidade. O dia começa com um banho em circunstâncias as mais simples e naturais. Depois do desjejum, fui com Van de Velde para além de Uccle, atravessando os campos rumo à casa onde hoje mora o escultor Minne.[24]

Trata-se de uma capela pequena e antiga, na qual ele criou para si e para a mulher um par de cômodos. O ateliê que ele próprio construiu em anexo parece de um acanhamento impossível para abrigar o colossal monumento fúnebre dedicado ao [líder socialista Jean] Volders, no qual ele trabalha. […] Numa espécie de piso suspenso, lá estava o nu que Minne transformou numa única e grande figura – uma peça de frescor e robustez esplendorosos. É característico das intenções de Minne o contraste entre essa figura, modelada com total realismo – produzida por ele como modelo –, e as formas simplificadas, amplas, arcaicas, quase assírias que ele almeja dar ao grande monumento em pedra.

Ele próprio é um flamengo gorducho, atarracado e loiro, salpicado de argila de cima a baixo, e rodeado de numerosa prole de crianças de cabelos loiros. Pedi-lhe que me fundisse em bronze o garoto nu, e encomendei-lhe também, em pedra, o primeiro esboço do monumento a Volders. Para o almoço, Van Rysselberghe[25] chegou de bicicleta; a impressão que ele causa é a de um esportista saudável. A senhora Van de Velde é aluna dele.

29 DE MARÇO, TERÇA-FEIRA, PARIS_Toda arte doméstica, toda arte que deve ser vista diariamente e criar uma atmosfera, precisa, por necessidade, fugir às sensações desagradáveis, ao que é “feio”. Essa é a origem do estilo acadêmico, que busca a “beleza” e que começou a se desenvolver tão logo a arte se mudou das igrejas para as casas burguesas. Somente as galerias públicas deste século voltaram a tornar possível o “feio” na arte, porque nelas, como nas igrejas da Idade Média ou nos espaços abertos da Antiguidade, é em momentos de exceção que a obra de arte atua.

1900

25 DE AGOSTO, SÁBADO, BERLIM_Após o jantar no refeitório dos oficiais, Castenskjöld, examinando os telegramas, me diz: “O senhor sabia que Friedrich Nietzsche faleceu?” Foi a primeira notícia. Em casa, telegrama da senhora Förster: “Hoje, ao meio-dia, meu amantíssimo irmão se foi inesperadamente. Segunda à tarde, 5 horas, cerimônia fúnebre no Arquivo Nietzsche. Se possível, chegue, por favor, segunda cedo. Elisabeth Förster-Nietzsche.”

26 DE AGOSTO, DOMINGO, WEIMAR_Cheguei ao meio-dia. Por volta das três, fui ao Arquivo Nietzsche. Nietzsche está sendo velado ali, já no caixão, aberto e encimado por palmeiras e flores. Em meio ao damasco branco e ao linho, a cabeça jaz algo voltada para a esquerda, branca como marfim, olhos semiabertos que, no rosto paralisado, parecem ainda dormir. A última doença deu-lhe expressão de sofrida magreza e definhamento. Na boca, porém, a dor é encoberta pelo grande bigode protuberante, grisalho como a geada; e essa grandeza da forma transparece em toda parte, através do definhamento. A testa ampla e abaulada, os ossos fortes, temporais e malares, destacam-se ainda mais nitidamente sob a pele que em vida. A despeito do sofrimento, a impressão geral é de força.

27 DE AGOSTO, SEGUNDA-FEIRA_De manhã, molde para a máscara mortuária com Stoeving e um gesseiro. A cabeça foi algo levantada, de modo a permanecer reta. Um jovem aprendiz, que se ocupava da decoração fúnebre, ajudou com o gesso. Em meia hora, a máscara estava pronta. Às cinco, a cerimônia fúnebre. O caixão continuava aberto, mas uma mortalha cobria o rosto. Velas acesas. Um coro feminino cantou o Wenn ein müder Leib begraben [Quando um Corpo Cansado é Enterrado], de Brahms.

Quando a maioria dos presentes já havia partido, descobri mais uma vez a cabeça, a pedido da irmã; ela seguia reta desde a manhã, acomodada nos travesseiros. Os maravilhosos cabelos macios e castanhos alisados para trás. A testa, em toda a sua força, visível para além das sobrancelhas. Mais abaixo, as órbitas fundas dos olhos mortos, que tornaram a se abrir, e o nariz finamente comprimido em expressão de dor. A testa, porém, domina tudo. […]

Heinze[26] contou muitas coisas sobre Nietzsche. Uma delas, que, por volta de 1883, em Leipzig, arrancou dele a promessa de que, em vez de aforismos, ele tornaria a escrever ao menos um livro inteiro e coeso. A ocasião havia sido dada pelo fato de Nietzsche ter-lhe perguntado por que as pessoas não compravam mais seus livros, ao que Heinze opinara que a razão para tanto estava provavelmente na forma aforística. Já no ano seguinte, porém, Nietzsche lhe pediu que o desobrigasse da promessa; tinha tentado escrever um texto coeso, mas “não consigo”. Heinze acredita que os pensamentos lhe acorriam em tal profusão que ele nunca tivera tempo de se dedicar apenas a um deles. Nietzsche teria lhe dito que, por vezes, escrevia, precisava escrever, sem saber o que estava escrevendo; somente depois, quando relia o texto, adquiria clareza sobre seu sentido.

1902

14 DE FEVEREIRO, SEXTA-FEIRA, PARIS_De Vollard,[27] comprei um quadro grande de Maurice Denis por 2 500 francos [Les Nymphes aux Jacinthes] e uma pequena natureza-morta de Cézanne[28] por 200 francos. Vollard me conta que, muitas vezes, Cézanne não termina um quadro porque não encontra as tonalidades certas para determinado ponto da pintura, que permanece, então, um “buraco” branco. Segundo ele, Cézanne “ainda não pintou um quadro com que tenha se sentido satisfeito”.

15 DE MARÇO, SÁBADO, LONDRES_Entre 1750 e 1850, os ingleses criaram a casa moderna, o vestuário moderno, a pintura moderna e, além disso, a constituição moderna e o mundo branco do futuro. Se juntarmos aí a literatura, a indústria, a ciência e a filosofia (Locke, Berkeley, Hume), a influência desse século inglês tem, em toda a história mundial, não mais que dois ou três paralelos: Grécia, Roma e a França do século XIII. Luís XIV não teve nem de longe influência tão profunda e abrangente; a Revolução Francesa fez mais barulho, mas tampouco teve toda essa profundidade.

20 DE MARÇO, QUINTA-FEIRA_A Alemanha não tem hoje inimigo mais venenoso do que os grandes interesses financeiros da City londrina, que, em certa medida, se combinam aos de Wall Street. O Times e o Herald formam a linha de frente desse coro de vingança. […] Seu ódio tem objetivos claramente materiais. Entre essas razões inclui-se por certo a tarifa aduaneira alemã. Mas a ascensão econômica da Alemanha tem raízes mais antigas, e os ingleses não estão tão associados a esse crescimento como ao da América, onde as estradas de ferro etc. trabalham em grande parte para a Inglaterra. Por isso, e também por razões políticas, a Inglaterra não pode se voltar contra a América sem atentar contra si mesma. Tem as mãos livres, porém, no que se refere ao concorrente alemão. O objetivo é fazê-lo suspeito por toda parte, a fim de prejudicar-lhe o comércio. Trata-se de um truque vil do mundo dos negócios alçado à dimensão de grande política.

5 DE ABRIL, SÁBADO, BERLIM_Parti para Leipzig na hora do almoço, a fim de visitar Klinger.[29] Falei com ele sobre o monumento a Nietzsche. Ficou acertado que ele custará 12 mil marcos e será uma coluna de mármore grego, um bloco único de mármore de 2,25 metros de altura. Klinger quer ir até a Grécia para ver o material, porque não confia nos comerciantes de lá. […] Contei a Klinger sobre Weimar e o convidei a ir até lá. Disse-lhe que o grão-duque[30] com certeza tomou o partido da arte moderna, com plena consciência e contra o próprio imperador.

4 DE MAIO, DOMINGO, PARIS_À tarde, fui à exposição dos Indépendants.[31] Algumas obras muito importantes. De Signac,[32] Brume du Matin, que comprei de imediato por mil francos. De Cross,[33] uma paisagem com banhistas nuas, da mais alta luminosidade. É notável como ele harmoniza a carne nua, radiante, com a iluminação da paisagem. De Vuillard,[34] uma minúscula vista de Cannes que combina com encantadora delicadeza branco, azul e rosa. De Denis, uma mulher nua deitada a estender uvas a um cupido.

24 DE DEZEMBRO, QUARTA-FEIRA_De manhã, com Vuillard. Comentei que, comparado a Cézanne, Monet parece ter menos ousadia. Vuillard protestou. “Não, não é isso. Em Monet, há uma grande simplificação da paleta, quatro ou cinco tons, a notação reflete um estado de alma, por assim dizer. Cézanne, esse é um ‘italiano’, um homem do sul. Persegue certas teorias que tem acerca do verde, do vermelho, do azul, do violeta e das relações entre as gamas de cores. Você bem sabe que um pintor que necessita de sessenta, 100 sessões, não pode ser um naturalista. A natureza muda não apenas de uma sessão de pintura a outra, mas também durante cada sessão. Para Cézanne, assim como para Monet, a natureza nada mais é que uma oportunidade de se exprimir – ao contrário de Manet,[35] que realmente pensava poder captá-la. Escute, há pouco tempo esteve por aqui um visitante, um certo monsieur Bernardzk, de Viena, que havia reunido numa mesma lista os nomes mais espantosos. Classificava todos como impressionistas, Degas e Renoir[36] – Degas, que é o último dos academicistas. Na verdade, porém, só existe um único impressionista: Monet. Ah, a crítica de arte é uma coisa muito delicada! Todos esses artistas foram reunidos por certa comunhão na miséria, pela dificuldade inicial, pela amizade, pela generosidade mútua, mas não existe nenhuma relação artística entre eles. Cézanne, que teoriza de manhã à noite, está interessado nas cores e nas relações entre elas; para Monet, o que interessa é a nuance, o cinza, que, de resto, contém todas as cores.”

1903

26 DE JANEIRO, SEGUNDA-FEIRA, BERLIM_À noite, fui com Van de Velde ver Isadora Duncan[37] no Kroll. Toda a sociedade berlinense estava lá. Van de Velde e eu desgostamos da Duncan com a mesma intensidade. Ela é afetada, ergue os olhos de uma forma piegas, dispõe de um único movimento, que repete qual um martírio, dança sem ritmo nem entusiasmo. Seus principais encantos estão na nudez e na convencionalidade, precisamente os mesmos encantos da arte acadêmica. Ela é a concretização do acadêmico na arte da dança.

17 DE ABRIL, SEXTA-FEIRA, LONDRES_Vi Os Guerreiros em Helgeland, de [Henrik] Ibsen, na montagem de Gordon Craig.[38] Uma tentativa bastante curiosa de reformar o teatro. Modificações principais: a abolição total da ribalta e quase total do cenário. Craig só se vale da luz de cima e dos adereços. O palco é todo decorado com panos, que permanecem quase invisíveis sob efeitos cambiantes de iluminação e véus coloridos de luzes. A impressão é de estarmos olhando para uma espécie de espaço infinito. Toda a atenção se concentra, porém, na ação.

Essas ideias básicas me parecem muito valiosas, e a impressão causada é muito mais intensa do que aquela transmitida com as usuais decorações em papel machê, porque a fantasia ganha liberdade e a atenção se concentra. […] Suas dificuldades e fraquezas são: a escuridão continuada e enervante e a falta de naturalidade da iluminação, que muda arbitrária e subitamente, movendo-se sempre em cores fortes – vermelho intenso, azul fechado, verde-claro. Infelizmente, também a atuação de Ellen Terry[39] foi impossível.

23 DE MAIO, SÁBADO_À noite, estreia de Muito Barulho por Nada, com Ellen Terry. Depois da apresentação, os aplausos do público fizeram-na voltar ao palco nove ou dez vezes, até que ela se adiantou, como se pretendesse proferir um discurso, e, rindo, disse: “Ladies and gentlemen, the author is not in the house.”

23 DE AGOSTO, DOMINGO, BERLIM_Jantei com Gide[40] e madame Van Rysselberghe no hotel Palast. Antes, os dois haviam estado em minha casa, para ver o Seurat[41] [Les Poseuses]. Gide falou sobre religião. Acredita que no cristianismo puro, não paulino, existe ainda um grande potencial, “um enorme poder anárquico. Não se tem nem ideia de tudo que ele ainda pode produzir. Enquanto todas as outras religiões se realizaram, essa aí, passados 2 mil anos, nunca se realizou”. Contrasta Dostoiévski com Tolstói, a quem chama “grande pagão”, e afirma que o primeiro, em O Idiota, expõe as concepções genuinamente cristãs.

Uma espécie de sensualidade não muito normal, para a qual lhe falta coragem, parece perpassar todo o seu ser. Em conjunto com um interesse vívido e flamejante à menção de casos de moralidade anormal, isso lhe confere um quê de fraqueza, de quase angústia. O fato de ele ser extremamente sensível ao frio e às correntes de ar, razão pela qual nunca sai sem um casaco grosso e um cachecol, intensifica essa impressão de fraqueza. Diante de boas tiradas, belos objetos e paisagens, manifesta sua alegria de modo exagerado e ruidoso. Outras vezes, quando nada o encanta, permanece mudo, quase rabugento, por um longo tempo. Em ambos os casos, é como uma criança mimada, de sensibilidade instável e aguçada.

28 DE NOVEMBRO, SÁBADO, PARIS_De manhã cedo, fui com Rysselberghe para Giverny, a fim de fazer uma visita a Monet. Na estação, em Vernon, seu automóvel nos aguardava. De lá, cruzando o Sena, cerca de mais 5 quilômetros até Giverny. Paisagem sem linhas dominantes. Árvores e quintas. Monet é um pouco parecido com Rodin, baixo, ombros largos, forte, com uma grande barba quase branca e olhos francos, castanho-escuros. Fala e se comporta com simplicidade e determinação, qual um homem do campo de boa família; em particular, “não faz cerimônia”. Fala dos artistas que o trataram mal sem nenhuma afetação. Uma natureza bela, aberta, à qual nunca parecem ter faltado o sol e o ar fresco.

Seu ateliê fica isolado no meio do jardim. A casa em si é grande como a de um fazendeiro ou arrendatário: um pavilhão térreo de madeira, partindo já do jardim, com pinturas suas penduradas até logo abaixo do teto, tudo cheirando acolhedoramente a madeira boa e velha. Uma escada baixa conduz à sala de jantar, ensolarada, pintada de um amarelo-claro, com muitas e belas xilogravuras japonesas. Chegamos por volta das dez, e Monet nos conduziu de pronto a seu ateliê. Bem lá em cima, na parede da entrada, um poderoso fragmento de um grande Déjeuner sur L’Herbe.[42] Ele contou ter pintado o quadro para o Salon[43] de 1863 (ou 64?), mas que acabou por estragá-lo.

“A tela estava quase terminada, faltava apenas acrescentar mais alguns pequenos toques, quando, por infelicidade, falaram de mim para Courbet,[44] que manifestou o desejo de me conhecer. Fui até a casa dele, que me mostrou seu ateliê; achei tudo maravilhoso, e Courbert me disse que viria me visitar. Veio e achou a tela grande muito boa: ‘Você precisa expor isto aqui, seria um golpe de mestre. Mas, meu caro Monet, eu mudaria aqui, poria um vestido verde nesta mulher, e aqui também, e ali.’ Comecei a refazer a pintura e, então, quando a tinha modificado por inteiro, notei que a havia destruído. Além disso, Courbert volta e me diz que eu não poderia expô-la daquele jeito, talvez para o ano seguinte. E eu, a fim de ter alguma coisa para o Salon, produzi em quatro dias minha grande mulher em verde. Apesar disso tudo, ela fez algum sucesso. No Salon, Manet, que eu não conhecia até então, aproxima-se do grupo que estava comigo e diz: ‘Monet teve algum sucesso porque seu nome se parece com o meu. Manet, Monet!’ Depois, fez uma pirueta e se foi, rindo. Aí, alguém disse a ele: ‘Mas o jovem Monet está ali, naquele grupo com o qual você acaba de falar.’ Manet olha para mim, eu olho para ele, e assim fizemos durante meses, olhando um para o outro com olhos compridos antes de nos conhecermos de fato. Logo depois de O Vestido Verde, comecei a pintar aquele quadro ali, que foi minha primeira pintura rejeitada pelo Salon” – um quadro grande e claro, com mulheres num jardim. […]

Perguntei a Monet como se dera sua ligação com Durand-Ruel. “Foi em Londres, durante a guerra. Eu andava pintando pequenas paisagens nos parques. À noite, vários franceses se reuniam no Café Royal, e não sabíamos como ganhar algum dinheiro. Um dia, Daubigny[45] me perguntou o que eu estava fazendo. Disse-lhe que estava pintando as pequenas paisagens nos parques, e ele me disse: ‘Ah, muito bem. Só que você não vai conseguir vender isso. Vou apresentar você a um marchand.’ E lá foi ele atrás de Durand, que tinha montado uma loja em Londres para vender pinturas durante a guerra.[46] De lá para cá, ficamos em contato. Daubigny sempre foi muito bom para nós. Corot,[47] pelo contrário, não gostava nem um pouco de nós. Tanto assim que votou pela nossa exclusão do Salon, ao passo que Daubigny ameaçou renunciar a sua posição de membro do comitê, caso não fôssemos aceitos.”

Ele foi apanhar, uma a uma, as pinturas de sua série londrina. “Eu sempre disse aos pintores ingleses: ‘Como é possível que, morando aqui, vocês nunca tenham feito isso?’ Porque nunca pintaram o que está lá de fato, o que veem. Nas pinturas de Londres que os ingleses fazem, você vê tudo, cada pedra de cada edificação desenhada minuciosamente, de um jeito mesquinho, em consonância com os preceitos dos pré-rafaelitas. Não há unidade, não há vida, não se veem as grandes névoas imóveis. Fazem os objetos, mas não a atmosfera – esse é o problema. A névoa londrina é tão bonita! Mas ela é fugidia. Veja”, e ele nos mostrou uma vista fabulosa [da abadia] de Westminster, com um sol vivo e uma poderosa sombra verde que se estende da torre até a água, lá embaixo – longas e apaixonadas pinceladas. “Durou dez segundos; depois, já era outra coisa. Eu gostaria muito de terminá-la, mas fiquei com medo de destruir a pintura.”

Perguntei-lhe se aquele modo de trabalhar não era muito cansativo, se não demandava um bocado dos nervos. “Sim, depois de ter trabalhado por dois ou três meses, não consigo mais trabalhar por outros três ou seis. Só volto a trabalhar com muita dificuldade. Mas, uma vez tendo começado, preciso trabalhar sem parar, não quero mais ver ninguém, fico muito sensível. Ou então largo tudo e só volto a trabalhar depois de algum tempo. É curioso como vim a pintar essas paisagens de Londres. Fui visitar um de meus filhos, que estava na Inglaterra para aprender a língua. Ele me disse que levasse comigo, sem falta, uma caixa de cores e tintas. Eu não queria. Você sabe que nunca pintei em viagem. Então, fomos passar oito dias em Londres. Hospedamo-nos no Savoy. Escolhi quartos com vista para fora. Abri a janela e fiquei espantado. Comecei a desenhar esboços e, em vez de oito dias, fiquei um mês ali, e voltei outras três vezes.”

Perguntei-lhe se ele nunca tinha sentido vontade de pintar o Tâmisa à noite. “Senti, sim, mas a gente fica muito cansado depois de pintar o dia todo. E seria difícil sem imitar Whistler. Mas talvez eu ainda faça isso.” Ele pensa também em ir a Hamburgo para pintar o porto. Fomos tomar café da manhã. Madame Monet (a segunda): uma mulher de cabelos brancos, robusta, muito bem vestida, com vários filhos adultos e uma filha.

1904

21 DE AGOSTO, DOMINGO, PARIS_Fomos [Kessler, Maurice Denis e outros amigos] até Maillol,[48] em Marly (rue Thibaut). Ele mora numa casinha bem pequena, bem primitiva e rural, no meio de grandes pomares abertos. Quando batemos à porta (campainha não há), a mulher apareceu na pequena sacada e gritou na direção dos jardins: Aristide! Aristide! Veio então em nossa direção um camponês de blusa azul, um chapéu de palha de- trabalhador na cabeça, que nos saudou em linguagem e estilo rurais. Mais não disse, e tampouco demonstrou grande interesse por nossos nomes, mas era justamente Maillol, aparentando cerca de 40 anos, barba comprida e negra não aparada, cintilantes olhos azuis, muito impressionantes, magro e dotado de um longo nariz de águia de tipo espanhol.

Ele nos conduziu de imediato ao ateliê, uma pequena construção no jardim, e nos mostrou seus trabalhos e desenhos, como o busto de madame Maurice Denis e uma pequena figura feminina de cócoras, que era seu desejo executar em tamanho real e da qual comprei de pronto o pequeno modelo (800 francos). Encontrei entre seus desenhos um esboço de uma figura feminina sentada e encolhida [La Méditerranée]; o maravilhoso arabesco das linhas e a concisão me chamaram a atenção de tal forma que sugeri a Maillol, que falara de sua intenção de esculpir em pedra, que assim a executasse para mim. Ele defendeu que ela fosse esculpida em tamanho real, e concordamos nisso, se o preço permitisse. Muito direto, àquela sua maneira camponesa, ele nos mostrou como eram boas as coxas e as pernas daquela pequena figura, e isso porque as da mulher, que lhe servira de modelo, eram muito belas. Os seios e a barriga, pelo contrário, haviam sofrido com os partos. Ele diz isso com toda ingenuidade, sem que soe ofensivo. Seu maior tesouro são algumas xilogravuras de Gauguin.[49]

25 DE AGOSTO, QUINTA-FEIRA_Viajei novamente até a casa de Maillol, em Marly. A caminho de lá, em Meudon, Maillol em pessoa subiu no trem. Vinha da casa de Rodin, onde tomara café da manhã, e me vira sentado à janela do compartimento. Começamos a falar sobre ilustrações, e sugeri a ele que ilustrasse as Éclogas de Virgílio para a edição que estou planejando. Ele aceitou, entusiasmado: “Leio Virgílio o tempo todo.” Em Marly, fomos a sua casa. No jardim, junto à lateral do ateliê, ele me mostrou, numa pequena cova, a argila para a modelagem da grande figura: “Eu mesmo a encontrei ontem, na floresta.” Ele a remexeu, para se certificar de que estava úmida o suficiente, e cobriu-a novamente com uma velha porta de madeira, para protegê-la do sol. […]

Em seguida, todo orgulhoso, foi buscar os cadernos do filho pequeno, nos quais, aos 5 ou 6 anos de idade, o menino fizera aquarelas notáveis, de grande bom gosto e vivacidade. Enquanto isso, o pequenino em pessoa, um garoto de 7 anos, muito alegre, brincava tranquilamente por ali com um gatinho. Atravessamos os campos em direção a Villeneuve l’Étang, rumo à casa de Roussel.[50] A caminho de lá, perguntei a Maillol por que ele só fazia mulheres, sempre, e nunca figuras masculinas. “Ah, porque não tenho um modelo. Rodin pode pagar quantos modelos quiser, mas nós, os outros artistas, em geral nós temos de usar nossas mulheres. Sempre quis fazer um homem; acho o corpo do homem bem mais bonito que o da mulher; mas sempre acabo fazendo mulheres.”

1905

18 DE OUTUBRO, QUARTA-FEIRA, BERLIM_Visita preliminar ao Deutsches Theater reformado por Reinhardt.[51] Depois, jantei com ele […] no Carlton, até por volta de três da manhã. Reinhardt falou sobre a escola de atores. Disse a ele que o principal, ao lado da dicção, era que o corpo voltasse a atuar, a estremecer também. Para tanto, o meio mais seguro seria pegar crianças e acostumá-las a atuar, dançar e a fazer ginástica inteiramente nuas. Como, dada nossa pudicícia, isso provocaria escândalo, que elas o façam com um mínimo de roupa. Reinhardt concorda. E diz ainda que, hoje, o gesto vem sempre depois da palavra, ao passo que na vida cotidiana e nos bons atores, ele a precede. Para ele, a palavra, na verdade, sempre e somente explica o gesto.

2 DE NOVEMBRO, QUINTA-FEIRA, WEIMAR_Chegou cedo a autorização do grão-duque para o Salão. Estive com Ruhland[52] a fim de lhe comunicar, a título de cortesia, que solicitei a cessão de seu museu para a exposição da Associação dos Artistas. Ele teve um ataque de fúria, saiu esmurrando o ar e a mesa, gritou comigo, como era que eu podia pensar que ele cederia o museu para alguém que havia “mostrado Gauguin, aquela imundice, para uma cidade alemã decente”, e cedê-lo, ainda por cima, para a Associação. Eu me levantei e disse que não o procurara para ser ofendido, mas para fazer uma gentileza e para discutir questões práticas. Se ele não fosse tão velho, eu saberia o que fazer, mas, sob aquelas circunstâncias, só me restava ir embora. Ele correu atrás de mim, envolveu minha mão nas suas e pediu desculpas pelo descontrole. […] Me disse que, com certeza, cederia o museu, se obrigado a fazê-lo, se – como se expressou a seguir –, mediante poderosa interferência, fosse impedido de proteger os tesouros que o bem-aventurado grão-duque lhe confiara. Entre nós, portanto, a batalha é de vida ou morte. Nessa guerra tragicômica entre sapo e camundongo, um de nós tombará.

15 DE NOVEMBRO, QUARTA-FEIRA, BERLIM_Refleti sobre os meios de que -disponho para exercer influência na Alemanha. A Associação dos Artistas; minha posição em Weimar, inclusive meu prestígio, a despeito da estultícia do grão-duque; minha ligação com o teatro de Reinhardt; minhas relações íntimas com o Arquivo Nietzsche, com Hofmannsthal[53] e Van de Velde; minha proximidade de Dehmel[54] […], Klinger, Gerhart Hauptmann e, além disso, das duas revistas mais influentes, Zukunfte Neue Rundschau; na outra ponta, com a sociedade berlinense, […] com o regimento e, por fim, meu prestígio pessoal. O balanço é bastante surpreendente e, por certo, único. Ninguém na Alemanha desfruta de posição tão forte e tão ampla, em todas as direções. Utilizá-la em prol de uma renovação da cultura alemã – miragem ou possibilidade? Com certeza, alguém que dispõe de tais meios poderia ser um princeps juventutis [príncipe da juventude]. Vale a pena?

1906

9 DE FEVEREIRO, SEXTA-FEIRA, BERLIM_Café da manhã com os Hindenburg.[55] Fomos todos ver [Isadora] Duncan, em Grunewald. A casa dela, na qual ela forma cerca de trinta mocinhas, é bastante simples por dentro, quase vazia, com predomínio do verde-claro e do marrom. Apenas alguns relevos gregos, pinturas de vasos nas paredes, flores e poltronas. Um dos cômodos está completamente vazio, à exceção de um tapete cinza-claro estendido no chão; ali aparecem as mocinhas. Têm entre 4 e 8 anos, pequenas criaturazinhas loiras, rosadas, pés descalços, perninhas e bracinhos que se movem com naturalidade ao som da música, em linhas graciosas, com alegria, mas também com ritmo. Formam uma espécie de roda e, então, começa uma dança durante a qual as saiazinhas bem curtas e macias modelam as pequenas e belas figuras de maneiras as mais variadas e fugidias. Grandes frescor e graça reinam em tudo.

Em cima, as salas de aula, de lazer e os quartos de dormir respiram esse mesmo espírito. São sete camas pequenas, em branco e azul, em cada quarto, com vista para a floresta de pinheiros. Cada quarto tem um banheiro anexo, no qual as crianças tomam um banho gelado todo dia. Até os 17 anos, a Duncan as sustenta; depois disso, dá a cada uma a opção de permanecer ali e ser, mediante salário, integrada à planejada trupe ou, então, de partir e prosseguir por conta própria.

10 de MARÇO, SÁBADO_À tarde, leitura de Górki[56] no Deutsches Theater. O teatro estava bem cheio; entre outros, lá estava o jovem príncipe Augusto Guilherme num camarote escuro junto do palco. Górki é um gigante. O bigode loiro e sua figura alta, portentosa, em um camisão russo azul-escuro e calçando botas de cano longo – uma espécie de uniforme –, lembram retratos de Pedro, o Grande, e, um pouco, Nietzsche também, com quem ele tem em comum os ossos massudos do queixo e do crânio, a delicadeza da pele que os reveste e a intensidade do olhar. Ele lê com uma voz baixa, macia e algo monótona; como Luká, de sua peça Ralé, soa malandro, e quando sorri sua expressão facial se reveste de uma pureza infantil.

Ante o aplauso retumbante ao final da apresentação, também ele sorri como uma criança incapaz de ocultar sua alegria. Depois, Reinhardt promoveu um pequeno jantar para Górki e Andreieva. Górki só fala e entende russo; Andreieva precisou servir de intérprete. Ela é simples, elegante, de boa família e muito bonita, com seus olhos castanho-escuros, sua tez branca como o leite e o rosto oval delicado, mas delineado com grande vigor. A despeito da brandura eslava, ela é sempre mordaz e cheia de caráter no que diz. Assim são também suas anedotas, como, por exemplo, a do oficial russo na guerra, que manda um cossaco matar uma sentinela japonesa pela qual haviam passado a cavalo. No caminho de volta, o oficial vê que o japonês ainda está vivo e se arrasta para longe. Pede, então, explicações ao cossaco, que diz: “Ah, senhor tenente, quando fui matá-lo, ele falou russo comigo! Aí, não consegui.”

Górki presta a máxima atenção a tudo que ela fala e a tudo que lhe é dito. Ao fazê-lo, ele parece se perder inteiramente em seu interlocutor, penetrá-lo com seu olhar profundo e caloroso. A impressão que passa é a de um poder infinito de amar, como o de um grande médico que já viu muito sofrimento. […] Nele, o que domina é seu coração. O poder da simpatia que irradia é fascinante. Com esse poder, ele seria capaz de conduzir alguém à morte. Jamais tive a sensação do Übermensch [super-homem] com maior intensidade. […] À visão dele, o que se sente é que o ser humano, isto é, o grande ser humano, é mais que tudo que ele é capaz de mostrar ou produzir, é maior que a arte. A meta última, afinal, é a força e a grandeza do ser humano, e não da obra.

O próprio Górki fala de suas obras de forma bastante depreciativa. Até agora, segundo diz, não teria escrito nenhuma peça boa. Nós, na Alemanha – diz ele –, nós, que temos Nietzsche, nem deveríamos falar dele, Górki. Para o futuro, afirma, tem a maior das esperanças no que se refere ao povo russo, à arte e à cultura russas. Todo o seu trabalho visa esse futuro. […] Na tradução de Andreieva, seu brinde foi à “arte, que é o coração do mundo”.

22 DE MAIO, TERÇA-FEIRA, LONDRES_O banquete no Savoy. […] Bernard Shaw[57] [fez um discurso] muito pessoal e espirituoso, falando principalmente sobre a música alemã, que seria muitíssimo dramática e a principal influência em sua arte teatral. Meu discurso foi um grande sucesso. [Philip] Snowden, o líder dos trabalhistas, veio até mim, depois, e me disse que tinha sido o melhor discurso que ele já tinha ouvido à mesa. Fui, de imediato, soterrado com convites para o fim de semana e, acima de tudo, lionized [celebrado]. Todo o mundo me disse que foi the speech of the evening, uma opinião da qual não pude compartilhar de forma alguma.

De todo modo, fiquei muito feliz por ter me saído tão bem diante de semelhante plateia. A amante do rei, a venerável senhora Keppel,[58] sentou-se à mesa de sir Ernest Cassel,[59] bem defronte a mim, com seu belo e profundo decote nas costas, sobre as quais se via uma manchinha preta, um boá como uma serpente enrolada no pescoço, pour être encore plus nue [para parecer ainda mais nua]. Lady Wemyss, apontando para sir Cassel, perguntou quem era aquele homem gordo. “É muito curioso eu estar em Londres estes anos todos e nunca ter visto aquele homem antes”, disse ela. Uma pequena e simpática maldade. Mas o smart set, ao que parece, detém agora o poder, a despeito de todos os narizes arrebitados da aristocracia. Por algum tempo, foi muito filosófico ver Snowden, o líder dos trabalhistas, em seu habitual uniforme de trabalho com gravata verde, sentado bem juntinho da bela amante real, com sua pele branca e nua, suas pérolas e a manchinha preta -– com Bernard Shaw pairando sobre tudo e todos.

9 DE JULHO, SEGUNDA-FEIRA, WEIMAR_Munch começou a trabalhar em meu retrato. Falou muito de si, de seu lado não prático: “Talvez essa minha concentração em minha arte faça com que eu não entenda a vida. É por isso que não sou bom para lidar com dinheiro. Mas aí chega uma época em que a gente decide deixar a vida seguir seu curso, porque temos coisa melhor a fazer. Qualquer serviçal é capaz de viver.”

19 DE OUTUBRO, SEXTA-FEIRA, BERLIM_Jantar com Walther Rathenau.[60] Muito interessante, Rathenau falou sobre o significado da arte para o povo. Disse que não era da opinião de que era necessário “preservar a arte para o povo”. Nossa época ofereceria a ele, povo, libertação em esferas bem diversas, uma libertação que, segundo ele, outros tempos procuravam na arte. A técnica, um automóvel, uma máquina, os sindicatos e assim por diante agora ocupam e satisfazem a fantasia do trabalhador de um modo muito mais natural do que a arte poderia fazê-lo. […]

Respondi-lhe que aquilo tudo era muito bonito e correto, mas que a necessidade da arte constituía um instinto básico de certas almas humanas que nenhuma outra coisa era capaz de satisfazer. A rigor, o surgimento da técnica não havia mudado coisa nenhuma, continuei, a não ser pelo fato de, agora, pessoas que antes se alegravam com a “natureza”, com o crescimento de uma árvore e coisas assim sentirem o mesmo por uma máquina, pela construção de uma ponte pênsil ou pela organização de uma associação. Isso não afetava, eu disse, aquela minoria para a qual a arte era uma necessidade. Tenho, contudo, de reconhecer que a satisfação dessa necessidade que compete com o interesse pela técnica é algo diferente que o exercício da arte em concorrência com o gozo da natureza e os interesses religiosos. Esse é um ponto de vista novo e digno de atenção, esse choque do anseio por arte contra a gigantesca massa gélida do moderno interesse técnico. Rathenau é alguém com quem vale a pena se encontrar.

(Continua na próxima edição de piauí.)


[1] Otto von Dungern (1873–1969), cadete no regimento de Kessler. Teria sido namorado do conde, mas há divergências entre seus biógrafos.

[2] Téodor de Wyzewa (1862–1917), escritor francês. O protagonista do seu livro Valbert julga-se incapaz de amar e não sente atração física por mulheres.

[3] Drama de Gerhart Hauptmann (1862–1946) sobre a revolta de tecelões na Silésia; o personagem Baumert é um velho operário.

[4] O pintor norueguês Edvard Munch (1863–1944). Seu retrato de Kessler está na Nova Galeria Nacional em Berlim.

[5] Pseudônimo do ilustrador e pintor decorativo Hugo Höppner (1868–1948), cujo estilo influenciou o psicodelismo dos anos 60.

[6] O mestre impressionista francês Claude Monet (1840–1926).

[7] Paul Durand-Ruel (1831–1922), marchand e mecenas francês ligado aos impressionistas.

[8] O poeta francês Paul Verlaine (1844–96), que teve uma tempestuosa relação com o poeta Arthur Rimbaud (1854–91).

[9] O poeta inglês Algernon Charles Swinburne (1837–1909).

[10 ]Elisabeth Förster-Nietzsche (1846–1935), irmã de Friedrich Nietzsche (1844–1900). Foi casada com o militante antissemita Bernhard Förster e viveu com ele na colônia de Nova Germânia, no Paraguai. Após o suicídio do marido em 1889, voltou à Alemanha para cuidar do irmão, que sofrera um colapso nervoso de origem imprecisa (fala-se em sífilis e câncer). Elisabeth fundou em 1894 em Naumburg o Arquivo Nietzsche, que transferiu para Weimar em 1896. Ela quis dar à obra do irmão uma interpretação antissemita e nacionalista. Kessler apoiou o arquivo e tentou em vão erguer um memorial ao filósofo; acabaria rompendo com Elisabeth depois da Primeira Guerra Mundial.

[11] Fritz Kögel (1860–1904), compositor e escritor alemão, um dos editores da obra de Nietzsche.

[12] Relativo a Assim Falou Zaratustra, livro que popularizou ideias de Nietzsche como a “morte de Deus” e o “super-homem”.

[13] Curt Stoeving (1863–1939), pintor e arquiteto alemão.

[14] Francis Bacon (1561–1626), filósofo e político inglês.

[15] A escritora e psicanalista russa Lou Andreas-Salomé (1861–1937) foi amante de Nietzsche e publicou em 1894 Nietzsche em Suas Obras. Elisabeth era contra a relação dos dois.

[16] A mansão construída por Richard Wagner (1813–83) em Bayreuth, na Bavária.

[17] Cosima Francesca Gaetana Wagner (1837–1930), viúva de Wagner, por quem desfez o casamento com o maestro Hans von Bülow. Filha do compositor húngaro Franz Liszt.

[18] Siegfried Wagner (1869–1930), filho de Wagner e Cosima.

[19] James Whistler (1834–1903), pintor americano radicado na Inglaterra.

[20] O escultor francês Auguste Rodin (1840–1917).

[21] Guilherme II (1857–1941), Kaiser de 1888 à instauração da República, em 1918.

[22] Augusta Vitória (1858–1921).

[23] Henry van de Velde (1863–1957), arquiteto, designer e pintor belga art nouveau, dirigiu a Escola de Arte e Ofícios de Weimar, precursora da Bauhaus.

[24] George Minne (1866–1941), escultor belga.

[25] Théo van Rysselberghe (1862–1926), pintor belga.

[26] Max Heinze (1835–1909), professor de história da filosofia com quem Nietzsche estudou.

[27] Ambroise Vollard (1866–1939), marchand francês.

[28] Maurice Denis (1870–1943) e Paul Cézanne (1839–1906), pintores franceses.

[29] O escultor e pintor alemão Max Klinger (1857–1920).

[30] Guilherme Ernesto (1876–1923), grão-duque de Saxe-Weimar, desejava recuperar a proeminência cultural do ducado. Kessler tornou-se curador honorário do Museu de Artes e Ofícios em 1902 e assumiu a direção da instituição em 1903.

[31] Salão dos Independentes, organizado em Paris a partir de 1884.

[32] O pintor francês Paul Signac (1863–1935).

[33] O pintor francês Henri-Edmond Cross, pseudônimo de Henri-Edmond Delacroix (1856–1910).

[34] O pintor e ilustrador francês Édouard Vuillard (1868–1940).

[35] O pintor Édouard Manet (1832–83), figura de transição entre o realismo e o impressionismo.

[36] Os pintores franceses Edgar Degas (1834–1917) e Pierre-Auguste Renoir (1841–1919).

[37] Isadora Duncan (1877–1927), bailarina americana.

[38] Edward Gordon Graig (1872–1966), cenógrafo, diretor e ator inglês.

[39] Ellen Terry (1847–1928), atriz shakespeariana inglesa, mãe de Gordon Craig.

[40] O escritor francês André Gide (1869–1951).

[41] O pintor pontilhista francês Georges Seurat (1859–91).

[42] Tela inspirada na obra-prima de Édouard Manet com o mesmo nome.

[43] A exposição anual oficial de arte francesa.

[44] O pintor realista Gustave Courbet (1819–77).

[45] O pintor francês Charles-François Daubigny (1817–78).

[46] A guerra franco-prussiana de 1870-71.

[47] O pintor realista francês Jean-Baptiste Camille Corot (1796–1875).

[48] O escultor Aristide Maillol (1861–1944).

[49] O pintor Paul Gauguin (1848–1903).

[50] O pintor Charles Emmanuel Roussel (1861–1936).

[51] O diretor teatral e cinematográfico austríaco Max Reinhardt (1873–1943), que comandou o Teatro Alemão de 1905 a 1933.

[52] Karl Ruhland (1834–1907), diretor do Museu do Grão-Ducado de Weimar, acabaria renunciando devido à disputa com Kessler.

[53] Hugo von Hofmannsthal (1874–1929), poeta e escritor austríaco, escreveu libretos para óperas de Richard Strauss (1864–1949), incluindo, em parceria com Kessler, O Cavaleiro da Rosa (1911).

[54] O poeta e escritor alemão Richard Dehmel (1863–1920).

[55] Família do marechal Paul von Hindenburg (1847–1934), que depois, como presidente, nomearia Hitler chanceler. Kessler era amigo de sua sobrinha Helene.

[56] O escritor russo Maximo Górki (1868–1936).

[57] O dramaturgo e ativista socialista irlandês George Bernard Shaw (1856–1950), Nobel de Literatura de 1925.

[58] Alice Keppel (1868–1947), amante de Eduardo vii.

[59] Banqueiro britânico nascido na Alemanha (1852–1921).

[60] Industrial e político de origem judaica, Walther Rathenau (1867–1922) se tornaria ministro do Exterior da República de Weimar, tendo Kessler, convertido ao pacifismo e admirador da social-democracia, como confidente. Rathenau acabaria assassinado pela ultradireita.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


Harry Graf Kessler (1868–1937) foi diplomata alemão. Licenciado pela editora Klett-Cotta Verlag.