Marcelo Castro, estrela da TV Aratu, filiada do SBT na Bahia, é apontado pelo Ministério Público como um dos líderes da fraude Foto: Reprodução
Uma sugestão de pauta para o Programa do Ratinho
Os jornalistas acusados de roubar 400 mil reais em Pix para pessoas necessitadas em programa da Record vão a julgamento – e, enquanto isso, brilham na tela do SBT
O jornalista baiano Marcelo Castro vive talvez um dos melhores momentos de sua carreira. Estreou, há dois anos, um programa de jornalismo policial na TV Aratu, afiliada do SBT na Bahia. Chama-se Alô Juca – uma referência ao jeito como Castro costuma se referir aos policiais, chamando-os de Juca. Com cobertura de operações, entrevistas com presos em delegacias, incêndios, acidentes de trânsito – tudo permeado pelo tom de tensão típico desse formato –, o programa se tornou um fenômeno de audiência na Bahia. Desbanca Globo e Record na disputada faixa que vai do fim da manhã ao começo da tarde. Recentemente, ganhou quinze minutos extras de duração. Antes começava às 11 horas, mas agora dá a largada às 10h45 e só termina às duas da tarde.
Tamanho prestígio se fez sentir no Carnaval. Castro, uma celebridade local, foi convidado para desfilar no trio elétrico do bloco Camaleão, puxado pelo cantor Bell Marques. É o abadá mais caro da folia baiana: não sai por menos de 1,4 mil reais. No dia seguinte, o jornalista apareceu na tevê fantasiado a caráter para os Filhos de Gandhy, afoxé que tem Gilberto Gil como ilustre associado. De cima do trio, Castro foi saudado pela banda.
A boa fase, porém, esconde uma agitada vida jurídica – na verdade não esconde, ela é mais que notória. Na sexta-feira de Carnaval, enquanto punha o bloco na rua, Castro recebeu uma má notícia do Superior Tribunal de Justiça (STJ). A ministra Marluce Caldas negou um habeas corpus apresentado pela defesa do apresentador, que buscava afrouxar medidas cautelares impostas a ele pelo Tribunal de Justiça da Bahia. Desde agosto de 2024, Castro é réu sob acusação de ter organizado uma fraude nos tempos em que era repórter do programa Balanço Geral, na Record. Ele pedia doações dos telespectadores, por Pix, para ajudar pessoas pobres ou em situação de extrema necessidade – e, segundo a conclusão da Polícia Civil e do Ministério Público, embolsava boa parte do dinheiro. Outra parte, de acordo com a investigação, ia para Jamerson Oliveira, o diretor do programa, e os demais envolvidos no esquema. Caso seja condenado, o apresentador pode pegar até dezessete anos de prisão.
Quando aceitou a denúncia do MP, o Tribunal de Justiça determinou que, durante o julgamento do processo, Castro e outros onze réus não podem deixar o país sem autorização prévia nem se ausentar de Salvador por mais de uma semana. Eles também foram proibidos de fazer qualquer contato com as pessoas apontadas como vítimas da fraude ou com seus familiares. Como o STJ recusou o pedido de Castro, as medidas cautelares continuam valendo.
A investigação começou três anos atrás, provocada por um fato improvável. Anderson Talisca, jogador de futebol revelado pelo Esporte Clube Bahia e que hoje atua pelo Fenerbahçe, na Turquia, assistia ao Balanço Geral certo dia e se comoveu com a história de uma mãe que precisava de um remédio caríssimo para tratar seu filho de 1 ano, diagnosticado com dois tumores. A família havia pedido à Justiça que o SUS fornecesse o medicamento, mas recebera uma negativa. Talisca então anunciou, ao vivo, que bancaria a primeira ampola do remédio, orçada em 73 mil reais. Mas o que veio a seguir lhe causou estranhamento: segundo Talisca, já fora do ar, Marcelo Castro lhe passou um número de Pix diferente do que havia aparecido na tevê. A equipe do jogador achou prudente notificar a direção da Record.
A emissora então abriu uma investigação interna e, em questão de dias, concluiu tratar-se mesmo de uma fraude para desviar o dinheiro das doações. Dias depois, demitiu Castro e Oliveira por justa causa e apresentou uma notícia-crime contra os dois na Polícia Civil. O caso foi conduzido, dali em diante, pela Delegacia de Repressão a Crimes de Estelionato Por Meio Eletrônico (DreofCiber). A piauí revelou, em maio de 2024, as conclusões do inquérito, que estimou a fraude em mais de 500 mil reais. Segundo os investigadores, Castro era um dos líderes do esquema e cabia a ele escolher as pessoas que seriam entrevistadas, encontrando histórias que cativassem os telespectadores da Record. Oliveira, por sua vez, autorizava a divulgação das chaves Pix adulteradas no programa. E Lucas Santos, motorista de aplicativo e amigo de infância de Oliveira, atuava como operador financeiro, recrutando parentes e amigos que topassem emprestar suas chaves Pix para receber o dinheiro.
Os réus são acusados de crimes que vão de associação criminosa a lavagem de dinheiro e apropriação indébita. Na denúncia apresentada à Justiça, o Ministério Público estimou a fraude num valor menor que a polícia: 407.143,78 reais. Para que esse dinheiro possa ser ressarcido às vítimas – isto é, às pessoas que deveriam ter recebido as doações –, o tribunal bloqueou 607 mil reais em ativos financeiros dos réus e proibiu que eles vendessem seus imóveis e carros até o fim do julgamento. Castro, além disso, responde a processos por danos morais a mulheres que entrevistou. Os pedidos de indenização variam de 50 mil a 500 mil reais.
Até aqui, a Justiça tem sido lenta. Somente em fevereiro de 2025, seis meses depois de receber a denúncia, o tribunal fez a primeira audiência sobre o caso. Das dezessete vítimas que participam do processo, oito depuseram naquele dia. Na antessala do Fórum Criminal de Sussuarana, em Salvador, se encontraram pela primeira vez e trocaram histórias.
“Para mim, ele é o anticristo”, diz Adriana Fonseca de Jesus quando indagada sobre Marcelo Castro. Depois da primeira audiência na Justiça, ela e outras depoentes (são quase todas mulheres) criaram um grupo de WhatsApp chamado “vítimas do Pix”, no qual compartilham suas experiências e informações sobre o processo. Tempos depois, foi criado um segundo grupo só com as mães que a polícia identificou como vítimas do esquema. Chama-se “As meninas do caso Pix”.
Adriana, uma dona de casa de 29 anos, participa dos dois. Ela foi entrevistada no Balanço Geral em fevereiro de 2023 porque estava muito preocupada com a saúde de sua filha e queria ajuda para que ela fosse examinada por uma junta médica. A menina, prestes a completar 7 anos, tinha desenvolvido um caroço acima do peito, e a família suspeitava que fosse um tumor. Adriana diz que não conseguiu atendimento no SUS e não tinha dinheiro para bancar uma consulta particular. Ela então pediu ajuda a um influenciador de Feira de Santana, e acredita que, a partir dele, a história chegou até Marcelo Castro. O repórter da Record entrou em contato com ela dali a poucos dias e a convidou para o programa.
Adriana diz que Lucas Costa, amigo do diretor do Balanço Geral e acusado de operar o esquema, foi buscá-la em sua casa, em São Tomé de Paripe, na periferia de Salvador, e a levou junto da filha até o Pelourinho. Durante o trajeto, segundo Adriana, o motorista a induziu a mentir quando estivesse em frente à câmera. “Ele falou para eu dizer que queria autorização para trabalhar no Carnaval, que eu não estava conseguindo trabalho.” Ela conta que, já no Pelourinho, o repórter Marcelo Castro reforçou o teatro. “Me perguntou quanto era o valor da cirurgia. Eu disse que não queria dinheiro, queria um psicólogo e um neuropediatra para a minha filha. Ele disse: ‘se te perguntarem, o valor é 10 mil reais.’”
Antes da gravação, segundo Adriana, Castro perguntou se ela tinha Pix. Ela respondeu que sim, mas o jornalista explicou que, apesar disso, eles exibiriam na tevê o Pix de Daniele Monteiro, prima de Lucas Costa. “E disse que, se alguém me perguntasse, eu deveria dizer que era minha prima.” Adriana lembra de ter achado aquilo muito estranho, mas se sentiu acuada depois de notar um volume na cintura de Castro. “Dava a impressão de que ele estava armado. Não era o celular, porque este estava na mão dele.” Castro, de fato, é dono de uma Taurus .380, pistola semiautomática que custa em torno de 9 mil reais. Ele tem o certificado de CAC, categoria que engloba colecionadores, atiradores esportivos e caçadores. Pela lei, no entanto, os CACs só podem andar com a arma do trajeto de casa até o clube de tiro, e vice-versa. Além disso, a arma deve estar sempre descarregada.
Com a quebra dos sigilos fiscais, a Polícia Civil concluiu que Adriana deveria ter recebido 64.127,44 reais naquele dia. Foi o montante doado pelos telespectadores que se solidarizaram com sua filha. Mas, em vez disso, ela recebeu apenas 6,5 mil reais. Castro, segundo a investigação, ficou com 18,5 mil reais; Oliveira, com 19,1 mil; Costa, com 12,6 mil; e Daniele, a prima de Costa que emprestou a conta bancária, ficou com o restante.
Sem saber dos desvios, Adriana aceitou de bom grado os 6,5 mil reais, uma ajuda mais que bem-vinda para o tratamento de sua filha. Assim como a maioria das vítimas, só concluiu que havia sofrido um golpe quando o escândalo veio à tona, em março daquele ano. Mas os problemas não acabaram ali. Ao depor à polícia, Adriana teve seu celular apreendido para perícia e nunca devolvido. Ela conta que, para piorar, recebeu dias depois uma ameaça por telefone. “Um homem ligou para a minha casa e disse que era policial. Pediu para eu descer, porque queria falar comigo. Fiquei desesperada. Passei a não dormir mais em casa. Menos de um mês depois, mudei de cidade”, ela diz. Em nota enviada à piauí, a Polícia Civil confirmou o atraso na entrega do celular, causado por “uma falha na lista de itens arquivados no cartório da unidade”, e disse que Adriana já foi convidada a buscar o aparelho. Quanto à ameaça sofrida por ela, a polícia afirmou que nenhum boletim de ocorrência foi registrado, e que Adriana pode fazer isso em qualquer delegacia da Bahia.
A história de Adriana é comum a quase todas as vítimas do “caso Pix”. Mudam apenas as circunstâncias e a gravidade dos relatos. Lucileide Maria Andrade dos Santos, que também é dona de casa, de 56 anos, relata ter vivido uma encenação degradante diante das câmeras da Record em fevereiro de 2023. Estava desesperada, na época, porque o triciclo de seu filho de 21 anos havia sido roubado. O jovem sofre de hidrocefalia (acúmulo anormal de líquido no cérebro) e tem sérias limitações motoras – por isso, utilizava o triciclo para se locomover até mesmo dentro de casa. Santos conta que hesitou em participar do programa, mas cedeu à insistência de Castro e do próprio filho, que era fã do repórter policial.
Ela relata que, momentos antes de entrar ao vivo, Castro pediu ao rapaz que se jogasse no chão e se arrastasse, para comover os telespectadores. Também pediu que ele chorasse, segundo o relato da mãe. “Meu objetivo nem era pedir dinheiro. Era só achar o triciclo do meu filho. O dinheiro que recebi até ajudou a comprar muitas fraldas. Mas meu sentimento é de ter sido enganada”, ela diz. Santos deveria ter recebido 30.489,42 reais, de acordo com a investigação da polícia. Ficou com apenas 6,7 mil. Castro, repórter, e Oliveira, o diretor do programa, receberam 8 mil reais cada, e o restante do dinheiro foi repartido entre os demais envolvidos, segundo a investigação.
É um caso muito parecido com o de Jucileide Souza, de 40 anos. Ela participou do Balanço Geral em janeiro de 2023 para pedir ajuda a seu filho Miguel, portador de um problema neurodegenerativo que o impede de caminhar. Souza precisava de 5 mil reais para comprar uma cadeira de rodas feita sob medida para o menino. Mas a história que Castro contou na tevê era outra. “Ele falou que eu estava pedindo ajuda também para medicações e tratamento. Mas eu só queria a cadeira de rodas”, ela diz. No fim, recebeu mais do que havia pedido: 10.163,20 reais. Os telespectadores, solidários à história, doaram 45 mil reais, ao todo. Novamente, segundo a polícia, a maior parte foi desviada pelos jornalistas.
Jucileide conseguiu, no fim, comprar a cadeira de rodas customizada para Miguel, mas o quadro clínico do menino se agravou. Ele morreu em abril de 2025, aos 17 anos. “O Poder Judiciário sabe que se trata de um caso que envolve crianças com necessidades especiais, mas não deu prioridade. Se eu tivesse dinheiro para dar ao meu filho tudo que ele precisava, talvez ele não tivesse morrido”, lamenta Souza. O menino Guilherme – aquele a quem Anderson Talisca queria doar o remédio de 73 mil reais – também morreu depois de ter sua história contada no programa. Não há evidências que permitam afirmar, porém, que as duas mortes teriam sido evitadas se não tivessem ocorrido desvios de dinheiro.
O Tribunal de Justiça da Bahia fez até agora duas audiências, em que colheu depoimentos das vítimas. A terceira, que deveria ter ocorrido em novembro do ano passado, foi adiada pelo juiz Waldir Viana Ribeiro Júnior porque, segundo ele, não havia espaço físico onde ela pudesse ser realizada. O auditório onde a sessão deveria acontecer havia sido reservado para um evento do Projeto TJBA Mais Júri – uma iniciativa apoiada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que busca agilizar os julgamentos de crimes dolosos contra a vida.
Ribeiro Júnior passou a audiência para o dia 6 de maio. Ela será realizada, portanto, mais de um ano depois da última. No dia 7, os doze réus serão interrogados pela primeira vez no julgamento.
Marcelo Castro não quis dar entrevista à piauí. Em maio de 2024, quando a revista publicou a primeira reportagem sobre o caso, o jornalista se manifestou apenas com uma mensagem de WhatsApp: “Boa tarde. Se meu nome for citado irei processar você e a revista piauí.” De fato, depois que o texto foi publicado, a defesa de Castro ingressou com um processo no Tribunal de Justiça da Bahia pedindo sua exclusão. Em julho, o pedido foi acatado pela juíza Márcia Denise Mascarenhas, e a reportagem foi tirada do ar. O STJ, no entanto, reverteu a decisão cinco meses depois.
Jamerson Oliveira também não quis se manifestar. A piauí entrou em contato com o advogado Marcus Rodrigues, que representa ambos, mas ele respondeu que, por “dever ético-profissional”, não poderia comentar o caso, que tramita sob segredo de Justiça. A piauí tentou, mas não conseguiu localizar Lucas Santos e sua prima Daniele Monteiro.
Enquanto o julgamento transcorre, Castro e Oliveira vêm acumulando outros atritos com a lei. O apresentador foi condenado a 1 ano e 5 meses de prisão, poucos dias atrás, por ter difamado um empresário. No Dia dos Pais de 2024, Castro publicou uma reportagem no site Alô Juca (do qual ele é um dos sócios) afirmando que o homem não queria assumir uma suposta filha, menor de idade. De acordo com o juiz, a publicação foi “meramente difamatória”. O apresentador, no entanto, recorre em liberdade. No processo, o Ministério Público se posicionou em favor da absolvição de Castro, alegando falta de provas.
Antes disso, Castro sofreu outro revés: foi obrigado a conceder 8 minutos e 5 segundos do programa Alô Juca para um direito de resposta do advogado Mateus Nogueira da Silva. Em maio de 2025, o programa havia exibido um vídeo que circulou nas redes sociais, no qual Silva aparecia discutindo acaloradamente com uma delegada em Salvador – no fim, ela deu voz de prisão a ele por desacato. “Era uma matéria que atacava minha honra sem nem me ouvir. Eles pegaram processos em que eu representava mulheres vítimas de agressão e disseram que meu nome estava associado à agressão de mulheres. Foi um ataque de má-fé para reproduzir uma reportagem sensacionalista”, disse Silva à piauí. O direito de resposta, concedido pela Justiça, foi cumprido pelo programa com oito meses de atraso.
Jamerson Oliveira, por sua vez, foi preso pela Polícia Militar em setembro de 2025 depois de ultrapassar uma viatura em alta velocidade e desobedecer às ordens dos policiais para desacelerar. Foi liberado no dia seguinte, depois de pagar fiança no valor de um salário mínimo. Em nota, a PM baiana afirmou que o jornalista foi detido por “conduzir o veículo com capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool ou de drogas”.
Na Record, o escândalo do Pix acarretou não apenas uma crise de imagem como uma crise de audiência. Em junho do ano passado, a emissora anunciou a demissão de José Eduardo Alves, o Bocão, que comandava o Balanço Geral havia dezessete anos. Alves era muito próximo de Castro e foi quem o lançou como repórter, mas os dois romperam depois que as acusações de fraude vieram à tona. Desde então, trocam farpas publicamente. Bocão já disse que a prisão do antigo amigo é questão de tempo. Castro, por sua vez, revidou chamando-o de “boca mole” e debochou da audiência de seu programa, que hoje costuma perder para o Alô Juca.
A TV Aratu, por sua vez, não apenas está lucrando com a popularidade de Castro como também contratou Jamerson Oliveira. Hoje ele é coordenador-geral de conteúdo da afiliada do SBT e editor-chefe do Alô Juca. De vez em quando, faz aparições ao vivo como repórter no programa do amigo. A dupla, de tão à vontade no programa, voltou a fazer campanhas de Pix no final do ano passado, com a justificativa de ajudar pessoas em necessidade.
A piauí entrou em contato com a assessoria de imprensa do SBT, com a redação da TV Aratu e com o gerente interino da emissora baiana, Daniel Nuno, para obter um posicionamento das duas empresas. Não houve resposta até a publicação desta reportagem.
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