Seção de humor da piauí



Roberto Kaz e Afonso Capellaro

Seção de humor da piauí

Supervisão: Olegário Ribamar


Imagem Lobão critica recado de Caetano à diarista

Cultura

Lobão critica recado de Caetano à diarista

AMARALINA – “Conformista e conservador”, vaticinou Lobão, assim que tomou conhecimento do bilhete deixado por Caetano Veloso a sua diarista, Maria do Socorro, a mesma de Chico, Gil e João Gilberto. Em iPad deixado na cozinha, Caetano escreveu: “Sossô, por favor deixa um guisadinho de abóbora com carne para o fim de semana. Obrigado, Caetano.”

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AMARALINA – “Conformista e conservador”, vaticinou Lobão, assim que tomou conhecimento do bilhete deixado por Caetano Veloso para sua diarista, Maria do Socorro, a mesma de Chico, Gil e João Gilberto. Em iPad deixado na cozinha, Caetano escreveu: “Sossô, por favor deixa um guisadinho de abóbora com carne para o fim de semana. Obrigado, Caetano.”

“Tem coisa mais careta do que guisadinho de abóbora com carne?”, indagou Lobão, para quem o bilhete é uma evidência de como Caetano há muito deixou de ser um artista inquieto. “Nada de novo acontece no mundo dos guisados. Caetano sabe disso. No passado, ele pediria a Socorro uma espuma de lichia sobre cóccix de pato e suspiros de celulose.”

Lobão foi adiante: “Reparem que Caetano não pede sobremesa. Uma atitude burguesa, de quem se preocupa com a silhueta, na contramão absoluta da atitude transgressora e iconoclasta dos Doces Bárbaros – e isso apesar de toda aquela cafonice tropicalista.” Em revelação bombástica, Lobão disse possuir provas de que Caetano faz ginástica. “Tenho recados gravados do Caetano para o personal trainer dele”, soltou Lobão, com evidente asco. “O homem se chama Marcão.”

As críticas não pararam por aí. “Também chamo atenção para a arrogância de classe dos recados deixados aos empregados. A MPB subiu no pedestal. Caetano estava ocupado demais para falar com Socorro pessoalmente? Teria medo de ouvir alguma crítica a suas colunas no Globo?”

Lobão concluiu com uma proposta para espalhar receitas de guisadinho em bancas de jornal.

No Leblon, a atriz Luana Piovani foi vista saindo de um supermercado com uma abóbora na mão. “O recado é para mim”, disse.

Na Folha, o crítico Roberto Kaz sustentou que o recado é uma reatualização da Semana de 22. “Abóbora é símbolo do Halloween. Mas Caetano a aproxima do guisadinho, um prato que percorre as camadas mais fundas da cultura nacional. Com isso, sugere um festim antropofágico.”

Epaminondas Veras, do Estadão, preferiu destacar o sutil jogo de espelhos proposto pelo texto. “É guisado de carne com abóbora, ou de abóbora com carne? Importa a ordem? Numa vertigem, nos damos conta que o recado de Caetano pode ser o avesso do avesso do avesso. Onde queres abóbora sou carne? Onde queres carne, sou Sossô? Onde sou Sossô, sou Caetano?”, perguntou.

No Globo, Caetano usou sua coluna dominical para dizer que o guisadinho nasceu na Bahia. “Nas ladeiras do Pelourinho, no dia 13 de maio, um guisadinho de moranga foi preparado na casa de seu Popó do Maculelê. Andy Warhol plantou batatas em Londres. Lobão tem razão.”

No mesmo jornal, o crítico Rodrigo Fonseca se declarou visceralmente atingido pelo recado: “Não se sai impune do guisadinho de Caetano. As águas da  incomunicabilidade se agitam em ondas de dor onde os ingredientes caminham num Blow Up contínuo que lhes revele a razão da ausência perpétua que lhes governe. Em síntese: trata-se do Rosebud de Welles, um elemento fantasmático a lembrar, agora, as ruínas da contemporaneidade que Benjamin evocou no filme que jamais dirigiu.”

O crítico José Ramos Tinhorão cerrou fileira com os que não gostaram. Em ensaio publicado na revista Tempo Social, Tinhorão observa que Caetano não faz, no recado, qualquer referência ao jongo da Serrinha. “Caetano se americanizou.”

A Casa de Rui Barbosa anunciou que concederá, a partir de setembro, duas bolsas de pesquisa para estudantes de doutorado que queiram se dedicar ao estudo dos recados deixados por Caetano na secretária eletrônica de seu personal trainer, Marcão. “Há dois anos começamos a estudar esse material”, revelou Wanderley Guilherme dos Santos, presidente da Fundação. “O problema é que a secretária só grava 3 minutos e a fala de Caetano é sempre interrompida no meio. Parece que ele estalou alguma coisa, mas nunca ficamos sabendo o quê ou quem.”

José Celso Martinez anunciou que encenará o bilhete de Caetano. No espetáculo, que durará dois meses, espectadores vestidos de abóbora serão sodomizados por Maria do Socorro.

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