Turistas passeiam em Veneza, em 1954, com a ponte Rialto ao fundo Charles Hewitt/ Picture Post/ Hulton Archive/ Getty Images
Viajar é, cada vez menos, um ato de liberdade
O turismo contemporâneo entre a ampliação de ilusões e o endurecimento de restrições
Durante muito tempo, o turismo foi associado à ideia de liberdade. Viajar significava escolher o destino, o que ver, como experimentar o mundo. Um exercício de autonomia individual – com as restrições, claro, do bolso de cada um. Essa imagem, no entanto, não explica bem o turismo contemporâneo.
Hoje, o ato de viajar é governado por três fatores que raramente aparecem juntos no debate público: o desejo individual, a mediação digital e a geopolítica. Quando combinados, fica mais claro o que está acontecendo com o turismo global. Ele bateu recorde em 2025 — 1,5 bilhão de visitas internacionais, segundo a ONU — mas nunca foi tão regulado, filtrado e, de certa forma, antecipado.
Vamos começar pelo indivíduo. Ainda existe a ideia de que viajar nos transforma — que amplia horizontes, nos torna mais tolerantes, mais interessantes. Essa crença vem de longe. Mark Twain escreveu que “viajar é fatal para o preconceito, a intolerância e as mentes limitadas”.
Na prática, acontece muitas vezes o oposto. A filósofa Agnes Callard, num ensaio na revista The New Yorker, coloca isso de um jeito meio desconfortável: o turista já sabe, antes de partir, o que será quando voltar. “Viajar é um bumerangue”, escreve. “É algo que te devolve exatamente ao lugar de onde você partiu.” Viajamos para confirmar o que já esperávamos, não para desfazer expectativas. A viagem, assim, não rompe com o cotidiano, ela só o reproduz em outro cenário.
Soma-se a isso a proliferação dos algoritmos, cada vez mais treinados e afiados. Destinos já não são descobertos, e sim sugeridos. Experiências não são vividas espontaneamente, mas antecipadas, roteirizadas e, acima de tudo, registradas. O que antes se vivia para depois compartilhar, hoje se vive (quase que somente) para compartilhar.
Um exemplo: a Igreja de Santo Inácio de Loyola, em Roma. Uma joia barroca do século XVII, com afrescos sublimes no teto. Ela se tornou famosa recentemente não pelo valor artístico ou histórico, mas em razão de um espelho estrategicamente posicionado para selfies de tirar o fôlego. Depois que vídeos de influenciadores inundaram o TikTok, milhares de pessoas passaram a fazer fila — de até uma hora de espera, pagando 1 euro cada um — sem sequer olhar para a obra de Andrea Pozzo no teto acima de suas cabeças. O destino virou cenário; o turista, produtor de conteúdo. (O gestor da igreja, aliás, é um talento do marketing e da arrecadação.)
E não é só ali. Em Roma, passagens medievais que ninguém conhecia viraram atrações lotadas depois de um único vídeo viral no Instagram. Museus antes vazios passaram a ter filas na porta graças a influenciadores. Poderia ser uma boa notícia, mas a lógica se repete: a experiência passa a depender menos do que se sente e mais do que se pode mostrar/ postar/ exibir.
Só que mesmo esse turista — guiado por desejos e algoritmos — não é plenamente livre.
A geopolítica está aí, cada vez mais, para determinar quem pode viajar, para onde e a que custo. Quando Donald Trump intensificou as operações militares no Caribe, as reservas turísticas em Trinidad e Tobago despencaram — um efeito colateral de uma política que nada tinha a ver com turismo. Já quando Estados Unidos e Israel atacaram o Irã, milhares de voos foram cancelados; o Irã danificou o Aeroporto Internacional de Dubai no contra-ataque. Resultado: o Oriente Médio passou a perder pelo menos 600 milhões de dólares por dia em receita turística, segundo o Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC).
A América Latina, é verdade, não sente o impacto direto desses conflitos da mesma forma que Europa ou Oriente Médio. A região depende menos do Golfo como corredor de voos, e as rotas Norte-Sul — como Brasil-Estados Unidos — seguem relativamente estáveis. Os viajantes latino-americanos, aliás, continuam querendo viajar e os Estados Unidos seguem no topo da lista de destinos desejados. Mas há um efeito indireto que não pode ser ignorado: o custo. Quando o preço do combustível sobe, quando o seguro de viagem encarece ou o câmbio desanda, o bolso aperta. Então o crescimento desacelera. Com frequência, o viajante simplesmente troca o destino internacional por algo mais perto de casa.
A Rússia é outro caso. Aquela ideia de que a queda da União Soviética trouxe como dividendo a liberdade de circular pelo mundo? Pois bem, essa liberdade foi progressivamente restringida pela política externa russa. Em 2024, o número de vistos emitidos para cidadãos russos na Zona Schengen da União Europeia caiu 90% em relação a 2019. Os destinos de férias dos russos mudaram completamente: Alemanha, Estônia e Finlândia sumiram do mapa; Egito, Vietnã, Emirados Árabes Unidos e Tailândia entraram no lugar.
E os Estados Unidos? Antes o maior destino do mundo em total de receita, viram o turismo internacional recuar 6% em 2025 — isso num momento em que o resto do planeta vivia um boom. (Só o Brasil cresceu 37% em chegadas internacionais em 2025.) O país de Trump fez por merecer: uma pesquisa com viajantes globais mostrou que a proporção dos que não se sentem bem-vindos no país mais que dobrou em um ano, e a recusa em visitá-lo quase triplicou.
A China mostra o outro lado do poder estatal: o controle sobre quem sai. Funcionários de agências governamentais e universidades públicas, por exemplo, precisam entregar o passaporte. Os demais têm os roteiros monitorados. Em meio a tensões com o Japão, o governo chinês desencorajou viagens ao arquipélago — resultado: as chegadas de turistas chineses ao Japão caíram 45% em dezembro de 2025. O Estado, aqui, não proíbe formalmente, só desencoraja. Mas o efeito acaba sendo o mesmo.
No fim das contas, o que temos é um turismo condicionado. Nunca houve tanta vontade de viajar. Mas também nunca houve tantos filtros — explícitos ou invisíveis — regulando esse movimento. O recorde de viagens internacionais em 2025 é real, só que ele convive com espaços aéreos fechados, rotas mais longas e caras, vistos negados, e destinos inteiros simplesmente varridos do mapa por decisões tomadas a milhares de quilômetros de distância.
Nesse contexto, o turismo funciona como um termômetro do mundo contemporâneo. Ele mostra quem pode circular, quem é barrado, quais destinos estão em alta e quais se tornam melhor evitar — não por falta de atrativos, mas por causa da deterioração de uma imagem ou da lógica implacável de um algoritmo.
E não para por aí: revela também múltiplas disputas. Disputa por visibilidade (mediada por plataformas digitais). Disputa por acesso (regulada por Estados). Disputa por significado, essa vivida — ou encenada — por cada viajante.
Diante disso, a pergunta central muda. Já não é só decidir para onde viajar. É entender quem, de fato, controla essa decisão.
O viajante, que acredita escolher?
O algoritmo, que sugere e organiza?
Ou o Estado, que permite — ou impede — o deslocamento?
A resposta está no cruzamento das três questões. O turismo contemporâneo já não é uma expressão de liberdade individual. É o produto de um sistema complicado, em que desejo, tecnologia e política se entrelaçam, e a ilusão de autonomia talvez seja o item mais bem-acabado do pacote.
