Uma cidade inteira arruinada por um golpe
Moradores de Piraju, em São Paulo, foram vítimas da pirâmide financeira montada por um conterrâneo
Piraju é uma cidade aprazível de 30 mil habitantes no sudoeste paulista, perto da divisa com o Paraná. Fundada há 146 anos, ainda mantém alguns casarões do início do século passado, que remetem aos tempos de prosperidade com a produção de café. A cidade é cortada pelo Rio Paranapanema, com lagos de represa, corredeiras e cachoeiras, explorados para fins turísticos. Em 2002, foi reconhecida pelo governo de São Paulo como estância turística.
No fim do ano passado, Piraju mantinha suas lojas abertas à noite e enfeitadas com motivos natalinos, como qualquer cidade do interior. Tudo soava relativamente normal, com famílias tirando fotos na Casa do Papai Noel, instalada na principal avenida do comércio. Com o calorão, os bares também mantinham mesas ocupadas à beira da calçada.
A aparência de normalidade escondia um tombo que abalou Piraju, conforme mostra uma reportagem publicada na edição deste mês da piauí. Estima-se que os moradores da cidade aplicaram cerca de 150 milhões de reais na Theboss Soluções de Softwares Inteligentes, sediada em Curitiba, que, apesar de ser registrada como uma empresa de tecnologia, era uma operadora financeira.
Criada em 2010 por José Oswaldo Dell’Agnolo, um ex-morador de Piraju e cuja família era conhecida por sua idoneidade, a Theboss captava dinheiro de clientes oferecendo altos juros fixos mensais, que variavam entre 2,5% e 3% sobre o capital investido, um rendimento muito superior ao do mercado, que costuma trabalhar com percentuais em torno de 1%. Ele também criou um banco digital, o Futuree Bank, por cujo aplicativo os clientes podiam fazer novos aportes na Theboss.
Os negócios funcionaram normalmente até agosto de 2025, quando os investidores da Theboss deixaram de receber os juros das aplicações do mês anterior, contrariando o histórico de pontualidade da empresa. Também não conseguiram fazer saques nem transferências. Em Piraju, angustiados com o atraso, clientes tentaram contato direto com José Oswaldo, mas as mensagens de WhatsApp não eram entregues e as ligações não se completavam. José Oswaldo havia fugido, sem dar notícia do dinheiro alheio.
O rombo de 150 milhões de reais é pouco menor que todo o orçamento anual da cidade, de 174 milhões de reais. “É quase um orçamento inteiro do município que sumiu”, lamenta o diretor do Departamento de Indústria e Comércio da prefeitura, Renato Lucas de Freitas. Estima-se que os 150 milhões de reais de Piraju rendiam entre 3,7 milhões e 4,5 milhões por mês. “Esse dinheiro é o que girava a economia local, é o que circulava”, diz Freitas.
A Associação Comercial e Industrial de Piraju (Acip) também aponta que, de agosto a dezembro, houve um recuo entre 20% e 30% nas vendas do comércio local, que é constituído por mais de quinhentos estabelecimentos. O presidente da Acip, Caique Motta, diz que o impacto foi generalizado. “É geral. Se você conversar com dono de mercado, vai ter essa reclamação, com dono de loja de roupas…”, enumera. “O comércio sentiu. Esse Natal, mesmo, foi diferente. Não tinha aquela movimentação, aquele ânimo das pessoas”, analisa. “É, não teve, não teve…”, conclui, pesaroso. Proprietário de uma loja de celulares e de produtos de informática, Motta afirma também ter sentido o baque nas vendas de varejo. Ele nunca aplicou na Theboss.
A ruína provocou uma reação em cadeia no município. “Zé Oswaldo não acabou comigo. Ele acabou com todo mundo”, desabafou o aposentado Luiz Aparecido Buchler. Ele perdeu as economias de uma vida inteira, cerca de 800 mil reais, acumuladas ao longo de mais de seis décadas de trabalho em oficinas mecânicas. “Estou comendo arroz, feijão e ovo.”
Um grupo de investidores lesados abriu uma investigação própria para descobrir o que aconteceu, entre eles Rafael Stuani, que aprendeu técnicas de investigação num curso online de detetive. Em meados de setembro passado, o grupo enviou um relatório de sua apuração à Polícia Federal, descrevendo o esquema de José Oswaldo como uma clássica pirâmide financeira.
Outros investidores reagiram de maneira mais passional. Foram bater na casa dos pais de José Oswaldo em Piraju, para cobrar da família. Há relatos de que o imóvel chegou a ser apedrejado e de que os familiares foram ameaçados. Em depoimento prestado à PF, Rafael, irmão do golpista, disse que ele e os pais estavam sofrendo “muitas ameaças por pessoas estranhas, por telefonemas estranhos”.
Na noite de 6 de dezembro, um sábado, rompeu-se o silêncio sobre o rumo de Zé Oswaldo. Naquele dia, véspera de completar três meses de fuga, o golpista foi preso em Itapema, no litoral de Santa Catarina. Estava com barba e cabelo aparados e hospedava-se no Blue Sea, um hotel de frente para o mar. Ele usava o nome falso de “Marcos Paulo Silva” e tinha uma mala carregada de dólares e reais, com o equivalente a 5 milhões de reais (721,3 mil dólares e 1,1 milhão de reais, em dinheiro vivo). Também foram encontrados com ele dez celulares, um computador, três relógios, chaves de veículos e facas. (Posteriormente, dois policiais militares de Santa Catarina foram presos, acusados de cobrar propina de Zé Oswaldo.)
Como o caso corre em segredo de Justiça e a PF não se manifesta sobre as investigações, não se sabe ao certo o que provocou o desmonte do esquema, nem o destino integral do dinheiro investido pelos clientes. No despacho de indiciamento a que a piauí teve acesso, a PF aponta “alargada confusão patrimonial” promovida por Zé Oswaldo entre suas empresas, mas não aponta o motivo que levou à suspensão dos pagamentos. Em geral, os esquemas de pirâmide financeira desabam quando o volume de dinheiro captado deixa de ser suficiente para manter a roda do golpe girando.
Em 4 de janeiro, o delegado Filipe Pace, da PF, concluiu sua investigação. Zé Oswaldo, que se encontra preso em Itapema, foi indiciado por dezessete condutas criminosas. Entre elas, gestão fraudulenta de instituição financeira, operação de instituição financeira sem autorização, crime contra o mercado de capitais, estelionato, crime contra a economia popular, organização criminosa, lavagem de dinheiro e uso de documento falso. Se for condenado por todas as acusações, pode pegar até 95 anos de reclusão.
Carolina, sua mulher, alega que não fazia parte do esquema, nem sabia de nada, mas confirmou que o marido usava suas contas bancárias. Foi indiciada por lavagem de dinheiro, cuja pena pode variar de 3 a 10 anos. Ivo Kasimirski, ex-frentista de posto de combustíveis, contou que foi contratado por Zé Oswaldo como faz-tudo. Com o tempo, assumiu novas atribuições. “Até me sinto envergonhado de muita coisa, porque, assim, doutor, eu não notava”, disse ele em depoimento à PF. Foi indiciado por cinco crimes, incluindo lavagem de dinheiro e crime contra o mercado de capitais. Se condenado por todos, pode pegar entre 9 anos e meio e 32 anos.
