festival piauí de jornalismo

10° FESTIVAL PIAUÍ DE JORNALISMO: DIRETORES EM MEIO AO CAOS

Líderes e ex-líderes de veículo como The New York Times, The Guardian, The Atlantic, El Faro e Kyiv Independent passaram pelo palco da Cinemateca Brasileira
Dean Baquet, que chefiou o The New York Times entre 2014 e 2022 - Foto: Durval Litoldo
Dean Baquet, que chefiou o The New York Times entre 2014 e 2022 - Foto: Durval Litoldo

9 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Versão em Inglês

Com o tema No olho do furacão – diretores de redação em tempos de tormenta, o 10º Festival piauí de Jornalismo, realizado no último fim de semana na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, recebeu oito jornalistas, de sete países, acostumados a chefiar redações em tempos incandescentes. São profissionais que comandam apurações de impacto e excelência, enfrentando regimes autoritários, ameaças, difamações, processos judiciais e espionagem.

Representantes latino-americanos do festival, a venezuelana Luz Mely Reyes e o salvadorenho Carlos Dada vivem exilados. Convidada da mesa de abertura, na manhã de sábado (5), Luz Mely é diretora e cofundadora do Efecto Cocuyo, site criado em 2015 e que há quatro anos teve seu acesso bloqueado na Venezuela – só é possível acessá-lo por VPN. Por sua cobertura independente e sem alinhamento com o chavismo, Luz Mely foi difamada e ameaçada de prisão. Em 2023, decidiu exilar-se em Austin, no Texas, onde vive com sua família. 

Durante a conversa com Guilherme Henrique (piauí) e Flávia Marreiro (BBC News Brasil), Luz Mely falou sobre a cobertura da prisão de Maduro, em janeiro deste ano. Ela e outros jornalistas venezuelanos fizeram uma transmissão de quase 11 horas para noticiar o episódio. Somente os jornalistas exilados apareceram diante das câmeras, para preservar a identidade daqueles que ainda vivem na Venezuela. A certa altura, um deles se deparou com o tuíte em que Donald Trump anunciou a captura de Maduro. “Ele começou a ler no ar e ficou emocionado, não acreditou. Então li a notícia por ele. Nós demos em primeira mão”, lembrou Luz Mely. Leia mais aqui. 

Há duas semanas, Luz Mely fez uma viagem de 21 dias pela Venezuela, agora governada pela presidente Delcy Rodríguez e sob tutela dos Estados Unidos. Para Carlos Dada, voltar a El Salvador não é uma realidade. O jornalista, que é fundador do site El Faro, vive na Holanda, enquanto sua equipe se estabeleceu na Costa Rica. Foi a solução para fugir do autoritarismo de Nayib Bukele, presidente de El Salvador. 

A entrevista com Dada abriu o festival no domingo (6) e foi conduzida por Consuelo Dieguez (piauí) e Marcelo Lins (GloboNews). O jornalista do El Faro afirmou que enfrenta uma “tempestade perfeita”. Por investigar e denunciar os abusos do governo Bukele, a receita comercial é quase nula. “Ninguém quer colocar anúncios na nossa plataforma e acabar brigando com um ditador.” Ao mesmo tempo, os gastos com defesas jurídicas e outros custos administrativos aumentaram. “Ainda estamos aprendendo a contornar isso. O preço a se pagar por fazer jornalismo é cada vez mais alto.” 

Mesmo com as dificuldades, o El Faro segue realizando investigações de impacto. Em 2020, através de uma série de documentos e depoimentos de membros da MS-13 – também chamada de Mara Salvatrucha, uma das principais gangues salvadorenhas –, o El Faro comprovou negociações e troca de benefícios entre o governo atual e faccionados. Cinco anos depois, mais revelações sobre a proximidade entre o círculo de Bukele e as gangues do país emergiram. Como consequência, Dada e os demais jornalistas do El Faro foram hackeados pelo software israelense Pegasus, relatou ele durante a entrevista, cujo resumo pode ser lido aqui. 

Outra jornalista a enfrentar um regime autoritário é Manisha Pande, que comanda o site indiano Newslaundry. No sábado (5), aos repórteres Danilo Marques (piauí) e Patrícia Campos Mello (Folha de S.Paulo), Pande explicou que os jovens jornalistas do país não sabem o que é uma entrevista coletiva, já que a última concedida por Modi foi há doze anos. “Indagar pessoas que estão no poder é uma tarefa básica e não deve ser algo extraordinário.” 

Pande disse que o jornalismo indiano foi esvaziado desde que Modi chegou ao poder, em 2014. Ela diz que a repressão não ocorre de forma “dramática”, mas a partir do controle de narrativas. Pande afirma que a tarefa do Newslaundry é justamente desmontar essas narrativas. Além das reportagens, ela apresenta um quadro, a TV Newsance (um trocadilho sonoro com nuisance, algo como chato e estorvo em português), exibido no YouTube e direcionado à crítica de mídia do país. Os programas misturam notícia e sátira. “O humor virou ferramenta para trazer leveza e não parecer um sermão”, explica. “Mas o que está acontecendo é tão louco que eu não preciso nem pensar em piadas.” 

Enquanto Luz Mely Reyes, Carlos Dada e Manisha Pande ainda comandam seus veículos, os jornalistas Alan Rusbridger e Dean Baquet, ambos entrevistados no sábado (5), já deixaram seus postos. Rusbridger foi editor chefe do The Guardian entre 1995 e 2015. Entrevistado por Celso Rocha de Barros (piauí) e Natália Viana (Agência Pública), Rusbridger relembrou grandes investigações feitas pelo Guardian sob sua gestão, como o Wikileaks, de Julian Assange, e os vazamentos de Edward Snowden. O britânico analisou as diferenças dos dois casos. 

“O Estado britânico no caso do Assange ficou na dele. No caso do Snowden, eles disseram: vocês têm que parar. E não cabe ao Estado dizer pra um editor quando parar”, disse Rusbridger, que atualmente é membro do Oversight Board – um comitê de supervisão independente para as redes sociais da Meta, que analisa e recomenda quais conteúdos devem ser mantidos ou removidos do Facebook, Instagram e Threads. Leia mais sobre a conversa com o jornalista aqui. 

Baquet foi editor-executivo do The New York Times entre 2014 e 2022, um período turbulento da história norte-americana, sobretudo pela ascensão de Donald Trump. 

Na avaliação de Baquet, o Times, bem como o resto da imprensa americana, não foi capaz de perceber a raiva e o sentimento anti-establishment que predominavam em parte do eleitorado. “Muitos leitores acharam que a cobertura foi muito dura com Hillary Clinton [candidata democrata que concorreu contra Trump em 2016]. Não acho que tenha sido esse o problema. Nós não soubemos cobrir o país”, afirmou ele a André Petry (piauí) e Natuza Nery (GloboNews). 

Em retrospecto, Baquet avalia que a imprensa subestimou o ressentimento da população branca depois de oito anos de governo Obama, assim como a insegurança com os rumos da economia. “O desejo de mudança era generalizado, o que também ajudou a explicar o fortalecimento de Bernie Sanders”, afirmou o jornalista. Durante a entrevista, que pode ser lida aqui, ele falou sobre os desafios de fazer o Times durante a pandemia, os protestos do Black Lives Matter e o futuro de Trump. 

Consuelo Dieguez e Marcelo Lins entrevistaram Carlos Dada, do El Faro     Foto: Durval Litoldo

No domingo, (6), após a entrevista de Carlos Dada, o segundo dia de festival recebeu o economista Persio Arida para uma conversa sobre o texto Rakudianai, publicado pela piauí em abril de 2011 e considerado um dos mais célebres da revista em seus vinte anos de existência. O tocante relato do acadêmico sobre suas memórias da juventude e do seu envolvimento com a militância de esquerda na ditadura militar foi esmiuçado na entrevista conduzida por Fernando de Barros e Silva (piauí) e Fernando Gabeira, comentarista político da GloboNews.

Arida afirmou que tinha dúvidas sobre a relevância do texto antes de escrevê-lo. “Não gostaria de escrever mais um relato sobre a tortura. Além disso, minha presença na luta armada foi periférica”, disse. Depois, convenceu-se de que a história continha “uma certa reflexão sobre o país” importante aos mais jovens. Conceber o relato, no entanto, não foi fácil, assumiu o economista ao longo da entrevista no festival. “Por muito tempo eu não olhava para trás. Como se o passado fosse uma Medusa, que se você olhar para trás ela te devora”, afirmou. De certa forma, Arida enfrentou sua própria tormenta.

Em seguida, o nigeriano Musikilu Mojeed e a ucraniana Olga Rudenko compartilharam os desafios que enfrentam ao comandar seus veículos. Mojeed é editor-chefe do Premium Times, site que é referência em jornalismo investigativo na Nigéria. Foi o único veículo do país no consórcio Panama Papers, premiado com o Pulitzer e que produz reportagens sobre irregularidades (ambientais, sociais e fiscais) na indústria do petróleo, assédio sexual e abuso contra mulheres, corrupção empresarial e estatal, e massacres cometidos por forças de segurança. 

Mojeed explicou a Angélica Santa Cruz (piauí) e Pedro Borges (Alma Preta) que a imprensa independente é tratada como inimiga do governo nigeriano e que jornalistas, não raro, lidam com ameaças de violência. Um exemplo disso é o próprio Mojeed, que em março de 2020 sofreu uma tentativa de invasão à sua casa. As eleições gerais da Nigéria ocorrem a cada quatro anos, e a próxima será em janeiro de 2027. Mojeed diz que o Premium Times seguirá fazendo seu trabalho investigativo, seja quem for eleito. “Qualquer coisa que você investigue no seu pequeno canto, que jogue luz sobre o que os outros querem ocultar, é jornalismo investigativo”, afirmou o nigeriano. O texto sobre a entrevista pode ser lido aqui. 

Rudenko é editora-chefe do jornal digital The Kyiv Independent, que publica notícias diárias sobre a Ucrânia em inglês. O site foi criado em 2021 por ela e colegas jornalistas que também tinham sido demitidos do Kyiv Post, até então o jornal mais importante em inglês do país. Entrevistada pelos repórteres da piauí Ana Clara Costa e João Batista Jr., Rudenko disse que os ucranianos se sentem abandonados pelo Ocidente em meio à invasão russa. “O governo Trump nos trouxe uma sensação de desencanto. No fim das contas, estamos sozinhos.” 

A jornalista explicou que o site é sustentado principalmente pela colaboração de leitores. “Nossa relação com a audiência é direta”, afirmou Rudenko. “Quando uma pessoa cancela a assinatura, perguntamos o que a levou àquilo.” Para Rudenko, o que faz as pessoas assinarem o The Kyiv Independent é a dupla função que seus repórteres assumem: eles informam sobre a guerra e explicam o que é a Ucrânia para quem não é de lá, escrevendo sempre em inglês. 

Daniel Bergamasco e Flavia Lima conversaram com Jeffrey Goldberg, da The Atlantic       Foto: Durval Litoldo

A última mesa do festival recebeu Jeffrey Goldberg, que é diretor de redação da revista The Atlantic desde 2016. Na entrevista a Daniel Bergamasco (piauí) e Flavia Lima (Folha de S.Paulo), Goldberg relembrou os bastidores da apuração que revelou segredos do governo Trump a partir de mensagens do Signal. O jornalista foi incluído em um grupo com figurões da Casa Branca, como o vice-presidente JD Vance, o secretário de Estado Marco Rubio, o secretário de Defesa Pete Hegseth, e Michael Waltz, à época Conselheiro de Segurança Nacional. Eles estavam planejando ataques militares iminentes contra rebeldes Houthis no Iêmen. “Foi a reportagem mais preguiçosa que já fiz. Não precisava nem sair da cama”, disse o jornalista, com bom humor.

Depois de publicar o escândalo, a revista foi duramente atacada por Trump e seus seguidores, com a alegação de que Goldberg deveria ter alertado sobre sua inclusão por engano. O jornalista afirmou que o grupo foi encerrado logo após os bombardeios. Disse também que a The Atlantic respeita a Segurança Nacional do país e que jamais colocaria a vida de um soldado americano em risco. Por fim, revelou que foi chamado à Casa Branca para conversar com Trump. 

Assim como os outros participantes, o editor-chefe da The Atlantic reafirmou a importância do bom jornalismo, ainda que sob condições desafiadoras. O fundamental em tempos turbulentos, ponderou Goldberg, é que as ideias e debates propostos cheguem ao maior número de pessoas.

O 10º Festival piauí de Jornalismo teve curadoria de Daniel Bergamasco, editor executivo digital da piauí, e produção executiva de Raquel Freire Zangrandi. Confira aqui como foram as outras edições do evento. 


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.