questões cinematográficas

“A ALMA DO OSSO” – EM MINAS, HÁ CINEMA

Cao Guimarães, diretor de “A alma do osso”, define-se como “um autor independente, com liberdade para fazer o filme do jeito que quer”. Ao traçar esse perfil de si mesmo, em matéria publicada no “Globo” de terça-feira (25/5/2010), revela o que tornou possível fazer o extraordinário conjunto de filmes que vem realizando desde “O fim do sem fim”, em 2001. 
Imagem “A alma do osso” – em Minas, há cinema

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Cao Guimarães, diretor de “A alma do osso”, define-se como “um autor independente, com liberdade para fazer o filme do jeito que quer”. Ao traçar esse perfil de si mesmo, em matéria publicada no “Globo” de terça-feira (25/5/2010), revela o que tornou possível fazer o extraordinário conjunto de filmes que vem realizando desde “O fim do sem fim”, em 2001.

É digno de louvor que Cao Guimarães tenha conseguido ser “independente” e ter “liberdade”. Livre das amarras que mediocrizam o cinema brasileiro, tem sido capaz de fazer filmes originais, sem compromissos, fiéis apenas ao seu próprio impulso criativo.

A estréia de “A alma do osso” hoje, no Rio, é, portanto, um acontecimento em si mesmo excepcional, rompendo a barreira que manteve o filme restrito desde 2004, quando recebeu o principal prêmio do É Tudo Verdade – 9º Festival Internacional de Documentários. Além disso, é um marco pela rara oportunidade de ver, em excelentes condições de projeção, um documentário de qualidade incomum.

“A alma do osso” alterna registros feitos em video digital e Super-8, esses filmados pelo próprio Cao Guimarães. A diferença de textura da imagem, conforme o suporte, parece corresponder à intenção de diferenciar o espaço circunscrito da moradia, de um lado, do vasto mundo circundante. Na caverna onde vive, o personagem solitário se entrega a atividades miúdas do dia a dia; quando sai, contempla o mar de Minas, e nessas incursões pelas redondezas o documentário chega a se libertar, por momentos, da observação estritamente documental.

Só quase no final, o espectador saberá o nome, a idade e a região em que vive esse homem da caverna. Fora cantarolar “eu vou falar pra você o que na vida passei”, é preciso ver o primeiro terço de “A alma do osso” para ouvir sua voz cantando no entardecer e, depois de outras ações silenciosas, falando dos seus sonhos e outros assuntos. É como se tivesse sido preciso, depois do contato inicial entre ele e a equipe, um rito de iniciação para poder passar do mutismo à loquacidade que vem a predominar.

No prólogo, chama atenção a magreza, o nariz pronunciado, os pés descalços, o cabelo e barba brancas, o capuz de plástico. Ao amanhecer, o homem inicia a preparação do café. Acende uma pequena fogueira e parece limpar obsessivamente um recipiente usando um mínimo de água. Isso em meio a quinquilharias que fazem da sua morada um amontoado de objetos. A observação é minuciosa, parecendo editada quase em tempo real. Passados mais de dez minutos, o café fica pronto e é bebido de uma vez, sem tirar a caneca da boca.

Depois do título, vemos a sombra do homem projetada no alto da encosta. Ele está diante da paisagem ondulante que se perde no horizonte. A sequência o situa na região em que habita. Em vez do registro etnográfico do prólogo, a observação passa a ser distante. Tendo ocupado quase todo o quadro, agora o personagem é visto como um pequeno elemento do entorno. Não satisfeito com esses dois pontos de vista, Cao Guimarães aproxima o olhar, chegando a uma visão microscópica de gotas, folhagens e teias de aranha, entre outras formas, por vezes, abstratas. Sem falar da imagem dos dedos e unhas do homem, já de volta à caverna.

Há sinais de que o isolamento do ermitão não é absoluto. Um ônibus passa ao longe, uma distante coluna de fumaça se eleva, silhuetas chegam a cercá-lo em meio à história de outro homem “que ia ser atingido por um raio”. Por seu próprio relato, algo confuso, a caverna parece ser um refúgio. Alguém teria mandado que não lhe dessem “muito choque elétrico” por que ele não precisava. E completa: “é ruim demais”.

Na sequência final, o homem, que agora o espectador foi informado ser conhecido como Dominguinhos da Pedra e viver na caverna há 41 anos, diz: “Se por acaso eu morrer de uma hora para outra, cês ficam sabendo onde tá o canivete.” Parece ser seu bem mais precioso. “A alma do osso” é também o registro do estabelecimento de uma relação de confiança, ainda que tenha sido momentânea.

Em Minas, há cinema.


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