citações do foro
Jul 2025 10h04
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Semanalmente, os apresentadores mencionam as principais leituras que fundamentaram suas análises. Confira:
Conteúdos citados neste episódio:
“Como George Santos afundou a si próprio”, reportagem de João Batista Jr, para a piauí.
“E se os Bolsonaros cometem novos crimes”, coluna de Conrado Hübner Mendes, para a Folha.
TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO:
Sonora: Rádio Piauí.
Fernando de Barros e Silva: Olá, sejam muito bem vindos ao Foro de Teresina. O podcast de política da revista Piauí.
Sonora: É humilhante, é degradante. Eu tenho vergonha de falar que estou com a tornozeleira, vergonha por eles.
Fernando de Barros e Silva: Eu, Fernando de Barros e Silva, na minha casa em São Paulo, tenho a alegria de conversar com os meus amigos Celso Rocha de Barros e Ana Clara Costa, no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Olá Ana, bem vinda!
Ana Clara Costa: Oi, Fernando! Oi, pessoal!
Sonora: E ainda há senador que acha que vai vir aos Estados Unidos e vai resolver essa questão só tendo uma boa conversa. Nada mais ingênuo.
Fernando de Barros e Silva: Diga lá, Celso Casca de Bala.
Celso Rocha de Barros: Fala aí, Fernando. Estamos aí mais uma sexta-feira, sem tornozeleira.
Sonora: A única decisão que nós deveríamos nos submeter no dia de hoje era pelo presidente em exercício.
Fernando de Barros e Silva: Sem tornozeleira. Mais uma sexta-feira. Vamos, sem mais delongas, aos assuntos da semana. Entre uma edição e outra do Foro, Jair Bolsonaro ganhou justamente uma tornozeleira eletrônica. Foi uma das medidas cautelares determinadas por Alexandre de Moraes na última sexta. Jair, como gosta de dizer o Celso, também ficou proibido de passear a noite e nos finais de semana e de usar suas redes sociais, aquelas onde Carluxo costumava barbarizar usando o nome do papai. Em sua decisão, Moraes também proibiu Bolsonaro de manter contato com seu outro filho, Eduardo, o 03, que desde março está nos Estados Unidos conspirando contra a democracia brasileira. Logo no primeiro dia útil com o novo acessório, na segunda feira, dia 21, Bolsonaro foi à Câmara dos Deputados e fez um circo com seus correligionários. Exibiu a canela fina e chamou a tornozeleira de suprema humilhação. Na terça, 22, Moraes cobrou uma resposta da defesa do réu ao que havia considerado um descumprimento de suas decisões. Os advogados alegaram que ele não postou nada nas redes, não incentivou ninguém a fazê lo e que as entrevistas não constavam da lista de proibições e pediram ao ministro que esclarecesse os limites do silêncio imposto a Jair. Ontem, quinta-feira, Moraes voltou a se manifestar. Disse que houve, sim, descumprimento de sua decisão, já que Eduardo havia repostado a imagem da canela logo após o ato no Congresso, numa operação orquestrada, mas que esse havia sido um fato isolado e que ele não iria decretar, por enquanto, a prisão preventiva do ex-presidente. Disse também que Bolsonaro pode dar se entrevistas e fazer discursos em locais públicos. A Justiça, disse Morais, é cega, mas não é tola. E assim estamos. Parte da imprensa acha que o ministro está indo além do que deveria no cerceamento a Bolsonaro. Nós vamos discutir isso no primeiro bloco. No segundo bloco, a gente trata da reorganização da direita pós tornozeleira. Eduardo Bolsonaro, oficialmente investigado, segue nos Estados Unidos, disparando contra o Supremo e costurando pontes com o governo trumpista. Nessa semana, ele virou alvo de uma decisão de Alexandre de Moraes, que bloqueou seus bens, suas contas bancárias e até a chave PIX, num processo que investiga obstrução de justiça e atentado à soberania nacional. No PL, seu partido, se avalia que ele perdeu não apenas as contas, mas a mão da situação política. Enquanto isso, Tarcísio de Freitas tenta se descolar da sombra do ex-chefe sem apagar o nome do contato. O tarifaço de Trump foi um golpe direto em seu capital político e o governador de São Paulo luta para fazer as pazes com o empresariado, sem melindrar o Jair, que anda sensível de chocalho na canela. O fato é que, com Bolsonaro cercado e os filhos expostos, o tabuleiro da direita voltou ao modo embaralhado e Michelle Bolsonaro aparece como possibilidade, talvez numa chapa presidencial, mas sem ainda o aval do marido. As coisas lá são assim. No terceiro bloco, por fim, a gente se debruça sobre os dados do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em 2024, mais de 850 mil celulares foram roubados ou furtados no Brasil. O número até representa uma queda de mais de 12% em relação ao ano anterior, puxada pelo Estado do Piauí. Vejam só. Mas isso não muda o fato de que a cada minuto alguém teve o bolso esvaziado ou o medo renovado pelo país. O número de mortes violentas caiu um pouco no ano passado, confirmando a tendência dos últimos anos. Mas a violência contra a mulher, que é parte do número de mortes violentas, continua sendo estarrecedora. O Brasil registrou o maior número de feminicídios desde 2015. Foram 1492 mortes no ano passado, uma alta de 1% em relação a 2023. A maior parte das vítimas eram mulheres negras, tinham entre 18 e 44 anos. Foram assassinadas dentro de casa por um homem, 97% dos casos. Sendo ele companheiro ou ex-companheiro em 80% dos casos. É um quadro muito, muito desolador. É isso vem com a gente.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem, Ana Clara, Vamos começar com você. Recebemos agora pouco, hoje pela manhã, as decisões do Alexandre de Moraes, dizendo que houve sim descumprimento, mas que por enquanto não vai ter preventiva para o Bolsonaro. Me diga o que você apurou nesse circo que foi essa semana?
Ana Clara Costa: Bom, muita coisa, Fernando, Que semana, né? Mas devo dizer que eu estou aqui mais para confundir do que para explicar viu, porque…
Fernando de Barros e Silva: Pelo menos hoje o Alexandre de Moraes supostamente respeitou o Foro de Teresina e se pronunciou na quinta-feira.
Ana Clara Costa: A gente agradece e.
Fernando de Barros e Silva: Isso já é alguma ordem na República.
Celso Rocha de Barros: Exatamente.
Fernando de Barros e Silva: Alguma coisa está andando bem.
Celso Rocha de Barros: Exatamente.
Ana Clara Costa: Bom, eu acho que, em primeiro lugar, a gente tem que destacar que o bolsonarismo deu um show de mídia, né? Com base na retórica e apenas na retórica, eles conseguiram as tarifas para o Brasil, as sanções para o Supremo. Aí o cara toma uma tornozeleira no lombo, né?
Fernando de Barros e Silva: No lombo, não na canela. Bolsonaro agora está que nem a morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela. Será que ela mexe o chocalho ou o chocalho é que mexe com ela? Coitada da morena da Angola.
Ana Clara Costa: Bom, aí, já com a tornozeleira e com as medidas de restrição, ele usa a imprensa para burlar as limitações da justiça. Ou seja, usa a retórica e depois ele consegue fazer prosperar em vários setores da opinião pública a tese de que ele está sendo vítima de um cerceamento. Então assim, eles são gênios da raça, né? Realmente a gente tem que bater palma, porque depois de tudo que aconteceu, o domínio que eles têm da narrativa que está circulando, é impressionante. Assim, eu, enfim, coitado do Brasil, mas eu realmente acho louvável assim a eficácia. Agora, quando eles falam e quando a defesa do Bolsonaro fala que eles não tiveram a intenção de usar a imprensa para burlar nenhuma regra daquela decisão de sexta-feira passada do Alexandre de Moraes. Enfim, a gente é jornalista, a gente sabe o que tá acontecendo, né? A gente sabe que não é isso, porque quando o Bolsonaro ele começa a se enrolar no inquérito do golpe, uma das primeiras coisas que ele faz é uma aproximação com a imprensa. Ele vai almoçar, tomar café com todos os jornais que ele publicamente despreza, com jornalistas que ele também destratou em inúmeras ocasiões. E isso não é ilegal, está totalmente dentro do jogo. A gente senta para tomar café com todo mundo, não tem problema nenhum. E ele está no papel dele de querer influenciar a opinião pública. E os jornalistas estão no papel deles, de ouvir o que pensa um personagem tão central como Bolsonaro. Mas por mais que a defesa dele diga que não tem nada a ver, que não pediu para ninguém postar as entrevistas nas redes sociais, não existe a menor dúvida que todo mundo ia postar, né? Se o cara tá lá a disposição, se um belo dia ele acorda com a tornozeleira e decide dar 15 entrevistas no dia, obviamente que os veículos vão postar, né? Então assim, eles sabem quais são os resultados das estratégias de mídia deles, né? E eu me lembro que um dia, que não faz muito tempo, eu tava conversando com um auxiliar muito próximo do Bolsonaro e a gente estava falando sobre o Tarcísio. Ele tava criticando o Tarcísio porque ele dizia que o Tarcísio não sabia fazer um uso profissional da relação com a imprensa, que embora ele tivesse a simpatia de alguns grupos de mídia e tal, ele não conseguia fazer prosperar o seu discurso de uma maneira eficiente da forma com que o Bolsonaro conseguia. Então assim, eu lembro que eu ouvi dessa fonte “a gente prestigia a imprensa”, ele falava, “para a gente, conta como isso repercute na imprensa, como a opinião pública está tratando isso na imprensa”. Então, assim, é óbvio que isso foi uma estratégia. Não tem a menor possibilidade de não ser. Então, eu acho que nesse ponto a gente discutir, né? A liberdade dele foi cerceada? É óbvio que ele usou essa estratégia para burlar regra. Isso tem que ser dito e todo mundo sabe disso. Agora, eu não estou falando isso necessariamente para fazer qualquer julgamento sobre o amparo jurídico das decisões, últimas decisões, do Alexandre de Moraes de limitar a comunicação dele, da tornozeleira e tudo mais. O ponto que eu quero chegar é que a gente vive algo tão inédito na nossa história que eu tenho dificuldade em entender como que o Código Penal pode dar conta disso. Porque se eu, Ana Clara, sou denunciada por algum crime, eu tenho todo o direito de, na minha casa, xingar o promotor, o juiz, criticar a investigação para o meu advogado falar que isso é uma sacanagem, que eu estou sendo alvo de uma injustiça. Eu tenho todo o direito de fazer isso ou de postar no Twitter isso ou o que quer que seja. Agora, se eu consigo mobilizar milhares de pessoas contra o juiz, contra a procuradoria que me acusa, se eu consigo sensibilizar um cidadão com o poder do presidente dos Estados Unidos contra a soberania de um país. Tudo isso para me livrar de uma possível condenação. As regras para esses dois casos são as mesmas, né? Eu sei que o Direito tem o princípio da impessoalidade. Então, que as investigações, elas não devem levar em conta as características pessoais do acusado e, enfim, que todo mundo deve ser julgado pela mesma régua, né? Mas como é que se coloca sob a mesma régua da liberdade de expressão, pessoas cuja expressão tem potencial tão díspares? E aí eu vi muitos juristas entrando na discussão e alguns usaram a questão da jurisprudência do Supremo para defender a decisão do Alexandre de Moraes. Então já tem jurisprudência do STF para limitar o uso de redes por parte de um investigado? Beleza, mas existe alguma chance de esse investigado sobre o qual foi firmada a jurisprudência, influenciar o presidente dos Estados Unidos a fazer o que ele fez, né? Então, mesmo que você encontre uma jurisprudência que ampare e realmente se encontre a jurisprudência para tudo no Supremo, de todos os lados, tem jurisprudência, se quiser, né? O Fux, inclusive ele, é a prova disso, porque ele cria uma jurisprudência para um cara e para o outro. Ele muda. Mas essa jurisprudência não significa muita coisa, porque as situações são inéditas. Eu acho que quem desenhou o Código Penal e as mudanças que ele sofreu certamente não previu uma situação como essa. Esse nível de ameaça. E eu tenho certeza que na Constituinte os deputados também não cogitaram quando eles redigiram os artigos sobre liberdade de expressão que a expressão seria usada contra o próprio país. Então, eu acho que a gente vive um momento em que, se os legisladores não forem rápidos o suficiente para perceber essas mudanças que estão acontecendo na sociedade e tentar fazer com que as nossas leis acompanhem essas mudanças, quem vai acompanhar essas mudanças vai ser o Supremo. E aí fica todo mundo reclamando que o Supremo está interferindo demais, está avançando sobre os poderes e tudo mais. Mas por que ele está avançando sobre os poderes?
Celso Rocha de Barros: Ninguém mais faz nada.
Fernando de Barros e Silva: Cresceu na última semana essa percepção aos setores da imprensa e até ministros do Supremo em off, falando que o Alexandre de Moraes estaria exorbitando suas funções. Isso, enfim, é uma retórica, uma ladainha que vem desde lá de trás, mas que essa semana cresceu e eu acredito que o fato dele não ter decretado aí é suposição, não é informação, a prisão preventiva se deve um pouco essa pressão também. Ele falou “Não sou bobo. A justiça não é tola”. Você descumpriu sim a decisão, mas foi um ato isolado. Então tome tenência que por enquanto eu não vou te prender.
Ana Clara Costa: E os deputados, enquanto eles ficam aí pensando em emenda, em engordar a base, em cargo para aliado, em ampliar o orçamento para poder morder mais, em videozinho no Instagram no caso de outros… Você tem alguém que está legislando do outro lado da praça, entendeu? Então você pode criticar. Mas o fato é que a criação de algum regramento para isso se faz necessária nesse momento. E se o Congresso não está aí para responder, alguém precisa estar, né? E tem muita gente também que criticou o timing político dessa decisão do Alexandre, que ela, de certa forma, dá combustível para essa retórica do Bolsonaro de abuso de autoridade e tudo mais de perseguição. Então ele, a decisão, neste momento, acaba dando esse combustível. Acho que os críticos têm razão nisso. Dá mesmo combustível. Mas, por outro lado, você tem o Bolsonaro dando entrevista para a CNN pedindo passaporte para ir negociar com Trump. Você tem rumores de sanções mais graves? Você tem o Paulo Figueiredo, que o Celso vai discorrer muito a respeito, dizendo numa live que o Departamento de Estado está propenso a oferecer asilo para o Bolsonaro, né? Então, assim, o timing político pode não ser o melhor. Mas como é que você faz se existe um risco do cara ser asilado na embaixada americana, por exemplo? Entendeu? O que você vai pesar na hora?
Fernando de Barros e Silva: Celso, você concorda que o Moraes recuou da preventiva, provavelmente por causa das pressões?
Celso Rocha de Barros: É difícil ter certeza.
Fernando de Barros e Silva: Ele calibrou bem? Difícil saber. É.
Celso Rocha de Barros: Mas eu acho que ele fez bem em não prender o Bolsonaro por isso, entendeu? Mas assim, é um jogo complicado. Se isso fosse um caso jurídico como outro qualquer, a decisão era bastante simples. Bolsonaro deu amplos motivos para ser preso preventivamente. Isso aí não tem a menor dúvida. O STF podia ter decretado a preventiva do Bolsonaro e ganhado estrelinha de bom comportamento jurídico, Entendeu? Não tem a menor possibilidade do Bolsonaro não ter feito por onde tomar uma preventiva. O artigo 312 do Código de Processo Penal estabelece que “a prisão preventiva poderá ser decretada como garantia da ordem pública da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal ou para assegurar a aplicação da lei penal”. Olha só, o Bolsonaro basicamente conseguiu que uma superpotência botasse tarifas altamente danosas à economia brasileira, exigindo que a ordem jurídica brasileira não fosse cumprida. Então ele evidentemente, tem como objetivo a impedir que a aplicação da lei penal seja aplicada.
Fernando de Barros e Silva: Ele quase gabaritou.
Celso Rocha de Barros: Não, ele gabaritou total isso aqui. Exato. E era difícil gabaritar por uma coisa interessante, pelo aspecto de garantia da ordem econômica. No podcast Medo Delírio, em Brasília, eles levaram lá um entrevistado que contou uma coisa que eu achei engraçado, que na faculdade de Direito os professores que dão aula sobre isso têm dificuldade de achar um exemplo de preventiva para garantir a ordem econômica. E o cara falava acho que ninguém nunca tomou a preventiva por ameaçar a ordem econômica. Pô, ameaçar a ordem econômica é um negócio muito grande, né? Como é que um bandidinho de esquina vai ameaçar a ordem econômica, certo? Agora, o Bolsonaro é o primeiro caso que certamente será incorporado aos manuais de direito brasileiro, do cara que tomou uma preventiva para garantir a ordem econômica, Entendeu? Basicamente, para tentar fugir da cadeia, conseguiu com uma super potência, colocasse as tarifas de 50% sobre os produtos brasileiros, entendeu? Então, assim era facílimo, do ponto de vista jurídico, era facílimo decidir o que tinha que fazer. Prender o Bolsonaro preventivamente. Agora, a situação, evidentemente, é mais complexa que isso, porque o STF prefere e eu também preferiria, que o Bolsonaro só fosse preso com a sentença que o condenasse. Entendeu? Isso deixaria mais claro que ele foi preso por tentativa de golpe de estado, que ele foi preso por abolição do estado de direito, etc. Se você pega ele por um negócio desses, fica parecendo que o crime dele foi isso e o crime dele é muito maior, então assim fica mais contestável, dá margem a maior exploração dos caras que quiserem distorcer a decisão. Então eu entendo por que não decretou a preventiva, entendeu? Mas mesmo assim, eu acho que devia ter decretado. Por quê? Porque já que não decretou a preventiva, tinha que fazer alguma coisa. O Conrado já tinha alertado na coluna dele, antes da tornozeleira, que, cara, o Bolsonaro tava avacalhando completamente esse processo. E o Conrado por acaso disse assim pelo menos um tornozeleira ele tinha que tomar, entendeu? E era verdade mesmo. Agora, o problema da tornozeleira, dessas outras medidas cautelares que foram impostas ao Bolsonaro, é que aí o risco passa a ser outro. Passa a ser que ele faça uma besteira qualquer, faça uma postagem, faça um negócio qualquer e aí parece que ele foi preso por postar no Twitter, sabe? Foi preso por, sei lá, falar uma besteira. Foi preso por chegar tarde em casa, entendeu? Assim que é pior ainda, entendeu? Era uma decisão dificílima. Ainda bem que não fui eu que tive que tomar.
Fernando de Barros e Silva: Ainda bem que a gente não é juiz, né, Celso?
Celso Rocha de Barros: Exatamente.
Fernando de Barros e Silva: No meu caso, ser jornalista já é ter implicações morais grandes. Morais, não moraes, morais, com implicações morais.
Celso Rocha de Barros: Pois é.
Fernando de Barros e Silva: Mas ser juiz é uma coisa, é dificílimo.
Celso Rocha de Barros: Pois é nesse caso. Por isso que para ser ministro do Supremo não deviam deixar qualquer um. Não estou dizendo que nunca tenham deixado qualquer um, mas assim, não era para deixar. Agora não dá para deixar de comentar aqui quão ruim foi o voto divergente de Luiz Fux nesse aspecto. O Fux tem razão num negócio que eu já vou falar daqui a pouco, mas tem dois pontos aqui que ele foi muito, muito mal. Por exemplo, na questão da ameaça que o Trump está fazendo ao Poder Judiciário brasileiro, o Fux simplesmente diz que assim, a premissa de que poderia haver qualquer influência no julgamento da ação penal esbarra no fundamento básico que o Poder Judiciário detém independência judicial. Juízes julgam, conforme sua livre convicção, em análise dos elementos fáticos e jurídicos. Então, Fux, basicamente você está dizendo é que ameaçar o juiz seria impossível, visto que legalmente eles têm autonomia para decidir. Isso é evidentemente um absurdo. Se alguém levar isso a sério que você disse aqui, todo cara que já foi preso até hoje por ameaçar de morte um juiz está solto, entendeu? No ponto seguinte, ele já diz assim: bom, sobre as questões econômicas das sanções americanas, elas devem ser resolvidas no âmbito político e diplomático próprio, como vem procedendo Sua Excelência o Presidente da República, coadjuvado pelo Congresso Nacional. Então Fux, que é o Lula que vai ter que resolver esse negócio, é óbvio. Como a ameaça de morte ao juiz teria que ser resolvida pela polícia. Mas o que resta, indiscutível, é que nos dois casos, houve ameaça ao juiz. No caso do cara que ameaça de morte, uma ameaça evidente no caso do Trump, o cara basicamente virou para o país e falou: vocês façam esse juiz absolver o meu compadre aqui, senão vocês vão à falência. Houve, evidentemente, uma ameaça, de maneira que a maior parte do voto do Fux é realmente muito ruim. Muito menos do que se espera do voto de um ministro do Supremo Tribunal Federal. Agora, só para terminar, a única coisa que eu acho que o Fux tinha razão. Mas isso foi esclarecido na decisão que saiu nessa quinta-feira do Alexandre de Moraes. Ele tinha razão nesse caso, de uma possível proibição de dar entrevistas, isso aí é errado. E aliás, isso é um excesso que o próprio Fux cometeu de maneira bisonha no caso do Lula. É sempre bom lembrar, no caso do Lula, é muito mais bizarro porque o caso do Lula que o Lula foi proibido da entrevista quando estava preso pelo Fux, o crime do qual o Lula era acusado não tinha nenhuma relação com dar entrevista, não dar entrevista, com fazer política, com nada da atuação política dele. Ele era acusado de corrupção. O Bolsonaro, o crime do qual ele está sendo acusado é estritamente relacionado com atividade política. Então, se fosse para proibir um dos dois, você tem que proibir o Bolsonaro. Eu não acho que seja o caso de proibir nenhum, entendeu? Eu acho que se a situação estiver no ponto que se o Bolsonaro fizer um discurso, tem golpe militar, então a gente já tá bem mais perdido do que eu acho. Mas é sempre bom lembrar, o próprio Fux achou que o Lula dá uma entrevista em 2018, atrapalharia a ocorrência normal da eleição. Vejam como o Brasil estava de porre em 2018. Cara, eu vejo que é um país completamente doidão, entendeu?
Fernando de Barros e Silva: Então eu mais uma vez quero agradecer ao Alexandre de Moraes por ter se pronunciado na quinta-feira para não atrapalhar o nosso programa. A gente vai encerrar o primeiro bloco com essa homenagem ao ministro. Vamos para um rápido intervalo. Na volta, a gente vai continuar falando desse assunto. Vamos falar das movimentações da direita, especificamente da radicalização de Eduardo Bolsonaro e seu Sancho Pança, lá, o Paulo Figueiredo. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Celso, vou começar com você. A gente tem visto nesse ambiente aí pós tornozeleira, uma parte da direita tentando recalibrar o discurso para não parecer muito só subalterna ao Trump e contrária aos interesses nacionais, caso dos governadores, vamos dizer assim, do Tarcísio e do Zema, etc. Mas parte do bolsonarismo, da franja bolsonarista radicalizou mais o discurso. A exemplo do que fez o senador Magno Malta, fez uma coletiva ali com a Damares falando: “tirano de toga. Põe a mão em Bolsonaro para você ver o que vai acontecer”. Desafiando o Moraes, etc. E o Eduardo lá com o Paulo Figueiredo está fazendo um tour pelos podcasts, etc. Tá aparecendo em tudo quanto é lugar para dar o seu recado. Então eu queria que você desse o seu recado, Celso.
Celso Rocha de Barros: Então, Fernando, eu acho assim, tá tendo esse reposicionamento de alguns bolsonaristas agora, esse reposicionamento é bem ruim para o Eduardo por dois motivos. Primeiro, porque eles estão se distanciando do apoio às tarifas e segundo porque está surgindo uma tendência a jogar a culpa disso no Eduardo e livrar um pouco o Jair. Então, já teve uma senadora de Mato Grosso que falou algo assim como é por causa do Eduardo que o Bolsonaro está de tornozeleira.
Ana Clara Costa: O Zema também.
Celso Rocha de Barros: O Zema falou um negócio também. Isso aí tá acontecendo com o Bolsonaro por causa do Eduardo. Então não só tem gente se distanciando das tarifas, como tem um pessoal já pronto a usar o Eduardo como bode expiatório dessa história toda. O que tem um lado divertido, evidentemente, mas assim… Mas também vai ter um pessoal tentando escapar de mais responsabilidades próprias nessa história.
Fernando de Barros e Silva: E como se o Eduardo tivesse vida própria e não combinado com o pai, como se ele tivesse fazendo alguma coisa que o pai não autorizasse.
Celso Rocha de Barros: Exato. O pai dele deu não sei quantos milhões para ele para lá. Para quê? Para comprar…
Fernando de Barros e Silva: 2 Milhões.
Celso Rocha de Barros: O boneco do Mickey? Entendeu? Assim, não.
Fernando de Barros e Silva: Declarados, o que ele admitiu ter dado 2 milhões.
Celso Rocha de Barros: Bom, e aí? Enfim, o Eduardo agora é absolutamente certeza que se ele vier pro Brasil vai ser preso, ele vai ser condenado e não é porque tá tendo uma perseguição contra ele, é porque ele cometeu uma porrada de crimes. Evidentemente cometeu. Confessou todos. Cometeu na frente da televisão, entendeu? Então é aquele caso assim que o advogado vai lá só para tirar um honorário ali, pagar o leitinho das crianças, entendeu? Porque não tem nada o que fazer. Em primeiro lugar, está evidentemente, violando o artigo 344, do Código Penal, uso de violência ou grave ameaça contra a autoridade ou envolvidos no processo judicial. Ele entra na grave ameaça porque, evidentemente, você pegar uma super potência nuclear, que é o país mais rico do mundo e usar o seu poderio econômico para tentar anular uma decisão da Justiça brasileira é uma grave ameaça, entendeu? Não resta a menor dúvida sobre isso, porque vai ter gente dizendo que o importante é só o uso de violência, o que ele não fez… Ainda, né? Porque ele já deu uma sugerida ali, já falou assim “não, não tem porta aviões no Lago Paranoá ainda e se Deus quiser, vai ter”, uma coisa dessa. Mas por enquanto isso ele só tá sugerindo. Mas assim, a grave ameaça é evidente, né? Esse é um daqueles casos assim que o juiz resolve em 15 minutos. E é bom deixar claro o seguinte esse processo significa coisas diferentes para cada um dos jogadores desse jogo. Então, para o Bolsonaro, provavelmente o fundamental aqui é escapar da cadeia, eu imagino. Mas se você pegar os vídeos do Eduardo e do Paulo Figueiredo, eles primeiro lugar, então se convenceram e estão vivendo lá uma alucinação de que eles estão no comando, entendeu? Que eles é que estão controlando o Trump, de que tudo isso está acontecendo só por causa deles. E assim, é óbvio que parte da história tem a ver com eles. Mas enfim, é óbvio que o Trump não está fazendo só por causa deles, mas eles acreditam nisso. E eles, evidentemente têm como horizonte um novo golpe ou alguma maneira de avacalhação aqui da democracia brasileira.
Fernando de Barros e Silva: Sim, perfeito.
Celso Rocha de Barros: Eu já vi, vocês não precisam ver. Mas num vídeo do Paulo Figueiredo de 14 de maio de 2025, vejam só por que eu ganho o Kinder Ovo quando o cara é ruim, né?
Ana Clara Costa: O que você faz com seu tempo livre…
Celso Rocha de Barros: O Paulo Figueiredo é um doidaço, assim, uma pessoa que evidentemente precisa de ajuda. Ele entra num delírio sobre virar ministro da Defesa em 2027 e se vingar dos generais que não apoiaram o golpe.
Fernando de Barros e Silva: Teve isso, Celso? Você viu isso?
Celso Rocha de Barros: Tem, tá lá. Em 2022, ele fez um vídeo, “denunciando”, os generais que não apoiavam o golpe. Detalhe que eu fui tentar fazer um corte de vídeo disso para botar na internet. Ele mesmo fez. Ele acha isso mó barato, então tá lá na página dele no YouTube. E agora em maio de 2025, ele fez um vídeo que sonha ser ministro da Defesa se vingar dos generais que são “filhas das putas”, porque não apoiaram o golpe. Ele diz que não era golpe, mas isso ele vai, ele vai mudando esse discurso ao longo do vídeo. E no caso do general Tomás Paiva, atual comandante do Exército, o Figueiredo anuncia que o nomearia ajudante. E aí ele faria o seguinte “cagar dentro de uma mala e dar para você carregar por 15 dias e depois você vai ter uma baixa desonrosa”. Essa é o que o Paulo Figueiredo pretende fazer com o chefe do Exército brasileiro, que é um dos denunciados naquele vídeo por não apoiar o golpe. E ele finalmente sonha que se ele virar ministro da Defesa, um dia ele vai ver os manifestantes na rua gritando “Paulo Figueiredo, eu autorizo”, como gritavam para o Bolsonaro e que aí ele, Paulo Figueiredo, finalmente vai poder dar “um reset nesta merda”, porque ele não tinha nada a ver com o golpe. No começo do vídeo ele fala que não tem, então enfim.
Fernando de Barros e Silva: Tem um comportamento meio de seita, de delírio.
Celso Rocha de Barros: Então assim, ele é completamente imbecil, porque o Figueiredo, o avô dele, era um ditador sem vergonha, enfim. Mas sei lá, sabia ver a hora, né? Sabia amarrar sapato, tinha mesmo noções elementares assim, né cara? E aparentemente o Neto saiu pior. O Figueiredo gostava de cavalo, mas não sei se ia gostar desta mula aqui que é o neto, né?
Ana Clara Costa: Ai, ai, vai ter que fazer um desagravo da mula.
Fernando de Barros e Silva: Eduardo arrisca virar o novo Olavo de Carvalho, com a diferença de que ele nunca leu um livro. O guru que nunca leu, ele tem até slogan, nunca leu.
Celso Rocha de Barros: Eu acho que ele está correndo o risco de virar… Vocês lembram do George Santos que o João fez uma matéria para a Piauí? Aquele brasileiro picareta que foi lá, foi nos Estados Unidos, pegaram ele cheio de cascata e se ferrou. Sim, eu tenho a impressão que o Eduardo vai virar uma espécie de George Santos sem graça, sem carisma, entendeu? Bom, outros crimes que o Eduardo cometeu. Ele violou o artigo 2° da Lei 12.850/13, que consiste em obstrução de investigação de infração penal que envolva organização criminosa. Evidentemente que o Eduardo fez foi tentar impedir que a organização criminosa que está sendo acusada de golpe de Estado seja punida. Enfim, foi um daqueles casos que o sujeito pegou o Código Penal e saiu marcando ponto por ponto. Hoje eu vou fazer tudo isso na frente de todo mundo, com a televisão me filmando, então não tenho como o Eduardo não ser preso. E aí, daí em diante, a discussão toda sobre qual vai ser a carreira política dele, se ele vai ser candidato ao Senado, ou seja, isso aí perde o sentido, entendeu? Quando ele pisar no Brasil, ele vai ser processado por isso. E ele, evidentemente é culpado.
Ana Clara Costa: Não… Porque tá filmado ele ameaçando a Polícia Federal.
Celso Rocha de Barros: Ele tem… Exatamente. Ele tem vídeos dizendo “você é da Polícia Federal que tá me investigando. Cuidado aí que eu vou te pegar. Eu vou mexer meus pauzinhos aqui contra você nos Estados Unidos”.
Ana Clara Costa: É. “A CIA vai atrás de você”.
Celso Rocha de Barros: Exatamente. E aliás, tem uma parte que eu acho muito significativa que ele fala assim “onde já se viu policial, não sei o que lá, passando um deputado”. Cara, onde já se viu em país desenvolvido, né amigo? Entendeu? País civilizado, o deputado também está sujeito à lei e a polícia pode prender o cara, certo? Então por aí você vai vendo qual é a noção de Estado de direito que esses caras têm, né? Agora, só para deixar claro, é absolutamente óbvio que não é nem o Eduardo, nem o Figueiredo que estão no comando das ações do Trump. Eles são acessórios de uma guerra econômica declarada pelo Trump contra o Brasil. são um exército de quinta coluna. Se você perguntar por que o Brasil foi taxado mais do que os outros, a resposta é a seguinte porque só aqui o Trump sabia que haveria uma quinta coluna que apoiaria a agressão americana e dificultaria a resposta do governo brasileiro. Então, assim, o Trump basicamente olhou para um país que viu que ele tinha um movimento poderosíssimo com voto para cacete, que apoiaria ele se ele sacaneasse o país. Ele pensou “bom, isso eu não vou achar em nenhum outro lugar do mundo, então eu vou entrar aqui”. E aí ele veio aqui pedir tudo que as empresas americanas sempre quiseram contra o Brasil, pix, agronegócio, Embraer, todas aquelas coisas que sempre incomodaram lá as empresas americanas. O Trump está exigindo essa lista de lavanderia aí dos caras que os americanos sempre quiseram no Brasil. É contando que vai ter uma parte da política brasileira que vai apoiar ele enquanto ele saqueia a economia brasileira por interesses políticos inconfessáveis, que são os bolsonaristas. Agora só tem uma coisa que eu tenho que dizer, cara, porque eu acho uma curiosidade histórica pela postura histórica da direita brasileira com relação a partidos com conexões internacionais, Partido Novo e PL deveriam perder o seu registro. Se vocês pegarem a lei dos partidos políticos, no artigo quinto diz: “a ação do partido tem caráter nacional e é exercida de acordo com seu estatuto e programa, sem subordinação a entidades ou governos estrangeiros”. Isso aqui está na Constituição por causa do Partido Comunista.
Fernando de Barros e Silva: Muito bom.
Celso Rocha de Barros: O argumento que eles usaram para cassar o Partido Comunista entre 45 e 64 foi que esse não é um partido brasileiro. Eles obedecem…
Fernando de Barros e Silva: Um satélite da União Soviética.
Celso Rocha de Barros: Um satélite de Moscou. Por isso, inclusive, que o nome oficial do partido era PC do B. E mudou para PCB, para ficar mais nacional, para brasileiro. Mas foi fundado em 1902 com o PC do B. Eu sou contra cassar o registro de partido. Não tinha que ter cassado o PCB. Enfim. Agora, para não parecer que eu estou fazendo de uma relíquia histórica, teve algumas tentativas de usar esse argumento para cassar o registro do PT. Uma vez foi quando descobriram que uma parte do dinheiro do petrolão era enviado por meio dessas coisas de Ilhas Cayman, essas coisas. E aí estão dizendo que vai ser dinheiro recebido do estrangeiro. Então já poderia enquadrar naquela lei lá que pegava o Partido Comunista. Isso é bizarro até para o propósito dessa lei bizarra, porque evidentemente, o dinheiro era brasileiro. Só que deu uma volta pelos Estados Unidos. Mas fora isso, o senador do DEM, José Carlos Aleluia, entrou com pedido para cassar o registro do PT, dizendo que o PT seguia as ordens do Foro de São Paulo. Isso existiu. Tinha um senador brasileiro que fez isso. E só para lembrar o Foro de São Paulo, que cá entre nós, não tem importância nenhuma, nunca botou tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros. Aliás, nem a União Soviética, entendeu? Então assim, se for para usar o critério que esses caras da direita sempre usaram para tentar expulsar o partido de esquerda, o Novo e o PL tinham que rodar. Eu não acho que tem que rodar porque eu sou mais democrata do que eles, mas fica aqui o registro de uma ironia histórica.
Fernando de Barros e Silva: Muito bom. Ana Clara e a outra turma, a direita do B, para a gente continuar no diapasão do Celso aqui.
Ana Clara Costa: Bom, depois desse passeio pelo maravilhoso mundo de Eduardo… Eu andei conversando com alguns dirigentes ali do centrão sobre toda essa situação e a avaliação geral é que o Eduardo está liquidado politicamente. Eles não acreditam que o Bolsonaro vá indicar também a Michelle, que era uma aposta ali, que estava dentro do cardápio como alternativa. Então, assim, Eduardo está liquidado. Eles não acreditam que o Bolsonaro tome a iniciativa de colocar a Michelle como preposto dele, né? E que assim, eles acreditam que diante desse cenário, que aposta mais segura do Bolsonaro seria apoiar o Tarcísio, que de todos os aliados deste momento talvez fosse o que mais se esforçasse para tentar ajudá-lo no futuro a pavimentar um armistício com o Supremo. Mas aí entra uma outra variável que eles também me disseram, que é a de que o Bolsonaro não tem pensamento lógico, que os movimentos dele fogem do racional. Isso, os amigos falando imagina…
Celso Rocha de Barros: Esse é o amigo do cara.
Ana Clara Costa: É, enfim, que ele não tem pensamento lógico que os movimentos dele fogem do racional, então que tudo pode acontecer, inclusive ele indicar o Eduardo mesmo diante dessa cizânia toda. O cara fazer campanha na Disney, entendeu? Sem poder voltar para o Brasil, tudo tá no cardápio, mas eles acham que ele não é hoje uma opção viável. Poderia ser uma opção do Bolsonaro para o Bolsonaro bater com a cara na parede e realmente se isolar no radicalismo do qual ele veio, né? Poderia ser a opção dele, mas assim não seria uma opção que o centrão entraria junto, né? E ainda pegando essa questão do Tarcísio, um deles me citou o exemplo do apoio que o Bolsonaro prometeu para o Cláudio Castro, para o Senado na próxima eleição e ao Rodrigo Bacelar, que é presidente da Alerj, Assembleia Legislativa do Rio para o governo do Estado. O Bolsonaro prometeu esse apoio em maio e chegou agora, ele retirou o apoio. Então, se um cara como Tarcísio, que aparentemente, apesar de tudo, não teria nenhum problema em se reeleger em São Paulo, se ele larga uma reeleição certa mirando um apoio tão firme do Bolsonaro, né? A garantia soy yo, nome desse apoio, né? E depois chegar lá na frente, o Bolsonaro decide por uma alternativa aleatória. Enfim, não sei se a situação ter ficado ruim para o Eduardo, se ela significa ter ficado boa para o Tarcísio, entendeu? Parece que tudo está embaralhado, tá tudo dentro do campo do imponderável. E como resultado disso, os outros presidenciáveis ali do campo da direita, todos levantaram a cabeça nesses últimos tempos, né? O Zema andou falando e disse que vai apresentar a pré candidatura. O Caiado a mesma coisa. E o Ratinho Jr Não falou publicamente, mas nos bastidores tá todo mundo voltando a falar do nome dele. No caso do Zema e do Caiado, os dois são governadores reeleitos, então eles não tem muito a perder lançando uma pré candidatura, né? O Zema tem uma questão muito interna, que é a cláusula de barreira do Novo. Já na última eleição, o Novo não conseguiu atingir a cláusula de barreira. Para você atingir, você precisa ter pelo menos 2,5% dos votos válidos para a Câmara. E quando você não atinge, você tem o acesso muito limitado a fundo partidário, a tudo isso. Então você tem um candidato a presidente, por mais que ele vá perder ajuda no aspecto da cláusula de barreira. Por isso que a avaliação é que o Zema vai sair de qualquer jeito. Conversando com outras pessoas, no caso da Faria Lima, eu senti uma certa animação em relação ao Ratinho Júnior. Sim, elas estão meio que achando que o Tarcísio não vai topar porque tá com medo de o Bolsonaro pirar ali no decorrer do caminho. E o Ratinho Júnior também é um governador reeleito, então ele também não tem nada a perder.
Fernando de Barros e Silva: É, desse quarteto, o único que está em primeiro mandato é o Tarcísio. Do quarteto Caiado, Zema, Ratinho Júnior e Tarcísio, os outros três estão em segundo mandato.
Sonora: Isso. E o Ratinho Júnior, de todos, ele foi o que menos se queimou nessa história toda. Porque ele não se envolveu em defesa explícita do Bolsonaro. Ele deu uma submergida ali. A conduta dele foi mais elogiada do que a dos outros, que em 5 segundos já partiram para a defesa do Bolsonaro e criticaram Lula e falaram que é culpa do Lula e etc. Então assim o Ratinho meio que começou a despontar e de certa forma, nesses últimos dias, nesse balão de ensaio, porque assim a Faria Lima gostar não significa voto, pelo contrário, né? Bolsonaro só ganhou pelo povo, não pela Faria Lima, apesar da vontade do Faria Lima.
Fernando de Barros e Silva: Disso tudo que você falou, Ana. Enfim, você tem essa apuração com o pessoal do Centrão, mas a minha impressão é que a Michelle ganhou nessa crise porque os filhos bateram cabeça. Enfim, houve uma cacofonia ali no bolsonarismo e a Michelle parada sem fazer nada. Ela é um patrimônio do Valdemar Costa Neto e o nome dela vai ser lembrado para alguma coisa.
Ana Clara Costa: Ela se poupou, né?
Fernando de Barros e Silva: Ela se poupou. Ela acabou falando no evento, mas não se esperava nada dela.
Celso Rocha de Barros: Elogiou o Fux.
Fernando de Barros e Silva: Elogiou o Fux, falou que o Lula só anda com terrorista. Ela falou lá no evento do PL das mulheres no Acre. Pelo menos nessa ocasião, eu andei vendo isso. Ela é um patrimônio. Pode ser que eles não usem. Você tem toda a razão, o Bolsonaro, a última coisa que ele quer é colocá-la. Mas ela seria a vice dos sonhos para qualquer um desses caras. Na minha avaliação, ela dá voto.
Ana Clara Costa: Mas dentro do centrão. Enfim, pelo menos os líderes que eu conversei é de que Bolsonaro não confia. Pode ser que mude assim e tudo.
Fernando de Barros e Silva: É, pode ser que ela vire senadora, pode ser que ela vire deputada.
Ana Clara Costa: Enfim, a aposta mais certa é a do Senado, porque ela tá eleita e o Bolsonaro está muito focado no Senado. Para ele, a eleição do Senado talvez seja mais importante até do que a presidencial, porque ele conta com o Senado para tentar fazer prosperar esses pedidos de impeachment de ministros do Supremo. E pelas perspectivas do PL, o bolsonarismo está com muita chance de fazer a maioria dos senadores assim, seja o PL ou partidos aliados, PP, gente que não teria problema em votar pelo impeachment de um ministro do Supremo, entendeu? Pode ser que sejam políticos, não da ala mais radical, sei lá. Tereza Cristina, por exemplo, ela não é considerada uma bolsonarista da ala radical. Muita gente considera ela muito razoável. É uma política profissional, sobretudo. Mas assim não achei ninguém, ainda que na hipótese de um voto pelo impeachment do Alexandre de Moraes, do Barroso ou de quem quer que seja, ela votaria contra. Eu não achei ainda alguém que avaliasse esse cenário, Já que a gente está falando da Tereza Cristina, especificamente, alguns senadores, inclusive de direita, inclusive ela no caso, estão se colocando ali para ir para os Estados Unidos tentar negociar a questão das tarifas. E aí você vê como é que é o Eduardo. Ele começou a criticar esses senadores e aí eu acho que faz sentido assim você tem um Senado de direita nos Estados Unidos, você tem senadores que representam setores que estão sendo afetados por essa tarifa. Então, acho que a interlocução desses senadores da direita com os senadores americanos, ainda mais nesse mundo de lobby que é em Washington, pode ajudar. Tudo bem, não é o governo federal que está nessa posição ali falando com o Senado americano. Mas assim, eu acho que faz sentido, né? Eles não estão tentando se sobrepor a função do presidente da República. Eles estão indo falar com as suas contrapartes nos Estados Unidos. Então não acho que é surreal essa posição desses poucos senadores. Mas você vê que o próprio Eduardo já foi contra, porque é óbvio, é alguém que está tentando resolver o problema. Todo mundo que for tentar resolver o problema é um problema tentando resolver.
Fernando de Barros e Silva: Exato. Ele só quer criar problema, é claro.
Ana Clara Costa: Exato.
Fernando de Barros e Silva: Qualquer pessoa que tente resolver alguma coisa que não seja pela via do golpe está atrapalhando a vida dele.
Ana Clara Costa: Mas também sou muito cética sobre qualquer tipo de…
Fernando de Barros e Silva: Sobre o alcance disso, né?
Ana Clara Costa: Isso. Porque é, porque você vê, o próprio Haddad falou nessa semana que eles foram tentar conversar com o secretário do Tesouro para tentar uma interlocução por lá, porque pela Casa Branca a interlocução está próxima de zero e o secretário do Tesouro disse que olha esse assunto e com a Casa Branca a gente não tem nada a ver com isso. A gente não tem como resolver. Então o assunto ele está politizado em tal grau que funcionários do alto escalão, do altíssimo escalão do governo americano, não estão autorizados a tratar disso. Hoje a gente está vendo lá o lobby dos setores, como a gente tinha falado aqui na semana passada, o lobby dos setores nos Estados Unidos já estão pressionando, estão processando o governo americano porque tem empresa que vai quebrar. Mas o que eu queria dizer é que a impressão que dá quando a gente olha o noticiário nos Estados Unidos o New York Times, Washington Post e tudo mais. É que assim, a nossa questão é um problema que praticamente não existe para eles. Assim, toda a discussão americana hoje está monopolizada pela questão do Jeffrey Epstein, pela briga do Trump com o presidente do Federal Reserve, que é o banco central americano, pela guerra tarifária com a União Europeia e com o Japão, que inclusive eles conseguiram fechar um acordo ali de 15% de tarifa. Parece que é o piso de tarifa. Eles conseguiram fechar, então, o problema do Brasil… Parece que a gente não existe. A impressão que dá quando você lê o noticiário assim.
Fernando de Barros e Silva: É triste, mas é isso. A gente encerra o segundo bloco do programa. Vamos fazer um rápido intervalo. Na volta, vamos falar da violência brasileira. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem, estamos de volta. Vamos falar de violência. Acabou de sair o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, com os dados relativos a 2024. O dado geral que caiu o número de mortes violentas no Brasil, ela chegou ao patamar de 44.000, o que é altíssimo. Mais em 2017 foram 64.000 pessoas que morreram de forma violenta e daí as estatísticas somam homicídios dolosos, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e letalidade policial. Isso tudo está nesse pacote de mortes violentas, vem tendo uma redução progressiva, pequena, e o número ainda é alarmante. Mas é um dado positivo. Eu falo entre aspas porque 44 mil mortes violentas em um ano no país não pode ser considerado uma coisa boa. Mas tem muitas outras coisas, né Celso? Tem o aumento do roubo de celulares, o feminicídio, que talvez seja o dado mais chocante do relatório. Além dos dados de letalidade policial, também o número de suicídios de policiais, que é altíssimo. 126, se eu não me engano, policiais se mataram em 2024. Enfim, tem muita coisa nesse relatório. É o maior retrato que a gente tem no Brasil da situação da violência e do comportamento da sociedade brasileira. Vamos começar por onde, Celso?
Celso Rocha de Barros: Fernando, falando rapidinho da boa notícia que é a queda do número de mortes violentas intencionais, a taxa nacional vem caindo desde 2018. Em geral, é difícil comentar esse assunto sem as pessoas imediatamente tentarem discutir qual foi o governo, quem foi o responsável, quem vai dar a boa notícia. Mas não é muito fácil relacionar não. Começa 2018 e vem caindo mais ou menos constantemente, a não ser pelo ano de 2020 e considerando o período entre 2012 e 2024, a redução acumulada chega a 25%, que é bastante coisa. No Norte caiu 21%, no Nordeste caiu menos, 11%, no Sudeste caiu 32%. Enfim, foram quedas expressivas. E os autores dos relatórios apontam algumas razões para essa queda. Por exemplo, a implementação de algumas políticas públicas bem boladas de segurança, orientadas por evidências com programas de gestão por resultados que parece ter dado certo em alguns estados. Uma outra coisa que é muito importante é a mudança demográfica pela qual o país passa. A população está ficando menos jovem e, em geral, as pessoas recrutadas pelo crime são mais jovens. Tem uma janela ali que é muito mais provável ser recrutado pelo crime do que em idade mais avançada. E o número de pessoas jovens que podem ser cruciais para isso pode estar diminuindo como proporção da população. Em uma nota de rodapé aos autores, cita um estudo que estima que 23% da queda pode ser efeito da mudança demográfica. E um outro fator que os pesquisadores apontam que pode ser relevante é os conflitos entre facções. Os anos em que esses conflitos foram mais acirrados, como os anos em que teve aquela guerra nacional do PCC contra praticamente todas as outras facções do Brasil. Foi um período de aumento grande do número de assassinatos no Brasil, que era dos membros de facções matando uns aos outros. Conforme isso foi declinando e provavelmente teve um efeito também na queda de mortes violentas no Brasil. Agora, uma dinâmica que o relatório aponta, que eu achei muito relevante para a situação de segurança pública brasileira atual. O roubo de celulares caiu, que é uma boa notícia, porque continua muito alta também, mas caiu. Teve 2,6 menos roubos e furtos celulares do que em 2023. E a queda foi liderada pelo Estado do Piauí, que foi pioneiro na implementação de um programa de recuperação e alerta dos aparelhos roubados ou furtados, que acho que é mais ou menos que o governo federal está querendo fazer com esse programa que eles estão anunciando na televisão agora. Um programinha que você bota no seu celular para facilitar bloquear ele em caso de roubo e coisas assim. O que mostra que enfim, tem coisas acontecendo e as autoridades não estão completamente inertes com relação ao combate à violência. Agora, um negócio que eu achei muito valioso no relatório é o trabalho que eles fazem de traçar o que acontece com um celular roubado. Então, por exemplo, eles falam do caso do o ciclista Victor Medrado, que foi assassinado ali perto do Parque do Povo, em São Paulo. Naquele caso, os dois criminosos mataram ele, roubaram o celular e aí levaram o celular para uma criminosa que atuava como receptadora. Mas ela não atuava só como receptadora, ela também fornecia armamento, capacetes e mochila de entrega para os criminosos. Então você vê que já tem uma espécie de uma indústria.
Fernando de Barros e Silva: Uma cadeia, uma cadeia de…
Celso Rocha de Barros: Exatamente.
Fernando de Barros e Silva: De produção.
Celso Rocha de Barros: Exato. Tem uma certa indústria que pega um cara qualquer que tope roubar celular e arruma para o cara uma moto, um capacete, uma arma. O cara rouba os celulares e levam para quadrilha. E essas quadrilhas são bastante articuladas com o crime organizado em São Paulo, com o PCC. E aí, o que acontece com o celular que é roubado? O primeiro passo ele é usado para aplicar golpes. Todo mundo aqui já recebeu ligações com tentativas de aplicar golpe pelo telefone. E esses golpes explodiram no Brasil nos últimos anos. Ao mesmo tempo que os furtos e roubos foram caindo, os estelionatos foram subindo no Brasil e subiram bastante. E aí, o que os autores relatório concluem é que tem gente passando do ramo de roubar e furtar para o ramo do estelionato, porque, por força das alterações na legislação penal, pela Lei 13.964/19, que era o pacote anti crime do Sérgio Moro, vocês lembram disso? Quem lembra disso?
Ana Clara Costa: Eu lembro.
Celso Rocha de Barros: Parece que foi outro século. O crime de estelionato que antes era de ação penal pública incondicionada, ou seja, não precisava da vítima da queixa. O negócio passou de ação penal pública condicionada, com algumas exceções. Ou seja, em geral, o Ministério Público só poderá oferecer denúncia a vítima se manifestar formalmente o interesse em ser um processo. E quando isso ocorre, ainda existe a possibilidade de acordo de não persecução penal em que o autor do crime pode formar com o Ministério Público, um acordo para suspender o processo, desde que atendidas algumas condições, como a restituição do prejuízo. Então, caso o cara te devolva o dinheiro. Enfim, muita gente pode preferir isso. Devolve meu dinheiro aí. O resto não me importa. Isso é mais acentuado no caso dos réus primários. Enfim, se o réu cumprir o acordo, não vai haver nem denúncia e o caso será arquivado. Com base nos dados de 2024, o Poder Judiciário só lida com algo como 2,4% dos casos de estelionato registrados nas polícias civis. Então, o que os criminosos perceberam é que se você roubar o celular do cara na rua, por exemplo, se você roubar o carteira do cara na rua, por exemplo, você tem uma chance razoável de ser preso. Ser preso é muito ruim. Agora, se você aplicar golpe pelo celular, não só o policiamento, digamos assim, é muito menor. Porque, como os autores do relatório, quando a gente pensa em combater a violência, o que a gente pensa é botar a polícia na rua, não necessariamente contratar técnicos, peritos, etc, para investigar crimes cibernéticos, como também, se você for pego, você pode ter uma possibilidade menor de ser preso, se arranjar um acordo desses aqui e se vir. Então, no momento existe uma cadeia alimentar aqui do cara que fornece armas e coisas para um sujeito qualquer roubar celular. Esse celular vai para a mão de um estelionatário que aplica esses golpes sabendo que a possibilidade de ser punido é remota.
Ana Clara Costa: Você lava então o crime. Acaba que com o estelionato você acaba lavando.
Celso Rocha de Barros: A sua chance de ser preso cai, né? Você pode até ficar registrado lá que você fez alguma coisa. E também o relatório nota que tá acontecendo muita exportação de celular roubado, por exemplo, em São Paulo, para país da África, da Ásia, onde não tem o monitoramento adequado daquele IMEI International Mobile Equipment Identity, que você já deve ter visto. Quando todo mundo te diz se você roubar o celular, você tem que ter decorado o seu IMEI para garantir o bloqueio do celular. Tem países em que isso não é muito controlado e aí é bem mais fácil roubar um iPhone aqui, mandar para lá e vender para qualquer pessoa. Bota um chip e sai funcionando. Então, assim, parece ter se formado todo um ecossistema em torno do roubo de celular, para o qual as forças de segurança ainda não parecem estar muito bem preparados.
Fernando de Barros e Silva: Perfeito. Perfeito. Muito bem, Ana. Vamos falar dos números sobre feminicídio, que de tudo que eu pude ver no relatório, é sem dúvida o mais chocante e estarrecedor mesmo.
Ana Clara Costa: Bom, Fernando, eu acho que a gente continua nesse último relatório, na mesma toada do anterior, que é o aumento do crime contra a mulher. No caso do número de 2024, os casos de feminicídio cresceram 0,7%. Tá, de certa forma perto da estabilidade, né? Mas é uma crescente, né? Todo ano a gente tem um aumento, mesmo que seja pequeno. E eu acho que isso consolida uma questão que é a seguinte: no caso da mulher, a insegurança nos ambientes familiares, seja na casa, no trabalho, nas escolas, nos ambientes em que ela supostamente deveria estar protegida, essa insegurança só cresce, enquanto que para os homens a violência está fora de casa, está na rua. Então, essa é uma tendência que se consolida. Não sei se é uma tendência ou se é, na verdade, a revelação de uma situação que acompanha a mulher já desde priscas eras, né? Da casa, como o ambiente inseguro, como o ambiente onde ela não está protegida. E se a taxa de feminicídio subiu 0,7%, ou seja, não foi uma um pico, uma subida expressiva… Um dado que corrobora a situação dramática da mulher é o dado de tentativa de feminicídio. As tentativas cresceram 19% no ano passado, somando 3870 casos, e por que esse número é dramático? Porque a violência que a mulher sofreu ela foi tão grande que ela não foi classificada nem como violência doméstica, nem como agressão. Ou seja, ela ficou perto de morrer. Então.
Fernando de Barros e Silva: Quantos casos no ano passado? 3800?
Ana Clara Costa: 3870.
Fernando de Barros e Silva: Ou seja, mais de dez casos por dia.
Ana Clara Costa: Sim, e se você pega, são 1492 vítimas, né? No ano passado, mulheres que morreram, que as que quase morreram foram 3870. Ou seja, é muita gente que quase morreu por isso, né? E aí continua esse ano a mesma coisa do que sempre foi, né? A maior parte das vítimas, 63,6%, eram negras, 70,5% tinha entre 18 e 44 anos, sendo que a faixa onde a incidência é maior é a de 35 a 39 anos. No caso da mulher, toda essa faixa da idade reprodutiva, porque também tem a violência. Ela é maior em mulheres com idade reprodutiva e entre 35 e 39 e a faixa que as ocorrências do feminicídio são maiores, oito em cada dez foram mortas por companheiros ou ex-companheiros. Nada disso é novidade. Todo ano o índice é parecido com isso. 64,3% foram mortas dentro de casa. E o que cresce também ano a ano é a proporção de feminicídio em relação às mortes violentas de mulheres que hoje está em 40%. Ou seja, 40% dos homicídios de mulheres se enquadram dentro do feminicídio. Um dado novo que a pesquisa traz, que não tinha sido ainda revelado é o descumprimento de medidas protetivas de urgência. Ou seja, até se chegar ao feminicídio, você tem etapas, você tem a violência doméstica, você tem uma série de violências que escalam até você chegar à morte da mulher. Uma dessas etapas é a medida protetiva de urgência que ela pede quando está sendo ameaçada ou se sentindo ameaçada por alguém, em geral, pelo companheiro. E essa pesquisa mostra que o descumprimento é de 10%, como começou a ser contado agora, a gente não sabe se isso vem melhorando, mas o fato é que 10% das medidas são descumpridas. O dado de subnotificação é um dado que o Fórum de Segurança não apura, mas o mais recente que a gente tem é um estudo do Senado, que eu inclusive falei desse estudo no ano passado, quando a gente falou da pesquisa anual, que é a subnotificação de 61% no registro de violência contra a mulher, então é muito grande a subnotificação. E, nesse caso, da medida protetiva, quando a mulher não vai até o Estado para pedir proteção, o que acontece? Elas muitas vezes não confiam no Estado para isso. Muitas acham que vão ser vitimizadas ou então até mesmo uma coisa mais singela que isso. A mulher na maioria das vezes, ela não quer procurar a polícia, porque na verdade ela não quer que o cara seja preso, ela só quer parar de apanhar. Ela não quer que ele não possa chegar perto dela, porque muitas vezes é o marido. E aí você vai mandar prender o pai dos seus filhos. São muitas coisas que entram nessa conta da subnotificação. E aí o que aumentou também é a violência sexual, que também aumenta todo ano, a violência doméstica que também aumenta todo ano. E nesse caso, a violência doméstica é uma coisa que a mulher. Ela tem condição de perceber a violência doméstica e escolher se ela quer denunciar ou não, se ela quer ir até a polícia fazer B.O, pedir medida protetiva, enfim, quando ela chega nesse ponto, ela está consciente das alternativas e de que ela está sendo vítima. No caso da violência sexual, como muitas vezes, em 30% dos casos, a violência sexual é cometida com crianças de 0 a 9 anos. A criança nem sabe que ela está sendo vítima de violência. Ela não tem noção como ela é confrontada com essa violência desde muito cedo. Para ela, esse é um modelo de relacionamento com o outro normal. Então ela vai descobrir que está errado quando ela fica grávida. Agora, outro dado inédito que essa pesquisa traz é um dado das perícias sexologicas, que eu acho que tem a ver com isso que eu falei sobre o fato de muitas vezes as mulheres não quererem acessar os mecanismos de proteção. O que essa perícia sexual lógica é o tipo de exame que você faz depois de sofrer violência sexual e que vai embasar o inquérito, a investigação e a possível condenação da pessoa que cometeu essa violência contra você. Segundo os dados novos dessa pesquisa, que são inéditos, nove em cada dez casos de perícia, eles dão negativo. E essa é uma questão complicada, porque a perícia para ela indicar autoria de um crime como estupro, ela precisa ser feita em até no máximo estourando 72 horas depois da ocorrência, para que o material biológico possa ser identificado na vítima. O problema é que muitas vezes passa esse tempo e enfim, não tem mais nada. Muitas vezes, quando é criança, o indivíduo limpa a vítima. E há muitos casos em que não há a penetração, que é onde fica o material biológico. Muitas vezes são vários outros tipos de violência sexual que não envolvem, principalmente no caso, a criança. É isso. E aí você não consegue chegar no ponto de a perícia ser assertiva. Então, por mais que haja vários mecanismos para você tentar achar o agressor e tudo mais, o sistema parece que te coloca numa situação em que você faz a conta e acaba concluindo que não vale a pena. Eu acho que ano após ano, o que a pesquisa do Fórum mostra isso é que, embora a subnotificação tenha diminuído, você vê que as mulheres estão muito mais conscientes. O sistema ainda não é funcional.
Fernando de Barros e Silva: E com isso tudo que se fala, fica claro que uma parte da política pública tem que ser dedicada a esclarecimento e preventiva de educação, de apoio ou de acolhimento, para as pessoas saberem o que está acontecendo, terem canais para denunciar, etc. Isso é uma parte fundamental de uma política pública que queira minimizar essa tragédia que o Fórum apresenta todo ano para gente. É isso, gente! Vamos encerrar o terceiro bloco do programa? Então por aqui vamos para um rápido intervalo e na volta Kinder Ovo, já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem, estamos de volta! Mari Faria, solta o dedo. Eu quero saber quando é que você vai me dar uma colher de chá. Mari, eu to completamente humilhado. O último Kinder ovo que eu ganhei foi… Não posso nem falar mais a brincadeira “quando o Botafogo foi campeão” porque o Botafogo foi campeão ano passado e faz bem mais tempo. Solta aí.
Sonora: No Palácio do Planalto se alinhou o eixo do mal que eles tinham tanto sonho para chegar no time de cima do eixo do mal, o Irã. E a mim me parece muito mais um laranja da China.
Celso Rocha de Barros: Magno Malta
Ana Clara Costa: Olha, eu ia falar que só porque…
Fernando de Barros e Silva: Quem?
Celso Rocha de Barros: Magno Malta
Fernando de Barros e Silva: Caraca, eu bem que…
Celso Rocha de Barros: Eu falei, é na minha linha de atuação.
Mari Faria: Fernando, era a sua chance e.
Fernando de Barros e Silva: Era minha chance. É o mesmo discurso.
Mari Faria: É a mesma fala que eu tive que editar durante o programa, reeditar o Kinder, porque o trecho terminava exatamente com a frase “Alexandre de Moraes não bote a mão no Bolsonaro não”.
Fernando de Barros e Silva: Mas você devia deixar porque você tinha que pelo menos uma vez, estar ao lado dos fracos e oprimidos, no caso yo. Estou sendo humilhado semanalmente aqui. Então foi Magno Malta que eu acertei no primeiro bloco do programa. No segundo, não sei. E que agora eu dei pro Celso, porque o Celso não ganha nunca Kinder Ovo. Eu fiquei com pena.
Ana Clara Costa: Dele, né Fernando?
Fernando de Barros e Silva: E deixei ele ganhar. Então eu sou uma pessoa muito mais…
Celso Rocha de Barros: Vocês tem que ouvir entrevista do Paulo Figueiredo para treinar para essas coisas, entendeu?
Fernando de Barros e Silva: Então, aqui para os anais. Senador Magno Malta, PL do Espírito Santo, em entrevista coletiva com aliados de Bolsonaro no corredor do Congresso e ele, que é o autor do projeto. Nessa fala, ele diz que ele criou o projeto da tornozeleira eletrônica, mas não foi para isso prender os inocentes.
Celso Rocha de Barros: Não é para prender o amigo dele.
Fernando de Barros e Silva: Canela límpida de Jair Bolsonaro. Canela honesta. Bom, encerramos assim o Kinder Ovo. Vamos agora para o melhor momento do programa, o Correio Elegante, momento de vocês. Se você quer mandar um recadinho pra gente, você pode postar o seu comentário no nosso canal no Spotify, no YouTube e nas redes sociais da Piauí ou no e-mail, e-mail é forodeteresina@revistapiauí.com.br . Eu vou começar então com o recado da Priscilla Carvalho que diz o seguinte: “Queria perguntar para o Celso Rocha de Barros que faz análise embasada o seguinte, o grande dia está chegando. Você ainda pretende passar 15 dias bebendo direto? Por que você fez o Inception dessa ideia na minha mente. Ana, te amo. Diva da elegância podcastal mundial. Fernando, você não imagina a minha felicidade ao falar da Pérola no último episódio. Eu sou voluntária da Catland há quase dez anos e gritei na academia quando ouvi. Ah, que maravilha! Muito bom! E digo aos ouvintes não comprem, adotem.”
Fernando de Barros e Silva: É isso, gente!
Celso Rocha de Barros: Pô, valeu, Priscila!
Fernando de Barros e Silva: É a Priscila Carvalho e ela manda um beijo carinhoso a todos.
Ana Clara Costa: Obrigada, Priscila.
Fernando de Barros e Silva: Muito obrigado.
Sonora: A Mari me passou dois recados curtinhos. O Léo João postou “É nítida a perseguição do Xandão. Perseguição ao Foro de Teresina, operação numa sexta, depois do programa já gravado. Cadê seus advogados? Celso, Fernando e Ana?” Boa pergunta. Mas aí ele se retratou exatamente. E o Carlos Lima, lá de Recife, “Sábado à noite, por volta das 19h, corri na praia de Boa Viagem, ouvindo Foro com tornozelos livres ao vento. Celso, você pode fazer isso?”
Celso Rocha de Barros: Muito bom.
Fernando de Barros e Silva: Tornozelos livres, Muito bom.
Celso Rocha de Barros: O Roque Silva escreveu “décadas atrás, embrutecido, em fábricas no ABC paulista. Eu só tinha uma fonte para saber sobre economia, política e contradições das classes sociais. Meu amigo Márcio, sempre de jornal sob axila. Argumentação afiada Decorados os números da miséria brasileira, ele era o peão mais bem formado do bairro. Me incentivou a ler A Mãe de Gorki. Hoje vive em Caucaia, Ceará, mas me manda mensagem comentando cada episódio do Foro. É um patrimônio nosso. Obrigada e abraços.” Caramba, Rochelle.
Celso Rocha de Barros: Valeu mesmo. Mande um abraço aí também para o Márcio. Cara, vocês aí do ABC são. São as lendas, cara.
Fernando de Barros e Silva: Muito bom. Bom, sem tornozeleira, tornozelos free. Vamos encerrando o programa de hoje. Se você gostou, não deixe de seguir e dar five stars para a gente no Spotify. Segue no Apple Podcast, na Amazon Música, favorita na Deezer. Se inscreva no YouTube. Você também encontra a transcrição do episódio no site da Piauí. O Foro de Teresina é uma produção da Rádio Novelo para a revista Piauí. A coordenação geral é da Paula Scarpin. A direção é da Mari Faria, com produção e distribuição da Maria Júlia Vieira. A checagem é do Gilberto Porcidônio. A edição é da Carolina Moraes, da Mari Leão e da Paula Scarpin. A identidade visual é da Amanda Lopes. A finalização e mixagem são do João Jabace e do Luís Rodrigues, da Pipoca Sound, Jabace e Rodrigues, que também são os intérpretes da nossa melodia tema. A coordenação digital é da Bia Ribeiro, da Emily Almeida e do Fábio Brisola. O programa de hoje foi gravado aqui na minha Choupana, em São Paulo, e no Estúdio Rastro, do Danny Dee, com um monte de pão de queijo aí no Rio de Janeiro. Eu me despeço então dos meus amigos. Tchau, Celso.
Celso Rocha de Barros: Até mais, Fernando. Até semana que vem.
Fernando de Barros e Silva: Tchau, Ana.
Ana Clara Costa: Tchau, Fernando. Tchau, pessoal.
Fernando de Barros e Silva: É isso gente! Uma ótima semana a todos e até semana que vem!