questões cinematográficas

UM ADMIRÁVEL FILME DE FORMAÇÃO

Restrito a poucas salas, Uma infância alemã não recebeu no Brasil a atenção merecida
A atuação excepcional de Jasper Billerbeck (no centro) é um dos principais esteios do longa-metragem - Crédito: Reprodução
A atuação excepcional de Jasper Billerbeck (no centro) é um dos principais esteios do longa-metragem - Crédito: Reprodução

5 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Volta e meia tenho a impressão de que um filme admirável é lançado no Brasil sem receber a atenção que merece do público nem ter a repercussão devida. Um exemplo disso é Uma infância alemã, que depois de ser exibido fora de competição na Mostra Oficial do Festival de Cannes, em 2025, estreou entre nós no circuito de cinemas mais de um ano depois, em 25 de junho de 2026, com sessões em vinte salas. Na primeira semana, escassos 5.295 ingressos foram comprados, e até 29 de julho o número de espectadores acumulados continuava para lá de modesto, chegando a apenas 16.936, segundo o portal Filme B.

Filmes de alto valor, mas sem intenção de se tornarem entretenimento de massa, estarão condenados de antemão ao fracasso comercial e à semiclandestinidade? Parece que sim, a julgar pela disparidade das bilheterias na semana de 30 de julho a 2 de agosto: Uma infância alemã teve 947 espectadores em nove salas, enquanto Homem-Aranha: Um novo dia, A Odisseia e Toy Story 5 tiveram, ao todo, 4.995.294 pagantes em 2.170 salas. Se incluirmos na lista Moana e Minions & Monstros, os ingressos comprados para assistir aos cinco chegaram a 5.215.173 em 3.512 salas, resultando na ocupação de 92% do circuito exibidor por filmes de apenas três empresas – Sony Pictures Brasil, Universal e Disney, multinacionais com atuação destacada no mercado mundial.

Parece claro serem desiguais e, portanto, injustos os termos da competição entre produções milionárias voltadas para consumo de massa e filmes com características autorais, constatação evidente que não é novidade – essa é a configuração dominante em escala mundial na economia da produção e distribuição cinematográficas. O que ainda inquieta, porém, é um país como o Brasil ainda não ter sido capaz de implantar um sistema no qual possam coexistir filmes voltados para entretenimento com outros resultantes de projetos pessoais, que tratem de dilemas humanos do nosso tempo e investigações dos pressupostos consagrados da linguagem do cinema em si mesma.

Se a recepção a Uma infância alemã, no Brasil, estiver de fato sendo caracterizada por uma indiferença profunda, talvez possamos concluir estarmos inertes, enredados em um sistema de comercialização que exclui a viabilidade alternativa de filmes autorais de qualidade que abordem temas relevantes e cujo pressuposto seja a reflexão crítica.

Mas a carreira comercial de Uma infância alemã contradiz, em parte, a inviabilidade descrita acima. Feito por duas produtoras independentes, além da subsidiária alemã da Warner Bros., um dos cinco maiores estúdios americanos, o filme se tornou um inesperado sucesso de bilheteria, rendendo cerca de  8 milhões de dólares na Alemanha. Nos Estados Unidos, por outro lado, teve lançamento restrito na estreia a duas salas, passando em seguida a outras oito, e rendeu, até o momento, cerca de 78 mil dólares, 0,8% de toda a receita mundial de 9,3 milhões de dólares.

Para surpresa geral, “o filme foi um acontecimento”, disse o premiado diretor alemão Fatih Akin em entrevista ao site Indiewire. “Tocou numa ferida aqui [na Alemanha]. Acho que foi por causa da ascensão da extrema direita, com a qual estamos lidando. É algo sério, de certa maneira. A Segunda Guerra Mundial, a Alemanha nazista... ainda é um trauma que não superamos, nem de longe. [...] O cinema, neste caso específico, funciona como uma sessão de terapia para a sociedade.” 

Amrum, nome de uma ilha remota no Mar do Norte, é o título original de Uma infância alemã. Nos créditos de abertura, uma legenda estipula que o filme é de Hark Bohm, professor octogenário e veterano colaborador de Rainer Werner Fassbinder, com direção de Akin – portanto, não só tem autoria dupla, como também inspiração pessoal e forte vínculo afetivo. Quando Bohm adoeceu, ambos escreveram o roteiro baseado nas memórias da infância dele na ilha, e Akin, em vez de produzir o filme, como estava previsto, aceitou dirigí-lo no lugar do seu “velho amigo”, que morreu em novembro de 2025. “Tive a oportunidade de tornar Amrum o mais simples e poderoso possível”, disse Akin.

O enredo de Uma infância alemã transcorre na primavera de 1945, nas semanas finais da Segunda Guerra Mundial – tempo delimitado, assim como o espaço da ilha onde Nanning Hagener (Jasper Billerbeck), menino de 12 anos, vive com sua mãe, enquanto o pai, oficial nazista e autor de um livro sobre a ideologia racista, está ausente. A atuação excepcional de Billerbeck é um dos principais esteios do filme. Ele foi encontrado em uma escola de vela, segundo Akin, quando estavam “procurando crianças que não tivessem medo da natureza. A maioria das crianças das grandes cidades – onde se concentra a maior parte dos atores mirins – enlouquece quando vê uma aranha.”

Justin Chang, crítico da revista The New Yorker, recomenda “não se preocupar”, em um artigo publicado em 18 de abril:

Nanning é um protagonista cativante, mas não é retratado de modo piegas. Como muitas crianças, ele é suscetível às pressões da obediência e do pensamento de grupo – características que podem ser instrumentalizadas em contextos totalitários , mas também possui clareza suficiente para ficar horrorizado ao descobrir como o antissemitismo moldou sua própria família. Seu caráter é, de certa forma, tão maleável e inacabado quanto a costa branca de Amrum: praias de areia convidativas que, num instante, podem se tornar aterrorizantes quando a maré sobe. Mais de uma vez, Nanning [...] precisa se aventurar nessa maré traiçoeira. Em um desses momentos, ele é forçado a tomar uma decisão rápida e crucial sobre o valor de outra vida humana.

Não faltam obstáculos na jornada de Nanning. Ele persiste, porém, ao longo de todo o filme, até cumprir sua principal missão – conseguir fazer um pão de farinha branca com manteiga e mel para animar sua mãe. Uma infância alemã talvez possa ser definido como um filme de formação, diferente dos romances desse gênero por não acompanhar o protagonista desde a infância até a vida adulta, mas guardando em comum o fato de narrar seu amadurecimento por meio de uma série de experiências que ele enfrenta com galhardia. No final, uma troca de olhares e um sorriso são um discreto sinal de esperança.

*

Estreia no circuito de salas nesta quinta-feira, 13 de agosto, Honestino, filmaço de Aurélio Michiles, comentado aqui em outubro de 2025, quando de sua apresentação na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


Eduardo Escorel é cineasta. Dirigiu os documentários Antonio Candido, anotações finais, Imagens do Estado Novo 1937-45 e 1968 – Um ano na Vida, entre outros filmes