questões cinematográficas

ALAIN CAVALIER – DESCOBERTA DE UM NOVO CINEASTA – II

Nos últimos dias, conheci Alain Cavalier. Graças à retrospectiva apresentada no festival É Tudo Verdade, encerrado ontem, vi "Esta secretária eletrônica não grava recados" (1978), "O Encontro" (1996), "O Homem-cinema" (2004) e "Irène" (2009), além de cinco documentários da série "Retratos", realizados em 1987 e 1991. 
Imagem Alain Cavalier – descoberta de um novo cineasta – II

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Nos últimos dias, conheci Alain Cavalier. Graças à retrospectiva apresentada no festival É Tudo Verdade, encerrado ontem, vi (1978), "O Encontro" (1996), "O Homem-cinema" (2004) e "Irène" (2009), além de cinco documentários da série "Retratos", realizados em 1987 e 1991. Tendo revisto ainda, várias vezes, "Carta da França", curtametragem enviado por Alain Cavalier para justificar o fato de não ter vindo ao Brasil (disponível no site do festival), aproveito para fazer duas correções: o mapa mostrado no início é da rede de estrada de ferro que serve Paris e não do metrô. E o comentário feito em off por Alain Cavalier é que “todo o exotismo da terra está contido na área” indicada no mapa.

Mesmo tendo podido ver apenas pequena amostra de um conjunto de cerca de 30 filmes, entre longas e curtametragens, realizados por Alain Cavalier, minha expectativa favorável foi confirmada. A trajetória da sua carreira, por si só, já é interessante. Fez caminho inverso ao de Krzysztof Kieslowski, que abandonou o cinema documentário, na década de 1980, em favor da ficção. Alain Cavalier, por sua vez, nos anos de 1970, abandonou o cinema de ficção em favor de filmes que talvez pudessem ser classificados como confessionais; e do documentário nas duas séries "Retratos".

, em que ainda há encenação e um ator, parece ser expressão da crise profissional e pessoal que levou Alain Cavalier a se afastar da realização, entre 1968 e 1976. Crise afetiva também, resultante de relações desfeitas, que passariam a ser seu tema obsessivo.

Ao longo do filme, o personagem pinta de preto o interior de um apartamento vazio – com toda a cabeça enfaixada, lembra uma múmia. Começa pintando a porta, depois pinta paredes e janelas, até impedir a entrada de luz e ficar na escuridão. Faz, em seguida, uma fogueira, queimando os pedaços de uma cadeira que ele mesmo quebrou. Senta, de pernas cruzadas, contempla o fogo e, em meio ao breu, o filme acaba. Livros e imagens perderam sentido, diz a voz em off do narrador. Que filme seria possível fazer depois disso?

O catálogo do É Tudo Verdade reproduz uma declaração de Alain Cavalier: “Maio de 1978. Num estado de vigília, eu me vejo pintando de preto o apartamento em que vivo, incluindo as janelas, até o desaparecimento da luz. Telefono a meus dois cúmplices: Jean-François (imagem), Alain (som); 16mm. Sete dias de filmagem. Nada de montagem, nada de cortes. Demorei anos a poder ver o filme.”

Em "O Encontro", realizado quase 20 anos depois de , a intimidade de Alain Cavalier é exposta na tela. O pai cego, a mãe inválida são atormentados pela câmera, algumas vezes sem saber. “Você não para de filmar”, a mulher dele reclama. Com toda razão, ela questiona a sanidade mental de Alain Cavalier. “Se as pessoas virem isso, não será mais nosso”, diz. Mas para ele, “é só uma pequena parte de nós.”

Alain Cavalier se tornara a mais recente encarnação do homem com a câmera, filmando obsessivamente, todos os dias, sem ter em vista, necessariamente, um filme a ser feito.


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