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Leandro Aguiar, de Belo Horizonte 17 Ago 2026
6 min de leitura
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Texto publicado na newsletter Caderno do repórter, exclusiva para assinantes da piauí. Para receber quinzenalmente as próximas, inscreva-se aqui. Para ler a reportagem O morto vivo, tema desta edição, clique aqui.
Foi no início de maio que a piauí me fez o convite irrecusável: escrever uma reportagem sobre a nova empreitada do ex-todo-poderoso ex-presidente da Câmara e ex-presidiário Eduardo Cunha, candidato neste ano a deputado federal por Minas Gerais. Depois de toda uma vida angariando votos na Baixada Fluminense e na Zona Oeste do Rio de Janeiro, depois de ser cassado, de ser preso e de ser solto, depois de uma derrota humilhante em São Paulo nas eleições de 2022, quando em compensação elegeu a filha deputada federal pelo Rio de Janeiro, o “malvado favorito” do antipetismo pousou (literalmente, de helicóptero) em Uberaba, a fim de arrebanhar eleitores mineiros. É a história dessa tentativa, e dos recursos misteriosos que Cunha tem mobilizado para fazê-la bem-sucedida, que conto na reportagem O morto-vivo, publicada na piauí_239.
Para tanto, eu tinha de acompanhar compromissos de campanha do algoz de Dilma Rousseff, tentar entrevistá-lo e falar com pessoas de seu entorno para decifrar suas movimentações eleitorais. Não era tarefa simples, posto que, como logo entendi, a parte central dessas movimentações se passava nos bastidores do Congresso e nem remotamente interessaria a Cunha tratar delas em público. O mais provável era que o Frank Underwood carioca (como já foi chamado, em referência ao personagem central da série House of Cards) não aceitaria falar comigo, e o mesmo se daria com os políticos graúdos que permaneceram ao seu lado na alegria e na tristeza, mesmo depois de todos os escândalos de corrupção. Me dei conta então de que, para chegar até Eduardo Cunha, eu precisava começar pelas bordas.
Enquanto mapeava suas numerosas viagens por Minas, onde ele tratava de inaugurar rádios evangélicas, cultivar relações com políticos locais e distribuir emendas parlamentares (ele, que desde 2016 já não é mais parlamentar…), li dois livros, complementares em seu antagonismo, que me ajudaram a entender Eduardo Cunha. O primeiro foi Deus tenha misericórdia dessa nação, implacável biografia do ex-deputado escrita pelos jornalistas Aloy Jupiara e Chico Otavio e publicada pela editora Record; e o outro foi Tchau, querida (editora Matrix), misto de diário autoindulgente do impeachment e peça de defesa escrita pelo próprio Cunha e por sua filha, a deputada Dani Cunha. Juntos, os livros mostram um político habilíssimo, apto a negociar tanto com ministros e presidentes de partidos quanto com vereadores e empreiteiros interioranos, que colecionou aliados, inimigos e muitos rolos por onde passou. Um político que, como o Odorico Paraguaçu de Dias Gomes, sempre soube dançar conforme a música, ajudar quem o ajudava e sobretudo esperar a hora certa de se vingar dos que atravancavam seu caminho.
A ambição da reportagem era relatar as andanças e os conchavos dessa raposa política pelas Gerais. Quem já teve a oportunidade de observar como se movem as raposas pelos matagais do Cerrado sabe o quão difícil é captar cada um de seus movimentos, que sempre deixam, contudo, rastros. E estes rastros, os encontrei em abundância durante a minha apuração.
Percorri cidades que Cunha visitou, como Montes Claros, Piau, Uberaba, Juiz de Fora e Contagem. Nesse itinerário, conversei com vereadores, prefeitos, pastores evangélicos, um cartola da série B do campeonato mineiro e líderes de ONGs. Todos ouviram da boca de Cunha alguma promessa, e em muitos casos essas promessas se materializaram numa velocidade espantosa – não raramente na forma das emendas parlamentares “terceirizadas”, que algum deputado amigo enviava ao município como se fosse da “cota informal” de Cunha na Câmara.
Enquanto isso, conforme relato na reportagem, em sua rede de rádios evangélicas o ex-deputado abria os microfones para políticos locais e também para uns poucos deputados estaduais. Os verdadeiros pesos-pesados da política evitavam deixar-se gravar com Cunha – a notável exceção é o presidenciável Flávio Bolsonaro, que concedeu entrevista em junho à Rádio 89 FM Maravilha, de Cunha. O que ficou claro para mim era o seguinte: o ex-presidente da Câmara mantinha ainda influência junto a algumas peças-chave do Congresso e a presidentes de partidos, que o auxiliavam em privado mas que, em público, guardavam dele uma distância sanitária.
Nesse meio-tempo, eu conversava com as assessorias dos deputados Hugo Motta, Arthur Lira, Marco Feliciano, Gilberto Abramo, Marcos Pereira e outros. Recebia de volta as previsíveis evasivas. Cunha e sua assessoria também faziam jogo duro. Passei alguns dias fazendo guarita em frente aos estúdios da Maravilha, no abastado bairro da Savassi, em Belo Horizonte, na expectativa de trocar algumas palavras com o ex-deputado. Mas não dei essa sorte.
Restava ainda uma esperança. A essa altura, já havia falado com dezenas de aliados de Cunha no interior de Minas. Com desembaraço, eles me contaram um monte de coisas: que o ex-deputado chegava às cidades num helicóptero cuja hora de voo custa em média 35 mil reais; que privava com políticos locais donos de extensa ficha criminal; que inaugurara um parque gráfico milionário na Zona da Mata mineira; que dizia possuir fazendas no Sul do estado e negócios de mineração no Norte. Descobri que nenhum desses bens consta no nome de Eduardo Cunha. Quando ele fosse informado de que eu vinha conversando com seus novos amigos, quem sabe se animasse a me apresentar a sua versão dos fatos.
No STF, transcorria outro foco da apuração. O tribunal julgava a constitucionalidade de uma lei proposta e aprovada pela filha de Cunha que altera o prazo de inelegibilidade da Lei da Ficha Limpa. Uma das consequências nada casuais dessa lei, que nos corredores de Brasília mereceu o jocoso apelido de “lei Eduardo Cunha”, é devolver ao pai de Dani os direitos políticos. O placar estava 2 a 0 contra a legalidade da lei quando Gilmar Mendes, sempre ele, pediu vistas, brecando a votação. Em off, escutei de três pessoas com bom trânsito no Supremo que o pedido de vistas veio logo depois de gestões de Cunha e de José Roberto Arruda, o ex-governador cassado de Brasília, junto aos gabinetes dos ministros. Arruda, outro criminoso contumaz, também se beneficiaria da mudança na Ficha Limpa, é lógico.
Veio também do STF, mais precisamente do gabinete do ministro Flávio Dino, a cereja do bolo da reportagem. Além da piauí, a Polícia Federal também investigava as emendas que Cunha distribuía às suas novas bases eleitorais. Divulgada num domingo, 12 de julho, a decisão de Dino apresenta fartas provas colhidas pela PF da influência de Cunha no Congresso. Em uma conversa de WhatsApp com Mariângela Fialek, servidora da Câmara responsável pelo trâmite burocrático das emendas, Cunha até reclamava dos “mineiros enrolados” que lhe cobravam documentos e assinaturas que comprovassem a origem das emendas. Dino mandou bloquear 6 milhões de reais do ex-deputado e o cerco começou a se fechar outra vez em torno de Cunha.
Na manhã de segunda-feira, já com o texto engatilhado para enviar aos editores da piauí, tentei pela última vez contato com Cunha. Por mensagens telefônicas, fiz a ele uma série de perguntas sobre a origem da fortuna que irrigava sua campanha, não só do dinheiro público das emendas, mas o do aluguel do helicóptero, dos investimentos nas rádios, no Uberaba Sport Club, na gráfica, nas fazendas, na mineração… Quis saber também se ele havia exercido influência na tramitação da “lei Eduardo Cunha” e qual assunto debateu com Hugo Motta num encontro que aconteceu bem às vésperas do pedido de vistas de Gilmar.
Dessa vez, recebi enfim um retorno. E ele veio do próprio Cunha, não mais de seu assessor: reconheci imediatamente o estilo sucinto e mordaz do autor das mais de oitocentas páginas de Tchau, querida. Cunha me rebateu dizendo que não responderia a nada. Iria “apenas pontualmente desmentir insinuações contidas nas suas perguntas”. E desmentiu de fato, mas a si próprio, ao negar possuir investimentos em Minas – o contrário exato do que vem alardeando há quase dois anos aos jornais locais do estado. Por fim, declarou categoricamente que não tinha de dar satisfação a jornalistas sobre investimentos privados (que, no entanto, segundo ele mesmo, nem sequer existiam… Certo?). O arquiteto do impeachment estava bravo, entrava em contradição e, num aparente rompante, deixava de lado a habitual frieza. Estava pronta a reportagem.
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