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CADERNO DO REPÓRTER: UM TELEFONEMA INESPERADO

Os bastidores da reportagem que revelou a foto de poderosos na piscina de Willer Tomaz, advogado enrolado no escândalo do INSS
Crédito: Pedro Tavares
Crédito: Pedro Tavares

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Texto publicado na newsletter Caderno do repórter, exclusiva para assinantes da piauí. Para receber quinzenalmente as próximas, inscreva-se aqui. Para ler a reportagem Na piscina com o grupo seleto, tema desta edição, clique aqui.



Às sete da noite do dia 6 de agosto, uma quinta-feira, eu estava no Hall dos Bustos do Supremo Tribunal Federal, uma suntuosa sala com vista para a Praça dos Três Poderes, quando recebi a ligação de um número desconhecido. Raramente atendo esse tipo de chamada, a fim de evitar os bots de inteligência artificial, operadoras de telefonia oferecendo serviços, empresas de telemarketing e afins. Mas, naquele dia, decidi atender, afinal estou em Brasília e às vésperas de uma eleição. E foi a partir dessa ligação que consegui ter acesso à foto que inundou as redes sociais e movimentou a política brasileira.

A ligação era de uma fonte que cultivo há tempos sugerindo que nos encontrássemos naquela noite. O telefonema foi rápido, não mais que dois minutos. Mesmo sem detalhar o motivo da conversa, entendi que era importante e teria alguma relação com investigações da Polícia Federal. Encerrei a chamada, deixei o STF e parti rumo ao local combinado. Peguei um carro por aplicativo que marcava vinte minutos até o destino. Aproveitei a brecha para fazer uma rápida pesquisa sobre as últimas operações da PF. Dois dias antes, na terça-feira (4), fora deflagrada uma nova fase da Operação Sem Desconto, que apura o esquema de desvios bilionários de aposentados e pensionistas do INSS. Os alvos eram o senador e vice-líder do governo no Senado Weverton Rocha (PDT-MA) e Willer Tomaz, um advogado influente de Brasília. As reportagens sobre a operação citavam buscas e apreensões feitas pela PF em dois imóveis do advogado: a casa e o escritório, ambos localizados no Lago Sul, bairro de classe alta de Brasília. 

Cheguei ao encontro e minha fonte, enfim, revelou o motivo do contato. A intuição jogou a favor: eram informações sobre a operação Sem Desconto. Assim que a fonte começou a narrar as descobertas feitas pela polícia, notei uma novidade em relação ao que fora publicado pela imprensa. Soube que, além de fazer buscas nos endereços do Lago Sul, a PF também havia vasculhado um terceiro local. Era um sítio gigantesco conhecido como Rancho Tomaz, em Planaltina, a cerca de 80 km de Brasília. Enquanto conversávamos, vi as fotos do rancho feitas pela PF. O lugar impressiona: há campo de minigolfe, sala de cinema, academia, área externa com jacuzzi e piscina, um píer com acesso à Lagoa Formosa, um dos principais pontos turísticos de Planaltina, quadras de tênis, além de objetos e móveis que decoram a casa estilizados com as iniciais WT, de Willer Tomaz, em que o último traço do W forma a letra T. O advogado tem lanchas, jet skis e mesas para jogar pôquer com as iniciais estampadas. 

Vi algumas imagens da propriedade, mas elas não contavam uma história capaz de justificar uma matéria. A existência do rancho já havia sido noticiada em 2021, época em que Flávio Bolsonaro visitou o local. Até que uma fotografia chamou minha atenção. Era uma foto do sítio que constava na galeria do celular do senador Weverton Rocha, apreendido pela PF em fases anteriores da operação Sem Desconto. O registro era de abril de 2023 e mostrava a jacuzzi do rancho lotada, com pessoas dentro e fora da água. Tomaz, sorridente, se esbaldava ao lado de figurões da República. Bati o olho e vi Alexandre Ramagem (PL), que dirigiu a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante o governo Bolsonaro, à frente da piscina segurando uma cerveja longneck. Pouco a pouco, notei outros rostos conhecidos: Arthur Lira, à época presidente da Câmara dos Deputados, e, claro, o senador Weverton Rocha.

Naquele momento, pensei: “agora tenho uma história.”

A foto que deu origem à reportagem -- Crédito: Reprodução

Para não intimidar minha fonte, optei por não gravar a conversa, tampouco usar bloco de anotações. Deixei para anotar os detalhes depois, em outro canto, sobretudo os nomes de quem eu havia identificado. Caso não tivesse mais acesso ao registro, poderia fazer uma apuração paralela nos dias seguintes. 

Pedi à fonte que me encaminhasse a imagem. Ela não aceitou, mas permitiu que eu fizesse uma foto da foto. Não era o ideal, mas já era alguma coisa. 

Cheguei em casa às onze da noite e mandei a fotografia para meus editores com uma rápida explicação sobre o que se tratava. Sabia que, se fôssemos publicar, não poderíamos demorar muito. No dia seguinte, sexta-feira (7), acordei às sete da manhã com uma mensagem do Luigi Mazza, editor do site da piauí. Conversamos, e ele deu sinal verde para a reportagem. 

Por volta das três da tarde entreguei a primeira versão do texto. Em seguida, eu, Luigi e Daniel Bergamasco, editor executivo da piauí, nos reunimos com a coordenadora de checagem da piauí, Marcella Ramos, para discutir sobre alguns cuidados que a matéria exigia. O principal deles era atestar a veracidade da foto. Expliquei o contexto da apuração. Em paralelo, continuei insistindo com minha fonte para que ela enviasse o registro original, o que aconteceu no fim da tarde. 

A melhor resolução da foto nos permitiu identificar outros membros do “Grupo Seleto”, nome do grupo de WhatsApp que Willer Tomaz mantinha com alguns dos personagens que apareciam na fotografia da jacuzzi. Além de Alexandre Ramagem, Arthur Lira e Weverton Rocha, estavam lá os deputados Juscelino Filho (PSDB-MA), Elmar Nascimento (União-BA), Paulo Azi (União-BA) e os senadores Efraim Filho (PL-PB) e Angelo Coronel (Republicanos-BA). Liguei para todos os envolvidos para confirmar a presença no rancho e entender a relação que eles mantinham com o advogado investigado pela PF. Apenas dois atenderam e outros dois retornaram por mensagem. 

Com ajuda do Pedro Moro, estagiário da piauí, vasculhamos redes sociais das esposas dos congressistas. Algumas postaram stories na academia do rancho na mesma data em que a foto da piscina foi feita. Eram indícios importantes e que confirmavam a veracidade do evento. 

O texto foi publicado na manhã de sábado (8), às 10h58. A imagem se espalhou pela imprensa (em geral, com o devido crédito à piauí) e pelas redes sociais (nesse caso, sem crédito algum). E o grupo seleto, até então desconhecido, ficou famoso no país inteiro. 

Leia aqui a reportagem.


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