questões trabalhistas

CAMAREIRA DE HOTEL POR TRÊS DIAS

Escritora conta experiência em estabelecimento quatro estrelas
Sala de aula do curso de camareiras: para uma funcionária típica, os piores hóspedes são os jogadores de futebol e os músicos de bandas de rock, que podem ser imundos e destrutivos - CRÉDITO: VANESSA BARBARA_2026
Sala de aula do curso de camareiras: para uma funcionária típica, os piores hóspedes são os jogadores de futebol e os músicos de bandas de rock, que podem ser imundos e destrutivos - CRÉDITO: VANESSA BARBARA_2026

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Durante três dias, a escritora e jornalista Vanessa Barbara trabalhou como camareira em um dos maiores hotéis de São Paulo, um quatro estrelas midscale superior, de padrão executivo. Para isso, ela fez um curso prático (pago) de quarenta horas em uma instituição de ensino. Depois, enviou dezenas de currículos e fez quatro entrevistas de emprego. Foram quase seis meses até conseguir uma vaga. Ela ganhou 70 reais por dia para limpar quartos das 9 às 17 horas. Na mesma época, o preço da diária no hotel com mais de quinhentos apartamentos era de 1 002 reais para um casal no quarto standard, sem café da manhã. “Ser camareira é arrumar a bagunça que os outros deixaram para trás – em uma situação de extrema desigualdade”, ela escreve em reportagem publicada na piauí deste mês

No curso, ela aprendeu que os panos de chão são identificados por cores: o vermelho é para áreas muito sujas, como vasos sanitários e lixeiras; o amarelo é para pias; o azul, para vidros; e o verde é usado nas áreas neutras, como móveis do quarto. Os objetos mais sujos em um quarto de hotel são as maçanetas e o controle remoto, que muitas vezes são negligenciados na limpeza.

Segundo o instrutor do curso, os rolinhos decorativos (tipo almofada), as colchas de piquê e os cobre-leitos quase nunca são lavados. Os cobertores de inverno, aliás, mesmo quando estão em um plástico lacrado dentro do armário, raramente são higienizados e têm uma cor escura “para esconder a sujeira”. Outro item de enxoval que quase nunca vê sabão é a peseira – aquela manta ou faixa de tecido colocada aos pés da cama –, que teria surgido porque os hóspedes têm o costume de abrir as malas sobre a cama, e não sobre os maleiros.

“Não é recomendável utilizar os copos de vidro do frigobar ou da pia para beber água. Sério: não usem”, diz Vanessa Barbara. “De acordo com várias fontes, a limpeza desses itens consiste em uma displicente passada de água e eventual secagem com a toalha de mão do hóspede.”

O período de “testes práticos” da escritora no hotel começou em uma quinta-feira e terminou em um sábado, no final de novembro passado. Na semana seguinte, ela recebeu uma mensagem do setor de RH anunciando sua aprovação. “Decidi não dar continuidade à experiência por dois motivos: primeiro, porque isso envolveria questões éticas mais complexas; segundo, porque meus ombros não suportariam esfregar privadas por mais três dias antes de ganhar uma folga. Enviei uma mensagem ao RH. Nela, eu recusava a vaga por não ser capaz de cumprir a escala 6x1”, conta.

Depois de entrar no quarto, a primeira coisa que ela devia fazer era calçar a porta com o maleiro, ligar o ar-condicionado e ajustá-lo para 16ºC (ou seja, muito frio). A temperatura é sempre gélida para amenizar o desgaste físico de quem realiza tarefas pesadas. Em seguida, vestia a luva de segurança e pegava, do carrinho, a cestinha com os produtos de limpeza do banheiro. Apanhava os lixos, recolhia os lençóis e as toalhas, jogava tudo no cesto e aplicava o produto clorado na privada. Só então retirava a luva de segurança e ficava apenas com a luva fina de vinil. Enquanto esperava o cloro fazer efeito no banheiro, começava a arrumar a cama.

A jornalista americana Barbara Ehrenreich, que contou em livro sobre quando trabalhou em subempregos (como garçonete, faxineira, auxiliar em uma casa de repouso e funcionária do Walmart), escreveu que essa experiência teve nela um efeito importante. “Transformou minha simples preocupação com a exploração dos trabalhadores pobres em uma indignação profunda”, disse Ehrenreich.

“Tive uma experiência parecida”, escreve Vanessa Barbara. “Depois de sentir como seria sacrificar a saúde e quase todos os fins de semana por míseros 13 reais a hora, passei a nutrir muita raiva. A estatística é implacável: 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros – mais de um terço da força de trabalho formal – estão submetidos a escalas com uma única folga semanal, geralmente desvinculada do descanso social do sábado ou domingo. Esse contingente não é aleatório. É composto sobretudo por trabalhadores de comércio e serviços (alimentação, limpeza, vigilância) situados na base da pirâmide salarial. É uma base que sustenta o descanso alheio.”


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Escritora e jornalista, é colaboradora do New York Times e da New York Review of Books. Publicou o romance Noites de Alface (Alfaguara) e Mamãe Está Cansada (Companhia das Letrinhas). É autora do periódico digital A Hortaliça na plataforma Substack.