baixios das altas finanças
Consuelo Dieguez, de Brasília Abr 2026 10h32
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Paulo Henrique Costa, preso na manhã desta quinta-feira (16), foi um dos personagens centrais na trama envolvendo a compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB) – negociação frustrada que hoje é investigada pela Polícia Federal. Pernambucano, Costa fez carreira no setor bancário e chegou ao comando do BRB em 2019. Foi indicado pelo governador Ibaneis Rocha (MDB-DF), mas contou com o apadrinhamento do senador Ciro Nogueira (PP-PI) – fato que, porém, sempre negou. “Quem me indicou foi o governador Ibaneis”, ele disse à piauí, em uma reportagem publicada em maio de 2025.
O anúncio de que o BRB compraria o Master havia sido feito em março daquele ano. De imediato, houve uma grita no mercado financeiro e entre alguns políticos do Distrito Federal, alarmados com a negociação. Afinal, já se sabia àquela altura que o Master era um banco quebrado – e o risco de que contaminasse o balanço do BRB, portanto, era enorme. Ainda assim, o BRB dizia estar disposto a pagar 2 bilhões de reais para comprar 58% das ações do banco de Daniel Vorcaro. A ideia era que o banco estatal ficasse com a parte saudável do Master, e o pedaço podre permanecesse com o Master falido, que, por sua vez, trataria de arrumar uma saída.
Coube ao diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do Banco Central, Renato Gomes, analisar os detalhes do negócio. Como é praxe nessas transações, ele pediu a Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, que comprovasse a viabilidade financeira da operação.
Quando Costa apareceu no BC com seu plano de compra, os técnicos da instituição se assustaram, como mostrou uma reportagem publicada pela piauí em fevereiro deste ano. “Tudo era muito amador. O balanço do BRB era uma bagunça”, disse um analista do BC, que pediu para não ser identificado porque não tem autorização para falar do assunto. “O Paulo Henrique fazia o que queria. Apenas ele e o diretor financeiro, o Dario Oswaldo Garcia Junior, participavam das reuniões. O Conselho de Administração do BRB nunca apareceu para opinar. Os conselheiros não tinham a menor ideia do que estava acontecendo”, continuou. “O BRB, claramente, era uma instituição sem governança.”
Nas reuniões com o Banco Central, Costa não conseguia justificar nem aspectos básicos da operação. Não sabia informar com que ativos do Master o BRB pretendia ficar. Não sabia detalhar as operações que interessavam ao BRB. O mais grave: não tinha noção do passivo do Master. Ou seja: estava se comprometendo a pagar todas as dívidas do banco de Daniel Vorcaro, como manda a lei de aquisição bancária, sem, no entanto, ter ideia do tamanho do buraco. “O risco a que o Paulo Henrique estava expondo o BRB era imenso. Aquilo não era sério”, disse outro analista do Banco Central que participou das reuniões na época.
Além de desconhecer informações banais, Costa tentou vender gato por lebre. Um dos ativos que ficariam com o BRB eram cártulas do finado Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), que foi comprado pelo Banco do Brasil em 2008. As cártulas eram ações do antigo Besc que não haviam sido trocadas pelas ações do BB no momento de sua aquisição – e, esquecidas na gaveta, haviam perdido a validade. Costa e Vorcaro diziam que as tais cártulas valiam 13 bilhões de reais porque seriam cobradas judicialmente do BB.
“Era tudo na base do chute”, me disse esse técnico do BC. “Eram tantos erros grosseiros que parecia coisa de estagiário.” Houve, inclusive, operações claramente fajutas. Numa delas, o BRB apontou como ativo uma carteira de 3 bilhões de CDBs do Master que, naquela altura, já tinha virado pó. Costa chegou a dizer que algumas operações que garantiam a viabilidade do negócio dependiam do resultado do Will Bank, que pertencia ao próprio Master. Era uma afronta. O Will Bank nunca deu resultado positivo. Pelo contrário.
Em meio à barafunda, o BC encontrou a mais tenebrosa de todas as transações entre as duas instituições. Em janeiro de 2025, Master e BRB fizeram um negócio no valor de 12,2 bilhões de reais. O BRB pagou essa quantia pelas carteiras de créditos do Master – no caso, empréstimos consignados que o banco dizia ter a receber. O BC pediu que as duas instituições comprovassem os recursos das carteiras de crédito. O que recebeu de volta foi uma carrada de mentiras. Primeiro, disseram que se tratava de uma carteira de empréstimos consignados de servidores do estado da Bahia. Ao checar os números com o estado, o BC descobriu que era mentira. “Durante todo o processo de levantamento das fraudes, o Vorcaro e o Paulo Henrique mantinham a calma e diziam não haver nada de errado naquelas operações grosseiras. Mas, quando foram pegos nessa mentira, foi a primeira vez que eles saíram da reunião conosco com as mãos suadas”, disse o analista.
Mesmo ao se deparar com o embuste, o BC resolveu dar uma nova chance para que as duas instituições se explicassem. Veio outra impostura. A justificativa, agora, era de que os créditos pertenciam a uma empresa chamada Tirreno Consultoria, Promotoria de Crédito e Participações S.A., que era representada por um ex-funcionário do Master chamado André Felipe de Oliveira Seixas Maia. Falso. Nem a Tirreno e nem os créditos existiam de verdade. Estava claro que o BRB desembolsara 12,2 bilhões de reais em troca de vento.
Diante da evidência de que fora lesado, seria razoável imaginar que o BRB exigiria devolução imediata dos 12,2 bilhões. No entanto, o banco propôs ao Master que lhe pagasse em várias prestações. Coisa de pai para filho. Ainda assim, o Master não topou. Sua contraproposta foi ressarcir o BRB com cotas de seus fundos no exterior. O BRB, sempre generoso com o Master, aceitou. Quando saiu em busca dos fundos, descobriu que, mais uma vez, era tudo cascata. Os fundos tinham sido fechados e o dinheiro, evaporado.
Em abril de 2025, meses antes de ser afastado da presidência do BRB, Paulo Henrique Costa recebeu a piauí na sede do banco, em Brasília. Sentado à cabeceira da enorme mesa de uma sala de reuniões, recontou a própria trajetória e, apesar dos alertas que vinham de todos os lados, defendeu com empolgação a compra do Master pelo BRB. “A história de transformação do BRB se conecta diretamente com a operação que estamos discutindo agora”, disse. “Até 2018, o BRB estava parado no tempo e perdeu muitos clientes. A carteira de crédito vinha diminuindo e, na nossa visão, o objetivo de um banco público não era perder tamanho. Ao contrário, era ser competitivo e forte.” Segundo ele, o banco fez uma análise com a chegada do governo de Ibaneis Rocha, em 2019, e concluiu que não podia continuar pequeno, engessado nas operações de empréstimos consignados que atendiam apenas o servidor público e um único ente da federação. O banco precisava ser moderno e competitivo e buscar novos clientes, dentro e fora do Distrito Federal.
Em 31 de dezembro de 2018, de acordo com Costa, o BRB tinha 650 mil clientes, uma carteira de 9 bilhões de reais de crédito e 15 bilhões de ativos totais, todos concentrados no consignado. Com a nova proposta de ser mais agressivo, o banco deu um salto. Em 2024, alcançou 9 milhões de clientes, distribuídos “em 97% do território nacional”, de acordo com Costa. Os ativos totais do banco brasiliense pularam para 61 bilhões. Ele se gabava: “Somos responsáveis por 54% da carteira de crédito imobiliário do Distrito Federal.”
Com tanto sucesso, por que o BRB precisava se juntar a um banco tão duvidoso? “Oportunidade”, disse ele. A oportunidade surgiu em dezembro de 2024, logo depois que o BC deu um ultimato aos controladores do Master. “Nós tínhamos feito um aumento de capital em agosto de 294 milhões, e depois fomos ao mercado buscar carteiras de crédito para adquirir. Antes, em julho do ano passado, chegamos a ter contatos com o Master. Examinamos algumas carteiras de crédito consignado. Em outubro, fomos procurados novamente pelo Master, agora com a proposta de uma parceria estratégica, mas não nos interessamos.” Dois meses depois, com o Master já sob pressão, o BRB mudou de ideia.
A negociação se arrastou até o limite do razoável. Em setembro do ano passado, enfim, o Banco Central rejeitou a compra do Master pelo BRB. Dois meses depois, a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero, prendendo Daniel Vorcaro. Desde então, a situação de Paulo Henrique Costa se complicou. Em novembro, logo depois da operação da PF, ele foi afastado da presidência do BRB por decisão judicial e acabou demitido por Ibaneis. Costa é investigado por não ter seguido práticas de governança e ter permitido negócios com o Master sem lastro. Além disso, segundo a colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, os investigadores identificaram seis imóveis que teriam sido recebidos como propina pelo ex-presidente do BRB.
A defesa de Costa nega que ele tenha cometido qualquer crime. Em fevereiro, quando a piauí publicou a reportagem A contaminação, o ex-presidente do BRB enviou uma nota por meio de seu advogado em que contesta os relatos feitos na reportagem. Segundo ele, a operação de compra do Master ocorreu “dentro dos ritos formais de governança do BRB” e “permaneceu, em todo o tempo, submetida a salvaguardas técnicas, contratuais e aprovações regulatórias”. A nota termina dizendo: “Paulo Henrique Costa confia que a análise técnica e institucional dos fatos, à luz do devido processo legal, demonstrará a correção dos procedimentos adotados e a improcedência das narrativas veiculadas.”