questões criminais

ASSÉDIO E SILÊNCIO NO ESPORTE CLUBE PINHEIROS

Ao longo de anos, o clube de São Paulo abafou condenações do gerente de segurança por assédio sexual e moral – até que a devassa feita após uma série de furtos acabou trazendo esses casos à tona
Imagem Assédio e silêncio no Esporte Clube Pinheiros

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O caso que mobiliza as conversas no Esporte Clube Pinheiros, frequentado pela elite econômica da cidade de São Paulo, começou com uma série de furtos. Um par de sandálias foi surrupiado na área da piscina e a dona do calçado precisou voltar para casa descalça. O celular de uma babá, esquecido em cima de um banco enquanto brincava no parquinho do complexo de lazer com o filho de sua patroa, desapareceu. Episódios semelhantes ocorreram nos dois estacionamentos de carrinhos de bebê – um localizado na entrada do parquinho, outro no corredor próximo à brinquedoteca. Recentemente, ao menos duas mochilas que estavam em cima dos carrinhos desapareceram.

Os grupos de WhatsApp de membros do clube – que é uma referência para o esporte no país e tem entre seus sócios Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, e Guilherme Benchimol, fundador da XP Investimentos – entraram em ponto de fervura.

Em dezembro de 2023, na área externa próxima ao teatro, os óculos de sol de uma sócia sumiram. Ela pediu para ver as imagens das câmeras de segurança. Foi quando constatou a autora do crime: uma conselheira do Clube Pinheiros, sua colega do curso de italiano. “Ela pegou os óculos de sol dela e pendurou na camiseta do marido. O meu, pendurou na camiseta dela”, recorda a vítima, que pediu para não ser identificada. A larápia soube que foi identificada nas imagens e ligou para a vítima, que não atendeu às chamadas. Por intermédio de amigos em comum, ficou combinada uma data para a devolução dos óculos (a ser feita cara a cara), nas proximidades das piscinas externas. Mas quem furtou não apareceu – e devolveu o acessório no dia 28 de dezembro para o setor de ética. “O problema maior é como o Pinheiros lida, não o evento em si. Os caras acobertam. Essa mulher não pode ser conselheira nem ter outro cargo. Tinha de ser exonerada e ser suspensa”, diz a vítima. A conselheira foi mantida no cargo.

Um outro furto, ocorrido meses antes, iria acabar revelando questões ainda mais graves. O advogado e conselheiro do Esporte Clube Pinheiros Bruno Minioli deixou sua bolsa em uma cadeira perto da área conhecida como Praça Boulevard. Quando voltou, ela não estava mais lá. Era janeiro de 2023. Minioli comunicou o caso ao setor de segurança. Para identificar o autor do crime, pediu acesso ao sistema de segurança. O resultado deixou mais dúvidas do que respostas. A câmera que mostrava a área em questão tinha um lapso temporal. “Curiosamente, essa câmera tinha um gap de 17 minutos”, recorda Minioli. Foi durante esse gap que a bolsa sumiu.

Minioli ficou possesso e abriu duas sindicâncias junto ao setor de Governança e Compliance, uma de número 260, para tratar do furto, outra de número 261, para apurar o comportamento do gerente do departamento de segurança operacional da entidade, chamado Paulo Sérgio de Andrade. A questão do furto foi parcialmente solucionada. O clube ressarciu o valor da bolsa e dos itens que estavam dentro do acessório, como óculos escuros. No relatório final, o então presidente do Pinheiros, o empresário Ivan Castaldi Filho, escreveu sobre o lapso temporal da câmera: “A gravação do momento da ocorrência se deu porque o equipamento estava configurado para gravar e detectar movimentos a partir de uma variação mínima na porcentagem de frames.” Diante dessa idiossincrasia tecnológica, nada de o rosto aparecer.

Minioli, o conselheiro, decidiu então levantar a ficha do gerente de segurança do clube e trouxe à tona um histórico de conduta que não era conhecido por boa parte dos sócios. 

Paulo Sérgio de Andrade entrou no Pinheiros como encarregado, ainda no ano de 1992. Foi galgando degraus em diversas diretorias, muitas delas brigadas entre si. Cresceu, até ficar acima de todo o staff do clube e de terceirizados responsáveis pela segurança. De um total de mais de 1500 funcionários do Pinheiros, cerca de 300 são ligados à segurança – como monitores, guardas e porteiros. Na investigação pedida por Minioli, veio à tona que ao longo desse tempo o chefe de segurança colecionou condenações por assédios sexual e moral, tratados pelo clube com máxima discrição.

Em 2011, no processo de número 0165000-05.2010.5.02.0072, uma ex-funcionária do Pinheiros entrou com uma ação trabalhista em que alegou ter sofrido tentativas de ser agarrada e beijada por Andrade, além de ter sido chamada de nomes como “prostituta, gostosa e cachorra”. Uma testemunha confirmou os fatos e o clube foi condenado a pagar uma multa de 7 mil reais. Apesar disso, manteve Andrade em seus quadros.

Dois anos depois, houve um novo processo, de número 002397-80.2012.5.05.0050, dessa vez por assédio moral. Um ex-subordinado de Andrade alegou ter sido alvo de racismo. A Justiça trabalhista sentenciou o clube a pagar 15 mil reais por danos morais. Andrade continuou na folha de pagamento.

Em 2014, no processo de 0000262-85.2014.5.02.0063, uma ex-funcionária entrou com uma ação contra Andrade relatando ter sido chamada de “incompetente” e impedida de usar um determinado banheiro e de fazer compras na lanchonete. Segundo a denúncia, ele sugeria que ela urinasse em um copo. As situações vexatórias foram confirmadas por duas testemunhas, e o resultado foi uma sentença por dano moral no valor de 10 mil reais. O clube arcou com a despesa e, mais uma vez, seguiu com Andrade à frente de seu departamento de segurança.

Em 2021, mais um processo por assédio sexual, este de número 1000387-21.2021.5.02.0021. Uma ex-funcionária contou que o chefe dizia querer beijá-la e que abria o sistema de câmeras de segurança para monitorá-la. Ela contou à Justiça que, em certa ocasião, Andrade a abraçou pelas costas e apalpou seus seios. O resultado foi mais uma condenação, dessa vez com multa de 50 mil reais ao Pinheiros. De novo, Andrade seguiu intacto em seu emprego.

Nem todo profissional que conta ter sido vítima de assédio sexual entrou com ações na justiça. Rosemeire Alencar, hoje com 51 anos, passou em um processo de seleção do RH do clube em 2006, para trabalhar como atendente de portaria. Ela recorda que, em seu primeiro dia no novo emprego, foi assediada por Andrade assim que se sentou para jantar. “Ele convidava para sair, falava da minha calça legging, era muito insistente.” Ela relata que, como não cedeu aos assédios, ele passou a retaliá-la com xingamentos e troca de postos de trabalho. E que, diante dessa pressão, ela adoeceu: sentia calafrios ao cruzar a catraca do Pinheiros e procurou o médico do clube, que constatou crises de ansiedade e depressão.

Seis meses após ter sido contratada, ela relata, tomou uma caixa de medicamentos dentro do clube para tentar se matar, mas foi socorrida antes que o pior acontecesse. Passou duas semanas internada e ficou afastada por dois anos, para tratamento de saúde. “Quando voltei ao trabalho, ele me falou que nenhum colega iria me aceitar ali novamente.” Ela fez um acordo trabalhista e foi demitida. “Desde então, eu nunca mais consegui trabalhar CLT em nenhum lugar. Tenho sequelas até hoje.” Segundo ela, um conselheiro e um médico do trabalho foram informados sobre os fatos, mas não houve desdobramentos. “A verdade é que rico não liga para o que o pobre está passando, quer que a gente cumprimente todo mundo com sorriso no rosto.”

Fora do ambiente profissional, Paulo Sérgio de Andrade se tornou alvo de uma investigação criminal por suspeita de estupro de vulnerável. Uma ex-namorada dele, de uma relação de dois anos, contou que chegou em casa após um dia de trabalho e encontrou chorando a sua filha de um outro relacionamento. A menina tinha 8 anos. Após conversar com a criança sobre o que havia acontecido, esta relatou ter sido molestada pelo padrasto. No mesmo dia, essa mulher fez as malas e saiu da residência com a sua filha – e foi até a delegacia para dar parte.

A notícia dessa investigação colocou mães e pais em alerta, e o tema correu os grupos de WhatsApp. 

A reportagem da piauí entrou em contato com a mãe da criança, que confirmou todo o conteúdo do documento. Ela pediu para não ter seu nome divulgado, para não expor a filha. O caso virou um inquérito policial, arquivado em setembro de 2022 porque a menina não foi levada para prestar novo depoimento junto ao Instituto de Medicina Social e de Criminologia de São Paulo. Sem esse depoimento, o caso não tem continuidade. Desde 2018, a criança, hoje uma adolescente, tem feito acompanhamento psicológico. A mãe explica que decidiu que ela não falasse mais nos autos para não precisar reviver todo o caso.

Com processos trabalhistas e boletim de ocorrência em mãos, o advogado Bruno Minioli procurou a direção do Pinheiros em fevereiro deste ano. Na condição de sócio e conselheiro, ele queria saber a razão para manter em seus quadros alguém com um histórico de assédios. Nada foi feito. A única mudança foi a promoção de Andrade em agosto de 2023 pelo atual presidente, o ex-jogador de basquete e empresário Carlos Alexandre Brazolin.

“Posso dizer que o setor de compliance me chamou para uma reunião ainda no ano passado, para dizer que a recomendação era pela demissão desse funcionário”, diz Minioli. No entanto, não lhe foi entregue nenhum documento como prova desse resultado de conclusão.

Na quarta-feira (28), a reportagem da piauí procurou a assessoria de imprensa do Esporte Clube Pinheiros para solicitar informações e entrevistas sobre os casos de furtos e sobre o histórico de assédios de Andrade. Logo em seguida, por volta das 13 horas, a reportagem ligou para Andrade. Ele disse não ter nada a declarar sobre as acusações de assédio sexual nem sobre a denúncia por estupro de vulnerável. Sobre a onda de furtos dentro do Clube, ele falou: “Os furtos no clube não têm nada a ver com esses outros assuntos que você está colocando.”

Uma hora após a conversa com Andrade, a assessoria de imprensa do clube informou que o seu gerente de segurança havia sido desligado. E na manhã desta quinta-feira enviou a seguinte nota:

O Esporte Clube Pinheiros não tolera qualquer tipo de assédio ou má conduta por parte de seus colaboradores ou associados e possui canais internos que apuram as denúncias com profundidade. 

O funcionário, alvo de denúncias que chegaram ao Compliance, foi demitido. Sobre a alegação de crime que consta dos fatos relatados, apesar da própria denúncia dizer que o caso foi arquivado, o clube oficiou as autoridades em busca das informações oficiais.

O clube está atento a questões envolvendo reclamações de furtos por parte dos associados e já reforçou os procedimentos de segurança. O caso relatado pelo associado foi devidamente resolvido.

Dentre as perguntas não respondidas pela entidade, e a que mais incomoda o público de lá, é por que manter na chefia de segurança alguém com um histórico de condenações por assédio que resultaram em multas à entidade. O Esporte Clube Pinheiros tem 40 mil sócios e é um dos maiores centros poliesportivos de excelência do país. Atletas como os nadadores Gustavo Borges e César Cielo, a ginasta Daiane dos Santos e o judoca Rafael Silva treinaram no complexo. Entre título e transferência, para se tornar sócio individual do Pinheiros é preciso desembolsar em torno de 250 mil reais.


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Repórter da piauí, publicou A Beleza da Vida: A Biografia de Marco Antonio de Biaggi (Abril)