anais do extremismo
Carolina Tarrio, de São Paulo 28 Jul 2026
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Os ultraconservadores morrem de medo da Raquel. Mas Raquel é apenas uma menina do interior que se mudou para o Rio de Janeiro levando consigo “três grandes vontades”, não vontades corriqueiras, como tomar sorvete a toda hora. A primeira é crescer logo e virar adulta, para ser ouvida e levada a sério. A outra é se tornar escritora, para poder expressar o que sente e inventar todas as histórias que lhe der na telha. A terceira vontade é ser menino, porque os meninos podem fazer muito mais coisas do que as meninas – algo que provavelmente todas as garotas do mundo já constataram em algum momento de suas vidas.
Raquel não existe de verdade. Ela é a personagem principal do livro A bolsa amarela, de Lygia Bojunga, escritora gaúcha laureada com os prêmios Hans Christian Andersen e Astrid Lindgren Memorial, as maiores honrarias mundiais para autores infantojuvenis. Embora Raquel tenha sido criada em 1976, foi nos últimos anos que sua história e as vontades que ela carrega dentro da bolsa passaram a mobilizar pais e autoridades no Brasil. Antes mesmo de lerem o livro e descobrirem que a personagem não tem nenhum desejo de transicionar e virar menino de fato, algumas pessoas querem que Raquel seja escondida para sempre das crianças. “Ideologia de gênero!”, bradam indignados, lembrando a Rainha de Copas de Alice no país das maravilhas, aquela que gosta de repetir: “Cortem-lhe a cabeça!”
Em 2022, em Garopaba, no litoral de Santa Catarina, cidade para onde acabara de se mudar, a terapeuta do som Thais Chita, então com 46 anos, e sua filha Clara, de 8 anos, testemunharam a indignação. Em um sábado, Clara foi ao aniversário de uma colega da escola da qual tinha ficado bem próxima e levou de presente o livro A bolsa amarela. Na segunda-feira seguinte, a terapeuta recebeu da mãe da aniversariante um áudio de 8 minutos, do qual se recorda bem: “Ela dizia que o comportamento de sua filha estava mudando devido à convivência com a minha filha, que isso incomodava a família dela, e que por isso iria afastar as duas. Também falou que a gota d’água tinha sido o livro dado de presente, já que a personagem principal promovia ideologia de gênero.”
Ao levar a filha ao colégio, Thais Chita foi chamada pela diretora e a coordenadora pedagógica, que contaram, muito nervosas, que o pai e a mãe da amiga de Clara tinham ido até lá e exigido aos gritos que as duas meninas fossem separadas de sala. Quando a terapeuta e seu ex-marido (o pai de Clara, que morava em Brasília) ainda avaliavam se deveriam falar ou não com a filha sobre o ocorrido, Thais foi novamente convocada à escola. A diretora e a coordenadora lhe disseram: “Recebemos um vídeo falando de você e não sabemos se é melhor te mostrar ou não.” Ela quis ver. Na tela do celular, o livro A bolsa amarela ia sendo incinerado em uma churrasqueira, enquanto o pai da aniversariante (que tomou o cuidado de não aparecer, deixando apenas sua voz) soltava impropérios, como: “Uma vagabunda está tentando doutrinar minha filha com ideologia de gênero!” O vídeo já estava circulando entre pais da escola e em outros grupos na cidade.
“Senti um soco no estômago”, lembra Thais. “Nesse momento, entendi que precisava conversar com a minha filha e me proteger. Cheguei a pensar em voltar para São Paulo, onde eu morava antes.” Apesar de receber o apoio de alguns pais, ela achou melhor acionar organismos de defesa dos direitos humanos nos quais já tinha trabalhado. Também avisou seus parentes e amigos sobre a situação e, com medo, passou a caminhar apenas por ruas movimentadas. “Demorei uma semana para conseguir contar tudo para a Clara. Explicamos que, por nós, ela poderia seguir sendo amiga da menina, mas que os pais dela não queriam a amizade das duas. Clara ficou chateada, chorou”, lembra a terapeuta. Poucos meses depois, a colega de Clara foi transferida de escola. O colégio não quis informar à piauí o contato dos pais.
A perseguição ao livro A bolsa amarela não parou nesse episódio nem em 2022. O caso mais recente aconteceu em meados de maio deste ano, quando o Colégio Militar Dom Pedro II (CMDP II), gerido pelo Corpo de Bombeiros no Distrito Federal, transmitiu para alunos do quarto ano do ensino fundamental, como atividade de língua portuguesa, um link com uma resenha de A bolsa amarela. Grupos de WhatsApp de pais e mães, assim que viram o exercício, entraram em polvorosa.
A piauí teve acesso a algumas conversas. Nelas, um dos pais diz: “Que palhaçada é essa? Daqui a pouco vai ter parada do orgulho [gay] dentro da escola. O que está acontecendo com os bombeiros do DF/CMDP II?” Outro reclamou: “Na boa, pode ser o ministro da Educação falando. Se tem esse tipo de ideia de mudança de gênero, ou outras ideias que não são para a idade das crianças, não tem que estar na grade curricular.” Uma mãe contou que a leitura da resenha provocou questionamentos em sua casa: “Ontem, meu filho me perguntou o que era homossexualismo. Precisei introduzir o assunto.” Resta saber o que despertou a dúvida, já que A bolsa amarela não toca no tema da homossexualidade. Mas a balbúrdia estava instalada.
O colégio explicou aos pais que se tratava apenas de uma resenha, e não de um pedido de leitura do livro, mas retirou o link do ar para “avaliação pela área pedagógica”, sem se referir à questão de gênero. Feita a avaliação, o capitão Sidemar da Silva Neves, chefe da seção de relações públicas e ouvidoria do colégio, considerou que não havia nada de mais na resenha. “Foram alguns pais que não leram o livro. Eles interpretaram, em sua cabeça, que se tratava de ideologia de gênero. A escola não trata de ideologia de nenhum tipo”, ele diz.
Como o caso foi parar nos jornais, o colégio se viu obrigado a soltar uma nota oficial, dizendo que “a atividade permanecia alinhada aos objetivos estabelecidos no planejamento didático, voltados exclusivamente ao desenvolvimento de competências de leitura, interpretação e análise textual, [...] sem prejuízo pedagógico aos discentes, nem tampouco qualquer direcionamento de natureza ideológica”. O capitão diz que, embora a equipe pedagógica tenha avaliado que não havia problemas com a resenha, depois de a atividade ser concluída, o link não voltou a ser utilizado.
Sidemar assegura à piauí que não teria problemas em adotar A bolsa amarela na escola, se fosse preciso, já que é uma obra reconhecida. “Quem ler o livro vai entender perfeitamente o que a personagem quer dizer com querer ter nascido menino: é porque os meninos tinham benesses que as meninas não tinham”, explica. A obra não foi adotada no Colégio Militar Dom Pedro II, mas está disponível em bibliotecas públicas desde 2002, quando foi comprada pelo governo para distribuição no país, dentro do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE). Em 2009, foi adquirido outra vez pelo Programa Nacional do Livro e Material Didático (PNLD), que substituiu o PNBE.
A escritora Lygia Bojunga, hoje com 93 anos, deixou de dar entrevistas. Ninfa Parreiras, vice-diretora do conselho diretor da Fundação Cultural Lygia Bojunga, que publica as obras da autora, contou que não se espanta com a reação dos pais do Distrito Federal ou de Santa Catarina. Ela já testemunhou vários episódios de fúria ultraconservadora ao livro. “A bolsa amarela traz uma crítica ao machismo colocada muito textualmente, nas primeiras páginas”, diz. “As pessoas não leem o livro inteiro, mas recortam um fragmento, não aprofundam, não interpretam e vão lacrar no Instagram. É algo bem típico do nosso tempo.”
A bolsa amarela foi lançado há cinquenta anos. Em 1976, as vontades de Raquel não provocaram alvoroço algum na opinião pública, apesar de o país viver em plena ditadura militar, quando pouco ou nada se falava sobre transição de gênero. Calçada muitas vezes em interpretações errôneas ou exageradas, a fúria censora da ultradireita contra as obras infantojuvenis ganhou fôlego sobretudo a partir de 2018. Foi nesse ano que Jair Bolsonaro ressuscitou a mentira de que o governo petista havia distribuído nas escolas um “kit gay”, ao dizer que dele fazia parte o livro Aparelho sexual e cia. (no qual os franceses Zep e Hélène Brûlé explicam as relações sexuais para os pequenos), o que não era verdade – nem o kit gay, nem a distribuição do livro pelo governo. A preocupação com a moralidade das crianças virava uma arma política no Brasil.
Em 2019, Damares Alves, então ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do governo Bolsonaro, afirmou durante uma pregação evangélica na Paraíba que estava sendo distribuído no Nordeste “um manual de bruxaria para crianças”. Tratava-se do livro de ficção infantojuvenil Manual prático de bruxaria em onze lições, do ilustrador britânico Malcolm Bird, que sugere de maneira bem-humorada como fazer feitiços de mentirinha. “Damares gravou um vídeo dizendo: ‘Olha o que estão ensinando para as nossas crianças: como virar bruxa! Estão invocando seres demoníacos!’”, relembra a educadora Mônica Correia Baptista, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e doutora em educação pela Universidade Autônoma de Barcelona. “É um pensamento primário, que atribui imenso poder à literatura, como se a simples frase de um livro pudesse abalar toda a educação recebida em casa e precisasse ser controlada.”
Por vezes, a fúria censora não precisa de interpretações hiperbólicas para se manifestar. Em 2021, uma versão em quadrinhos de O diário de Anne Frank (de Ari Folman e David Polonsky) fez estardalhaço em um colégio particular de São Paulo, o Móbile. Cerca de noventa pais assinaram um abaixo-assinado contra a HQ, que traz trechos do diário original da jovem judia suprimidos por seu pai da primeira edição do livro – como as passagens em que Anne Frank fala de sua sexualidade adolescente.
A censura de livros para crianças e adolescentes no Brasil ocorre pelo menos desde 1850, segundo a pedagoga Camila Petrovich, que estudou o assunto no trabalho de mestrado Atos de controle, censura e regulação na literatura infantil. Naquele ano, as escolas do Rio substituíram as Fábulas de Esopo no currículo pelo livro Thesouro dos meninos, de Pierre Louis Blanchard, alegando que este livro era pautado pelo moralismo e tinha finalidade educativa, o que não ocorria com a outra obra.
O ímpeto censor não é exclusividade brasileira. Um dos clássicos mais famosos para crianças, Onde vivem os monstros, de Maurice Sendak, passou por ataques desde o seu lançamento, em 1963, sendo até retirado de escolas e bibliotecas nos Estados Unidos. Na época, esperava-se que livros infantis servissem para ensinar lições morais e de bom comportamento. A obra de Sendak quebrou esse paradigma. Nela, o protagonista Max responde à mãe, faz birra e é chamado de “selvagem” (na versão brasileira, traduziu-se como “monstro”). Deixado de castigo, ele empreende uma viagem à terra dos monstros, onde se torna rei. Mas quem serão os monstros afinal? Os desajustados, os diferentes? Os estrangeiros? “O que se busca é cercear a leitura de determinados livros considerados impróprios para crianças e jovens porque trazem personagens mais livres ou desobedientes, mas que por isso mesmo ajudam na formação de um leitor crítico, que pode pensar por si só”, diz a educadora Mônica Baptista.
Além de tolherem obras literárias, os conservadores radicais estão procurando também minar a confiança na escola, ao espalhar a ideia de que “a família educa e a escola ensina”, nas palavras de Mônica Baptista. Segundo esse princípio, a escola deve ter um papel neutro, técnico, na formação das crianças, sem entrar em discussões sociológicas ou políticas. “É um ataque deliberado: cria-se um pânico moral que coloca a escola como uma instituição perigosa, contraposta à família tradicional, e espalha-se a crença de que um livro ou um professor podem direcionar a criança. Essa tragédia se completa quando a escola se submete a isso”, diz a educadora.
Em abril deste ano, uma lei estadual promulgada em Santa Catarina assegurou aos pais e responsáveis o direito de vetar a participação de seus filhos em “atividades pedagógicas de gênero” nas escolas. Tais atividades foram definidas como aquelas que “abordam temas relacionados à identidade de gênero, à orientação sexual, à diversidade sexual, à igualdade de gênero e a outros assuntos similares”. Proposta pela deputada estadual Ana Campagnolo (PL), que adotou como lema a frase “Minha família, minhas regras”, a nova legislação obrigava as escolas a informarem previamente os pais sobre a realização de atividades com esses temas e obterem autorização expressa deles para a participação do aluno. Em suas redes sociais, Campagnolo disse: “Se seu filho estuda em escola pública, é certeza absoluta que ele está sendo doutrinado!” Mas a alegria conservadora durou pouco: em junho, a lei foi declarada inconstitucional pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina, em votação unânime. Campagnolo recusou o pedido de entrevista feito pela piauí.
Nesse embate entre pais e educadores, muitas vezes o professor é a parte mais fraca, como ressalta o antropólogo João Quaresma. “No chão da escola, a situação é muito frágil: se o professor fez uma opção pedagógica, se tinha um objetivo, a hora que um aluno comenta algo em casa e os pais vêm furiosos reclamar, tudo cai por terra”, afirma. “Ninguém protege o professor nem a obra. A direção logo cede, se alinha aos pais, e o professor é colocado nesse lugar de vilão doutrinador.” Quaresma trabalhou entre 2022 e 2023 na Coordenação Geral de Materiais Didáticos, setor do Ministério da Educação responsável por avaliar obras e materiais distribuídos às escolas.
Ele conta que a literatura e as ciências são as áreas que mais geram disputas e mobilização dos ultraconservadores. “No oitavo e nono anos, então, é o caos, porque a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) determina que se fale sobre o aparelho reprodutivo”, diz. Ele conta que o pânico moral chegou a tal ponto que, durante o governo Bolsonaro, até a semântica virou campo minado e o Ministério da Educação foi obrigado a evitar a expressão “gênero alimentício” porque continha a palavra “gênero”.
O antropólogo diz que grupos pequenos de ultraconservadores descobriram como fazer barulho e vêm, até hoje, tentando cercear tanto a aquisição de certas obras literárias pelo governo quanto os conteúdos de materiais didáticos. “Associações como a De Olho no Material Escolar, que faz lobby para retirar a palavra ‘agrotóxico’, estão cada vez mais estruturadas e organizadas. Eles querem controlar como se fala sobre reforma agrária nas escolas e o que é dito sobre o agro, por exemplo”, afirma Quaresma.
A produtora rural Letícia Jacintho, que preside a De Olho no Material Escolar, criada em 2021 e que conta com 378 associados, explica que a entidade nasceu da insatisfação de alguns pais que perceberam que os livros didáticos “continham informações desatualizadas e sem fontes científicas”. Hoje, a associação faz lobby no Congresso para influir na legislação da área de educação e conduz um programa de capacitação para professores chamado Mestres no Agro. O programa também promove visitas de escolas a centros de pesquisa do agronegócio, fábricas e fazendas. Em 2022, bancou uma pesquisa conduzida pela Fundação Instituto de Administração (e que está sendo repetida agora por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista), para buscar menções sobre temas relacionados ao agro em materiais didáticos.
A pesquisa parte da escolha de uma raiz, como “agro”, por exemplo, e todas as palavras derivadas, como “agrícola”, “agricultura” e “agrotóxico”, são mapeadas nos livros. Depois, um time de profissionais analisa essas citações e o contexto. A associação disse, sobre o termo agrotóxico: “Entendemos o uso da palavra, mas nossa recomendação é que se utilize o termo ‘pesticida’. Nesse sentido, o que fazemos é dialogar com editoras e levar essa sensibilização a elas.” Jacintho conta que a De Olho no Material Escolar montou uma “agroteca”, onde dados científicos podem ser consultados por professores. “Nunca denunciamos nenhum material, pois nossa intenção é entender o processo de confecção e construir pontes. Se os setores produtivos não se abrem e a academia fica de costas para o mundo, as editoras de material didático não têm como saber o que ocorre, se atualizar e traduzir isso para as crianças.”
As tentativas de cerceamento de obras infantojuvenis não ocorrem apenas por parte da ultradireita. Camila Petrovich, que além de pesquisar sobre censura a livros infantis atua também como professora, já recebeu reclamações até de clássicos como João e Maria ou Chapeuzinho Vermelho porque, segundo familiares apreensivos, conteriam ideias de abandono ou violência. Às vezes, alguns pais, mesmo não sendo conservadores, têm medo do que isso possa significar para seus filhos e preferem evitar a leitura dos contos pelas crianças. “O professor e a escola precisam se fortalecer. Sem colocar a família como inimiga, procurando entender as inseguranças dos pais, mas sem abrir mão de seu papel educador”, diz a pesquisadora. “É necessário conhecer os livros, atestar sua qualidade literária, apresentar e mediar a obra e explicar as motivações pedagógicas da escolha, sustentando-a com competência técnica.”
Petrovich avalia que muitos pais reagem ao conteúdo de certos livros porque veem a criança “como um sujeito estúpido, sem referências, sem leitura de mundo, totalmente à mercê de influências, e que por isso precisa de controle absoluto”. Muitos especialistas concordam, contudo, que é essencial para a formação das crianças que elas lidem simbolicamente com personagens e fatos cruéis, ou vejam refletidos em um livro seus medos reais, como o medo do abandono por parte dos pais. Isso as ajuda a elaborar emoções e situações, a se identificar e adquirir repertório.
Autores clássicos da literatura infantil brasileira, como Ziraldo e Ana Maria Machado, também não escapam das pressões. Em 2024, o escritor teve seu livro O menino marrom suspenso temporariamente em escolas municipais da cidade mineira de Conselheiro Lafaiete porque os pais consideraram agressiva uma cena em que os meninos fazem um “pacto de sangue”.
Acusações ainda mais pesadas recaíram sobre Ana Maria Machado. Uma postagem nas redes sociais espalhou que seu livro O menino que espiava para dentro incitava as crianças ao suicídio. Políticos chegaram a pedir que o Ministério da Educação tirasse a obra de circulação. Estupefata, a escritora declarou em entrevista ao jornal O Globo: “Foi como se uma bigorna caísse na minha cabeça. Até peguei o livro para reler, pensando que pudesse ter alguma frase infeliz. Mas que nada. É apenas a história de um menino cheio de imaginação que precisava de um amigo e acaba ganhando um cachorro.” O que assustara uma mãe fora o fato de o personagem Lucas se engasgar com uma maçã – o que, na história do livro, lhe franqueava a entrada no mundo da imaginação.
“Nas redes sociais, todo mundo é especialista em tudo. Alguém faz um vídeo dizendo que o livro A bolsa amarela contém ideologia de gênero e isso se amplifica”, diz Petrovich. “E como as redes vivem de chocar e criar alarme, logo vem o próximo livro a ser banido.” Encurralados por pressões, tanto o governo quanto as editoras e as escolas vivem em crescente insegurança, por vezes praticando uma espécie de autocensura.
Doutor em educação pela Unesp, Fernando Rodrigues de Oliveira se especializou no ensino de literatura infantil e atua como coordenador pedagógico em processos de avaliação de obras literárias do PNLD, o programa do governo que compra e distribui livros para escolas públicas. Ele explica como funciona a seleção. Depois de cada edital, forma-se uma comissão técnica (cujos nomes são públicos), que comandará o processo de avaliação. Cada obra é lida por duas pessoas que não têm contato entre si nem ligação com editoras: são em geral pesquisadores, professores universitários, críticos literários e professores da educação básica com mestrado, que constam de um banco de nomes do MEC ou são indicados pela comissão técnica.
Feitas as duas avaliações, os livros ainda passam por mais duas leituras por parte da comissão, que então emite um parecer sobre sua qualidade literária e adequação ao público leitor. “O edital estabelece princípios éticos e marcos legais que devem ser seguidos, sem determinar qualquer restrição a temas. Quando, dentro da obra, há alguma passagem que possa ferir o Estatuto da Criança e do Adolescente, por exemplo, como aparecer a ilustração de uma bebida alcoólica, a questão é mais amplamente discutida”, diz Oliveira. Nesses casos, o MEC ou o órgão jurídico do ministério podem ser envolvidos.
O antropólogo João Quaresma avalia que seria útil se o governo fizesse pesquisas de campo para testar iniciativas que fortaleçam os professores e viabilizar novas formas de tratar os temas sensíveis. “Se a gente está inserido em um universo em que a desinformação impera, a educação necessariamente tem de mudar. O MEC não pode agir com surpresa a cada vez que alguém tenta censurar um livro. É preciso montar uma investigação científica e testar metodologias e políticas urgentemente.” Para Oliveira, não existe livro que não possa ser lido pelas crianças e jovens. “O que precisa haver é mediação. Quando eu tiro do outro a possibilidade de ler, com o argumento de que estou tentando protegê-lo, roubo da criança o direito de pensar e construir uma representação própria sobre aquele assunto. É uma violência.”
Da parte das editoras, como cada uma só consegue inscrever poucas obras na seleção do PNLD e a compra pelo governo é de grande importância financeira, elas têm evitado o que Oliveira chama de “temas fraturantes”, como morte, violência, sexualidade ou gênero. “Acho que estamos todos com medo diante do acirramento ideológico que vivemos”, diz a editora Mell Brites, da Baião, o selo infantojuvenil da Todavia. “Tanto governo quanto editoras e escolas, que vêm sendo alvo de ataques pelas famílias, procuram se proteger. O que diminui a gama de possibilidades dos livros.” Mas ela garante que, ao menos na editora em que trabalha, não existe autocensura na seleção dos livros. “Mas temos muito claro quais livros são para a escola e para o governo, e quais não são”, ela explica. “Às vezes, basta haver um palavrão ou um ‘pra’ em vez de ‘para’, para correr o risco de ser eliminado em um edital.”
Essa situação não impede as editoras de arriscarem e, por vezes, se darem muito bem. Foi o que aconteceu justamente com o famigerado livro Aparelho sexual e cia., que Bolsonaro associou ao fantasioso “kit gay”. Mell Brites foi a editora responsável pela obra quando ainda trabalhava na editora Companhia das Letras, que a publicou no selo Seguinte, voltado para o público jovem. “O livro estava esgotado e provavelmente não teria chances de ser reimpresso tão logo, mas, com a confusão e a divulgação toda, a decisão da editora foi reimprimir”, conta a editora. “Toda a tiragem foi vendida. No fim das contas, Bolsonaro foi um excelente booktuber.”
Um dos companheiros que a menina Raquel encontra em sua jornada no livro A bolsa amarela é um galo chamado Terrível. Ele foi designado por seus donos para ser um galo de briga, vencer todas as rinhas e render bastante dinheiro para os patrões. Mas Terrível não tinha vontade alguma de lutar. Ele queria se apaixonar, fazer amigos, curtir a vida. Para vencer a rebeldia de Terrível, seus donos tiveram uma ideia: costurar com uma linha bem forte todos os pensamentos do galo, menos o pensamento de que ele teria de brigar e vencer sempre. O objetivo da história é claro: mostrar às crianças como algumas pessoas cerceiam a liberdade de pensar e controlam nossas várias vontades.
Agora, um spoiler.
No final do livro, Raquel se dá conta de que ser menina é muito bacana – e põe de lado a sua vontade de ser menino. Também entende que a infância é uma experiência essencial, que merece ser vivida sem pressa e com muita imaginação – e por isso ela não precisa crescer logo, o que era sua segunda vontade. Ela só não abandona a vontade de virar escritora. A bolsa amarela foi baseado na infância de Lygia Bojunga, que, aos 93 anos, continua a escrever (à mão) seus livros, que ensinam tanto às crianças sobre a importância da imaginação, da literatura e da liberdade.