anais da ditadura

FILHOS DE TORTURADORES ENFRENTAM O PASSADO NA ARGENTINA

Descendentes de agentes da ditadura se reúnem no Grupo Histórias Desobedientes
Imagem Filhos de torturadores enfrentam o passado na Argentina

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A psicopedagoga argentina Bibiana Marta Reibaldi, de 69 anos, percorreu um longo caminho até conectar as peças e entender quem era e como atuava seu pai. “Quando eu era pequena, ele fez várias viagens. Só bem mais tarde compreendi que ele foi treinado nos Estados Unidos, de onde me trouxe uma boneca dos Flintstones, que eu adorava”, lembra.

O pai dela, Julio Juan Reibaldi, trabalhou por anos na Inteligência do Exército argentino. Foi membro da Escuela de las Américas, centro de treinamento fundado no Panamá, onde militares latino-americanos eram apresentados a técnicas de contrainsurgência, tortura, infiltração e espionagem. “Durante a ditadura, ele viajou várias vezes a São Paulo, ao Rio de Janeiro e a Lima, no Peru, onde com certeza buscou e identificou pessoas que depois foram sequestradas, torturadas e mortas”, diz Bibiana, cuja infância foi similar à de muitas crianças filhas de militares.

Assim como ocorreu com vários colegas do grupo Histórias Desobedientes, somente ao entrar na faculdade pública, em 1974, Bibiana teve acesso aos fatos e começou a entender o que ocorria no país, que sofreria um golpe militar dois anos depois, em março de 1976. “Já no fim de 1974, minha faculdade foi fechada pela primeira vez. Estava tudo rodeado de policiais, armas, caminhões. Alguns colegas buscaram refúgio em um bar próximo, mas a polícia acabou entrando”, ela conta a Carolina Tarrio, na edição deste mês da piauí.

Ingenuamente, Bibiana pensou em pedir ajuda ao pai. Foi procurá-lo naquela mesma noite, no apartamento em que morava. Era um edifício com quitinetes, na Rua Viamonte, muito próximo ao lugar que abrigava o serviço de informações do Exército, onde ele trabalhava. “Quando cheguei, ouvi que alguém lá dentro estava chorando. Então olhei pelo visor da porta e vi uma moça sentada de cócoras, sobre a cama, soluçando e falando, e um homem ao lado dela, que não era o meu pai. Fiquei assustadíssima, e fui embora. A partir daquele episódio, percebi que algo muito obscuro acontecia”, diz.

Ela conta que, já no fim da ditadura, quando foi acompanhar seu pai em alguns exames, após um problema cardíaco, ele encontrou uns conhecidos que perguntaram: “E aí, o que você anda fazendo?” Julio Juan respondeu: “Agora, me dedico a caçar subversivos.” Bibiana diz que conseguiu reagir. “Mesmo ele dizendo isso com todas as letras. Me senti congelada, quebrada por dentro, como se, aos pedaços, eu me esparramasse pelo chão”, lembra.

Décadas depois, em 2017, Bibiana encontrou outros familiares de agentes da repressão na Argentina, que juntos criaram o grupo Histórias Desobedientes. No início, os participantes contaram com acompanhamento psicológico. “Agora conseguimos falar com mais facilidade, mas nas primeiras vezes, não foi fácil. Não é fácil”, diz Martín Azcurra, jornalista e ilustrador de 52 anos. Seu pai, Héctor Raúl Azcurra, um suboficial de Inteligência, atuou na Marinha e integrou a Força-Tarefa 6, unidade que prestou serviços na Base Naval de Mar del Plata, até 1980.

Todos os membros do grupo asseguram que, juntos, passaram por uma enorme transformação pessoal, que de algum modo os ajudou a processar os acontecimentos.

A partir do Histórias Desobedientes argentino, outros descendentes de repressores sentiram a necessidade de falar e se organizar, e novos grupos foram surgindo. Hoje, existem Histórias Desobedientes no Chile e no Uruguai. No Brasil, alguns familiares de agentes da repressão tentaram formar um grupo, que não foi adiante.

Assinantes da revista podem ler a íntegra da reportagem neste link.


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