festival piauí de jornalismo
Camille Lichotti 08 Set 2026
4 min de leitura
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Enquanto dirigia numa manhã de sábado, por volta das 11 horas, a caminho do supermercado, o jornalista Jeffrey Goldberg foi adicionado por engano a um grupo no aplicativo de mensagens Signal. Lá estavam figurões do governo Donald Trump, como o vice-presidente JD Vance, o secretário de Estado Marco Rubio, o secretário de Defesa Pete Hegseth, e Michael Waltz, à época Conselheiro de Segurança Nacional. Eles estavam planejando ataques militares iminentes contra rebeldes Houthis no Iêmen. “Eu olhava as mensagens e não acreditava”, disse Goldberg, que é diretor de redação da revista The Atlantic desde 2016.
Ele foi entrevistado neste domingo (6) por Daniel Bergamasco, editor executivo da piauí, e por Flavia Lima, repórter especial da Folha de S.Paulo, na mesa de encerramento do Festival piauí de Jornalismo. O evento, que chegou a sua décima edição, aconteceu na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, com o tema No olho do furacão – diretores de redação em tempos de tormenta. O festival reuniu oito jornalistas de sete países para falar sobre a experiência de comandar veículos importantes em momentos incandescentes do noticiário.
Assim que leu as mensagens, Goldberg entrou em contato com editores e advogados da The Atlantic. “Parecia muito estúpido para ser verdade.” Sua estratégia foi esperar um pouco para saber se os ataques de fato iam acontecer. Duas horas depois de ser incluído no grupo, por volta das 13 horas, Goldberg foi ao X e pesquisou qual era a situação do Iêmen. Então, descobriu que o bombardeio norte-americano havia ocorrido. “Foi uma loucura.”
Goldberg formou três equipes jurídicas antes de publicar a matéria: uma para resguardar o direito à liberdade de imprensa; a segunda para averiguar se aquelas informações, caso fossem publicadas, poderiam infringir alguma lei de Segurança Nacional; e a terceira especializada em direito penal, para garantir que nenhum jornalista fosse preso.
A reportagem foi publicada no fim de março de 2025, duas semanas após a inclusão de Goldberg no grupo do Signal da cúpula norte-americana. “Foi a reportagem mais preguiçosa que já fiz. Não precisava nem sair da cama”, disse o jornalista, com bom humor. Em seguida, afirmou que o objetivo principal da apuração era mostrar o erro do governo. Através do aplicativo, que em tese deveria ser proibido para troca de informações confidenciais por não permitir o registro e manutenção das mensagens, o núcleo duro da gestão Trump compartilhou segredos de Estado, estratégias de ataque e até o nome de um agente secreto da CIA, a principal agência de inteligência do país. O governo, no entanto, negou que as informações fossem secretas, ou teria de admitir a falha. “Mas qualquer um que tem olhos viu que era incrivelmente secreto. É a coisa mais secreta que poderia existir.”
Depois de publicar o escândalo, a revista foi duramente atacada por Trump e seus seguidores, com a alegação de que Goldberg deveria ter alertado sobre sua inclusão por engano. O jornalista afirmou que o grupo foi encerrado logo após os bombardeios. Disse também que a The Atlantic respeita a Segurança Nacional do país e que jamais colocaria a vida de um soldado americano em risco. Goldberg foi chamado para conversar pessoalmente com o presidente no Salão Oval da Casa Branca. “A Atlantic faria mais sucesso se fosse mais legal com Trump”, disse o presidente, falando de si mesmo na terceira pessoa.
Ao analisar a política norte-americana, Goldberg afirmou que é preciso acompanhar se o autoritarismo ficará restrito à figura de Trump ou se ele vai inaugurar um regime autoritário que perdurará. “Com essa atitude, o sistema de freios e contrapesos não resiste à pressão por muito tempo”, lembra ele. “Todos os presidentes mentem, todas as administrações tentam distorcer a verdade. Nós estamos lidando com algo diferente agora.” Daí a importância do trabalho investigativo dos jornalistas no país.
Sob o comando de Goldberg, a The Atlantic já venceu três prêmios Pulitzer. O primeiro foi concedido à cobertura detalhada e profunda da pandemia de Covid. Também foram premiadas uma reportagem sobre o trauma de uma família que perdeu o filho nos atentados de Onze de Setembro e uma investigação sobre a política do governo Trump de separar crianças imigrantes de seus pais na fronteira dos Estados Unidos.
Atualmente, a publicação tem mais de 1 milhão de assinantes, que sustentam 80% do orçamento da revista. Apesar do advento das redes sociais e da queda do número de leitores norte-americanos, Goldberg acredita que há demanda para os textos longos e aprofundados pelos quais a The Atlantic é conhecida. Para ele, isso não significa abandonar a presença nas redes sociais – o segredo é manter o mesmo nível de excelência na produção audiovisual.
O jornalista afirmou que um dos seus objetivos à frente da revista é alcançar o público mais jovem, de vinte e poucos anos, e mostrar a eles que “pensar é algo que precisa ser cultivado”. O fundamental, em tempos turbulentos, é que as ideias e debates propostos cheguem ao maior número de pessoas, ponderou Goldberg. “Nosso trabalho é explicar os Estados Unidos. Precisamos mostrar às pessoas que suas vidas serão melhores a partir do momento que elas tiverem consciência sobre o que se passa no mundo.”
Além de Goldberg, participaram do Festival piauí outros nomes importantes do jornalismo mundial. Entre eles, Dean Baquet, que chefiou o The New York Times entre 2014 e 2022; Musikilu Mojeed, editor-chefe do jornal nigeriano Premium Times; e Olga Rudenko, editora-chefe do jornal digital The Kyiv Independent. Confira aqui a lista completa.