questões de saúde

UMA ESTRANHA ESPECIALIDADE MÉDICA

Com formação em cursos de fim de semana, a “hormonologia” bomba no Brasil, no embalo de perigosos anabolizantes e dos chamados chips da beleza
Luiz Paulo de Souza Pinto, criador da Associação Brasileira de Hormonologia e maior referência dessa indústria no Brasil - Crédito: Reprodução
Luiz Paulo de Souza Pinto, criador da Associação Brasileira de Hormonologia e maior referência dessa indústria no Brasil - Crédito: Reprodução

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O Coliseu de Alphaville, em Barueri (SP), tem pouco em comum com seu antecessor romano. Não foi feito para gladiadores, tampouco é um marco arquitetônico notável. Não tem espaço para dezenas de milhares de pessoas, mas apenas para 3 mil, que vão até lá assistir a palestras e participar de eventos corporativos. É um típico centro de convenções – o maior de Alphaville, segundo o site oficial. Não recebe imperadores, mas, com frequência, recebe influenciadores. Já passaram por lá Pablo Marçal, o ruidoso coach que se candidatou a prefeito de São Paulo, e Joel Jota, podcaster que fala de negócios.

Nos dias 24 e 25 de abril, o coliseu, que não é bem um Coliseu, sediou o 3º Congresso Brasileiro de Hormonologia – uma especialidade médica que não é bem uma especialidade médica, na visão das entidades que regulam o exercício da profissão no Brasil.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) reconhece a existência de 55 especialidades médicas, da acupuntura à urologia, todas respaldadas por anos de produção científica nacional e internacional. Entre elas não está a hormonologia. E não é uma restrição especificamente brasileira. Quem procurar por hormonology na lista de especialidades do American Board of Medical Specialties (ABMS), órgão que certifica médicos e define parâmetros para o exercício da profissão nos Estados Unidos, ou no European Union of Medical Specialists (UEMS), que faz o mesmo na Europa, também não encontrará nada.

A “hormonologia”, ainda assim, está na praça. O termo designa um conjunto de terapias feitas com suplementos hormonais para fins estéticos e de saúde. Alguns desses suplementos são injetáveis, outros são inseridos no corpo por meio de implantes, também conhecidos como pellets ou “chips da beleza”. Os mais comuns são testosterona e sua parente sintética, a gestrinona. Os ditos hormonólogos prometem maravilhas a quem topa fazer esse tipo de reforço hormonal. Da cura da endometriose à recuperação da libido, do emagrecimento rápido à hipertrofia muscular, os hormônios são a resposta para tudo. Muitas associações médicas, por outro lado, acham isso uma conversa fiada – e perigosa.

No Brasil, promessas espetaculares envolvendo hormônios não são novidade. Décadas atrás, apresentadores de tevê como Hebe Camargo e Gugu Liberato já divulgavam em seus programas os ditos benefícios dos chips da beleza (termo popularizado por Hebe). O que mudou, nos últimos anos, foi a escala desse mercado, favorecido pela publicidade segmentada das redes sociais e por uma onda de influenciadores fitness. No Instagram, enquanto um ginecologista promete às suas seguidoras um “casamento forte” à base de oração e hormônios, um personal trainer vende “testo” (testosterona) para secar a barriga e aumentar a libido de homens de 30 anos ou mais. No TikTok, fisiculturistas analisam as melhores marcas de anabolizantes underground e onde elas podem ser encontradas.

Hormônios são mensageiros químicos excretados pelas glândulas do sistema endócrino, entre elas a tireóide, o pâncreas e os ovários. Eles circulam pelo sangue e conversam com células específicas, transmitindo informações e regulando desde a temperatura do corpo até a vida sexual. São, por excelência, o objeto de trabalho dos endocrinologistas, uma especialidade médica consolidada desde o começo do século XX e reconhecida mundialmente.

Tornar-se um endocrinologista, no entanto, é trabalhoso e difícil. Terminada a faculdade de medicina, acrescentam-se dois anos de residência em clínica médica e mais dois de residência em endocrinologia e metabologia. Essa residência especializada vem se tornando uma das mais concorridas da medicina, em parte porque ter um consultório particular de endocrinologia pode ser bastante lucrativo nestes tempos de medicina fitness. O Brasil tinha 2.553 endocrinologistas em 2011 e saltou para 7.374 em 2025, de acordo com a Demografia Médica no Brasil, um estudo feito anualmente pela USP com dados de entidades médicas. Foi um crescimento acima da média das outras especialidades.

A hormonologia surgiu então como uma alternativa bem mais fácil, atraindo médicos que querem trabalhar com hormônios mas não quiseram – ou não conseguiram – passar por todas as etapas de estudo. Comparado à endocrinologia, é um passeio no parque: muitos ditos especialistas em hormônios se formaram em cursos que duram um fim de semana, alguns deles 100% online. Esses cursos, não raro, são patrocinados por farmácias de manipulação que estão fazendo uma fortuna com a venda de hormônios, caso da Elmeco, da Unikka Pharma e da Bio Meds.

Em 2023, último ano com dados disponíveis, o Brasil tinha 8.711 farmácias de manipulação (também chamadas de farmácias magistrais). Uma minoria – apenas 614, de acordo com os números mais recentes da Anvisa – é autorizada a trabalhar com produtos estéreis, termo técnico para medicamentos que precisam ser produzidos sob rígido controle sanitário, entre eles os hormônios. Esse pequeno grupo de empresas, no entanto, responde por uma fatia expressiva do faturamento do setor – cerca de 30%, numa estimativa recente da Associação Magistral de Estéreis (Anme). As farmácias de manipulação faturaram 11 bilhões de reais em 2023, de modo que, se a conta da Anme estiver correta, pode-se estimar o faturamento das farmácias de produtos estéreis em cerca de 3 bilhões de reais.



Essas farmacêuticas compareceram em peso ao Coliseu. O 3º Congresso Brasileiro de Hormonologia anunciou dezessete patrocinadores – entre eles, empresas como Flukka Pharma, SottoPelle e DrogaDermu’s, que tiveram direito a estandes para venda de produtos. Um dos grandes atrativos do evento era a interação entre representantes dessas farmacêuticas e os médicos. Cada vez mais, o setor atrai profissionais de diferentes especialidades. Havia não apenas endocrinologistas no evento em Alphaville, mas também cardiologistas, ginecologistas, pediatras. Quem pagou por um ingresso “VIP”, no valor de 7,9 mil reais, pôde participar de um convescote no dia anterior ao congresso, assistiu a aulas exclusivas e teve apoio de cinegrafistas para produzir conteúdos em vídeo para as redes.

Na sexta-feira (24) pela manhã, no hall do evento, um trio de músicos – tecladista, saxofonista e violonista – tocava versões instrumentais de músicas como What a wonderful world e September enquanto médicos caminhavam entre os estandes. A farmacêutica Central Nutrition oferecia refrescos a quem passava – havia sabor jabuticaba com creatina, manga com Guardian (um suplemento alimentar) e blueberry com aminoácidos. A Formédica dava amostras grátis do Ormona, um comprimido alaranjado “desenvolvido para ajudar as mulheres a prevenir e amenizar os sintomas do climatério”, conforme informava o flyer.

Nos fundos, ficavam os estandes das duas entidades que organizaram o congresso: a Associação Brasileira de Hormonologia (Asbrah) e a Hormofy, uma plataforma que oferece cursos sobre hormônios. Ambas foram fundadas por Luiz Paulo de Souza Pinto, um jovem médico de Curitiba que se tornou um grande divulgador dos implantes hormonais. Em sua descrição no Instagram, onde soma 219 mil seguidores, ele diz ter formado mais de 4 mil alunos. Musculoso, com uma barba milimetricamente aparada e cabelos penteados para trás, Luiz Paulo grava vídeos e faz palestras quase sempre vestido de blazer.

“O curso do Luiz Paulo é lendário”, disse Gabriel Cunha, um cardiologista que passava pelo estande da Asbrah. Ele viajou de Brasília, onde mora, até Alphaville para participar do congresso. Diz que não pensava em trabalhar com hormônios, até que ele próprio precisou se submeter a um tratamento com suplementação de testosterona, anos atrás. Ficou entusiasmado, e por volta de 2019 resolveu se matricular num curso presencial oferecido por Luiz Paulo em Curitiba. “Fiquei louco. Foi a primeira vez que me senti feio, burro e pobre. Todo mundo [do curso] estava bem de vida. As pessoas fazendo reposição hormonal, ganhando dinheiro com isso, e todo mundo era inteligente pra caramba.”

Luiz Paulo fundou a Asbrah em 2023, depois de anos ministrando cursos sobre hormônios. Um panfleto distribuído para os médicos, no congresso, dizia que a associação é “a principal instituição de fomento e defesa das terapias hormonais no país” e tem como um de seus objetivos “garantir o direito de prescrever terapias e implantes de forma individualizada”. A Asbrah vendia souvenires no estande. Camisetas com a palavra “hormonologia” ou com o slogan “hormônios – nem excesso, nem falta” saíam por 59,90.

A criação da Asbrah causou alvoroço e acendeu um sinal de alerta na comunidade médica. Numa nota pública divulgada em março de 2024, a Associação Médica Brasileira (AMB) – a maior do setor – escreveu: “A hormonologia vem sendo anunciada nas redes sociais, nos consultórios médicos, em cursos e congressos, com o objetivo de legitimar práticas inadequadas não baseadas em evidências científicas, e titular profissionais autoaclamados como especialistas sem a formação adequada para manejar hormônios.” A nota repercutiu no universo da medicina e foi endossada por outras associações – com especial ênfase pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), fundada em 1950.

O caldo já vinha entornando antes disso. Em 2022, Luiz Paulo recebeu duas notas de censura do Conselho Regional de Medicina do Paraná por “divulgar informação sobre assunto médico de forma sensacionalista, promocional ou de conteúdo inverídico”, anunciar “processo de tratamento ou descoberta cujo valor ainda não esteja (...) reconhecido cientificamente” e fazer propaganda para empresas “valendo-se de sua profissão”. Na verdade, a atuação de Luiz Paulo não se restringiu a uma propaganda: ele é dono da Health Innovation, holding que detém uma fatia da Bio Meds Brasil, uma farmacêutica especializada em implantes hormonais. Ele também é apresentado no site da MedInfuse, outra empresa de suplementos hormonais, como seu “mentor” e sócio.

O CFM não proíbe que médicos sejam sócios de farmacêuticas, mas o código de ética da profissão os desestimula, já que os possíveis conflitos de interesse são muitos. Em nota enviada à piauí, a Bio Meds afirmou que Luiz Paulo não participa das atividades diárias da empresa e que, portanto, não há conflito ético. A empresa, recentemente, sofreu um baque. Em março, a Anvisa suspendeu suas atividades depois de identificar irregularidades, como a venda padronizada de medicamentos manipulados, sem exigência de prescrição individualizada. Indagada pela piauí, a Bio Meds afirmou que, depois de apresentar novos documentos à Anvisa, sua situação já foi regularizada. Disse também que seus produtos “sempre foram comercializados mediante prescrição médica personalizada”.

A Bio Meds, apesar do revés, marcou presença no congresso de hormonologia, onde exibiu amostras de seus implantes subcutâneos. Situado no centro do salão, era um dos estandes mais movimentados. Luiz Paulo, enquanto isso, subia ao palco do evento ao lado da mulher e do filho de 2 meses de idade para colher aplausos da plateia. Apesar das reprimendas que levou em 2022, o médico continua livre para clinicar – e seus pupilos são cada vez mais numerosos.

Camiseta vendida no 3º Congresso Brasileiro de Hormonologia - Crédito: Luigi Mazza



“Estamos enfrentando uma avalanche”, alertou o ginecologista Marcelo Moretto, em uma audiência realizada em julho de 2024 no Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul. Ele se referia à popularização dos implantes hormonais – mais especificamente, a como as farmacêuticas vêm conquistando os médicos pelo bolso. Considerando que os implantes hormonais costumam custar cerca de 5 mil reais, Moretto calculou: “Vamos imaginar que eu coloque um chip da beleza por dia. São 25 mil reais por semana, 100 mil no fim do mês. Se eu botar dois chips por dia, são 200 mil reais por mês”, concluiu. “Esse é o tipo de dinheiro que as pessoas estão ganhando. A gente é médico, mas não sabe lidar com isso. Essas pessoas estão adictas em ganhar dinheiro e muito bem aparelhadas.”

As preocupações citadas por Moretto não são apenas com a cooptação dos médicos, mas principalmente com os riscos à saúde dos pacientes. Como qualquer substância, os hormônios podem ser danosos se administrados de forma equivocada. A gestrinona, por exemplo, que tem sido oferecida por farmacêuticas como solução para sintomas da menopausa, pode acarretar o crescimento de pelos e acne, o engrossamento da voz (que não tem volta) e o aumento do clitóris. Em homens, pode causar a diminuição dos testículos. Embora não costume ser chamada assim, a gestrinona nada mais é do que um anabolizante – e, como tal, traz consigo uma extensa lista de efeitos colaterais, como aumentar o risco de problemas cardiovasculares.

Em dezembro de 2023, um grupo de 35 associações médicas enviou uma carta pública à Anvisa pedindo que alguma providência fosse tomada para conter a disseminação desses produtos. Elas listaram outras dezenas de possíveis efeitos colaterais dos hormônios, como complicações cutâneas, hepáticas, renais e musculares – além de infertilidade e má-formação fetal, no caso das mulheres. A lista ainda inclui o aumento de risco de acidente vascular cerebral (AVC) e de problemas psíquicos, como ansiedade e depressão.

O endocrinologista Clayton Dornelles Macedo, do Hospital Albert Einstein, diz que virou rotina, entre colegas de várias especialidades, receber pacientes com problemas causados por implantes hormonais. “Antes isso era raro. Quando acontecia, eu até contava em congressos de medicina. Hoje eu recebo diariamente.” Macedo é um dos críticos mais vocais aos chips da beleza. Costuma chamar de picaretas os empresários do setor e os médicos que prescrevem esse produto, postura que já lhe rendeu processos na Justiça. “Eles inverteram o propósito dos hormônios. Uma coisa é o paciente que realmente precisa de reposição de testosterona e vai à farmácia comprar uma dose personalizada, feita para ele. Outra coisa é essa farmácia fazer a mistura que ela entende ser a correta, produzi-la em escala industrial, recrutar médicos e vender os protocolos de uso. Deixou de ser uma farmácia magistral e virou uma indústria monetizada, sem fiscalização e regulamentação.”

Quem deseja se submeter a esse tipo de tratamento não encontra muitas barreiras: basta achar um médico disposto a receitar os hormônios. Uma rápida busca no Google revela vários desses profissionais, alguns deles com milhares de seguidores. As farmacêuticas que atuam nesse nicho investem cada vez mais em boas relações com médicos, ajudando a formar novos prescritores de hormônios. A MedInfuse, por exemplo, contratou a atriz e modelo Ellen Roche para divulgar seus produtos em vídeos direcionados a médicos (a piauí tentou entrar em contato com Roche por meio de seu agente, mas não recebeu resposta). A Unikka, uma das maiores farmacêuticas do setor, anunciou a criação de um centro para a “educação do médico”, em Salvador, onde pretende ensinar os pormenores de seus produtos. Em 2025, a empresa fechou um contrato de patrocínio com Neymar Jr., que em partidas do Santos passou a vestir uma braçadeira com os dizeres “Ousadia Unikka”.

As associações médicas dizem que a regulação desse mercado, por parte da Anvisa, tem sido insuficiente. Em 2021, a agência proibiu a publicidade de implantes de gestrinona, mas isso não impediu que muitos influenciadores continuassem promovendo esse tipo de produto. Três anos depois, reagindo à pressão crescente das entidades, a Anvisa foi mais dura: publicou uma resolução proibindo a prescrição, a propaganda e a venda de quaisquer implantes hormonais. A decisão teve impacto sísmico no universo da hormonologia. Grandes farmacêuticas, com apoio de parlamentares e pacientes indignados, fizeram pressão por todos os lados. Já no mês seguinte, a Anvisa se viu forçada a recuar. Publicou uma nova resolução, afrouxando a anterior e proibindo apenas os implantes com fins estéticos ou que prometem ganho de massa muscular. Chips para o tratamento de doenças, como a endometriose, voltaram à legalidade, com apenas uma condição: que o paciente, antes de fazer o implante, assine um documento dizendo estar ciente dos riscos de efeitos colaterais graves.

O meio-termo encontrado pela Anvisa não agradou a nenhum dos lados da disputa. As associações médicas até consideraram que foi um avanço, mas tímido. A proibição feita pela agência, segundo elas, não impede que os “hormonólogos” continuem em atividade – por exemplo, receitando hormônios a pretexto de tratar a endometriose quando, na verdade, estão conduzindo procedimentos estéticos. Não há como aferir se a justificativa apresentada pelo médico, no papel, condiz com o quadro clínico do paciente. “As farmácias usam quadros clínicos como a menopausa e a endometriose de escudo para continuar comercializando os mesmos produtos”, diz Macedo.

Os médicos que prescrevem implantes hormonais, por sua vez, reclamam da proibição. Não porque ela esteja impedindo tratamentos estéticos, mas porque deixou os pacientes num limbo. Stephano Bacarji, pediatra de Campo Grande que também compareceu ao congresso de hormonologia, argumenta que a demanda por produtos desse tipo continua igual, mas, com a proibição, a tendência é que mais pessoas busquem tratamentos “underground”, em suas palavras – isto é, menos seguros. “Além de pegar um produto pouco confiável, o paciente vai ter dificuldade em achar um médico que o ajude.”

Gabriel Cunha, o cardiologista de Brasília, reclama do que considera ser um tabu em torno dos hormônios. “As associações médicas têm um ponto. Já vi muita gente usando hormônio de jeito errado e perdendo cabelo, por exemplo. Sempre existem uns picaretas. Mas a maioria dos médicos trabalha de forma decente”, ele diz. Na sua visão, a demanda por cursos de hormonologia existe porque o ensino tradicional de medicina não oferece uma formação adequada para profissionais que querem se especializar nessa área. “Em um curso de fim de semana se aprende mais sobre hormônios do que na residência de endocrinologia ou na residência de medicina do esporte.” (Cunha fez residência em medicina do esporte, mas não em endocrinologia.)

Muitos representantes de associações médicas defendem que todo tipo de implante hormonal seja proibido. Os argumentos podem ser resumidos em dois pontos. O primeiro é que a literatura científica, tanto no Brasil quanto em outros países, ainda não se debruçou com profundidade sobre os implantes hormonais – que, segundo eles, precisam passar por etapas mais extensas de testagem e estudos. O segundo ponto é que, mesmo que eles já tivessem sua eficácia e segurança comprovadas por meio de testes, não deveriam ser vendidos com dosagens padronizadas, como têm sido. Afinal, cada paciente tem um quadro clínico específico, que requer acompanhamento e a prescrição de uma dosagem própria.

“O nível de evidência científica é pobre”, diz a ginecologista Rita Dardes, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretora da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). “Para um medicamento ser aprovado, ele passa por várias fases. Há testes pré-clínicos, na célula. Depois, testes em animais. E só então são feitos os estudos clínicos controlados em humanos, usando placebo. Onde estão os estudos com todas as fases, com os efeitos dos implantes no longo prazo?”


Os dados da plataforma Pubmed, que reúne estudos da área da saúde no mundo todo, mostram que desde 1982 foram publicados 20,8 mil artigos sobre o tratamento da endometriose com terapias que envolvem progesterona e estrogênio, hormônios administrados por meio de comprimido, spray, gel epidérmico ou DIU (dispositivo intrauterino). São métodos considerados tradicionais, pois já foram exaustivamente analisados pela comunidade científica. Apenas vinte artigos trataram do uso de pellets de gestrinona para pacientes com endometriose. Além disso, os estudos sobre métodos tradicionais vêm se tornando mais frequentes, enquanto os focados na gestrinona são cada vez mais raros – um indicativo de que, no mundo, essa terapia vem caindo em desuso.

Até a década de 2000, a gestrinona era, de fato, comumente administrada em pacientes com endometriose, por via oral. É comprovado que o hormônio alivia os sintomas da doença, e por isso não é surpreendente que mulheres relatem melhoras depois de iniciar o tratamento com os implantes. Nos últimos vinte anos, porém, a indústria farmacêutica gradualmente abandonou a gestrinona principalmente por causa de seus efeitos colaterais.

No Brasil, médicos estão receitando e farmácias seguem produzindo implantes não apenas para casos de endometriose, mas também para o alívio dos sintomas da menopausa, como ondas de calor, alterações no sono e redução da libido. Na faixa etária entre os 40 e os 50 anos, o corpo da mulher produz menos hormônios em geral, entre eles a testosterona. Por isso, as farmácias oferecem uma reposição de “testo”. O consenso científico é que a reposição só é recomendada para pacientes que sofrem com a síndrome do desejo sexual hipoativo – um quadro persistente de baixa libido. “Mas isso representa só 10% das mulheres, e há outros métodos mais seguros do que os implantes”, diz a endocrinologista Larissa Garcia Gomes, diretora da Sbem e médica do Hospital das Clínicas da USP.

Os defensores da hormonologia argumentam que os chips são uma alternativa personalizada para mulheres que não tiveram bons resultados com tratamentos convencionais. “O médico prescritor, por óbvio, é quem detém o conhecimento de doses adequadas ao seu paciente para o tratamento assertivo. Os implantes hormonais auxiliam o profissional que, muitas vezes, não encontra nos medicamentos fabricados pelas indústrias farmacêuticas a quantidade e forma adequada para o tratamento”, disse à piauí Izabelle Gindri, cofundadora e CEO da Bio Meds Brasil, a empresa que tem entre seus sócios Luiz Paulo, presidente da Asbrah. A entrevista foi concedida por e-mail em julho do ano passado – antes, portanto, da Bio Meds ter suas atividades suspensas pela Anvisa.

Os médicos contrários a esse tipo de terapia questionam o quanto os chips são personalizados, já que sua escala de produção é industrial. Os implantes não vêm com bula, de modo que é difícil saber com exatidão qual foi a fórmula ministrada e qual será seu efeito no corpo ao longo do tempo – conceito chamado de farmacocinética. Quando um paciente toma um remédio, geralmente sabe em quanto tempo sentirá os efeitos. No caso dos implantes, essa noção é embaralhada, porque eles liberam os hormônios lentamente no sangue. “Quais os níveis de hormônio que estão sendo liberados? Quando vai ter um pico? E se essa mulher tiver câncer de mama e o médico não conseguir retirar o implante? O chip vai ficar ali alimentando o câncer de hormônio todos os dias”, diz Rita Dardes, da Unifesp. “E se a mulher tiver um infarto e eu não conseguir retirar o implante? Não há segurança na prescrição porque esses dados são desconhecidos.”



Em um artigo científico publicado em 2008, a antropóloga Fabíola Rohden, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), escreveu sobre a história do uso dos hormônios na medicina e a relação peculiar que o Brasil desenvolveu com essas secreções. Ela afirma que, com o avanço dos estudos anatômicos a partir do século XVII e a melhor compreensão dos ovários, o corpo da mulher passou a ser descrito como um “corpo hormonal”, sensível à oscilação dessas substâncias no sangue – em contraste com os homens, retratados como racionais. Passou a ser comum, no final do século XIX, que médicos extraíssem os ovários de mulheres para tratar “perturbações mentais” e comportamentos sexuais considerados inadequados. Com o passar do tempo, essa prática deu lugar à reposição hormonal, que movimenta bilhões de reais em produtos médicos.

Rohden encontrou anúncios de “soros hormonais” em revistas brasileiras da década de 1920. Retirados dos ovários de vacas novas, eles prometiam tratar “todas as enfermidades da vida sexual feminina”, além da “nervosidade geral” e "transtornos da menstruação”. Nas décadas seguintes, a comercialização desse tipo de produto só aumentou. Um personagem fundamental para isso foi Elsimar Coutinho (1930-2020), médico baiano precursor das pesquisas de métodos contraceptivos que acabou se tornando um especialista em implantes subcutâneos de hormônios. Ele fez dos suplementos hormonais um lucrativo negócio, tornando-se patriarca de uma das famílias mais ricas de Salvador.

Com clínicas espalhadas pelo país, Coutinho caiu nas graças de celebridades como as apresentadoras Hebe Camargo e Marília Gabriela. Em 1993, fundou a Elmeco (acrônimo de Elsimar Metzker Coutinho), sua própria farmácia de manipulação de hormônios, que existe até hoje. Eloquente, sempre munido de argumentos científicos, o médico era personagem frequente nas revistas semanais e programas de tevê na década de 1990. Ganhou ainda mais notoriedade ao publicar o livro Menstruação, a sangria inútil (1996), no qual defendia que menstruar não é um processo natural e deve ser interrompido com anticoncepcionais.

Coutinho morreu em 2020, de Covid, mas seus seguidores dão continuidade à divulgação de seu trabalho. O ginecologista Walter Pace, um dos pupilos do médico baiano e membro do comitê de pesquisas da Elmeco, referiu-se a ele como “pai dos implantes hormonais”, numa audiência recente promovida pelo Senado. Para o médico e influenciador Guilherme Renke, figura constante nas redes da Elmeco, a decisão da Anvisa que restringiu o mercado de implantes foi um “ataque ao legado de um dos maiores cientistas brasileiros”.

O médico Elsimar Coutinho - Crédito: Reprodução

Hoje, a Elmeco é o principal negócio de um grupo que reúne várias empresas da família Coutinho, a maioria delas no setor de saúde, como clínicas, farmácias e hospitais. A farmacêutica costuma promover cursos para médicos em finais de semana e também o Encontro Nacional em Tecnologia de Implantes Hormonais (Enatih), geralmente em resorts de luxo no litoral baiano. Com centenas de participantes, o evento premia os “maiores médicos prescritores” de implantes hormonais. Procurada pela piauí, a empresa não esclareceu os critérios da competição (são baseados em quantidade de prescrições?) nem respondeu se as premiações envolvem dinheiro, o que teria de ser declarado ao CFM. 

Em outubro, a Anvisa suspendeu toda a operação de medicamentos manipulados da Elmeco, afirmando que foi constatada “manipulação irregular” e “adulteração generalizada” de produtos estéreis, o que representa “um grave risco de contaminação cruzada e microbiana”. Em novembro, porém, a agência recuou e liberou novamente as atividades da empresa – que também marcou presença no Congresso Brasileiro de Hormonologia. O estande da Elmeco, onde se vendiam implantes de gestrinona, testosterona, estradiol, oxandrolona e outros hormônios, era adornado com uma foto de Elsimar Coutinho. Em nota enviada à piauí, a empresa disse ter atendido “prontamente às solicitações dos órgãos reguladores, implementando, de forma criteriosa, os ajustes necessários para assegurar o cumprimento integral das normas vigentes”. Também afirmou que “não houve evidência de risco sanitário relacionado às suas atividades”.

Manuela Coutinho, neta do pioneiro baiano, abriu uma farmácia própria, a MC Legacy Lab, e hoje preside a Associação Nacional Magistral de Estéreis (Anme), criada em abril de 2024 para reagir à ofensiva de entidades médicas e da Anvisa. A Anme diz que já representa dez farmácias magistrais. “A gente recebeu a proibição com muita surpresa. No dia seguinte, comecei a fazer ligações. Consegui uma entrada na Anvisa para explicar por que, do nosso ponto de vista, a proibição não poderia acontecer. A gente foi muito bem munido de informações”, disse Manuela à piauí. “As mulheres têm pouquíssimo acesso a soluções terapêuticas hormonais no Brasil. Pouquíssimo. E praticamente todas vêm do setor magistral. Defender esse setor, como aprendi com meu avô, é muito natural para mim.”



Meses antes de receber o manifesto das entidades médicas, em 2023, a Anvisa já havia acendido um alerta para o mercado de implantes hormonais. O assunto foi debatido numa audiência na Câmara dos Deputados em agosto daquele ano. Na ocasião, Érica França, servidora da Anvisa especializada em regulação e vigilância sanitária, relatou um quadro de pouca ou nenhuma regulação. “Hoje, nosso grande empecilho é identificar as farmácias que estão produzindo essas substâncias. Não temos conhecimento de quais são as farmácias. Quem tem esse conhecimento, infelizmente, são os [médicos] prescritores. Eles têm contato direto com as farmácias. São poucas no país, e nós temos dificuldade de identificá-las.”

O número de farmácias atuando nesse setor se multiplicou de lá para cá. Mas, já em 2023, era motivo de preocupação. França afirmou que, naquele ano, a Anvisa havia inspecionado dez laboratórios que produziam hormônios e fechado sete deles, ao constatar infrações sanitárias. Em novembro passado a Polícia Federal deflagrou uma operação contra empresas acusadas de produzir de forma clandestina as chamadas “canetas de emagrecimento”, como Mounjaro e Ozempic, que também funcionam à base de hormônios. A Unikka, farmacêutica que patrocinava Neymar Jr., foi pega no balaio, investigada sob suspeita de ter usado a patente alheia para produzir tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, e de ter desrespeitado padrões sanitários da Anvisa. O craque do Santos, querendo distância do escândalo, suspendeu o contrato de patrocínio dias depois da operação.

Por essas e outras, não foi uma grande surpresa quando a Anvisa proibiu a venda de implantes hormonais em outubro de 2024. A pressão que veio a seguir, no entanto, foi enorme. Dizendo-se excluído das discussões na Anvisa, o setor apelou para o Congresso e foi acolhido pelos senadores Jorge Seif (PL-SC) e Magno Malta (PL-ES), integrantes da tropa de choque bolsonarista. Ainda naquele mês, a dupla conseguiu reunir as assinaturas de 27 parlamentares, quase todos de direita, para convocar uma nova audiência pública sobre o assunto, dessa vez no Senado. A sessão foi marcada para 22 de novembro.

Naquele dia, horas antes da audiência ser aberta, a Anvisa recuou, baixando a resolução que afrouxou a proibição dos implantes. A mudança foi fruto de pressão sobre a agência, como relatou o próprio Seif na sessão do dia 22. “Eu quero fazer aqui um agradecimento público ao nosso diretor da Anvisa, Antônio Barra Torres. Nos últimos dias, fizemos vários contatos sobre esse tema e ele sempre se dispôs ao diálogo e a atender a comunidade médica para discutir e conversar com seus técnicos e especialistas. Então, dr. Antônio Barra Torres, muito obrigado.” A nova resolução foi uma das últimas medidas adotadas por Barra Torres como diretor-presidente da Anvisa. Ele deixou o cargo no mês seguinte.

Como uma medida de transparência, a Anvisa publica em seu site as atas de todas as reuniões que envolvem servidores da agência. Não há, contudo, nenhum registro das reuniões citadas por Seif. A piauí tentou contato com o senador por e-mail e por WhatsApp, mas ele não respondeu. Barra Torres, por sua vez, disse por escrito não lembrar se conversou com Seif. “A Anvisa é dirigida por colegiado de cinco diretores e as decisões se baseiam na área técnica. Não há decisão monocrática. Não há decisão ‘a pedido’ ou qualquer coisa semelhante. Sequer me recordo se os fatos se deram como o senhor descreveu. A Anvisa regula estimados 30% do PIB. É muito difícil, estando há oito meses fora, lembrar de ítens específicos.” Indagado sobre o porquê de Seif tê-lo agradecido nominalmente, Barra Torres respondeu: “Diálogo. Exatamente o que estou fazendo agora com o senhor. Dialogando. Reitero, não me recordo [de ter conversado com Jorge Seif].”

A piauí perguntou à Anvisa qual foi a justificativa técnica para a mudança de decisão em tão pouco tempo, e como a agência se posiciona diante das críticas de associações médicas de que falta regulação no mercado de implantes hormonais. Por meio de nota, a Anvisa respondeu que a decisão inicial de proibir os implantes ocorreu de “forma preventiva até que as evidências alegadas pelas entidades fossem analisadas por meio de dossiê investigativo”. A posterior flexibilização da regra, segundo a agência, “foi baseada no fato de que as informações complementares e evidências apresentadas, até aquele momento, foram insuficientes para sustentar a medida preventiva adotada anteriormente”. A Anvisa também afirmou que não proibiu todos os implantes porque “considerou a necessidade de garantia do acesso à terapia hormonal para determinadas finalidades terapêuticas”.



A primeira pessoa com quem a piauí conversou para esta reportagem foi a arquiteta Maristela Franceschini. Seu nome aparece em um processo no Tribunal de Justiça de São Paulo envolvendo implantes hormonais, no qual ela acusa uma ginecologista de erro médico. Franceschini conta que, dez anos atrás, vivia os primeiros sintomas da menopausa. Era casada, não tinha filhos e vinha se sentindo prostrada. Seu corpo passava por mudanças que influenciavam o seu humor e deixavam-na cansada a maior parte do tempo. “Eu precisava de alguma coisa para dar um up na minha vida. Um dia, vi um médico na tevê falando sobre um tal ‘chip da beleza’. Você colocava o chip no corpo e rejuvenescia, aumentava a libido. Fiquei interessada e procurei me informar.”

Pesquisando na internet, Franceschini chegou ao nome de Denise Coimbra, ginecologista experiente que atende em consultórios na Avenida Paulista e em Alphaville. A médica é referência em implantes hormonais. “Paguei 700 reais na consulta e levei alguns exames de sangue. Na mesma hora, a médica já queria fazer o implante. Disse que não tinha nenhuma contraindicação, não me pediu nenhum exame. Eu respondi que ia pensar. Voltei na semana seguinte, paguei 4,4 mil reais e pus o implante de gestrinona”, conta Franceschini.

A arquiteta diz que, duas semanas depois do procedimento, passou a sentir cólicas e teve um sangramento incomum. “Era como se eu tivesse uma menstruação muito forte. Também tive acne no rosto. Liguei para a médica, e ela pediu pra eu voltar ao consultório. Ela disse que aqueles sintomas eram normais e que iriam passar. Me orientou a reforçar o implante e colocou outro chip.” Um mês depois do segundo pellet, sua barriga começou a inchar. “Começou a crescer, crescer… Era como se eu estivesse grávida de seis meses. Liguei de novo para a médica, que não atendeu. Falei com a secretária. A doutora pediu pra eu voltar, mas disse que dessa vez eu teria de pagar outra consulta. Aquilo me tirou a confiança nela. Já tinha uma coisa que não estava legal. Fui para o hospital e procurei outro médico.”

Esse outro médico detectou um aumento preocupante do útero de Franceschini e recomendou sua remoção imediata. “Fiquei desesperada. Eu não tinha plano de saúde nem reserva financeira. Procurei o SUS, mas estava com fila de espera. Acabei vendendo meu carro para pagar a cirurgia.” Ela diz que gastou 30 mil reais com o procedimento e a internação. O diagnóstico foi de miomatose uterina – isto é, tumores benignos no útero, que já estavam lá quando os chips foram implantados. A médica, caso tivesse encomendado um exame de ultrassom, poderia ter constatado a miomatose antes de implantar os chips hormonais.

Em 2017, Franceschini entrou com um processo no Tribunal de Justiça de São Paulo acusando Denise Coimbra de erro médico. A ginecologista foi absolvida na primeira instância, mas condenada na segunda a pagar uma indenização de 10 mil reais por danos morais. Segundo a decisão dos três desembargadores que julgaram o caso, Coimbra foi imprudente porque não informou a Franceschini os riscos dos implantes nem pediu exames preliminares. A médica hoje recorre no Supremo Tribunal Federal. Alega que não se pode culpar o pellet pelo crescimento anormal do útero da paciente e que a remoção do órgão não era necessária.

Franceschini, hoje com 57 anos, continua com os chips no corpo, enquanto aguarda a conclusão do processo em terceira instância. Ficou também com uma cicatriz da remoção do útero. “Me senti menos mulher do que as outras”, ela diz. “Eu, que nunca fui mãe, vou ficar com uma marca que parece a da cesárea.” Coimbra, enquanto isso, continua atendendo normalmente em seus consultórios, embora o site em que divulgava seu trabalho tenha saído do ar. A piauí tentou contato com ela por telefone, e-mail e mensagens de WhatsApp ao longo de semanas. Uma de suas secretárias, informada sobre o teor da reportagem, disse que repassaria o recado à médica. Não houve resposta.


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É repórter em São Paulo. Tem passagens pela Folha de S.Paulo e BBC Brasil

Editor do site da piauí. Foi repórter da revista em Brasília e diretor do podcast Foro de Teresina