questões literárias
Jan 2026 10h09
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Aarquivista Sara Hussein está voltando de uma viagem internacional e não vê a hora de reencontrar a família. No aeroporto de Los Angeles, aguarda que os funcionários da imigração a liberem. “Parece que vai demorar”, reclama para o marido, o fonoaudiólogo Elias Rosales. Ele troca mensagens com a mulher pelo telefone enquanto procura uma vaga no estacionamento do aeroporto.
Os trâmites imigratórios realmente demoram. Quando terminam, a arquivista de 37 anos recebe a notícia de que será presa. Mas por quê? Mãe de dois bebês gêmeos, Sara viaja com frequência e nunca contrabandeou nada, mantém um bom emprego, não abusa de drogas nem se mete em brigas. As autoridades explicam que os algoritmos indicam que há um risco alto de Sara vir a cometer um crime em breve e, por isso, precisam detê-la por precaução. A recém-chegada continua sem entender. “Um crime?! Qual?”, pergunta. Agredir o próprio marido.
Eis a premissa de O hotel dos sonhos, quinto romance de Laila Lalami, traduzido para o português por Laura Folgueira. O livro da escritora marroquina-americana saiu em março e logo ganhou aplausos por demonstrar para onde o mundo pode caminhar se as tecnologias digitais que monitoram os indivíduos não tiverem freio. A trama ocorre num futuro não muito remoto, vinte anos depois de um massacre traumatizar os Estados Unidos. Durante uma competição esportiva em Miami, um “lobo solitário” assassinou 86 pessoas enquanto a CBS transmitia o evento e outras 32 assim que a emissora interrompeu a exibição. Milhões de espectadores testemunharam a fúria do atirador. Pressionado pela indignação popular, o Congresso aprovou uma lei – ainda em vigor – que amplia o controle do governo sobre a sociedade. O Estado agora dispõe de carta branca para colher, guardar e analisar informações privadas de qualquer cidadão. O intuito é quantificar a chance de alguém cometer atos ilícitos.
Caso a probabilidade se revele alta, o criminoso em potencial amarga pelo menos 21 dias num “centro de retenção” (eufemismos permeiam todo o sistema de vigilância). Lá o “residente” deve cumprir uma série de normas, trabalhar sem remuneração e passar por avaliações periódicas. Quando julgam que o “participante do programa” se comportou bem e conseguiu baixar o “score de risco”, os responsáveis pelo rastreamento o libertam. Uma eficaz sinergia do governo com empresas de diferentes ramos permite que a engrenagem funcione.
Enviada para um “centro de retenção” numa cidadezinha da Califórnia, Sara vira refém de burocracias e arbitrariedades. Insubmissa, não aceita parte das regras locais e permanece sob custódia por muito tempo. Ao longo da via-crúcis, descobre que o Estado vigiava inclusive os sonhos dela. É por isso que acabou detida – porque sonhou com situações que ameaçavam Elias.
O livro, narrado em terceira pessoa, evoca dois clássicos da literatura distópica: o romance 1984, de George Orwell, e o conto Minority report, de Philip K. Dick. Também remete à atmosfera claustrofóbica e absurda que marca a ficção de Franz Kafka. No futuro antevisto por Laila Lalami, nem mesmo o inconsciente – a última fronteira da liberdade – está isento de patrulha.
Outros quatorze jornalistas da piauí indicam obras lançadas no ano que termina. Veja a lista completa aqui.