questões cinematográficas
Abr 2011 12h56
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Depois da exibição de “O gosto amargo da liberdade” – documentário concluído em 2010 sobre a jornalista Anna Politkovskaya, assassinada em 2006 –, o É Tudo Verdade promoveu encontro com a diretora Marina Goldovskaya, domingo passado no Rio, dia de encerramento do festival.
Apesar de a plateia manifestar mais interesse por informações sobre a Rússia do que por cinema – o que ocorre com frequência em ocasiões como essa –, ficou claro por que a edição americana da autobiografia de Goldovskaya, publicada em 2006, chama-se “Mulher com a câmera: minha vida como diretora russa”, numa alusão evidente a Dziga Vertov.
Na verdade, porém, apesar da admiração de Goldovskaya por Vertov, a referência é equívoca, só tendo sentido se forem deixados de lado tanto os filmes de exaltação do Estado soviético feitos por Vertov – de “O décimo primeiro ano” (1928) a “Sinfonia do Donbas (Entusiasmo)” (1930), quanto a glorificação dos líderes do regime de “Três canções para Lênin” (1934).
Mesmo “O homem com a câmera” (1929) – filme fundador do gênero documental – nada tem a ver com os documentários de Goldovskaya. O único elo cinematográfico possível entre os dois cineastas seria com os cinejornais do início da carreira de Vertov, nos quais, até certo ponto, procurou captar a “vida de maneira imperceptível” – os “Kinopravda” (“Cinema verdade”) – de 1922 a 1925 – e os “Kinoglaz (“Cine-olho”) – de 1924.
Uma aproximação possível entre Goldovskaya e Vertov é de caráter biográfico – ambos marginalizados por causa dos filmes que fizeram ou que gostariam de ter feito.
Ainda adolescente, ela via Vertov “sentado num banco, perto da entrada” da Casa dos Cineastas – prédio onde todos os moradores eram realizadores famosos –, “sempre apoiado numa bengala, sempre triste e reservado.” Ao longo dos anos, Goldovskaya soube da autocrítica pública de Vertov: “Eu não sabia exatamente o que queria dizer. […] Só mais tarde entendi como deve ter sido humilhante para artistas tão proeminentes serem forçados a confessar pecados inexistentes”.
No diário de Vertov há vários registros que, guardadas as devidas proporções e diferenças históricas, lembram as vicissitudes atuais de Goldovskaya, que vive nos Estados Unidos desde a década de 1990.
Em maio de 1934, Vertov escreveu: “Não sei mais se sou uma pessoa viva ou um diagrama inventado pelos críticos. […] Minhas ideias são mais facilmente transmitidas pelo cinema, mas em vez de filmes de ideias me pedem para fazer filmes de incidentes, eventos, aventuras, e assim por diante.”
Dias depois, anotou: “Passei os últimos três meses nos corredores do estúdio. Em constante (hoje ou amanhã) expectativa. Em estado permanente de tensão. A tortura da . A impossibilidade de responder perguntas. Telefonemas anônimos. E fofoca. Montanhas sufocantes de fofoca. […] Não chega a ser surpreendente que esteja louco para me afastar disso. A tortura de esperar perturbou de tal maneira meu sistema nervoso que agora mal posso falar. Preciso ser liberado desta ‘licença para fins criativos’ no corredor. Enviado para reparos. Onde haja ar, luz do sol, água.”
Os filmes de Goldovskaya, por sua vez, pararam de ser exibidos na Rússia nos últimos cinco anos. Em 2006, centenário do escritor Anatoly Rybakov, o viés antistalinista de “Anataloly Rybakov: A história russa” levou o documentário a ser exibido na tevê apenas uma vez, à uma hora da madrugada. Já “O gosto amargo da liberdade” não teve exibições públicas.
Desde a década de 1960, Goldovskaya não se separa da sua câmera. E costuma se arrepender quando não a traz consigo, como aconteceu nesta vinda ao Brasil.
Tendo iniciado sua carreira no jornalismo, ganhou experiência na televisão quando a tevê ainda estava começando na União Soviética. Trabalhando com uma novidade tecnológica de então – a câmera 16mm – aprendeu a “reagir aos eventos”, refletindo “o pulso da época”.
Em um dos seus primeiros filmes, dedicado às tecelãs de uma pequena cidade, filmou “a vida como ela é”. Mesmo sem conhecer os documentários do cinema direto que estavam sendo feitos nos Estados Unidos e no Canadá, Goldovskaya adotou princípios semelhantes “excitada com esse método e com o que podia ser feito com ele”.
O insight que faltou a tantos praticantes do cinema direto libertou Goldovskaya da exigência de ser uma “mosca na parede” – preceito do cinema direto que passou a considerar “ridículo”.
“Não sou uma mosca. Estou aqui. Tenho que ser alguém que está presente”, afirmou. “Pouco a pouco, invadi o espaço para meus personagens se sentirem mais confortáveis. Não planejei isso. Aconteceu de maneira natural.”
Sendo uma mulher com uma câmera, quando Anna Politkovskaya foi assassinada, Goldovskaya já tinha material gravado dela, de quem se tornara amiga. Uma sequência, em especial, retrata a proximidade e interação que existia entre as duas – depois de ter recebido, em 2002, o prêmio “Coragem em jornalismo”, no quarto de hotel, nos Estados Unidos, vestindo um roupão de toalha, e segurando uma xícara de chá com dois sachês, Anna Politkovskaya comenta as críticas ao seu trabalho na Rússia: “As pessoas não querem saber,” ela diz.
Desde essa época, já havia quem temesse pela vida de Anna Politkovskaya que acabou sendo vítima da fragilidade humana em “admitir a realidade, e aceitar sem reservas a imperiosa prerrogativa do real”, como escreveu Clément Rosset. Com a morte dela, Goldovskaya considera que deixou de haver a possibilidade de jornalismo investigativo na Rússia, restringindo em consequência o campo do cinema documentário.
Em “O gosto amargo da liberdade”, Goldovskaya mostra Politkovskaya em ação, envolvida pessoalmente com seus personagens, vítima de envenenamento, convocada pelo comando separatista checheno para intermediar a liberação dos reféns quando, para exigir o fim da guerra, o teatro Casa de Cultura, em Moscou, foi ocupado em 2002. Ao material gravado por ela, somam-se imagens de arquivo, inclusive registro obtido por seus estudantes mostrando o interior do teatro durante a ocupação.
Goldovskaya não se limita a celebrar um réquiem. Como poucos documentaristas contemporâneos, ela é testemunha do seu tempo.