questões cinematográficas

“PACHAMAMA” – TURISMO NA AMÉRICA DO SUL

Seria razoável esperar mais do que “Pachamama” tem a oferecer. Resultante da travessia do Brasil, a caminho do Peru e da Bolívia “para saber o que está acontecendo por lá”, o documentário dirigido por Eryk Rocha acaba parecendo um álbum de lembranças feito por um turista.
Imagem “Pachamama” – turismo na América do Sul

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Seria razoável esperar mais do que tem a oferecer. Resultante da travessia do Brasil, a caminho do Peru e da Bolívia “para saber o que está acontecendo por lá”, o documentário dirigido por Eryk Rocha acaba parecendo um álbum de lembranças feito por um turista.

Composto de paisagens vistas da janela de um carro, repetidas à exaustão; fragmentos de entrevistas e do registro de manifestações de demagogia explícita, não concretiza o que o próprio diretor anuncia, em ritmo pausado e tom solene, como sendo o  objetivo do projeto. No final, a impressão é que esqueceu o propósito de “pensar o Brasil”, declarado na narração inicial. Sem ter conseguido “fazer um filme sobre o Brasil indo ao encontro da realidade de vida do Peru e da Bolívia”, Eryk Rocha tão pouco chega ao destino anunciado – “o coração aberto da América do Sul”.

Nos 17’ iniciais, o trajeto de alguns milhares de quilômetros, entre o Rio de Janeiro e Rondônia, é percorrido sem que quase nada, além de algumas imagens pitorescas, pareça ter despertado o interesse do realizador. É o caso de perguntar por que não começa logo na fronteira.

Seguem-se closes de peruanos, trechos breves de depoimentos em voz “off”, menções ao consumo de daime. Não há sinal aparente de nenhum esforço para interagir com esses entrevistados, estabelecendo relação que permita saber quem são, o que fazem e o que pensam. A atitude de Erik Rocha é utilitária, no pior estilo da reportagem jornalística apressada. As declarações são claramente direcionadas por uma pauta pré-estabelecida de quem parece estar preocupado em retomar a estrada. A primeira vez que ouvimos a voz do diretor, gravada durante a viagem, é depois de 35’, quando pergunta “como você vê aqui no Peru a participação indígena na política?”. Essa visão pré-concebida e postura ligeira tornam difícil responder a perguntas tão abrangentes quanto as formuladas no início do documentário: “que continente é esse?”; “que parte do continente é essa?”.

Ao chegar à Bolívia e dar voz ao presidente Evo Morales, através de um discurso dele feito nas Nações Unidas, parece aderir à demagógica proposta de um “socialismo andino” que  pretenderia “terminar as empresas transnacionais”. Não se percebe, por parte do realizador, nenhuma demonstração de que tenha tentado, ao menos, entender o que está ocorrendo na Bolívia. Limita-se a mostrar algumas manifestações que supostamente seriam significativas por si mesmas. O caráter populista do regime transparece do discurso de um menino de boina e camisa xadrez abotoada até o pescoço: “Evo! O presidente da Bolívia! Com a força dos pobres será possível a revolução. Com essa bendita revolução que todos levamos adiante. Avante Bolívia! Avante os direitos! Avante com as socializações! Avante Evo cocalero! Pela democracia!”. Em momentos como esse, a retórica socialista adquire caráter nitidamente fascista.

Ir à Bolívia e não gravar em uma mina seria um lapso que não se permitiria. A solução foi visitar uma mina abandonada, o que apenas acentua o caráter turístico do documentário.

Apesar de ter laços pessoais peruanos e brasileiros, Eryk Rocha é tratado na Bolívia como “gringo”. E, em nenhum momento, consegue romper a barreira que essa condição impõe. Fracassa, portanto, na tentativa de fazer um filme “inventado dia-a-dia” tratando da América indígena.

( é distribuido pela Videofilmes, empresa da qual o editor da piauí, João Moreira Salles, é sócio.)


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