anais da desinformação
Bernardo Esteves 19 Ago 2026
8 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Um disparate na internet espalhou a ideia de que existem na Amazônia vestígios de uma cidade criada há centenas de milhões de anos por uma civilização extraterrestre, os Muril. A fantasia se baseia numa malha de retângulos visível sobre a cobertura florestal na região do município de Apiacás, perto da divisa de Mato Grosso com o Pará e o Amazonas. Os defensores dessa ficção chamam os retângulos de “quadras de Ratanabá”. Para os cientistas, as estruturas têm origem em fenômenos naturais.
Não existe nenhum estudo sério sobre essa suposta cidade perdida na Nature ou na Science, duas das revistas científicas mais prestigiosas do mundo, nas quais costumam ser publicados estudos de grande impacto sobre a arqueologia amazônica. Tampouco há sinal dessa cidade nos periódicos de maior prestígio da disciplina, como a Antiquity ou o Journal of Archaeological Science. É nas revistas especializadas que os pesquisadores submetem seus achados ao escrutínio crítico de especialistas independentes. Justamente por isso, na literatura com revisão por pares não há qualquer registro de Ratanabá, por mais ínfimo que seja.
Mas o leitor ávido por mais informações sobre o tema encontrará uma fartura de material nas páginas da Dakila Pesquisas, a associação que promove a existência da cidade fantasiosa nas redes. O trecho a seguir, que não tem qualquer lastro em evidências científicas, está no site de Dakila:
A civilização dos Muril foi a primeira que chegou na Terra há 600 milhões de anos atrás. Os Muril ficaram aqui até um pouco antes da elevação dos Andes, por volta de 450 milhões de anos atrás. O império central dos Muril ficava na região onde hoje existe a Floresta Amazônica. Esse império que era o centro de toda a civilização, a capital do mundo, era chamado de Ratanabá.
É uma fábula, sem a menor comprovação, como mostra uma reportagem publicada na edição deste mês da piauí. Existe ainda uma profusão de vídeos publicados em canais ligados à Dakila. Em um deles, de 2022, Rafael Hungria, youtuber que se apresenta como psicólogo, pesquisador e especialista em Ratanabá, informa que os Muril foram uma civilização extraterrestre caracterizada pela tecnologia avançada e pela alta estatura. Hungria fala também sobre o Caminho do Peabiru – uma rede de caminhos, estudada por historiadores e arqueólogos, que foi construída por indígenas sul-americanos e conectava diferentes regiões do continente antes da chegada dos europeus.
A ideia de uma cidade na Amazônia há 450 milhões de anos é um equívoco em muitos níveis. A começar pelo fato de que a Amazônia sequer existia naquela época: a floresta, tal como a conhecemos hoje, com seu sistema de rios, seu clima e sua biodiversidade, só se consolidou há poucos milhões de anos, depois do soerguimento dos Andes. Na suposta época da fundação de Ratanabá, o único continente que havia no Hemisfério Sul do planeta era Gondwana, que reunia terras que hoje correspondem a América do Sul, África, Antártida, Austrália, Índia e Península Arábica. As terras que muito tempo depois seriam ocupadas pela Amazônia possivelmente estavam cobertas por mares rasos.
O principal nome por trás da disseminação da falsa cidade de Ratanabá é o empresário paulista Urandir Fernandes de Oliveira, de 63 anos. No site da Dakila, ele é apresentado como pesquisador e estudioso de temas como física quântica, astronomia e arqueologia. Sua formação é como técnico em contabilidade. Oliveira está à frente de um conjunto de quase vinte empresas que ele chama de Ecossistema Dakila, a maioria com sede em Mato Grosso do Sul. Entre elas, há uma empresa de extração de argila e insumos naturais para a produção de cosméticos, outra de venda de materiais de construção, mais uma de exportação de vinhos, e ainda uma plataforma de moeda digital e criptoativos.
Oliveira é um personagem dado a divulgar mentiras, como mostra a reportagem da piauí. Não foram poucas as vezes em que contou com a imprensa. Em 1995, ele foi tema de uma reportagem de Domingos Meirelles no Globo Repórter, em que foi apresentado como um paranormal capaz de acender e apagar lâmpadas ou mover objetos com o poder da mente, habilidade que, segundo ele, adquiriu depois de manter contato com um extraterrestre quando tinha 12 anos – tudo com o endosso de uma psicóloga que dizia não enxergar qualquer truque na exibição a que assistira. O programa não questionou os poderes paranormais alegados pelo personagem.
A fama nacional veio em 2010, quando Oliveira apareceu como interlocutor privilegiado do ET Bilu, tema de uma reportagem no Domingo Espetacular, da TV Record. O suposto alienígena foi filmado no escuro por detrás da vegetação na fazenda que servia de sede ao Projeto Portal, uma organização criada por Oliveira que promovia atividades ligadas à espiritualidade e pesquisas alternativas. Era uma armação visivelmente tosca. A reportagem de Arnaldo Duran incluiu o depoimento de peritos que afirmavam se tratar de uma fraude, e o depoimento de uma ex-seguidora que alegou que o paulista era “um embuste”. Ainda assim, o programa dedicou intermináveis 21 minutos ao tema, o suficiente para dar popularidade ao personagem e eternizar sua mensagem, que se tornou um dos memes mais conhecidos da internet: “Busquem conhecimento.” Com o passar do tempo, o Projeto Portal virou a Associação Dakila.
A exibição do Domingo Espetacular chamou a atenção também para as complicações de Oliveira com as autoridades, informando que, em 2000, ele havia sido indiciado por estelionato e falsidade ideológica, acusado de vender terrenos em Corguinho de forma ilegal. O paulista chegou a ser preso em Porto Alegre, em março daquele ano. Ouvido na ocasião pelo jornal Zero Hora, alegou: “Tudo que estou fazendo é legal.” O empresário foi solto quatro dias depois, e o inquérito foi arquivado.
O mito de Ratanabá ganhou visibilidade durante o governo de Jair Bolsonaro, depois que Urandir Oliveira foi recebido por Mario Frias, que então ocupava o cargo de secretário especial de Cultura. Frias não foi o único bolsonarista a dar apoio à Dakila. Em junho de 2024, o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), em São Paulo, assinou um protocolo de intenções com a associação de Oliveira.
No carrossel de fotos que publicou no Instagram, o ex-secretário incluiu imagens aéreas das supostas quadras de Ratanabá e falou da cidade sem questionar sua existência, sua idade ou a civilização por trás dela. Disse ainda que Oliveira lhe mostrou artefatos encontrados em galerias subterrâneas no Forte Príncipe da Beira, que fariam parte do Caminho do Peabiru e levariam a Ratanabá (as galerias não são abertas à visitação pública). Acrescentou que os pesquisadores contaram com o apoio de várias instituições governamentais, incluindo as Forças Armadas e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a quem cabe proteger e preservar o patrimônio arqueológico brasileiro. Mas ressaltou que não receberam dinheiro do governo, e fizeram as pesquisas com recursos próprios.
Mario Frias não foi o único bolsonarista a dar apoio à Dakila. Em junho de 2024, o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), em São Paulo, assinou um protocolo de intenções com a associação de Oliveira, conforme noticiou a Folha de S.Paulo. O acordo foi selado pelo secretário de Turismo e Viagens, Roberto Alves de Lucena, aliado de Bolsonaro que foi deputado federal por três mandatos. A finalidade da iniciativa era apoiar ações de mapeamento e exploração turística do Caminho do Peabiru no território paulista, e não havia previsão de repasse de dinheiro público à Dakila. A parceria foi encerrada seis meses depois, por falta de resultados, mas ajudou a dar credibilidade para a associação de Oliveira, como se o governo paulista estivesse endossando a hipótese descabida de que o Caminho do Peabiru levava a uma cidade amazônica que não existe. (Até o fechamento desta reportagem, o acordo aparecia no site da Dakila como se ainda estivesse vigente.)
Agora, como mostra a reportagem da piauí, os defensores da cidade fictícia vêm se empenhando em obter respaldo institucional para suas ideias. Para isso, participam de eventos científicos e buscam o registro de sítios arqueológicos junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Em agosto de 2023, Oliveira inscreveu sua equipe no Simpósio Nacional de Geomorfologia, disciplina que estuda as formas da superfície terrestre. O grupo enviou um trabalho com título sóbrio: “Análise da paisagem para identificação de formas de relevo a partir de imagens geradas por tecnologia LIDAR.” A área investigada com a ferramenta era a das “quadras de Ratanabá”, mas, no trabalho científico, eles preferiram designar a formação como o “xadrez de Apiacás”.
O evento foi realizado em Corumbá (MS). Quando a apresentação da Dakila começou, os organizadores notaram que o grupo dizia coisas que não estavam no artigo. “Foi uma loucura total. Fizeram uma espécie de pregação de coisas que não tinham o mínimo embasamento”, lembra o geomorfologista Marco Túlio Diniz, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Na plateia, sugiram questionamentos. Pesquisadores queriam saber qual era a fonte dos dados ou a idade daquela estrutura. “Mas eles não tinham nada, eram só considerações que vinham da cabeça deles”, diz Diniz.
Para os seguidores da Dakila nas redes, pouco importava que o trabalho tivesse sido contestado: a simples imagem de Oliveira e seus colegas naquele ambiente já vendia a ideia de que Ratanabá estava sendo levada a sério pela ciência. Em meia hora, o vídeo da apresentação no YouTube ganhou mais de oitocentas visualizações, de acordo com Fabiano Pupim. Os cientistas fizeram uma corrente para denunciar o vídeo, que acabou sendo derrubado, mas as redes da Dakila guardam até hoje registros da participação do grupo no simpósio científico. “Temos agora uma publicação científica do LiDAR e de toda a pesquisa que fizemos não só em volta de Ratanabá, mas em toda a arqueologia e a antropologia que pesquisamos até hoje”, comemora Oliveira num vídeo no Instagram.