anais da guerra
Sofia Schurig e Matheus de Moura 17 Jul 2026
10 min de leitura
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Anas Ahmed tem 22 anos, é magro, de pele acastanhada e olhar cansado. Parece mais velho do que é. Carrega as marcas de quem vive em Gaza em pleno 2026, tendo atravessado quase três anos de um ataque contínuo de Israel, intercalado apenas por breves períodos de cessar-fogo. A casa onde morava com a família foi destruída ainda em 2023. Hoje, ele é um dos milhares de palestinos que residem em barracas à beira-mar, expostos às intempéries, ao esgoto a céu aberto e aos insetos. Divide o pequeno espaço com a mãe, a irmã, o cunhado e os dois sobrinhos. Outros dois irmãos se separaram da família no curso da guerra, cada um buscando condições melhores de vida. O pai de Ahmed conseguiu abrigo no Egito para tratar um câncer.
Em outubro de 2025, quando o conflito completou dois anos, Israel e Palestina assinaram um acordo de cessar-fogo – que, no entanto, nunca se efetivou. Mais de mil palestinos foram mortos desde então, somando-se aos outros 72 mil que já haviam morrido a partir de outubro de 2023. Os ataques ficaram menos intensos, mas não pararam por completo. Quem mora em Gaza vive ainda um cotidiano de guerra.
Ahmed se levanta todo dia às sete da manhã. Diz que acorda sempre vigilante, preocupado que “algum ladrão tenha entrado enquanto dormíamos”. Por volta das 9 horas, percorre o alojamento à beira-mar até chegar aos pontos de distribuição de água potável, onde enche as garrafas que sua família usará ao longo do dia. Está sempre acompanhando o noticiário, para receber atualizações sobre o conflito e ficar sabendo caso algum amigo ou parente tenha morrido nos bombardeios. “Ao meio-dia, ajudo minha família a acender a fogueira e preparar a comida, mesmo que seja pouca, devido aos preços altos e à escassez de oportunidades de trabalho.” De resto, Ahmed passa boa parte dos dias procurando fontes de energia onde possa carregar os celulares da família e se conectar à internet para telefonar para o pai, o que sempre faz antes de dormir. De manhã até a noite, o jovem circula pela cidade com medo de se deparar com conflitos entre assaltantes, milícias armadas, soldados israelenses e o Hamas. “Há uma grande chance de as balas incendiarem nossa barraca”, diz.
Enquanto tenta sobreviver, Ahmed nutre uma única esperança: se mudar para o Brasil e estudar física no Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet), na cidade do Rio de Janeiro. O instituto reserva uma vaga para o jovem palestino desde julho de 2025, quando ele foi aprovado no primeiro edital de mobilidade do Grupo de Cooperação Internacional de Universidades Brasileiras (GCUB). O programa foi pensado para que refugiados da Palestina, do Líbano e da Cisjordânia viessem para o Brasil estudar gratuitamente em instituições públicas e privadas de ensino. Poucos vieram.
Fundado em 2008, o GCUB – que originalmente se chamava Grupo Coimbra – reúne 103 instituições de ensino brasileiras (tanto públicas quanto particulares) e nove estrangeiras. É uma associação civil sem fins lucrativos, mas conta com o apoio institucional do Ministério da Educação e do Ministério das Relações Exteriores. No site oficial, diz que sua missão é “promover relações acadêmicas, científicas e culturais entre suas instituições associadas e parceiros internacionais, mediante a realização de programas, projetos e ações de cooperação internacional, bilateral e multilateral”.
A ideia de criar um programa para os refugiados surgiu depois de uma visita da diretora-executiva do GCUB, Rossana Valéria de Souza e Silva, a universidades palestinas. A viagem foi um convite do escritório de representação do Brasil em Ramala, chefiado na época pelo embaixador Alessandro Candeas. No começo, o GCUB pretendia criar um instituto de estudos avançados Brasil-Palestina, mas o projeto não foi para frente. Em vez disso, o grupo articulou com as universidades brasileiras um edital para que elas recebessem estudantes palestinos no Brasil. Foram abertas vagas em diferentes estados, desde cursos de graduação até doutorado. A Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) e o Centro de Estudos Palestinos, vinculado à USP, ajudaram a tirar a ideia do papel.
As boas intenções do projeto, no entanto, não se materializaram na prática. Publicado em 2024, o edital oferecia 1.447 vagas em trinta universidades brasileiras, com a previsão de que os palestinos iniciassem os estudos no começo de 2025. O resultado foi decepcionante: pouco mais de cem candidatos se inscreveram. Desses, 48 foram aprovados, o que preenchia somente 3% das vagas. Os estudantes que se inscreveram e foram aceitos eram de Gaza, do Líbano e da Cisjordânia. Mas nem todos conseguiram vir ao Brasil.
Para concorrer, era preciso apresentar currículo, um documento comprovando o status de refugiado, outro comprovando a conclusão do ensino médio, e uma carta de intenções de até mil palavras. Quem buscasse uma vaga de pós-graduação deveria enviar também um diploma de ensino superior e um projeto de pesquisa, detalhando metodologia e referências bibliográficas. Ahmed, que soube do edital graças a um amigo de seu pai, cumpriu os requisitos. Em fevereiro de 2025, depois de comemorar que seu nome estava na lista de aprovados do curso de física (que escolheu “por causa do meu amor pelas disciplinas científicas”), participou de uma reunião com integrantes do GCUB. Em pouco tempo, estava estudando língua portuguesa e cultura brasileira por meio de cursos oferecidos pela própria associação. Ahmed fazia as aulas por vídeochamada, apesar da internet claudicante, e passou a sonhar com o Brasil.
O problema é que, como muitos de seus conterrâneos, Ahmed não tinha condições de viajar. A Faixa de Gaza é uma estreita faixa de terra de cerca de 365 km² onde se espremem mais de 2 milhões de pessoas. Faz fronteira apenas com Israel, de um lado, e com o Egito, de outro, e é banhada por um mar patrulhado pelas Forças de Defesa de Israel. Dentro do próprio território há áreas dominadas pelos israelenses – inclusive com zonas de fogo livre, onde militares podem disparar contra quem se aproxima. Não há aeroporto operando na Faixa de Gaza neste momento, nem porto de passageiros. O espaço aéreo e o litoral estão sob controle israelense. Para sair, só por terra – e Israel e Egito decidem, muitas vezes de forma arbitrária, quem pode ou não atravessar.
O programa universitário, embora tenha sido pensado para estudantes submetidos a esses riscos e privações, não previu ajuda nem com o custeio das passagens nem com a obtenção do visto. O edital garantia aos refugiados isenção de matrícula e de mensalidade, caso eles fossem aprovados em universidades privadas. A depender do curso, garantia também uma bolsa mensal, paga pela própria instituição de ensino, obedecendo aos parâmetros do Capes. O pagamento, porém, começava somente depois da matrícula, que deveria ser feita em solo brasileiro. O edital dizia que, entre o momento do desembarque no Brasil e o depósito da primeira parcela da bolsa, o intercambista palestino deveria “ter condições de se manter financeiramente”.
Outros auxílios financeiros também exigiam que o aluno já estivesse no Brasil. Nas diretrizes das fundações estaduais que aderiram ao programa, por exemplo, está escrito que o seguro internacional só passaria a vigorar a partir do terceiro mês de estadia no país. A parte mais cara e mais perigosa do processo – que é conseguir a documentação e as passagens para deixar um território conflagrado – ficou por conta dos estudantes. Isso é dito apenas de forma implícita no edital, quando ele prevê que cabe ao refugiado “cobrir todas as demais despesas relacionadas à participação” no programa. Em nenhum momento o documento de onze páginas faz menção a alguma ajuda do poder público para garantir a evacuação dos palestinos em seus países.
As limitações do edital logo ficaram claras. Por isso, em agosto de 2024, a diretora-executiva do GCUB, Rossana Valéria, afirmou que estava à procura de doadores que pudessem custear a vinda dos estudantes palestinos. O GCUB tem verba própria, já que é financiado com anuidades pagas pelas universidades. Desde 2014, arrecadou 8,9 milhões de reais, segundo dados do Portal da Transparência. Mas esse dinheiro, segundo a instituição, não poderia ser usado para financiar o edital, porque é destinado ao “pagamento de funcionários, empresas terceirizadas, aluguel, eventos, telefone, internet, despesas de manutenção do escritório, dentre outros”.
Na época, respondendo ao chamado de Valéria, a Câmara de Comércio Árabe Brasileira afirmou que faria uma contribuição – fato noticiado no site da associação. A promessa, porém, não foi para frente. Indagada pela piauí sobre os motivos de isso ter acontecido, a Câmara de Comércio disse que as conversas simplesmente não evoluíram. O GCUB também não esclareceu por que a doação não se concretizou.
Pouco tempo depois, no entanto, surgiu uma solução. O Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes), atendendo aos apelos dos professores que participam do GCUB, aceitou custear as passagens dos alunos aprovados (ou a reembolsar aqueles que pagassem por conta própria). Como o processo se estendeu além do que previa o edital, o GCUB negociou com as universidades uma prorrogação no prazo para que os estudantes se matriculassem.
Faltou ajuda, porém, na obtenção dos vistos – o que, hoje, não é uma operação simples em um Oriente Médio conflagrado. Ahmed disse que deu início aos trâmites no escritório de representação do Brasil em Ramala, mas desistiu ao ser informado de que não havia um prazo definido para a emissão do visto e que o processo custaria 500 shekels – o equivalente a cerca de 160 dólares, quase 15% do salário mínimo na Palestina. (A piauí tentou confirmar a informação com o Itamaraty, mas não obteve resposta.) Ahmed diz que pensou em seguir a pé até as fronteiras terrestres, mas não foi adiante porque, sem estar com a documentação adequada, de nada adiantaria.
É provável que outros palestinos, dentre os 48 aprovados, tenham parado nesse mesmo obstáculo. Apenas dezesseis deles estão matriculados nas universidades que os aprovaram – o que, segundo o GCUB, significa que estão no Brasil ou a caminho. A instituição não sabe o paradeiro dos outros 32 intercambistas. Além de Ahmed, três deles moravam em Gaza, mas deixaram de fazer contato com o GCUB.
Indagado sobre os motivos que causaram uma adesão tão baixa ao programa, o GCUB não respondeu. Em uma nota enviada à piauí, afirmou que “tem prestado todo o apoio” à vinda dos palestinos que foram aprovados, o que inclui “constantes contatos e envios de cartas à Divisão de Temas Educacionais do Ministério das Relações Exteriores do Brasil; solicitação de apoio às embaixadas brasileiras localizadas em distintos países, em função de onde se encontravam os estudantes; reunião na Embaixada da Palestina; reuniões com professores e gestores das universidades participantes do programa; reuniões com sindicatos, além de muitas outras ações”.
A instituição contestou, na nota, o relato de Ahmed à piauí. Disse que “ele teve todas as oportunidades e recebeu todas as orientações oferecidas aos/às demais estudantes do programa”, mas que “questionou a instituição receptora sobre o valor da bolsa que receberia, não enviou o visto para a obtenção da passagem aérea, e, consequentemente, perdeu a vaga na instituição”. O Cefet, no entanto, diz que a vaga no curso de física continua aberta para Ahmed. Basta que ele chegue ao Brasil.
O Itamaraty disse à piauí não ter envolvimento com a gestão do programa. Sobre a possibilidade de os palestinos deixarem seus países, afirmou que se trata de “circunstâncias locais, alheias à vontade do governo”, e que não é possível trazê-los por meio de um processo de repatriação, já que, por lei, isso só pode ser feito com cidadãos brasileiros e seus familiares diretos. A piauí tentou contato com o Ministério da Educação por meio de sua assessoria de imprensa, mas não obteve retorno. O MEC só respondeu por meio da Lei de Acesso à Informação, dizendo que o edital não é uma “ação elaborada, implementada e/ou acompanhada” pelo ministério.
Ahmed, hoje, está pessimista quanto às chances de vir ao Brasil. Enquanto isso, sente o perigo cada vez mais próximo. Ele conta que, recentemente, durante a noite, uma bala perdida abriu uma fenda na barraca de sua família. Felizmente, ninguém se machucou. Mas há quem não tenha tido a mesma sorte. Há pouco mais de um mês, em 11 de junho, um adolescente de 15 anos foi morto a tiros pelas Forças de Defesa de Israel na costa de Deir al-Balah, não muito distante de onde vive a família de Ahmed. Quatro dias depois, uma criança de 3 anos teve o mesmo destino.
Em uma de suas raras aparições em redes sociais, Ahmed escreveu recentemente: “Oh Deus, faça com que este Ramadã remova os dias que têm sido pesados para nós.”