anais da CLT
Pedro Tavares, de Brasília 29 Mai 2026
12 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Se a história política do Brasil tem deixado a sensação de que anda rápido nos últimos anos, dada a série de reviravoltas e novos personagens, a trajetória pessoal do tocantinense Rick Azevedo parece acelerada no x2, como nas plataformas de vídeo.
Ele é o balconista que certo dia se fechou no banheiro da farmácia onde trabalhava, no Rio de Janeiro, publicou no TikTok um vídeo no qual criticava a escala de emprego 6 por 1, viralizou, transformou o desabafo em movimento popular e acabou eleito o 12º vereador mais votado pela capital fluminense, o número 1 do Psol – tudo isso em apenas onze meses, conforme a piauí contou no perfil A formiga e o formigueiro, publicado em abril de 2025.
Na última semana, seu nome esteve nos trending topics – para emprestar, agora, uma expressão do Twitter – na maratona de votação da PEC que acaba com a escala 6 por 1 (seis dias de trabalho por apenas um de folga) no Brasil, com a redução da jornada de 44 horas semanais para 40 horas, sem perda salarial. Na Câmara dos Deputados, a proposta de emenda constitucional foi aprovada pelo placar de 472 a 22 (a votação aconteceu em dois turnos seguidos; no segundo turno, foram 461 deputados a favor e 19 contra).
No plenário, Azevedo foi enaltecido por companheiros de partido. Erika Hilton, a autora de uma das PECs sobre jornada de trabalho que tramitavam na casa, deu o crédito ao “grandioso vereador” pela ideia (quando ainda nem havia sido eleito para o parlamento carioca, ele a procurou pela DM do TikTok). Tarcísio Motta fez o mesmo. Fernanda Melchionna citou uma colega “que não tem muita intimidade com a inteligência” e era contra a ideia, para em seguida enaltecer Azevedo e o movimento VAT (Vida Além do Trabalho), criado e liderado por Azevedo. Sâmia Bonfim seguiu raciocínio semelhante. Heloisa Helena, da Rede, bradou ao microfone: “Valeeeu, Rick!”
Os depoimentos, nesta exata ordem, viraram um vídeo e tanto para as redes sociais do vereador, que a esta altura está carimbando seu passaporte para Brasília: na última terça-feira, em meio ao calor da proposta, ele anunciou que será candidato a deputado federal.
Só no Instagram, Azevedo publicou 31 posts entre segunda e quinta-feira, a maioria deles de momentos vividos dentro da Câmara dos Deputados. Na quarta-feira, o dia decisivo em que a PEC seria votada em plenário, um assessor do vereador ficava colado ao seu lado, filmando, captando áudios e imagens das reações e das gravações que o vereador fazia ao longo do dia. Com um fone de ouvido e dois celulares, Igor Salles filmava as filmagens do vereador. Absolute metalinguagem. “A gente tá construindo um projeto de documentário dessa minha trajetória”, contou Azevedo à piauí dentro do plenário 2 da Câmara dos Deputados.
Não é uma prática inédita. Hilton, a “madrinha política” de Azevedo, fazia o mesmo. Em momentos da Comissão Especial que discutiu a PEC entre segunda e quarta-feira, a deputada era acompanhada de dois assessores extras no entra e sai do plenário: um com uma câmera e outra captando o som em um registro claramente mais profissional.
Ao longo de seu curto mandato de vereador, Azevedo já havia viajado a Brasília em diversas ocasiões, mas foi nesta semana que de fato se tornou um nome conhecido pelos anexos da casa legislativa. O vereador desembarcou no aeroporto de Brasília na manhã de segunda-feira, 25 de maio.
No início do mês, o presidente da Câmara Hugo Motta (Republicanos-PB) designou o deputado Leo Prates (Republicanos-BA) para ser o relator do texto final da PEC e o deputado Alencar Santana para ser o presidente de uma comissão especial voltada para apreciar e discutir a proposta antes de ser votada. Motta prometeu que levaria a plenário a PEC ainda em maio, mês do trabalhador. Por isso, todos sabiam que essa seria a semana decisiva.
Na noite de segunda-feira, estava marcada a apresentação das 76 páginas do parecer final da PEC pelo relator Leo Prates, que passou boas três horas e meia na leitura do texto. Ao final da sessão, quando se abriu para discussão, o deputado federal Maurício Marcon (PL-RS) pediu vistas, recurso usado quando se quer analisar mais a fundo um parecer, mas que na prática é usado por deputados de oposição para atrasar uma proposta. Azevedo estava sentado em uma cadeira logo à frente de Marcon e reagiu de forma explosiva: “Isso é uma palhaçada com o trabalhador brasileiro. Tá fazendo o povo de idiota”, disse, apontando o dedo para Marcon enquanto transmitia ao vivo em live no Instagram. O vereador teve que ser retirado pela polícia legislativa, mas Erika Hilton foi buscá-lo e o trouxe de volta ao plenário.
“Qual o nome dele?”, me perguntou uma jornalista que cobria a confusão, apontando para Azevedo. Àquela altura, ele não era um rosto tão conhecido por ali, o que foi mudando ao longo da semana. No dia seguinte, terça-feira, Azevedo participou de uma audiência pública que ouviu sindicalistas e movimentos sociais. Enquanto falava sobre a pauta trabalhista, a transmissão da Câmara no YouTube grafou seu nome como “Henrique”. O presidente da Comissão Especial, Alencar Santana (PT-SP), também conheceu Rick naquela semana.
Ele havia tido, porém, um momento de glória ao lado do presidente da República. Em um evento no Palácio do Planalto no final de abril, Lula disse: "Esse companheiro criou um movimento chamado VAT, Vida Além do Trabalho, que se popularizou com uma coisa que todos nós estamos falando, que é o fim da jornada 6 por 1. Nós devemos a um balconista ter tido a importância [de levar o assunto pra frente]". Logo em seguida chamou Azevedo ao palco.
Quando o relógio do plenário da Câmara dos Deputados indicou que já corria a madrugada de 27 de maio, o deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) telefonou para o colega da oposição Alencar Santana (PT-SP) e avisou: “A gente quer levar esse embate para o plenário.” O deputado bolsonarista fazia referência a uma estratégia do Partido Liberal anunciada naquela noite: diante da aprovação iminente da PEC, o PL propôs a votação de um “destaque” para a PEC (que é basicamente um substitutivo ao texto): no lugar da 5x2, passasse a valer a escala de trabalho de 4 x 3 e sem período de transição, ou seja, passando a valer no dia seguinte à promulgação.
Na visão do PL, se os deputados do PT e Psol votassem contra esse substitutivo, eles estariam contra o trabalhador e contra eles mesmos (já que as PECs de Reginaldo Lopes e Erika Hilton defendiam justamente a 4 por 3). Ao mesmo tempo, votar a favor seria aprovar uma ideia sem chances de prosperar no Senado e no Planalto, mantendo o regime 6 por 1. Mas a manobra não vingou.
“Foi um desespero total deles. E falta de compromisso com a vida real”, me disse o petista Santana. “Eles surtaram. De um dia pro outro estão ‘do lado’ dos trabalhadores”, comentou Reginaldo Lopes (PT-MG). Até mesmo na reunião interna do PL, na noite de terça-feira, a estratégia também não foi unânime. Para o deputado Luiz Motta (PL-SP), de origem sindical e entusiasta da proposta, a artimanha tinha poucas chances de surtir o efeito desejado. “Achei arriscado, e pode ser um tiro no pé”, me disse um outro parlamentar do PL sob condição de anonimato.
Na manhã de quarta-feira, o clima parecia mais leve. Santana quebrou o protocolo da vestimenta formal e chegou ao Congresso trajando uma camisa vermelha com dizeres “Fim da escala 6 x 1 sem redução de salário” por baixo do paletó. Outros deputados estavam com camisas semelhantes antes da sessão na Comissão Especial que abriria aquela longa jornada parlamentar. “Hoje vai ser daquele jeito que o Hugo Motta gosta. Se prepare pra varar a madrugada!”, avisou um assessor parlamentar do PT.
Assim que Alencar Santana (PT-SP) abriu a sessão da Comissão Especial em torno das 11 horas da manhã do dia 27 de maio, Rick Azevedo sacou o celular do bolso e iniciou uma live no Instagram para seus mais de 540 mil seguidores acompanharem “o dia histórico para a classe trabalhadora”, segundo ele mesmo repetia ao longo da transmissão. Durante a discussão da matéria, 47 deputados se manifestaram sobre a redução da jornada, mas havia pouca oposição inscrita para debater. Os poucos que falaram tiveram seus discursos registrados pelas lentes de Rick Azevedo, que se sentava na terceira bancada do plenário, como as falas da deputada Júlia Zanatta (PL-SC) e seu colega Gilson de Souza (PL-PR), que denunciaram a PEC como uma proposta eleitoreira e ruim para o trabalhador, com o risco de demissões e o aumento do custo produtivo, que encareceria os produtos. Argumentos que naquela altura não ganharam tanta projeção no debate.
A estratégia “tudo ou nada” do PL rendeu mais memes que efeitos políticos práticos. Ficou explícito logo na fala de Zanatta no início da sessão. “Como vocês acompanharam, o meu líder, o Sóstenes, fez uma declaração pública que o PL meu partido vai aderir à luta da 4 x 3.” Nessa hora, gritos como “Aee!”, “Uhuu!”, “Boaa!” ecoaram no plenário, que estava repleto de membros sindicais e de movimentos trabalhistas. Até mesmo Zanatta soltou uma leve risada nessa hora.
Mas ela prosseguiu com a argumentação. “Veja nas novelas: o empresário é sempre tratado como vilão. Qual estímulo a gente vai dar agora para as pessoas empreenderem no Brasil gente?” “Aiii, tadinhos, né?”, balbuciou Rick Azevedo para os espectadores da live.
Já por volta das 16 horas, o parecer da PEC foi aprovado por ampla vantagem: 34 votos contra apenas 4. Durante as seis horas da sessão, Azevedo fez mais de sete lives no Instagram, deu uma rápida entrevista e praticamente não se levantou da cadeira. Seu almoço resumiu-se a um salgado recheado de frango, um refrigerante e uma bananada. Do lado de fora, acompanhavam ansiosos João Victor Félix, chefe de gabinete de Azevedo, e Rafaele de Lima, assessora do parlamentar.
A comissão aprovou a versão do relator, deputado Leo Prates (Republicanos-BA), que bebeu das versões das PECs que tramtivam na casa: do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), e a PEC 8/2025, da deputada Erika Hilton (Psol-SP). Ambas previam a redução para a jornada 4 x 3, o texto de Prates garantia o fim da 6 x 1, mas com a adoção da escala 5 x 2.
Quando o resultado da votação foi anunciado no telão do plenário, Azevedo estava de pé próximo a Hilton e foi direto abraçá-la. “É nossa primeira vitória do dia! Você é braba!!”, disse, dirigindo-se a ela. Pelas regras regimentais da tramitação de uma PEC, a próxima etapa seria a votação em plenário da Câmara, que Hugo Motta chamaria ainda na quarta-feira.
Era uma noite de casa cheia na Câmara dos Deputados e o controle de entrada no Salão Verde e no plenário Ulysses Guimarães estava mais rigoroso que o normal. Quando Motta sentou-se à mesa diretora e deu início à sessão, Azevedo e seu assessor foram barrados de entrar no plenário. A deputada Erika Hilton foi até a porta para buscar o vereador. “Ele vai ficar aqui dentro. Já falei com Hugo Motta. Ele precisa estar com a gente na hora da votação”, disse Hilton ao policial legislativo que ao fim, um tanto ressabiado, liberou a entrada de Azevedo.
Até as tribunas superiores estavam cheias para acompanhar a votação. Em meio a sindicalistas e movimentos sociais, estavam duas mulheres que foram importantes nos tempos que o movimento pelo fim da 6 x 1 ainda engatinhava nas redes sociais: as advogadas (e influencers) Patrícia S. Ikuno, conhecida como Doutora Shimano, e Fernanda Mourão. “Passa um filme na cabeça, é muito emocionante estar vivendo isso de perto”, comentou Ikuno.
De dentro do plenário, ao lado de parlamentares do Psol, o roteiro de Azevedo era o mesmo da manhã: lives constantes sendo abertas no Instagram, vídeos, cliques e closes. Selfies ao lado de Taliria Petrone, Sâmia Bomfim e Fernanda Melchionna pipocavam nos seus stories. Enquanto a sessão se alongava noite adentro, colegas de bancada derramavam elogios ao vereador. “Há 38 anos estamos defendendo direitos sem muito avanço. O VAT dá um lastro de massa e de apoios populares como há muito tempo não visto, que se materializa nas redes e nas ruas”, diz Melchionna à piauí. “Conheci o Rick através do Glauber, que me mostrou os vídeos dele nas redes”, conta Sâmia. “E pessoalmente em 2024, quando ele esteve aqui e veio conversar comigo para ajudar a colher assinaturas para a PEC da Erika.”
“Rick foi devidamente indicado e identificado como um dos promotores dessa medida, através do movimento que ele lidera. Ele chega em setores que o Psol do Rio não conseguia chegar e temos que aprender a falar com os diferentes”, analisa o veterano Chico Alencar (Psol-RJ), que sentava próximo ao vereador no plenário. O debate seguia de forma séria, com uma proporção maior de oradores a favor do que contra, mas contou com momentos que arrancaram risadas e reações de surpresa do plenário.
Ao subir à tribuna para falar e defender os trabalhadores, o deputado evangélico Otoni de Paula (PSD-RJ) puxou no gogó versos de Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando), hino contra a ditadura militar de Geraldo Vandré. O plenário cantou em coro com o deputado. Enquanto Otoni de Paula discursava, ao seu lado estava outro pastor, o deputado Sargento Isidório (Avante-BA), que desde segunda-feira flanava pelos corredores do Congresso trajando um colete laranja neon e um capacete usado por trabalhadores de obra com placa nas costas escrito: “Trabalhadores tem família e não são robôs. Escala 5x2 já!”. Quando foi à tribuna, defendeu a aprovação do texto, dizendo que com um dia a mais os trabalhadores terão mais tempo para fazer sexo – a cena viralizou pesadamente nas redes no dia seguinte.
Às 23h13, veio o placar final: 472 votos a favor e 22 contra (nota: o número 22 não passou batido pelos comentaristas de redes sociais). Nessa hora, chorando, Azevedo se jogou no chão de joelhos diante do celular do assessor: “Porra!! Valeu classe trabalhadora. Estou me sentindo vingado dessa escala escravocrata.”
A PEC ainda precisa passar pelo Senado Federal, antes de ser promulgada pelo presidente Lula. “Na casa azul, o jogo é outro. Hoje foi uma partida relativamente fácil, de fase de grupos, lá vai ser uma fase final, de mata a mata”, disse à piauí um assessor parlamentar. Com o texto aprovado no Senado, após sessenta dias a jornada semanal no país passará para 42 horas, já com dois dias de repouso remunerado por semana – um deles, preferencialmente, no domingo. Depois de doze meses, a nova carga máxima de trabalho por semana no Brasil será definitivamente de 40 horas.
O dia de glória de Azevedo já entrava na madrugada do dia 28 de maio, quando ele chegou ao Bar dos Amigos, na Asa Norte, ao lado de Félix, Shimano, Mourão, assessores do Psol e militantes do VAT. Em janeiro de 2025, com poucos dias de mandato, a piauí esteve com Azevedo em seu gabinete no Rio e ele disse que se sentia como uma formiguinha que enfrentaria leões. Agora, a formiga que atiçou o formigueiro tentará entrar na jaula dos leões, com a candidatura à Câmara dos Deputados.
O anúncio de sua candidatura, claro, pode ser visto em um reels no Instagram, com um vídeo gravado em frente ao Anexo IV da Câmara dos Deputados. Sua hashtag (pra ficar no ciberdicionário) da campanha deste ano terá que ser outra. O slogan político do vereador era “pelo fim da 6 x 1”. Se a tramitação da PEC correr como se espera, os eleitores vão às urnas em outubro já na escala 5 por 2. “A gente seguirá em defesa da classe trabalhadora”, diz João Félix à piauí, em uma lanchonete da Câmara. “Ainda não temos um slogan, mas já temos várias ideias.”
***
POV (point of view): você é a chefe que ligou para Azevedo em seu dia de folga e mandou ele chegar na farmácia às sete da manhã no dia seguinte, bem antes do horário regular, das 14 horas. Por isso, irritado, ele publica no TikTok o vídeo de 1 minuto e 7 segundos, que quando postado, no banheiro do estabelecimento, iniciará uma revolução da classe trabalhadora no Brasil. Cinema! #viral #revolução #fimda6x1