questões manuscritas

SALVADOR DALI DOMINA A SITUAÇÃO POÉTICA

Na sua vertente literária, o movimento surrealista demonstrou muitas vezes um aspecto severo e sectário, enquanto que o surrealismo na pintura assumia no imaginário do mundo inteiro as feições quase exclusivas dos universos brilhantes criados por dois grandes pintores: Salvador Dali e René Magritte. Quase cem anos mais tarde, o espanhol e o belga são ainda os mais populares entre os muitos artistas que se associaram ou simpatizaram com o movimento surgido na Paris do início dos anos 1920.
Imagem Salvador Dali domina a situação poética

4 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Na sua vertente literária, o movimento surrealista demonstrou muitas vezes um aspecto severo e sectário, enquanto que o surrealismo na pintura assumia no imaginário do mundo inteiro as feições quase exclusivas dos universos brilhantes criados por dois grandes pintores: Salvador Dali e René Magritte. Quase cem anos mais tarde, o espanhol e o belga são ainda os mais populares entre os muitos artistas que se associaram ou simpatizaram com o movimento surgido na Paris do início dos anos 1920.

Liderado pelo escritor francês André Breton, o surrealismo teve em Paul Eluard seu poeta mais famoso e logo congregou seguidores entusiasmados, dispostos a submeter-se aos ditames de Breton, o chamado “papa do surrealismo”, que exigia de seus adeptos uma adesão estrita a princípios que muitos não demoraram em achar demasiado restritivos. Abandonaram o movimento surrealista ortodoxo, mas continuaram associados às sua principais ideias. Foi o caso de Salvador Dali, acolhido inicialmente com entusiasmo entre seus pares, quando deixou a Espanha por Paris nos anos 1920, e que logo conquistou a admiração dos intelectuais e artistas de vários países que viviam na capital francesa e compartilhavam a visão da arte e da literatura proposta por Breton e Eluard.

Figura esguia de vinte e poucos anos ? já com o fino bigode que tornou mais tarde célebre, ? Dali não era ainda o personagem excêntrico e histriônico em que se transformou no final dos anos 1930 ? e sobretudo 1940 ? quando seu gosto pela publicidade e suas longas temporadas nos Estados Unidos o tornaram notícia constante e capa da revista . Sua inserção na alta sociedade americana, que lhe encomendava caríssimos retratos, e sua nova prosperidade valeram-lhe do agora desafeto Breton um apelido cruel criado com um anagrama de seu nome: “Salvador Dali” tinha se transformado para o escritor francês em “Avida Dollars”. E a alcunha pegou…

Nas décadas subsequentes a fama de Dali tornou-se planetária, e sua pintura ? ainda que nunca tenha reencontrado o vigor dos anos 1920 e 30, ? atingiu extrema popularidade e permaneceu de qualidade suficiente para que seu espaço na história da arte do século XX seja hoje incontestável. Nos anos 1960 e 70, Dali manteve a imagem do pintor maluco, confirmada por sua extravagante elegância e o enorme bigode cultivado com esmero. Casou-se com Gala, uma russa quinze anos mais velha, ? que ele conhecera como mulher do poeta francês Paul Eluard ? e que foi sua grande e única musa ao longo de quase sessenta anos.

Por seu lado, René Magritte, seis anos mais velho que Dali, levou sua vida num estilo oposto, com discrição e frugalidade raras. Não teve, como Dali, fama e sucesso que chegassem ainda na juventude e, em Bruxelas, onde passou toda sua vida, seu cotidiano era de uma banalidade absoluta, que contrastava com a excepcional inteligência de seus quadros, que só começaram a alcançar maior público nos anos 1950.

René vivia com Georgette, sua primeira e única mulher, numa casa modesta na capital belga, e apesar de manter contato constante com intelectuais e artistas de língua francesa, logo deixou de ser surrealista militante e levou  adiante sua carreira de forma independente e isolada.

Apesar do contraste marcado entre seus estilos de vida, Dali e Magritte se apreciavam e se admiravam. Em 1937, quando Dali deixa a Europa pelos Estados Unidos, “exporta-se” por assim dizer a figura mais pública do surrealismo, o que traz ao movimento uma publicidade que Breton nunca conseguira na Europa. Nesse momento o pintor espanhol manda para Magritte um cartão postal de um hotel do Arizona que resume admiravelmente em duas frases seu estado de espírito ? e o novo público ? que agora angariara para a bandeira que nunca deixou de defender:


Clique na imagem acima para ampliá-la


Clique na imagem acima para ampliá-la

“O surrealismo está estourando em Nova Iorque. Nós estamos dominando a situação poética.

Seus amigos, Gala e Dali”

O lado do endereço no cartão postal é na letra de Gala e, ao receber o cartão, Magritte não terá deixado de reconhecer a exuberância de seu colega e amigo, do qual terminaria por se afastar nas décadas seguintes, quando a propalada avidez de Dali pelos dólares e pela fama o conduziria por caminhos diferentes demais dos que Magritte resolvera trilhar.

Este pequeno documento, ? que o pintor belga deu para um amigo e depois fez parte de várias coleções nos Estados Unidos e na Europa ? assume hoje, setenta e cinco anos mais tarde, um intenso valor simbólico, pois une os dois nomes mais famosos da pintura surrealista, num momento em que as dissensões, invejas e querelas vazias ainda não haviam transformado seus integrantes em inimigos mortais.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.